The Big Play
23 Capítulo 23 – Sweet Child O'Mine
Now and then when I see her face
She takes me away to that special place
And if I stare too long
I'd probably break down and cry
Guns N' Roses
Dimitri's POV
Após a briga do time acabamos enfrentando nossa primeira derrota da temporada na partida seguinte e a discussão ainda acabou virando matéria de diversos jornais especulativos graças a maldita Jill Dragomir que não consegue nos deixar em paz. Pelo menos nem ela nem ninguém sabia exatamente o motivo daquela confusão, apesar de ser de conhecimento geral que Jesse levara a pior, e dei graças por não ser alvo de mais fofocas.
Rose tentou arrancar uma explicação de mim algumas vezes, curiosa do jeito que é, mas também não deixei que soubesse que havia sido ela o motivo daquilo. Não precisava que a morena interpretasse minha crise de ciúmes como algo mais, pois de fato não era. Simplesmente não podia ser.
Por conta da derrota, Stan estava nos esfolando vivos nos treinos e mal tive tempo de pensar em qualquer coisa nos dias que se seguiram. Tanto que na quarta-feira só percebi que tinha algumas chamadas perdidas da escola de Claire em meu celular porque me escondi no vestiário após o almoço a fim de descansar um pouco antes da tortura da tarde. Liguei para lá imediatamente e me surpreendi com a notícia de que minha filha havia batido em outra menina e possivelmente quebrado o nariz dela.
Corri imediatamente para o colégio a fim de tentar entender melhor essa história. Esse tipo de coisa nunca aconteceu antes. Claire nunca foi violenta. De onde está vindo tudo isso? Ela não pode simplesmente bater nas outras crianças.
Tudo bem que eu não era o melhor exemplo, mas o Jesse mereceu. As coisas que ele estava falando de Rose... Só de pensar nisso, meu sangue começava a esquentar.
Mas Claire não teria a mesma justificativa, afinal, o que uma garota poderia fazer de tão grave para merecer um nariz quebrado? Não, nada explica essa atitude. Dessa vez eu vou ter uma conversa muito séria com minha filha. Muito provavelmente precisarei castigá-la com algo além de não ir no estádio assistir o jogo.
Eu entrei na escola e segui direto para a diretoria, mas me detive assim que virei o corredor e avistei Claire sentada em um banco ao lado de fora com alguns hematomas no rosto e de cabeça baixa. Ela tinha um semblante tão triste que me cortou o coração e precisei de um momento para me refazer.
Logo a seguir vi Rose saindo da sala da direção e se sentando ao lado de Claire em silêncio. Por que ela está aqui?
Estava prestes a continuar meu caminho e abordar ambas, quando a morena começou a falar:
— Você quer me contar o que aconteceu?
— Eu sinto muito – Claire continuou mirando os próprios pés. – Mas aquela garota me irritou.
— Muitas pessoas vão te irritar, Claire – Rose suspirou. – Isso não significa que você pode bater nelas. Por mais que às vezes dê vontade.
Eu cruzei os braços e me encostei na parede, interessado em saber o rumo que aquela conversa tomaria.
— E por que ela te irritou tanto? – Rose perguntou quando minha filha não falou mais nada.
— Ela disse que meu pai é um mulherengo e por isso minha mãe foi embora – a menina disse baixo me surpreendendo. Por que uma criança falaria uma coisa dessas?
— E o que mais? – a morena incitou como se soubesse que aquilo não tinha sido tudo. Será que já não era ruim o bastante?
— E que eu sou uma esquisita e nem minha mãe me quer por perto.
Senti meu coração se apertar no peito. Como alguém pode falar uma coisa dessas para uma garota tão doce quanto Claire? Ela nunca fez nada para ninguém.
— Claire – Rose olhou de forma carinhosa para minha menina. – Você sabe que nada disso é verdade, não é?
— Se não é verdade, por que minha mãe não gosta de mim?
— É claro que ela gosta. Ela ama você.
— Mas ela não gosta do jeito que eu sou. Ninguém gosta. É por isso que eu não tenho amigas – minha filha declarou em um tom tão triste que a minha vontade era abraçá-la e nunca mais deixar que qualquer pessoa chegasse perto dela.
— Quem disse que não? – a morena perguntou sorrindo. – Eu sou sua amiga, não sou?
— Isso não conta – Claire disse apesar de dar um minúsculo sorriso. – Você é minha babá.
— Só porque eu sou sua babá isso não significa que eu precisaria ser sua amiga, mas eu sou – Rose explicou e senti uma enorme gratidão por ela.
Realmente a morena não tinha qualquer obrigação de ser tão próxima de Claire. Não era a função dela fazer metade das coisas que faz por minha garotinha, porém Rose ainda assim continuava sendo atenciosa e amorosa com ela e não por uma obrigação, mas porque ela queria, porque gostava de Claire.
— Tá, só que isso não muda o fato de eu ser esquisita – a menina voltou a se entristecer, desviando o olhar da babá.
— Claire, o que você chama de esquisito eu digo que é só diferente. E não tem nada demais em ser diferente – Rose colocou o dedo no queixo de minha filha e incitou-a a levantar seu rosto. – Aliás, são as diferenças que nos fazem especiais. Veja por esse lado, se eu fosse igual a todas as outras, você não gostaria tanto de mim.
Nisso ela tinha razão. Aquela mulher era diferente de qualquer outra que eu já conheci e isso é o que fazia com que mexesse tanto comigo.
— Mas eu não sou como você, Rose – Claire suspirou.
— Não, Claire, você não é. Você é melhor do que eu. Você é inteligente, engraçada, esperta, linda. Não vejo nada de ruim em tudo isso – a morena enumerou várias qualidades da minha garota, olhando fixamente em seus olhos. – Quem não consegue enxergar isso é que está perdendo a chance de ter uma pessoa tão especial quanto você ao lado, então lembre-se disso quando aquela menina ou qualquer outra pessoa quiser te por para baixo. Você é melhor que todos eles.
— Mas ela é má – Claire reclamou.
— Infelizmente você vai encontrar uma porção de pessoas más na sua vida, Claire, mas você não vai poder quebrar o nariz de cada uma delas. Acredite, eu já tentei – Rose riu com aquela última observação.
— Sério? – Claire perguntou curiosa e eu também senti a curiosidade começar a queimar em mim. Desde que eu descobri a verdade sobre a origem de Rose, me interessava em saber mais sobre a sua vida.
— Bem, eu sempre acabava arrumando confusões com todos e também não tinha muitas amigas, apenas a Lissa. As garotas tinham medo de mim. E bem... Crianças podem ser bem ruins quando querem – a morena deu de ombros e no mesmo instante imaginei-a como uma pequena garotinha perdida como Claire, me dando vontade de abraçá-la e protegê-la igualmente.
— O que aconteceu?
— Depois da quarta vez que eu fui parar na direção, minha mãe decidiu me fazer praticar yoga com ela e isso me ajudou a canalizar melhor minhas energias. – Achei aquilo bem curioso. Então é por isso que ela pratica até hoje? – O que você acha de começar a fazer comigo?
— Isso não vai me fazer mais esquisita? – Claire questionou desconfiada.
— Vai te fazer mais especial – Rose sorriu se levantando. – E ninguém precisa saber se você não quiser. Seria mais um de nossos segredos.
A menina parece ter gostado disso e se ergueu abraçando a cintura da morena.
— Obrigada por estar aqui, Rose.
— Não precisa agradecer, baixinha – a morena afagou a cabeça da menina carinhosamente. – Agora vamos pra casa.
Eu me desencostei da parede e segui até elas quando começaram a caminhar em minha direção, deixando-as surpresas ao me ver.
— Vejo que você já cuidou de tudo – falei ao me abaixar frente a Claire para avaliar os pequenos hematomas em seu rosto.
— Sim, me avisaram que não estavam conseguindo falar com você – Rose parecia sem graça. – Por isso decidi vir até aqui.
— Foi bom você ter vindo – declarei me erguendo e olhando nos olhos da morena. Eu jamais teria lidado tão bem com a situação. Provavelmente iria brigar com minha filha sem buscar entender o porquê de suas atitudes. – Obrigado, Rose.
Eu estava com vontade de abraçá-la por tudo o que falou para Claire, mas sabia que isso não seria possível, então limitei-me a acompanhá-las até o carro e voltei para o treino ainda pensando nas palavras da pequena. Rose é simplesmente a pessoa mais incrível do mundo. Eu definitivamente tenho muita sorte por ela ter cruzado meu caminho.
Por sorte, conseguimos vencer o jogo seguinte por uma pequena margem de pontos. Digo sorte porque o time adversário estava num péssimo momento e isso nos ajudou tremendamente. É claro que isso não satisfez em nada Stan que continuou pegando pesado nos treinos, apesar de não termos qualquer partida agendada para o fim de semana seguinte, pois seria a folga do time na temporada¹.
Por outro lado, o clima no CT estava mais leve por conta da expectativa pelo Festival Gasparilla². Todo ano a data do festival era agendada de acordo com o cronograma do time justamente para que os jogadores pudessem participar da parada.
Normalmente eu evitava o evento, pois detestava exposições desnecessárias, porém estava cogitando ir após os apelos de Claire e Rose combinados.
Só que eu já estava prestes a desistir antes mesmo de concordar uma vez que em plena quinta-feira estava esgotado. O treinamento pesado e as cobranças de Stan chegaram ao ápice naquele dia e tudo o que eu queria era ir direto para a cama e dormir até o dia seguinte.
Dirigi até em casa torcendo para que Rose tivesse arrumado algum filme para distrair Claire o resto da noite e já planejei pedir uma pizza para evitar a cozinha. Assim que abri a porta da entrada, porém, fui surpreendido. Claire passou correndo por mim usando uma bandana e um tapa olhos com uma espada de plástico nas mãos.
— Volte aqui, sua baixinha insolente – Rose bradou perseguindo a menina. Ela estava usando um short jeans, uma camiseta preta com listras brancas, um chapéu de pirata e botas.
Logo a seguir vi Capitão Willy seguindo as duas e miando. Isso não seria tão estranho se ele não estivesse vestido como pirata também. O que diabos está acontecendo na minha casa?
Antes que eu pudesse me manifestar, Rose voltou correndo e parou na minha frente, se esticando para colocar um chapéu em minha cabeça, sorrindo ao avaliar o resultado.
— Ora, temos mais um marujo a bordo – ela deu uma piscadela antes de disparar para fora da casa rindo, parecendo mais uma garotinha do que a mulher incrivelmente sexy que ela é.
Eu não tive dúvidas. Apenas coloquei a mochila no chão e corri atrás das garotas.
— Mas vejam só, duas bucaneiras amotinadas tentando tomar o meu navio – proclamei. Se é para ser pirata, então seremos piratas juntos.
Eu saí da casa por uma porta lateral e comecei a dar a volta pelo quintal, à procura das garotas. Ouvi o riso abafado de Claire e segui o som, encontrando-a parada na frente da piscina me olhando com expectativa. Não tive tempo de reagir antes de Rose pular em minhas costas, enlaçando suas pernas na minha cintura.
— Eu te capturei, camarada – ela disse no meu ouvido, fazendo meu corpo se arrepiar instantaneamente.
— Você sabe que eu me livraria fácil de você, não é? – dei um pequeno sorriso.
— Nada de trapacear, pai – Claire reclamou. – Rose te capturou. E o capitão Willy também. Você tem que se render e entregar o navio.
Eu olhei para baixo e observei o gato se esfregando em minha perna. Belo jeito de capturar alguém.
— Ok, ok – eu levantei as mãos em rendição. – E agora?
— O que você acha, Claire? – Rose pulou para o chão, dando a volta e ficando de frente para mim. Ela pegou a espada de plástico das mãos da menina e apontou em minha direção, me avaliando com um sorriso no rosto. – Devemos atirá-lo no calabouço?
— Não existem calabouços em navios, Rose – Claire revirou os olhos me fazendo rir.
— Não sabe nem nomear as partes do navio que está capturando, Rose? – provoquei.
— Já chega! – ela cutucou meu peito com a espada de plástico, me incitando a recuar até a borda da piscina. – Pelo grande erro de ter insultado a intrépida Capitã Rose, você será jogado aos tubarões.
— Você não ousaria – eu cruzei os braços e levantei uma sobrancelha, dando um sorriso completo que eu já tinha percebido que arrancava certa reação da morena.
— Grande erro, camarada – ela sorriu de forma provocativa e me deu um empurrão.
Conforme eu me desequilibrava, segurei seu braço para tentar me firmar, mas só a fiz cair na piscina junto comigo.
— Dimitri! – ela exclamou assim que voltou à superfície enquanto Claire ria da cena.
Rose tentou sair da piscina imediatamente, mas eu a segurei pela cintura, impedindo-a de se afastar e puxei-a para longe da borda.
— Agora eu sou a capitã – Claire declarou pegando o chapéu da morena que tinha caído de sua cabeça.
— Acho que teremos que obedecer as ordens da garota – sorri.
— Isso não vai dar certo – Rose riu e, por um segundo, senti o tempo desacelerar enquanto me dava conta de que estava literalmente abraçando-a dentro da água. E tê-la tão junto a mim era uma sensação maravilhosa. Eu gostaria de permanecer ali para sempre com ela, e com certeza teria feito isso, se não percebesse a garota estremecer. A temperatura estava caindo no fim da tarde e tudo o que eu não queria era deixar Rose doente.
— Claire – chamei-a. – Peça para Kirova providenciar uma troca de roupas para mim e para Rose. Nós vamos tomar banho nos banheiros da piscina.
— Mas eu sou a capitã. Você não pode me dar ordens – a garota colocou as mãos na cintura e me olhou de forma desafiadora.
— Só que se você nos deixar aqui, você terá uma tripulação doente e você não quer isso, quer? – argumentei.
— Tá bom – ela concordou após pensar por um instante e correu para dentro de casa sendo seguida de perto pelo gato.
— Você está tremendo – observei ao ajudar Rose a sair da água.
— Não posso fazer nada se eu não tenho uma super resistência ao frio igual você – ela disse se abraçando enquanto eu me dirigia aos armários próximos à piscina e procurava uma toalha para enrolá-la.
— Ei, eu não tenho uma super resistência ao frio – comentei rindo, colocando a toalha em seus ombros e me demorando um pouco para soltá-la.
— Vou fingir que acredito, camarada – Rose sorriu e foi em direção a um dos banheiros que tinha ali.
Kirova logo apareceu com nossas roupas, claramente desaprovando a nossa situação. Ela deixou as de Rose próximo à porta e me dirigi ao outro banheiro. Antes que a governanta se afastasse, dispensei-a para que fosse para casa.
Após um bom banho, saí do banheiro vestindo uma calça jeans e uma camiseta azul e acabei aguardando Rose se arrumar igualmente para entrarmos juntos. Ela estava usando um vestido branco de mangas curtas que ia até um pouco acima dos joelhos, o qual eu nunca a vi usando, mas que definitivamente ficava bem nela.
Nós seguimos para dentro da casa em um silêncio confortável e o silêncio continuou quando entramos, o que era completamente estranho. Onde está Claire? Ela não deveria estar correndo por aí com o gato?
— Claire?! – chamei.
— Ela deve estar no quarto – Rose deu de ombros e seguiu para as escadas. – Vou lá chamá-la.
Enquanto isso peguei meu celular da mochila pensando em ligar para a pizzaria como havia planejado. Essa pequena aventura com as garotas me animou um pouco e comecei a cogitar assistir um filme com elas. Isso com certeza seria muito agradável e...
— Dimitri! – Rose gritou assustada no andar de cima e larguei o telefone antes que completasse a ligação, correndo até o quarto da Claire.
Porém, assim que cheguei, constatei que o lugar estava completamente vazio, mas ouvi um barulho estranho vindo do último quarto do corredor. O meu quarto.
Eu segui até lá rapidamente, constatando que o som vinha do banheiro. Mal entrei no corredor de acesso e vi que o carpete estava completamente encharcado. O que aconteceu aqui?
A porta estava aberta e tinha muita água saindo dali. Antes que eu entrasse, Claire saiu correndo toda molhada e enrolada em uma toalha. Ela arregalou os olhos assim que esbarrou em mim.
— Claire, o que você fez? – vociferei.
— Eu estava tomando um banho, mas... mas deu errado – a garota gaguejou. – Rose pediu pra eu pegar outra toalha pra ela porque ela caiu e...
Eu corri para dentro do banheiro assim que ouvi que Rose tinha caído, congelando logo em seguida. O que aquela garota fez? Meu banheiro estava totalmente inundado e tomado por espuma. Rose estava sentada no patamar da banheira encharcada dos pés à cabeça com o vestido branco, agora transparente, grudado em seu corpo. Ela usava um conjunto de lingerie rosa por baixo e eu tive que usar toda a minha força de vontade para afastar os meus olhos de cima dela.
— O que diabos aconteceu aqui? – perguntei me concentrando no desastre à minha volta. Deus, por onde começar a limpar?
— Aparentemente Claire achou que seria uma boa ideia esvaziar um vidro inteiro de espuma pra banho na banheira – a morena explicou se erguendo e torcendo a barra do vestido. – Quando eu entrei aqui ela estava tentando sair da banheira sem conseguir. Eu tentei ajudar e acabei fazendo companhia pra ela.
— Você se machucou?
— Não, mas obviamente fiquei pior do que estava na piscina.
Eu me ajoelhei na beira da banheira, me molhando um pouco e acabando cheio de espuma para abrir o ralo.
— A água está gelada – constatei surpreso quando esta começou a descer.
— Creio que Claire não descobriu qual era o registro da água quente.
— Claire – rosnei e a garota apareceu na porta, me observando com cuidado. – Você sabe que está muito encrencada, não é?
— Sinto muito – ela disse baixo.
— Você vai passar um bom tempo de castigo, mocinha. Já pro seu quarto! E tome um banho quente.
Eu a ouvi sair e olhei para a situação de Rose.
— Pode ir também, eu me viro aqui – balbuciei, evitando reparar quão sexy ela estava, apesar de tudo.
— Não, tudo bem. Eu te ajudo a arrumar isso antes – ela declarou seguindo até um armário e retirando algumas toalhas. – Acho que teremos muito trabalho, camarada.
Abaixei-me para enxugar o chão e Rose começou pelo patamar à volta da banheira. Eu congelei ao notar que ela estava praticamente de quatro secando tudo ali, com aquele vestido transparente grudado ao corpo e seu traseiro perfeito voltado em minha direção.
Ah, eu poderia aproveitar tão bem aquela banheira com ela... Seria uma experiência muito interessante. Eu sei de muitas coisas que poderia fazer com ela ali e...
Pigarreei alto para interromper a minha linha de pensamentos e busquei me concentrar em minha tarefa, mas constantemente me pegava observando-a. Eu realmente precisava acabar com aquilo o quanto antes ou iria acabar fazendo alguma loucura. E Deus sabe que estou prestes a fazer.
Porém, outra coisa acabou por desviar minha atenção. Tive a impressão de ter ouvido um espirro então olhei para a garota, não mais me focando em seu corpo, enquanto esta secava uma das janelas que estava cheia de espuma. Ela parecia completamente indiferente e já me perguntava se imaginara aquilo quando a morena voltou a espirrar.
— Você vai adoecer desse jeito – levantei-me e segui até ela. Rose devia estar morta de frio com essa roupa molhada. – Vá tomar um banho quente.
— Eu estou bem, camarada – Rose respondeu com a voz ligeiramente anasalada e vi que seus olhos estavam um pouco lacrimejantes, contradizendo o que estava falando.– Não falta tanta coisa, eu te ajudo.
— Esqueça isso. Eu vou chamar uma equipe de limpeza amanhã – decidi. Ela era teimosa o suficiente para ficar doente, mas não dar o braço a torcer. – Tome um banho e se agasalhe.
— Ok – ela acabou cedendo e saiu do quarto.
Eu me troquei mais uma vez e segui para o quarto de Claire, decidindo colocá-la de castigo pelo resto da noite. Depois eu pensaria em algo melhor.
Resolvi fazer uma sopa para Rose, já que ela estava claramente gripando. Mal começara a cozinhar a mandioquinha quando a morena apareceu na cozinha usando calças leves e uma blusa larga de manga comprida. Ela parecia completamente a vontade e incrivelmente bonita, com as bochechas um pouco coradas. Comecei a ponderar se poderia manter o plano de assistir um filme, mas dessa vez só com ela.
— O cheiro está ótimo – Rose sorriu se sentando em uma banqueta. – Precisa de ajuda?
— Não – disse, olhando-a por cima do ombro. Com toda a confusão que aconteceu, acabei não pedindo a pizza e já passava do horário da Claire jantar, então decidi esquentar o que sobrou do bolo de carne que fiz no dia anterior. – Mas você poderia levar o jantar da Claire enquanto termino aqui?
— Claro – ela arrumou tudo em uma bandeja para levar, saindo em seguida.
Cerca de meia hora mais tarde, Rose voltou e colocou a louça suja na lavadora. Eu havia acabado de terminar a sopa e servi um prato para cada um de nós.
— Aqui. Espero que goste.
— Obrigada – Rose colocou uma mecha do cabelo atrás da orelha e se sentou.
— Como Claire está? – perguntei servindo uma cesta de pãezinhos e me acomodando ao seu lado.
— Chateada – ela deu um sorriso condescendente. – Mas entende porque está sendo castigada.
— Ela nunca fez nada desse tipo – murmurei, remexendo a sopa pensativo. – Não sei o que está acontecendo com ela ultimamente.
— Claire está crescendo, Dimitri – Rose deu de ombros. – É natural que ela acabe aprontando de vez em quando. Eu mesma quase enlouqueci minha mãe na idade dela.
— Você também inundou o banheiro e quase matou sua babá de hipotermia? – zombei. Eu sempre gostava de saber mais histórias sobre a morena. Fazia com que me sentisse mais próximo a ela.
— Não – ela disse dando um pequeno sorriso travesso. – Mas meu pai tinha um grande aquário, cheio dos mais variados tipos de peixes. Eu simplesmente adorava vê-los nadar. Era tão tranquilo.
— E o que você aprontou? – perguntei curioso.
— Um dia, eu enfiei na cabeça que aquele aquário parecia apertado demais para aquele tanto de peixes e decidi que eles deveriam ter mais espaço, sabe, pra nadar livremente. Então achei que a piscina do meu pai seria o local ideal pra isso. Eu não preciso te falar que não deu certo, né?
— Eu definitivamente quero você longe da minha filha – comentei rindo junto com ela.
— O fato é que crianças aprontam. É só uma fase – ela concluiu.
Comemos por um tempo em um silêncio tranquilo e, assim que terminou, Rose se levantou e levou o prato até a lavadora.
— Estava uma delícia como sempre. Obrigada.
— O que você vai fazer agora? – acabei perguntando.
— Acho que só deitar – ela encolheu os ombros. – Não estou me sentindo muito bem.
— Você precisa tomar um remédio – eu disse me levantando e pegando um antigripal que havia separado enquanto ela estava com Claire e deixado perto do bebedouro, aproveitando para encher um copo de água.
— Não é necessário... – Rose começou a protestar vindo em minha direção
— Eu não estou sugerindo – olhei-a severamente empurrando o comprimido e o copo em suas mãos. Ela se limitou a revirou os olhos, mas aceitou.
— Pronto, Belikov – Rose estendeu a língua para me mostrar que tomou o remédio. – Está satisfeito?
— Muito – ri de sua atitude e observei-a se dirigir para a saída. Em um impulso chamei-a de volta. – Rose! Você... Você quer assistir um filme?
De todas as formas que eu imaginei isso na minha mente, não era bem assim que pretendia abordá-la. Droga! Agora ela vai me achar um maluco pervertido.
Rose me avaliou por uns instantes, me deixando em suspense, até que abriu um sorriso.
— Pode ser. Mas dessa vez eu escolho. O último filme que você quis ver quase me matou do coração, camarada.
— Como quiser – comentei rindo me lembrando do quanto ela estava assustada por causa daquele desenho esquisito. – Eu vou pegar uma manta pra você enquanto decide.
Corri escada acima, me sentindo como uma criança que acaba de ganhar um doce. Após revirar o armário e escolher uma coberta, voltei para a sala de televisão. Rose já havia escolhido algo e a imagem estava pausada nos créditos iniciais. Cobri-a completamente e depois me sentei ao seu lado.
— O que você escolheu?
— O Labirinto do Fauno. Christian me indicou para assistir com a Claire – explicou. – Mas acho melhor assistirmos primeiro para evitar outro fiasco como A viagem de Chihiro.
— Sobre o que é? – Não parece ser o tipo de filme que Claire gostaria de ver. Ela nunca foi muito fã dessas historias de fadas e criaturas míticas.
— Na verdade eu não sei – ela admitiu. – Christian só disse que iríamos gostar.
O filme começou e aquilo conseguia ser tão esquisito quanto o outro. A estória se passava após a Guerra Civil espanhola, mas se focava em uma garotinha que descobre ser a princesa de um mundo mágico. Ela teria fugido para o mundo humano e agora tentava retornar.
Eu ouvi Rose arfar e se encolher ao meu lado na primeira vez que o fauno apareceu. O que exatamente é essa criatura? Ainda bem que Claire não está aqui ou com certeza dormiria no meu quarto novamente. Já Rose parece que vai ter pesadelos hoje.
— Que merda é essa? – ela se aproximou mais de mim.
— Foi escolha sua – me eximi da culpa.
— Eu vou matar aquele projeto de incendiário – murmurou. – Ele fez de propósito.
— Projeto de incendiário?
— Christian quase colocou fogo na escola uma vez com seu projeto de ciências – Rose esclareceu, mas mal a ouvi, pois só conseguia sentir quão próxima estava de mim. Será que ela também percebeu isso?
— Está com medo? – provoquei.
— Calado – ela ordenou envergonhada, me fazendo rir.
Rose começou a se acostumar com a aparição do tal fauno e foi relaxando um pouco, se soltando mais no sofá. Na verdade ela parecia estar com bastante sono e atribuí isso ao efeito do remédio que dei a ela mais cedo. Assistimos ao filme em silêncio até que a menina da estória entrou em uma sala de banquetes na qual havia uma criatura pálida e sem olhos sentada à mesa. Quer dizer, na verdade ela tinha olhos, mas estavam dentro de um prato à sua frente.
— Ai, meu Deus! – Rose exclamou voltando a ficar tensa.
Quando o monstro despertou, ela agarrou meu braço, fazendo com que meu coração palpitasse no mesmo instante.
— Rose, é só um filme – falei enquanto a garotinha tentava fugir da criatura e parecia falhar miseravelmente.
— Eu não quero ver isso – a morena choramingou e escondeu o rosto em meu ombro me dando a vontade irracional de envolvê-la em meus braços e protegê-la mesmo que fosse daquela bobagem.
Não vou negar que estava adorando toda aquela proximidade. Talvez eu devesse chamá-la para assistir filmes mais vezes. Quem sabe alguns de terror.
— Ei, ela está bem – avisei afagando levemente seus cabelos ao notar que ela ainda estava escondendo o rosto, parecendo uma criança. – A menina conseguiu fugir.
— Vamos ver outro filme, camarada – Rose pediu com a voz chorosa. – Isso não é filme de criança nem aqui nem na China.
— Acho que Christian pregou uma peça em você – comentei rindo. – Mas agora eu fiquei curioso, quero saber qual é o fim. E não é tão ruim.
— Pois saiba que eu vou continuar me escondendo aqui – ela balbuciou ainda encostada em meu ombro.
Eu não pude deixar de notar o quanto nós dois parecíamos um casal nessa situação e meu coração parecia acelerado todo o tempo com esse contato.
Há quanto tempo eu não sinto meu coração disparar dessa maneira só por estar próximo de outra pessoa? Alguma vez isso já aconteceu?
Com a Tasha sempre foi tão fácil, tão natural. Eu nunca me senti tenso ou ansioso perto dela. Nunca senti essa necessidade de proximidade, de saber mais a seu respeito, de ser aquele que provoca os seus sorrisos. Apesar de minha ex ter um belo sorriso, nunca foi capaz de me capturar como o de Rose. Quando ela sorri, eu sinto como se iluminasse todo o ambiente.
O que é tudo isso que ela me faz sentir? Como ela faz isso? É melhor do que qualquer coisa que eu já senti antes.
Rose não falou mais nada por um bom tempo e eu fiquei perdido em meus pensamentos até que percebi sua respiração pesada. A pequena conseguiu adormecer encostada em meu ombro. E ela estava em uma péssima posição, totalmente encolhida.
Eu tentei ajeitá-la para ficar mais confortável, mas só serviu para Rose acabar usando minhas pernas como travesseiro. Como diabos isso aconteceu? Agora quem estava desconfortável e sem saber como agir era eu. Porém não tive coragem de acordar a garota para que se levantasse e decidi deixá-la assim por hora já que o filme estava próximo do fim e eu realmente queria saber como acabava.
Só que eu mal prestei atenção no que se desenrolava na tela. Ao invés disso, tirei o cabelo que estava cobrindo o rosto de Rose e a observei dormindo. Ela parecia tão inocente e indefesa, qualidades que sumiam quando estava desperta. Por um instantes, eu me perguntei como seria acordar com ela todos os dias ao meu lado. Na verdade, comecei a me questionar como seria passar vários momentos da minha vida junto a ela.
Você não pode ter esse tipo de pensamentos, Dimitri!, me repreendi.
Eu suspirei com o fim do filme e após algumas tentativas frustradas de despertar Rose, decidi carregá-la até o quarto. Eu não a deixaria dormir no sofá. Levantei-me com cuidado e a peguei no colo, seguindo em direção às escadas. A garota era tão leve e se encaixava tão bem nos meus braços... Parecia feita para mim.
Respirei fundo na tentativa de colocar algum juízo em minha mente, mas isso só serviu para eu inalar o perfume dela mais profundamente. Novamente eu ficaria com seu cheiro impregnado em minhas roupas.
Ao chegar à porta de seu quarto, considerei a ideia maluca de levá-la para o meu só para poder continuar admirando-a dormir. Obviamente que descartei essa ideia ridícula e a coloquei em sua cama, cobrindo-a em seguida. Ela murmurou algo que eu não entendi e virou para o outro lado, me impedindo por pouco de cair em tentação e desferir um beijo em seus lábios tentadores.
Eu segui para o meu próprio quarto, mas demorei para pegar no sono. Comecei a repassar todos os momentos em que Rose, eu e Claire passamos juntos como se fossemos uma família. Eram tão perfeitos. A morena parecia completar todos os espaços vazios da minha vida com a sua presença. Ela entendia minha filha profundamente e me fazia sorrir mais do que qualquer pessoa já fizera antes. Era a mulher que poderia ser uma segunda mãe para Claire, era a mulher que eu poderia amar...
Senti minha respiração se descompassar quando cheguei nesse ponto. Sim, eu podia sentir que facilmente me apaixonaria por Rose – se é que isso já não estava acontecendo –, mas não queria nem sequer pensar na possibilidade. Justamente por ela ser tão perfeita para estar ao nosso lado é que eu nunca poderia tê-la.
Lembrei da forma como Rose lidou com Claire na escola no outro dia. Nem eu e nem Tasha teríamos compreendido tão bem a menina e ela nunca teria se aberto com nenhum de nós como vinha fazendo com a morena. E eu quero a felicidade de minha menina acima de qualquer coisa.
Além disso, eu nunca tive qualquer indicação da parte de Rose de que ela nutria um interesse por mim. Admito que a via prender o fôlego em minha presença em algumas ocasiões, mas nada me levava a crer que passava talvez de uma admiração ou até mesmo uma atração física. E, sem ter qualquer certeza, eu poderia arriscar avançar o sinal e acabar perdendo-a?
Não. Rose é importante demais para minha filha para que eu coloque isso a perder. Além do mais, eu preferia tê-la em minha vida ainda que fosse daquela forma do que não tê-la.
Eu precisava esmagar aquele sentimento que começava a crescer dentro de mim. Não havia outra opção. Aquilo nunca vai acontecer.
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¹ Durante a temporada da NFL cada time recebe um fim de semana de folga, ou seja, não joga naquela semana.
² O Festival Gasparilla na realidade acontece em janeiro, mas para fins da estória modificamos um pouco. No festival é encenada uma invasão pirata à Baía de Tampa e além das típicas barracas de comidas e artesanatos ocorre uma parada em que carros alegóricos em forma de navios desfilam com diversos piratas que distribuem seus tesouros à população em forma de colares de conta. Os jogadores do Buccaneers participam do Festival desfilando em um dos carros junto com as cheerleaders e o mascote do time o Capitão Fear.
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