The Big Play

28 Capítulo 28 – Don't Speak


Don't speak

I know what you're thinking

I don't need your reasons

Don't tell me 'cause it hurts

No Doubt

Eu notei que havia algo muito estranho acontecendo quando Tasha entrou na cozinha e arrancou Claire dali no meio do jantar sem que Dimitri a impedisse. Porém, jamais poderia imaginar o porquê daquilo.

Quando meus olhos recaíram sobre a maldita revista que o russo jogou em minha direção senti aquela já conhecida onda de pânico começar a tomar conta de mim ao ver o nome de Nathan ali. Mal consegui absorver o que estava escrito na matéria quando Dimitri começou a me acusar de enganá-lo.

Ele estava completamente fora de si e quanto mais eu tentava acalmá-lo, mais parecia se enfurecer e mais partia meu coração com suas palavras. Ele estava com uma ideia totalmente errada sobre o que aconteceu, mas simplesmente nem me deu qualquer chance de me explicar. E o pior: deixou claro que ele simplesmente não confiava em mim.

Aquilo foi o que mais me machucou. Depois de tudo o que já passamos juntos Dimitri realmente achava que eu o estava enganando? Que eu seria algum tipo de criminosa?

Tudo o que eu mais queria era estar em qualquer outro lugar longe dele, longe daquelas palavras. E quando ele finalmente mostrou o que pensava a meu respeito, decidi que era hora de ir embora. Eu iria sofrer, mas precisava me afastar. Já passou da hora de admitir que sou um fracasso e voltar para a casa do meu pai. Talvez eu tenha mais sorte lá.

Consegui conter as lágrimas até chegar em meu quarto e só então deixei-as cair livremente. Por um instante quase liguei para Abe, mas não queria alarmá-lo então acabei discando o número de Ivan.

Eu havia deixado claro que aquele beijo fora uma atitude errada de minha parte quando ele me procurou e vinha tentando evitá-lo nos dias que se seguiram mesmo que ele não parasse de me mandar mensagens e me ligar. Porém, naquele momento, nem me lembrei disso. Eu precisava de sua força. Ivan sempre esteve ao meu lado quando o assunto era Nathan e era impossível para mim não recorrer a ele numa hora dessas.

O loiro veio o mais rápido que pode à casa de Dimitri a fim de me consolar e acabou me convencendo a ficar até a Ação de Graças para dar tempo ao russo de achar outra babá. Só que eu começava a achar que essa foi a pior decisão da minha vida.

Dimitri estava tentando de todas as formas se desculpar. Ele apareceu com diversos tipos de flores, chocolates e tentou por todos os meios me dobrar com as comidas que eu mais gostava. Até meu carro ele trocou. Eu estava me mantendo firme, mas confesso que ver seu esforço estava mexendo comigo. Ele realmente se importava tanto assim? Até onde ele iria para me manter por perto?

Eu só sabia de uma coisa: se eu não saísse logo dali talvez minha resolução não resistiria.

Todos as noites o russo vinha me convidar para jantar mesmo que eu sempre recusasse. Ele parecia não estar disposto a se dar por vencido. Eu sentia falta da sua comida e por várias vezes acabei nem jantando, pois precisava manter uma distância segura. Eu sabia que precisava. Precisava convencer meu coração de que ele é meu patrão, apenas isso, e em breve não mais o seria.

Viktoria buscou se aproximar de mim nos últimos dias, sempre tentando falar sobre o irmão, mas eu proibi qualquer menção ao nome dele.

Meu pai também vinha me sondando sobre minha repentina decisão desde que liguei para ele naquela maldita noite informando de meu retorno na semana seguinte e eu evitava ao máximo revelar qualquer coisa sobre o que acontecera.

Nunca deixei que meus pais soubessem sobre Nathan, pois tinha certeza que o velhote teria me trancado no quarto e nunca mais me deixado ver a luz do sol novamente por medo de me acontecer mais alguma coisa. E talvez ele tivesse razão. Tudo parece ter dado errado desde que saí da sua casa.

Quando faltavam três dias para eu ir embora, decidi que era hora de contar para Claire. Não podia deixar a menina no escuro. Ela não merecia que eu partisse sem qualquer explicação.

Eu vinha buscando me afastar dela naqueles dias e isso estava acabando comigo. Eu amava demais aquela criança e não queria machucá-la. Eu nunca quis. Claire já é tão sozinha. Eu não queria deixá-la para trás.

Por outro lado, eu precisava entender que essa não é a minha família. Não importa o quanto eu gostaria que fosse.

— Claire – eu fui ao quarto da menina que estava fazendo sua lição de casa na escrivaninha. Dimitri estava trancado no escritório e achei que era um bom momento para falar com ela a sós.

— Sim, Rose?

— Eu preciso te contar uma coisa – falei com a voz baixa, me apoiando na mesa. Sentia que meu coração poderia falhar a qualquer minuto.

— O que foi? – a garota me olhou de forma inocente, largando o lápis sobre o caderno e se virando na cadeira me dando sua total atenção. Acabei desviando o olhar para o chão a fim de tomar coragem.

Ok, Rose. Hora de tirar o curativo da ferida de uma vez.

— Eu vou ter que ir embora, Claire – eu levantei meus olhos a tempo de vê-la empalidecer.

— O quê?

— Eu vou pra Pensilvânia na Ação de Graças e não vou voltar mais pra cá depois – tentei me explicar. – Eu preciso...

— Por quê? – ela questionou já com lágrimas nos olhos e tive vontade de retirar tudo o que acabara de dizer. – Por que você vai me abandonar? Eu te deixei triste?

— Não, Claire. A culpa não é sua – suspirei, buscando conter minhas próprias lágrimas. Eu tenho que ser forte. Tenho que conseguir fazer isso. – É só que... É complicado...

— Você mentiu pra mim! – ela me acusou, me pegando de surpresa.

— O quê? Nunca!

— Você prometeu que ia afastar a tristeza e agora vai levar o escudo 'antitristeza' embora – a garota correu para fora do quarto e imediatamente a segui.

— Claire...

— Você fingiu que se importava comigo, mas você não se importa. Igual todo mundo. Ninguém se importa de verdade.

— É claro que eu me eu importo – tentei argumentar buscando alcançá-la conforme ela descia escada abaixo.

— Eu te odeio – Claire gritou e correu em direção ao escritório do pai.

Acabei indo até próximo a porta e ouvi parte da conversa dela com Dimitri. Ela não parava de chorar e a voz do russo parecia tão pesarosa. Ele também ficaria triste com a minha partida?

Escorei-me na parede por um instante vislumbrando toda a dor que eu estava causando com a minha decisão. Todos estavam sofrendo com isso. Seria tão mais fácil se eu simplesmente entrasse naquele escritório e anunciasse que não iria mais embora. Mas eu simplesmente não podia voltar atrás. Tudo aquilo serviu para me mostrar o quanto a paixão por Dimitri me deixara vulnerável e exposta. Era uma questão de autopreservação.

Respirei fundo e decidi seguir para meu quarto antes que mudasse de ideia. Eu me joguei na cama e encarei o teto como vinha fazendo todos os dias desde a briga, chorando mais uma vez. Não queria que Claire sentisse raiva de mim. Sei que era egoísta da minha parte desejar isso sendo que eu é quem decidi partir, mas não podia evitar.

Algum tempo mais tarde, quando Dimitri bateu à minha porta e disse que precisava sair, pensei que talvez fosse uma boa oportunidade para consertar as coisas com a menina.

— Claire – tentei abrir a porta enquanto o russo se afastava, mas estava trancada. – Abra a porta, por favor.

— Vai embora – ela respondeu em meio a um soluço.

— Por favor, baixinha – pedi com meu coração em frangalhos. – Eu quero te ver.

— Pra quê? Você vai me abandonar mesmo. Você nem gosta de mim.

— Isso não é verdade, Claire – havia um tom de desespero em minha voz. – Por favor, abra a porta. Eu quero falar com você.

— Mas eu não quero falar com você. Nunca mais! – a garota gritou e senti como se tivesse tomado um tapa no rosto.

— Eu vou estar no meu quarto se você precisar de mim – murmurei e voltei para minha cama.

Sentia que um pedaço da minha alma tinha morrido ao receber toda a desconfiança de Dimitri e agora senti mais um pedaço morrer ali com o desprezo de Claire que eu mesma causei. Logo não restaria mais nada dentro de mim.

Fiquei acordada até que ouvi Dimitri chegar em casa e muito além disso, mas em algum momento o sono me pegou. Esses dias estavam sendo totalmente torturantes para mim.

De madrugada acordei com minha cama se remexendo. Eu respirei fundo e me virei envolvendo Claire em um abraço.

— Eu menti antes – ela sussurrou, se encaixando em meus braços. – Eu não odeio você.

— Eu sei, meu amor – falei acariciando seus cabelos, apesar de não conseguir enxergá-la no escuro. – Sinto muito que eu precise ir.

— Eu não me importo, Rose – Claire pegou minha mão e começou a brincar com meus dedos. – Mesmo se você for embora, prometo que nunca vou te esquecer. Eu vou te amar pra sempre.

— Eu amo você, Claire – não consegui mais conter minhas lágrimas. – Juro que é verdade.

— Eu acredito – ela suspirou e não falou mais nada.

Logo Claire adormeceu, me deixando completamente desnorteada. Eu realmente seria capaz de partir e deixá-la para trás?

Os dias seguintes se passaram como um borrão para mim. O clima na casa toda estava péssimo. Nem parecia aquele lar divertido de antes onde nós brincávamos de pirata. Meu coração se apertava cada dia mais sabendo que estava chegando a hora de partir.

Logo me vi arrumando as malas junto com Lissa na quarta de manhã. Eu iria embarcar no dia seguinte para a Filadélfia e de lá seria um trajeto de cerca de duas horas de carro até a casa dos meus pais.

Nós duas fizemos as malas que estavam sobre a cama em silêncio até que Lissa fechou a última e se sentou ao lado delas me observando.

— Por que você está fazendo isso, Rose?

— Isso o quê? – perguntei me sentando no chão, escorada na parede, ficando de frente para a cama.

— Indo embora – ela explicou. – Você não quer isso.

— Quero sim – falei com uma fingida determinação. – Eu já devia ter feito isso antes, você sabe...

— Não, eu não sei – Lissa devolveu me fulminando com o olhar. – As coisas que aconteceram não eram motivo pra você ir embora e muito menos o que está havendo agora.

— Liss...

— Você está fugindo, Rose – ela me interrompeu. – Está fugindo do que sente e está fugindo dele. E você não é assim. Você é tão corajosa. Sempre enfrentou tudo de cabeça erguida.

— Eu não... – eu ia dizer que não sentia nada por Dimitri, mas me refreei. Não era algo tão difícil de se notar e eu não podia subestimar a inteligência dela. Fora que Lissa era minha melhor amiga. Se não me abrisse com ela, com quem o faria? – Eu só não posso continuar aqui. Não depois das coisas que ele me disse...

— Você está com medo de se machucar e isso é normal. Mas o que você não percebe é que vai se machucar ainda mais indo embora.

— A questão é que ele já provou que pode me magoar – me defendi. – Então o meu medo não é tão infundado, não é?

— Dimitri errou. Pessoas erram – Lissa deu de ombros.

— Não é tão simples , Liss. Ele não confia em mim e isso é o que mais dói.

— Ele confia, mas achou que ia perder a filha por sua causa, Rose.

— Como é que é? – Aquilo sim era uma novidade.

— Parece que Tasha ameaçou tirar a menina dele por conta de você supostamente ser uma criminosa – ela explicou. – Você mesma já me falou que o homem é louco pela filha. Imagina só como ficou a cabeça dele?

Realmente isso explica um pouco o porquê de Dimitri estar tão transtornado naquele dia. Com certeza ele iria querer rechaçar qualquer coisa que pudesse separá-lo de Claire. Se ele ao menos tivesse me deixado explicar...

E como Tasha pôde fazer uma coisa dessas? Como alguém pode ser tão cruel a ponto de inventar mentiras desse tamanho e ameaçar afastar a filha do pai?

Eu havia percebido que ela ainda nutria sentimentos pelo russo no dia que a conheci, mas nunca imaginei que poderia descer tão baixo. Tudo isso por ciúmes? O que mais ela seria capaz de fazer? Que outras mentiras ela pode ter inventado?

— Enfim – Lissa continuou, alheia aos meus pensamentos. – O que eu quero dizer é que infelizmente as pessoas podem falhar. Elas podem acabar machucando as outras, por mais que as ame. Ninguém está imune de cometer este erro. O que diferencia é como essa pessoa lida com isso. E o que Dimitri está fazendo depois de tudo?

— Bem, ele está tentando se desculpar de todo jeito – contei.

— Então, isso mostra que ele se importa. Que ele está arrependido e isso muda tudo.

— Não, Liss, isso só mostra que Dimitri está se sentindo culpado e está fazendo de tudo para aliviar a própria consciência – devolvi sem muita convicção. No fundo, nem eu mesma acreditava no que eu estava dizendo. Eu sabia que ele não era assim.

— Rose... – ela deu um longo suspiro. – Sabe, precisa ter sorte pra encontrar a pessoa certa. Aquela que nos faz sorrir e melhora todo o nosso dia. Nem todas as pessoas têm essa sorte, mas você teve e está jogando fora. Não fuja por estar com medo de ser magoada. Quantas chances você vai perder por causa do medo?

— Achei que você não gostasse dele – comentei. – Você mesma me avisou milhares de vezes o quanto ele não prestava. O que mudou?

— Eu o conheci – Lissa se levantou e andou até a porta, parando ali para me olhar. – E enxerguei algo muito importante.

— O quê?

— Não adianta eu te contar. Você tem que ver por si mesma. Então abra os olhos e veja. Está bem na sua frente – ela deu um sorriso enigmático e saiu.

Eu permaneci sentada no chão, encarando as malas prontas na cama. Será que ela quis dizer o que eu achava que ela queria? Se fosse assim, se Dimitri sentisse algo por mim, ele não teria desconfiado de mim daquela forma, teria? Apesar de agora entender um pouco o que aconteceu, aquela falta de confiança ainda pesava. Haveria um modo de eu continuar ali sabendo que alguém poderia aparecer e contar outra história a meu respeito e ele acreditar?

Por outro lado, como seria minha vida daqui pra frente? Eu realmente posso ir embora e deixar tudo o que vivi ali para trás?

Não sei quanto tempo passei olhando para as malas até que uma leve batida na porta que Lissa deixara aberta me trouxe de volta a realidade. Eu olhei a figura de Dimitri ali parada, esperando permissão para entrar. Ele tinha o olhar tão triste.

Eu sabia que provavelmente aquela era a última vez que o veria. Em poucas horas ele estaria embarcando para a Filadélfia, pois teria um jogo no dia de Ação de Graças com o Eagles¹. Era quase irônico que na manhã seguinte eu também fosse pousar naquela mesma cidade para então seguir para a casa de Abe. Tão perto e tão longe.

De qualquer forma, independentemente dos erros que o russo cometeu, eu não poderia ir embora sem falar com ele. Eu não o odiava, apesar de tudo. Só estava magoada. Então fiz sinal para que ele entrasse.

Dimitri avançou em silêncio e se sentou no chão ao meu lado, encostando a cabeça na parede da mesma forma que eu.

— Eu vim me despedir – ele disse enquanto olhava para as malas prontas sobre a cama. – Eu vou sair em algumas horas.

Eu não respondi. Apenas continuei fitando o vazio.

— Claire vai sentir sua falta, Rose – ele declarou depois de um tempo em silêncio. – Todos vão na verdade.

— Isso eu duvido muito.

— Até Stan anda perguntando de você – ele me provocou e aquilo me fez sorrir. Stan abertamente me odiava e sempre acabava brigando com Dimitri quando eu aparecia nos treinos.

— Isso sim é algo que não se vê todo dia – eu comentei rindo.

— Eu senti falta disso – Dimitri falou de repente.

— Do quê? – olhei em sua direção. Deus, ele estava lindo. Realmente lindo.

— Do seu riso – ele explicou me olhando de soslaio. Eu amava tanto aqueles olhos chocolates... – A casa fica vazia sem ele.

Respirei fundo. Eu sentia falta de ficar com ele, assistir filmes juntos, provocá-lo, fazer tudo ao contrário do que ele me mandava. Mas eu precisava partir. Era para minha própria proteção. Eu não podia me deixar ser magoada por ele outra vez. Não quando eu sabia que meus sentimentos eram muito mais profundos do que havia imaginado.

Dimitri suspirou, se levantando, me fazendo sentir ainda menor do que era perto dele.

— Me perdoa, Rose. Sei que você está cansada de ouvir a mesma coisa, mas eu errei e sinto muito por ter feito isso. Você vai fazer muita falta pra Claire... – ele se virou de costas. – E pra mim também...

— Eu também vou sentir sua falta – murmurei para mim mesma, mas tive a impressão que ele ouviu, pois parou de andar por um momento enquanto ia em direção à porta. Ele não olhou pra trás e nem falou nada, apenas ficou ali parado por alguns segundos com os ombros tensos até retomar os passos e sair do quarto.

A vontade de chorar tomou conta de mim mais uma vez, mas segurei as lágrimas. A próxima vez que o veria seria através de uma televisão. Nunca mais ouviria ele me chamando por meu nome em russo com seu sotaque carregado, nem sentiria o perfume de sua loção pós-barba, muito menos vislumbraria aquele seu sorriso raro que tanto mexia comigo.

Quando finalmente consegui me levantar dali já havia escurecido ao lado de fora. Acabei jantando com Claire uma última vez e logo depois nos aninhamos em minha cama. Ela vinha dormindo comigo desde o dia que lhe disse que iria embora e fora estranho como me acostumei rapidamente a ter outra pessoa dividindo a cama comigo. Nunca fiz isso antes, nem mesmo com meus pais ou com qualquer cara com que fiquei. Eu começava a temer o quanto esse fato ia tornar ainda mais dolorosa a despedida, mas não tinha forças para negar mais isso a ela.

Claire parecia ter aceitado um pouco melhor minha partida apesar de naquela noite mal termos trocado uma palavra. Apenas ficamos deitadas apreciando a companhia uma da outra até adormecermos.

No dia seguinte ela acordou mais cedo que o normal e parecia muito ansiosa por conta da viagem para Miami com a mãe. Na verdade, Claire estava morta de saudades de Tasha, pois desde aquele maldito dia que a mulher esteve aqui e a levou consigo, ela nem sequer ligou para a menina.

Agora que eu tinha noção da participação dela em todo o ocorrido e a forma como apenas usou a filha como pretexto para atingir seu objetivo, sentia a raiva fervilhar em mim. Não que eu pudesse fazer qualquer coisa a respeito a essa altura. Eu tinha decidido me afastar e aquele não mais seria um problema meu, então não poderia interferir ou opinar em mais nada ali.

Tasha ficou de buscar a menina duas horas antes do horário em que eu deveria estar no aeroporto, porém ela não deu qualquer sinal de vida até quase meia hora antes da minha partida. Eu tentei ligar em seu celular algumas vezes e só dava fora de área. Onde ela se meteu? Se ela não aparecesse logo, eu perderia o meu voo.

Estava quase ligando para Vikka vir e ficar com Claire quando o telefone da casa tocou. Eu atendi no primeiro toque, torcendo para ser Tasha avisando que estava do lado de fora e que, por algum motivo, a campainha não estava funcionando.

— Rose? – eu ouvi a voz leve e despreocupada da mulher.

— Tasha, onde você está? – perguntei impaciente, não me dando ao trabalho de cumprimentá-la.

— Estou em um voo pra Grécia – ela respondeu com naturalidade. – Surgiu um desfile de última hora e eu não vou poder pegar a Claire.

— O quê? Você tá maluca? – soltei chocada. Como assim ela simplesmente deixou a menina para trás em plena Ação de Graças?

— Tenha mais respeito, babá – Tasha devolveu com seu ar superior. – Agora passe o telefone pra minha filha que eu quero falar com ela.

Eu simplesmente dei o aparelho para Claire já pensando em como eu lidaria com tudo isso. Eu cancelaria a viagem? Esperaria Dimitri voltar? Deixaria a menina na casa da avó?

A garota ficou em silêncio enquanto ouvia a mãe e, de repente, desligou o telefone e correu em direção ao quarto. Eu estava prestes a segui-la quando o telefone tocou novamente.

— Rose, onde está Claire? – a voz de Tasha soou irritada. – A ligação caiu.

— Não caiu, Tasha. Ela desligou porque não quer falar com a merda de mãe que ela tem – retruquei e não esperei uma resposta. Apenas desliguei o telefone e segui em direção ao quarto.

Eu tentei ligar para Dimitri enquanto subia a escada, mas ele não atendia. Provavelmente já estava na concentração para o jogo que ocorreria em algumas horas. Droga! O que eu faço?

— Claire? – entrei no quarto da garota que chorava encolhida na cama.

— Por que está todo mundo me abandonando? – ela perguntou em meio a um soluço.

— Claire, não foi a intenção dela – tentei amenizar, apesar de estar com vontade de colocar fogo naquele maravilhoso cabelo que Tasha tinha. Eu duvido que ela conseguiria tantos trabalhos como modelo estando careca.

— Eu vou passar a Ação de Graças sozinha – a menina constatou assustada. – Você vai embora, meu pai está jogando, minha mãe viajou.

— Ei, é claro que não! Eu não vou te deixar – falei e então a ideia mais maluca surgiu na minha mente. – Você vai comigo pra Pensilvânia.

— O quê? – Claire perguntou confusa. – Você não pode me levar pra lá. Você não é nada minha.

Nisso ela tem razão, eu não vou poder pegar um avião com a garota. Mas talvez meu pai possa dar um jeito nisso.

— Quem disse? Eu sou sua babá – afirmei com convicção, dando uma piscadela. – Eu vou dar um jeito nisso.

Eu saí do seu quarto e liguei imediatamente para Abe. Eu teria que descer na Filadélfia de qualquer forma, então não seria assim tão complicado levá-la ao estádio para deixá-la com o pai, não é?

— Já está no aeroporto, garota? – Abe atendeu após dois toques. – Ou mudou de ideia e quer que eu mande uma limusine te buscar na casa do Belikov?

— Pai, eu preciso de ajuda.

— O que aconteceu? – imediatamente seu tom de bravata desapareceu.

— Eu estou com a Claire e a mãe dela simplesmente não vem buscá-la, pois arranjou uma viagem de última hora – expliquei. – Dimitri está jogando fora de casa hoje. Na verdade está jogando na Filadélfia. Eu não posso simplesmente deixar a menina sozinha. Ela está chorando tanto e...

— Você quer trazê-la pra Pensilvânia ou você quer ficar? – ele perguntou sem rodeios.

— Eu queria levá-la comigo – suspirei. – Acho que posso deixá-la com Dimitri.

— Mas você não pode pegar um voo comercial com a garota sem a autorização dos pais – Abe continuou divagando.

— É exatamente nisso que eu preciso da sua ajuda – admiti. – Por favor, pai, a garota está péssima.

— Ok. Eu vou fazer algumas ligações – ele declarou depois de um longo suspiro. – Esteja no aeroporto o mais rápido possível.

— Obrigada, pai – eu disse aliviada ao desligar. Voltei para o quarto de Claire e a peguei no colo. – Vamos viajar, baixinha?

O rosto dela se iluminou e ela agarrou meu pescoço fortemente em um abraço. Quando Claire me soltou, coloquei-a no chão e descemos as escadas. Pegamos as nossas malas que estavam no hall e colocamos no Jeep que Dimitri havia me dado na última semana. Ele poderia retirar o carro no estacionamento do aeroporto quando voltasse.

Enquanto dirigia não pude deixar de pensar que aquele veículo era bem melhor que a porcaria de minivan que eu dirigi nos últimos meses. A próxima babá terá mais sorte que você, falei para mim mesma e isso fez meu coração doer por um instante.

— Rose – Claire me chamou do banco de trás, interrompendo meus pensamentos. – Nós vamos pro mesmo lugar onde meu pai vai jogar, né?

— Isso – confirmei. – E eu vou te deixar lá com ele.

— Então a gente vai assistir o jogo? – ela questionou animada.

— Bom... Não era bem isso que eu tinha em mente – comentei e só então me toquei que eu não podia simplesmente largar a menina no estádio e ir embora. Dimitri estaria em campo e não teria ninguém para ficar de olho nela já que a equipe técnica estaria toda ocupada com a partida em si.

Por outro lado, eu ia acabar perdendo o almoço de Ação de Graças se ficasse e Abe ia ficar puto da cara comigo. Mas, que outro jeito?

Parei no estacionamento do aeroporto e peguei um carrinho para colocar as malas, então liguei para o velhote mais uma vez.

— Um jatinho está te esperando no hangar oito – ele informou assim que atendeu. – Só espero que eu não tenha que pagar sua fiança por sequestrar uma criança, Rose.

— Não se preocupe com isso, pai – sorri. – Só acho que eu vou demorar mais do que o previsto pra chegar na sua casa...

— Por quê? – ele perguntou confuso. – Você deve conseguir chegar aqui no meio da tarde, pelos meus cálculos.

— Então, é que eu vou assistir o jogo do Bucs com a Claire – revelei e então diminui o tom de voz para ela não ouvir. – Não dá pra simplesmente deixar a menina lá sozinha. Dimitri só vai poder ficar com ela depois da partida, né?

— Pelo jeito, você só vem para o jantar – ele disse mal humorado.

— Por favor, pai – usei meu tom mais suplicante que eu sabia que sempre dobrava o velhote. – Eu vou estar aí. Eu prometo.

— Traga o Belikov e a menina também, então – Abe sugeriu, me surpreendendo. Não havia cogitado isso, mas... Por que não? – Eu vou querer culpá-lo pessoalmente por todo esse inconveniente.

— Eu amo você – falei sorrindo antes de desligar.

Logo que chegamos ao hangar indicado e embarcamos junto com as malas, já levantamos voo. Claire pareceu super empolgada com o que estava acontecendo e ficou todo o tempo conversando com um comissário de bordo, contando como o pai dela ia esmagar o Eagles no partida daquela tarde. Eu me limitei a revirar os olhos com tudo isso. Por que Abe precisava contratar uma equipe completa para um voo de menos de duas horas?

Olhei pela janela, fitando as nuvens e voltei a pensar no que Lissa me falou no dia anterior. Será que ela tem razão? Eu estou fugindo por medo? Eu poderia abandonar Claire quando nem a mãe dela se preocupava com a criança? Ela precisava tanto de alguém...

Foi então que uma coisa me ocorreu. Eu não avisei ninguém que eu estava trazendo a menina. E se Tasha falasse para a família de Dimitri que não a pegou e achassem que eu realmente sequestrei a garota, como meu pai brincou?

Ótimo! Era só o que faltava. Agora vou precisar dos serviços do Ivan para me defender de uma acusação de verdade.

Eu imediatamente peguei meu celular e liguei para Vikka.

— Rose? – a voz da garota soou incerta.

— Oi Vikka.

— Está tudo bem? – ela pareceu desconfiada. Será que a polícia já está me procurando?

— Vikka, eu acho que fiz uma besteira...

— Olha se você se arrependeu de ter ido embora, é só voltar – ela disparou a falar. – Tenho certeza que meu irmão te aceita de volta.

— Vikka...

— Ele inclusive vai ficar muito feliz por isso, sabe.

— Vikka...

— Claire também vai ficar radiante – ela simplesmente não me deixava falar. – Estava me cortando o coração ver a situação lamentável dos dois. Eu nunca vi meu irmão tão deprimido e...

— Vikka! – berrei chamando a sua atenção por um instante. – Eu posso ter acidentalmente sequestrado sua sobrinha.

Ela ficou em completo silêncio por alguns segundos. Ok, Rose, agora você conseguiu se complicar! Acabou de confessar que sequestrou uma menina de sete anos.

— O quê? – a voz da russa saiu em um fiapo. Se ela não chamou a polícia ainda, com certeza vai chamar.

— Eu agi sem pensar – comecei a me explicar rapidamente, torcendo para não me enrolar nas palavras. – Tasha simplesmente ligou um pouco antes do horário do meu voo e me falou que estava à caminho da Grécia. Então Claire começou a chorar e eu realmente fiquei sem saber o que fazer...

— Rose – Vikka perguntou incerta. – Onde vocês estão?

— Num jato particular a caminho da Pensilvânia – admiti. – Eu trouxe ela pensando em deixá-la com Dimitri. Eu não podia simplesmente deixar ela sozinha na casa e... Bem, eu teria que desembarcar na Filadélfia de todo jeito. Só acho que vamos ter que assistir o jogo do Dimitri. Não dá pra deixar ela com a equipe técnica, então...

— Espera, Dimitri sabe que estão indo? – ela perguntou subitamente animada.

— Não, eu não consegui falar com ele. Por falar nisso, acho que eu teria que entrar em contato com o pessoal do estádio pra ver se podemos ficar na área das famílias. Não devem ter mais ingressos a venda a essa altura.

— Eu cuido disso – ela se prontificou. – Rose, você é incrível! Eu nem sei como te agradecer.

— Por ter sequestrado sua sobrinha? – perguntei incerta

— Por ter consertado as merdas que aquela louca faz – ela riu se referindo à Tasha. – Não acredito que ela simplesmente abandonou a menina no dia de Ação de Graças. Pelo menos uma coisa certa ela fez. Deixou a Claire com você.

— Obrigada, Vikka – suspirei aliviada. – Obrigada por entender.

— Eu que agradeço, Rose – senti o sorriso em sua voz. – Meu irmão nunca vai achar uma pessoa tão boa quanto você. É uma pena que você tenha que ir. E não se preocupe com o estádio, eu vou providenciar tudo.

Ela desligou em seguida e eu me permiti relaxar um pouco. O dia com certeza vai ser longo.

Nós desembarcamos no início da tarde e levei Claire para almoçar perto do aeroporto, então seguimos para o Lincoln Financial Field². O jogo tinha acabado de começar e logo que apresentei Claire como filha do Belikov, nos guiaram para o camarote reservado.

Dimitri estava péssimo durante os dois primeiros quartos do jogo. Eu nunca o vi cometer tantos erros, nem no jogo que eles perderam para o Panthers³. O Eagles conseguiu marcar dois Touchdown enquanto o Bucs não conseguia acertar nem um Field Goal⁴.

— Meu pai está lançando mais interceptações⁵ do que o Eli Manning⁶ – Claire jogou as mãos para cima. – Qual é o problema dele?

— Deve ser o frio – eu murmurei ao ver que ele estava sem blusa por baixo do uniforme. A temperatura devia estar em torno dos dez graus. Esse russo é maluco? – Por que ele não está de blusa como os outros?

— Meu pai não sente frio – ela revirou os olhos como se aquilo fosse a coisa mais ridícula que eu já falei.

Imediatamente a imagem do dia em que brincamos de pirata me veio à mente. Dimitri acabou me puxando com ele para a piscina e me segurou lá dentro. Eu estava morta de frio, mas ainda assim sentia seu corpo quente contra o meu e já não sabia mais o que exatamente estava causando os arrepios em meu corpo. Naquele dia, eu acabei dizendo que ele tinha uma super resistência ao frio e ele deu aquela sua risada maravilhosa.

Aquela lembrança me fez sentir um aperto no peito. Eu nunca mais teria um dia assim agora que havia vindo embora.

Claire se sentou ao meu lado emburrada quando Dimitri sofreu um tackle⁷ e foi ao chão. Isso com certeza o deixaria com algum hematoma, além de ser algo incomum para o russo. Ele parecia tão desconcentrado e perdido. Será que estava assim por conta da nossa briga?

— Eu não acredito que meu pai está perdendo – Claire reclamou se jogando no meu colo e olhando exasperada para a grande TV que tinha na parede do camarote, onde Rômulo Mendonça e Paulo Mancha faziam sua usual narração.

Rômulo: "Meu Deus. Eu costumo gritar 'me engravida Belikov', mas hoje, eu grito 'teste de DNA no Belikov'. O que está acontecendo? Mais uma interceptação."

Mancha: "Realmente, o Belikov parece estar um pouco perdido hoje, Rômulo."

Rômulo: "Cadê o macho alfa que todos amamos?"

Mancha: "Definitivamente nunca vi o quarterback do Buccaneers errar tanto. Geralmente ele é extremamente preciso em seus passes. Chuto que é a pior partida de sua carreira."

Claire recostou a cabeça em mim e acariciei de leve seus cabelos tentando confortá-la. Ela estava totalmente frustrada quando o jogo foi para o intervalo.

Foi então que vi nossa imagem estampada no telão do estádio. Por que estamos aparecendo ali?

Rômulo: "Nosso repórter de campo acabou de nos avisar que, apesar da péssima atuação de hoje, Belikov está recebendo total apoio da família."

A televisão do camarote, então, passou a exibir a mesma imagem que estava no telão, me revelando em rede nacional, mas minha atenção ficou presa no que o narrador havia dito. Família? Eu fui chamada de família? Nós somos uma família? Esse pensamento fez um sorriso espontâneo aparecer em meu rosto.

Mancha: "A Belikov filha não parece estar muito satisfeita, Rômulo. Mas acho que as garotas resolveram não deixar o quarterback sozinho na Ação de Graças."

Logo a seguir na TV apareceu a imagem de Dimitri olhando para o telão. Ele parecia completamente confuso.

Mancha: "Olha lá, Rômulo, pela cara do Belikov elas fizeram uma surpresa pra ele."

Rômulo: "E que surpresa, hein, Manchinha. Mas vamos deixar de lado comentários inapropriados sobre a nova dona do coração russo."

Eu não pude deixar de rir e ficar vermelha com aquela observação. Eles não fazem a mínima ideia do que estão falando. Nós ainda estávamos aparecendo no telão e parte do estádio começou a aplaudir. Algumas pessoas que estavam no camarote nos olhavam com curiosidade.

A expressão de Dimitri passou de surpresa para feliz. Um pequeno sorriso começou a despontar em seus lábios e meu coração parou ao ver aquele sorriso tímido se transformar em um sorriso completo, daqueles que eu tanto adoro e não via há dias.

Mancha: "Rômulo, o Belikov realmente está feliz em ver sua família aqui hoje. Que imagem bonita de se ver."

Rômulo: "Será que o sorriso da morena vai melhorar um pouco a atuação do nosso russo predileto?"

Claire riu com esse comentário e eu desviei os olhos quando a minha imagem voltou a aparecer na televisão.

Mancha: "Sempre que falamos alguma coisa, a garota tem alguma reação, Rômulo. Será que ela está nos acompanhando do camarote?"

Rômulo: "É possível, Manchinha. Ei, moça do sorriso bonito, se você está nos ouvindo, manda um beijo pra câmera."

Eu revirei os olhos diante daquele pedido.

— Você tem que mandar, Rose – Claire pulou animada. Minha imagem já não estava mais aparecendo no telão, apenas na televisão.

— Claro que não, Claire.

— Por favor, Rose – ela implorou e parecia prestes a se ajoelhar na minha frente. Isso sim seria uma coisa estranha de se aparecer na TV. – Eu juro que não te peço mais nada.

Eu acabei cedendo e olhei para a câmera, mandando um beijo.

Rômulo "Minha mamãe do céu! Assim meu coração não aguenta. Melhor voltarmos pro jogo agora, Mancha."

A imagem da televisão voltou a exibir o campo onde os jogadores começavam a se posicionar.

Mancha: "Vamos testar seu coração mais uma vez, Rômulo."

Rômulo: "Só espero que esse beijo tenha animado o Belikov tanto quanto me animou aqui."

— Eles gostam de você, Rose – Claire comentou rindo e evitei qualquer comentário, apenas tentando prestar atenção no jogo apesar dos olhares curiosos que recaíam constantemente sobre Claire e eu.

Parecia que estávamos vendo outra partida. A postura de Dimitri mudou completamente em campo o que se refletiu no desempenho dos outros jogadores. Definitivamente ele era a alma daquele time. O Bucs conseguiu marcar três Touchdown seguidos.

Mancha: "Aquele beijo realmente acordou o Belikov, hein Rômulo."

Rômulo: "Que homem, Manchinha. Que homem! Me seduz, Belikov!"

Mancha: "Os outros rapazes do time também não deixam a desejar."

Rômulo: "Um time de machos alfas, Mancha"

Claire ficou completamente absorta durante todo o restante da partida e parecia fascinada com a guinada do Buccaneers. Dimitri conduziu o time a uma vitória espetacular e eu fiquei feliz de vê-lo sorrindo novamente quando a partida terminou.

Mancha: "Que espetáculo de jogo presenciamos esta tarde."

Rômulo: "Olha, Mancha, eu quero agradecer pessoalmente à linda senhorita com o belo sorriso. Tenho certeza que sua presença animou o russo."

Mancha: "Não é a toa que ela conquistou o coração dele, Rômulo."

Rômulo: "E não foi só o dele não, Mancha. O meu também."

Mancha: "Seu e de toda a torcida do Tampa Bay Buccaneers que deve estar em êxtase com essa virada."

Com o fim do jogo, fiquei sem saber exatamente como faria para falar com Dimitri e explicar o que aconteceu. Peguei Claire e seguimos o fluxo das pessoas rumo à saída. Talvez eu devesse esperar no carro que aluguei e tentar ligar para ele.

Porém, antes que eu decidisse o que iria fazer, um dos membros da equipe técnica me encontrou no corredor dos camarotes.

— Senhorita Mazur – ele me chamou. – Belikov pediu pra que eu viesse buscá-las. Podem me acompanhar, por favor?

Eu anui e o seguimos em silêncio até uma área perto dos vestiários que creio ser reservada apenas às pessoas do time. Dimitri andava de um lado para o outro no corredor ainda com o uniforme do jogo. Ele ficava tão bem vestido assim. Claire correu diretamente para ele que se abaixou para pegá-la.

— Pai, essa partida foi demais! – a garota exclamou enquanto Dimitri voltava a se erguer com ela no colo. – Só não me assuste mais desse jeito, eu jurava que vocês iam perder.

— Prometo que não faço mais isso – ele deu um meio sorriso para ela e então olhou para mim um tanto incerto. – Rose, o que aconteceu? Como vocês vieram parar aqui?

— Desculpe o susto – eu sorri, me esquecendo o quanto estava magoada com ele. Aquilo parecia não fazer mais tanto sentido naquele momento. – Tasha está na Grécia e eu não sabia mais o que fazer com a Claire, então a trouxe comigo.

— Tasha está aonde? – Dimitri perguntou com um olhar afiado. Ele não gostou nada dessa informação.

— Depois eu te explico – olhei significativamente para Claire e ele apenas acenou.

— O time vai fazer o almoço de Ação de Graças no vestiário – o russo falou parecendo dividido entre hesitante e esperançoso. – Você pode ficar se quiser...

Na mesma hora me lembrei do convite de Abe. Aquela poderia ser uma oportunidade para eu ficar um pouco mais com eles. Mas será que Dimitri aceitaria? Bom, só há um jeito de saber...

— Você realmente tem que participar? – questionei.

— Bem... Não, mas pra onde mais eu iria? – ele devolveu confuso. – O resto da minha família está em Tampa.

— Um almoço com um monte de jogadores não é o ideal para a Ação de Graças – disse me sentindo mais tímida que o normal. – Minha família está a menos de duas horas daqui de carro e poderíamos ir pra lá.

— Ficar com a sua família? – ele pareceu um pouco tenso. Será que ele tinha medo de Abe? – Eu não sei...

— Vamos, pai – Claire pediu. – Eu quero ficar com a Rose.

— Vamos, Dimitri – eu engrossei o coro, dando um pequeno sorriso, o qual ele retribui na mesma hora. Só então percebi quanto tempo fazia que eu não o chamava pelo primeiro nome. Eu realmente senti falta disso.

— Nós temos um avião pra pegar no começo da noite – ele usou um último argumento.

— Ei, é feriado de Ação de Graças. Você está de folga – apontei. – Por que não fica comigo até domingo?

Aquilo ia um pouco além do convite que Abe fizera, mas acabei me empolgando com a ideia de adiar mais um pouco a inevitável despedida que tanto estava pesando em meu peito. Pensei ter visto algo brilhar no fundo daqueles olhos castanhos e não resisti a provocá-lo um pouco:

— Te prometo que não vou deixar meu pai te morder.

— Tudo bem, eu aceito – ele concordou colocando Claire no chão. – Mas primeiro eu realmente preciso de um banho.

— Te esperamos no estacionamento, então.

Eu peguei a mão de Claire e saímos. Definitivamente esse vai ser um fim de semana interessante.

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¹ O dia de Ação de Graças acontece na última quinta feira do mês de novembro e nesta data os americanos aproveitam para agradecer a Deus pelos bons acontecimentos ocorridos durante todo o ano. Para se ter uma ideia da importância da data, para os americanos, o Dia de Ação de Graças tem a mesma importância do Natal ou do Ano Novo, inclusive porque, para algumas pessoas, esta é a única oportunidade de reunir toda a família para passar o dia juntos.

Para celebrar a data, a NFL organiza uma rodada tripla de jogos que já se tornou uma tradição do feriado. São quase dez horas ininterruptas de jogos televisionados e, em nossa fic, o Buccaneers enfrenta o Philadelphia Eagles.

² Nome do estádio do Philadelphia Eagles.

³ Carolina Panthers.

⁴ Um Field Goal (gol de campo em português) é uma forma de pontuar no futebol americano, na qual, em vez de se passar a bola ao quarterback, ela é passada a um Placeholder , que a segura junto ao chão de forma que um Kicker possa executar o chute, fazendo-a passar entre os postes do gol (por vezes conhecidos como "uprights"). O acerto vale três pontos no placar.

⁵ Interceptação é um termo no futebol americano quando a bola é pega por um adversário da defesa em uma situação de passe. A interceptação é considerada um turnover e pode ser retornada pelo defensor para touchdown.

⁶ Eli Manning é o atual QB do New York Giants e irmão mais novo do aposentado QB Peyton Manning do Denver Broncos.

⁷ No futebol americano, tackle significa interceptar o avanço do jogador adversário, derrubando-o ao chão.