The Big Play

22 Capítulo 22 – You Give Love A Bad Name


An angel's smile is what you sell

You promise me heaven, then put me through hell

Chains of love got a hold on me

When passion's a prison, you can't break free

Bon Jovi

Dimitri's POV

Quando cheguei à maldita festa a primeira coisa que vi foi Rose quase beijando outra garota para pegar uma fatia de limão. Mas que merda ela está fazendo?

Todos os homens que estavam à volta dela não paravam de babar e eu tive de me segurar para não arrastá-la para longe dali. Você não tem esse direito, Dimitri. Ela não é nada sua e pode fazer o que bem entender, repeti para mim mesmo por diversas vezes.

Porém, quando ela me olhou enquanto dançava com Mia, aqueles olhos escuros pareciam contradizer isso. Por um momento fugaz tive a sensação de que ela dançava para mim e que o desejo que eu sentia por aquela pequena era recíproco. Tanto que estava quase jogando para o alto qualquer convicção que me restava de que abordá-la era completamente errado. Apenas não o fiz, pois uma das cheerleaders literalmente pulou sobre mim.

A tal Michelle era sem dúvidas uma linda mulher e muitas vezes antes havia jogado indiretas quando nos encontrávamos no CT, mas eu nunca realmente cheguei a me interessar por ela e não foi diferente dessa vez. Notei que a garota estava um pouco alta – como quase todo mundo naquela festa – e provavelmente isso a fez ser mais ousada. Tentei afastá-la com delicadeza, porém acabei perdendo um tempo precioso, já que, quando enfim a ruiva se afastou, não consegui mais avistar Rose em lugar algum. Dei uma volta pela piscina olhando os grupos que a rodeavam e procurei na sala e cozinha. Nada.

Ao retornar às portas de vidro que davam acesso aos fundos, notei que a luz de um dos cômodos havia sido acessa. Aproximei-me um pouco para olhar melhor através dos aparelhos de musculação que encobriam parcialmente as portas de correr e foi quando finalmente a localizei. Rose estava sentada em cima de um cara que não tive tempo de ver quem era, uma vez que meu corpo havia se colocado em movimento no mesmo instante, me levando até eles. A fúria havia me dominado completamente e qualquer pensamento racional foi banido de minha mente.

Assim que entrei na tal sala flagrei Rose começando a despir Mason e não tive dúvidas em arrancá-la de cima dele. Será que esse idiota não via que estava se aproveitando de uma bêbada? Pois com toda certeza ela não teria essa atitude se estivesse sóbria.

Tudo bem que talvez eu não tivesse o direito de interrompê-los e nem de arrastar a morena até o meu carro da forma como eu fiz, mas eu estava certo, não estava? Ela não podia ficar fazendo essas coisas naquele estado, se expondo daquela forma. Ainda mais com o meu time! Já bastam as fofocas que nos rodeavam sem que Rose provocasse qualquer escândalo.

É claro que, no dia seguinte, eu já não estava tão convicto assim de que havia agido corretamente. Na verdade, eu nem me reconhecia pelo modo como agi. Nunca fui uma pessoa impulsiva e jamais tomei qualquer atitude sem refletir bem a respeito. Porém, quando vi Rose naquele sofá com Mason, eu simplesmente não pude me controlar. Havia algo naquela mulher que fazia todo o meu lado racional se dissipar.

Rose, como sempre, me puniu por minhas ações se mantendo o mais afastada possível. Durante toda a terça-feira ficou fora de casa e, quando retornou, se trancou no quarto sem me dar qualquer chance de tentar explicar minhas atitudes. Não que eu tivesse qualquer justificativa para o que aconteceu. Até agora não entendia o que me levou a perder a cabeça daquela forma.

No dia seguinte segui para o centro de treinamentos sem novamente conseguir conversar com ela, o que me deixava louco. Eu precisava dar um jeito de resolver isso até o fim daquele dia.

Ao encontrar o time, percebi Mason me olhar com certa mágoa, mas nem ele nem qualquer um dos rapazes ousou falar qualquer coisa sobre a maldita festa perto de mim e dei graças a Deus por isso.

Canalizei toda a frustração que eu estava sentindo no treino da manhã, o qual foi bem produtivo, e, durante a tarde, tive uma reunião com Stan enquanto o resto do time continuou trabalhando a parte física. Quando o técnico me liberou, fui até os demais jogadores para poder passar algumas orientações antes de dispensá-los, porém, ao entrar em campo, notei que ao invés de estarem treinando todos se aglomeravam a um canto distante.

Pude ouvir uma música animada que me era desconhecida e deduzi que hoje o treino das cheerleaders estava sendo externo, apesar delas quase sempre o fazerem em uma sala reservada. Em geral os rapazes não ficam tão alvoroçados por conta das garotas que já lhes são bem conhecidas, mas acreditei que aquela festa deve ter esquentado os ânimos entre eles.

Resolvi ir até lá para dispersar os marmanjos com os hormônios a flor da pele, porém congelei assim que avistei uma pequena figura morena enfiada dentro de um dos minúsculos uniformes das cheerleaders, rebolando em meio a elas. O que Rose pensa que está fazendo? E, Deus, como ela está gostosa!

Ela se movia no ritmo da música em uma coreografia limpa e ousada enquanto balançava os pompons como se tivesse feito aquilo a vida toda. Será que ela foi cheerleader no High School?

I know you want it (I know you want it)

It's easy to see (it's easy to see)

And in the back of your mind

I know you should be with me

Essa mulher está fazendo isso para testar minha sanidade, só pode ser. Como vou tirar essa imagem da cabeça? COMO? Já era ruim o bastante ficar controlando a minha imaginação alimentada por seus malditos vestidos, eu ainda teria que lidar com mais isso? Ela realmente queria me transformar num bastardo assediador de babás, não é possível!

Don't cha wish your girlfriend was hot like me?

Don't cha wish your girlfriend was a freak like me?

Don't cha?

Don't cha?

Don't cha wish your girlfriend was raw like me?

Don't cha wish your girlfriend was fun like me?

Eu com certeza gostaria... Eu e todos esses idiotas aqui.

Finalmente me dei conta da situação e olhei para aquele bando de trogloditas praticamente babando pela minha Roza e aquilo fez meu sangue ferver. Eu poderia matar um deles a qualquer instante.

— O que vocês pensam que estão fazendo? – rosnei em direção àqueles idiotas. – O show acabou.

Meu olhar não deveria ser dos melhores, já que todos começaram a se dispersar imediatamente, seguindo para o vestiário.

Eu, então, concentrei minha atenção na garota à minha frente que parou de dançar para me encarar com um maldito sorriso satisfeito no rosto. Ela realmente fez isso de propósito?

— Rose – disse entredentes. – Nós vamos conversar. AGORA!

As outras cheerleaders também resolveram se afastar, retornando para o interior do CT, e a morena marchou em minha direção.

— O que foi, Dimitri? – ela perguntou impaciente.

Ora, só me faltava essa! Ela, impaciente? Depois de todo esse showzinho?

— Eu achei que tinha deixado bem claro pra você que eu a queria longe das cheerleaders e do time – respondi irritado.

— E eu achei que deixei bem claro que você não manda na minha vida – Rose retrucou apontando um dedo para meu peito.

— É disso que se trata? Você está querendo me provar que pode fazer o que quiser? – devolvi cruzando os braços. – Só que você se esquece de algo: eu pago você pra que cuide da minha filha e não pra ficar por aí desfilando em trajes mínimos durante o seu horário de trabalho. Falando nisso, onde está Claire agora?

— Na escola, é claro. E a não ser que você queira que eu vire professora dela, não tem muito o que eu possa fazer.

— Então talvez você devesse estar arrumando o quarto dela ou qualquer coisa do tipo – ela revirou os olhos enquanto eu falava como se eu estivesse sendo ridículo. Bem, talvez eu estivesse, mas ainda assim não me deixei levar. – O que importa é que você vai tirar esse uniforme agora e isso não vai mais se repetir.

Se bem que eu não me importaria se ela usasse essa roupa em um lugar mais apropriado... Como o meu quarto...

— E essa conversa terminou – concluí ao perceber o rumo que meus pensamentos estavam tomando, me virando para seguir para o vestiário.

— Ah, mas não terminou mesmo – Rose disse teimosamente, vindo atrás de mim. – Eu já te falei que você não tem esse direito. Você não pode me impedir de fazer nada, Dimitri.

— Eu posso e eu vou – falei obstinado, sem diminuir o ritmo. – Você não tem tempo pra essas coisas.

— Eu tenho tempo sim. Você mesmo disse que eu posso fazer o que bem entender depois que termino as minhas tarefas.

— Então pelo jeito você está tendo muito tempo de sobra – parei de caminhar por um segundo para encará-la. Ela conseguia ficar ainda mais linda com aquele olhar irritado. – Acho que preciso dar um jeito nisso.

— Você é um idiota, Belikov – Rose elevou a voz quando retomei o passo e voltou a me seguir. – Sabe muito bem que eu faço o meu trabalho direitinho, agora não venha controlar o meu tempo livre como você bem entender.

— Se pretende gastar o seu tempo livre no meu local de trabalho, pode desistir – falei de forma determinada ao alcançar os vestiários e entrar.

— Já disse que você não manda em mim.

— Por que você tem que ser tão teimosa? – perguntei já cansado daquela discussão, avistando alguns dos rapazes trocando de roupa enquanto outros ainda saíam do chuveiro enrolados nas toalhas.

— Eu sou teimosa? – Rose praticamente gritou há alguns passos de mim. – Você que está sendo um babaca controlador. Você não é meu pai.

— Olha aqui... – me interrompi assim que virei para olhá-la. Espera aí! Ela está dentro do vestiário masculino?

— BELIKOV! – a voz de Stan cortou o lugar antes que eu tivesse qualquer reação para expulsar aquela maluca. – O que você está fazendo? Tira essa garota daqui agora.

— Deixa ela apreciar a vista, treinador – Jesse sorriu deixando a toalha cair, ficando completamente nu.

Eu vou socar esse imbecil agora mesmo.

— Sério? – Rose cruzou os braços, encarando-o com desdém. O time todo parecia ter congelado para observar a cena. O que essa louca pretende? – É disso que você está se orgulhando? Sério mesmo? Estou começando a sentir pena de você.

— Escuta aqui... – Jesse começou a vir para cima de Rose, mas parou de falar assim que joguei-a sobre meu ombro, marchando para fora dali.

— Me solta, Dimitri – ela gritou dando pequenos socos nas minhas costas enquanto eu atravessava o lugar, carregando-a.

Por conta da saia extremamente curta que ela usava, minha mão acabou ficando em contato direto com suas coxas e não pude deixar de notar como sua pele era macia e quente. Fora o seu perfume que estava me inundando completamente.

Era só o que me faltava ter mais uma camisa impregnada com o cheiro dela. Juro que essa mulher ainda vai acabar me causando uma série de ataques cardíacos.

— Que horas são? – busquei me focar em outra coisa que não fosse a garota em cima de meus ombros.

— Quase na hora da Claire sair – ela desistiu de me socar e tentou arrumar uma posição mais confortável. – Eu tenho que me trocar pra poder buscá-la.

— Onde seu carro está estacionado? – perguntei irritado, tentando ignorar os olhares curiosos que os funcionários nos lançavam pelo caminho.

— Não te interessa.

— Ótimo, continue sendo a teimosa que você é – devolvi marchando decidido para onde o meu próprio carro estava. Se é assim que ela quer jogar...

— Ei – a morena gritou e voltou a me socar quando percebeu que estávamos no estacionamento. – Eu já disse que eu tenho que trocar de roupa. Ou você espera que eu busque a Claire vestida assim?

Eu a ignorei, tratando de pegar a chave com o manobrista e destravar meu carro. Abri a porta e só então coloquei-a no chão.

— Entre – ordenei.

— Até parece – ela revirou os olhos. – Eu preciso das minhas coisas.

— Onde estão?

— Com as garotas. Eu vou buscar – Rose tentou dar um passo a frente, mas a impedi.

— Você não vai voltar lá pra dentro – eu disse olhando-a sério. – Você vai entrar nesse carro e me esperar.

— Quero ver quem vai me obrigar – ela me encarou de forma desafiadora.

— Quer ver mesmo? – dei um sorriso insolente, erguendo uma sobrancelha.

— Droga – Rose bufou entrando no carro e batendo a porta com raiva atrás de si.

Eu a observei um momento enquanto cruzava os braços parecendo uma criança de cinco anos emburrada e tive um pouco de vontade de rir apesar de tudo. Não resisti a provocá-la ainda mais e ativei o alarme para trancá-la lá dentro, recebendo em troca um revirar de olhos.

Eu voltei até o vestiário e peguei minha mochila, permanecendo com a mesma roupa que usei no treino mais cedo.

— Ei, Belikov – Jesse me chamou quando estava quase saindo. – É bom você colocar uma coleira naquela cadela.

Joguei a mochila no chão e fui em direção ao loiro que me encarava com um sorriso debochado. Eu teria adorado tirar aquele sorriso do rosto dele na base do soco se Mikhail e Eddie não tivessem me segurado.

— Vai pra casa, Dimitri – Mikhail pediu. – Não vale a pena.

Eu acatei a sugestão e me virei, pegando a mochila. Aquele babaca arruinou o pouco de bom humor que eu havia recuperado. Eu definitivamente vou acertar as contas com ele se ousar falar de Rose dessa maneira mais uma vez.

Segui até a sala onde as garotas costumavam se reunir completamente irritado e, por sorte, dei de cara com Mia à porta.

— Dimitri – a loira sorriu ao me ver. – Onde está a Rose?

— Me esperando no carro – disse de forma rápida para evitar maiores explicações. – Você pode pegar as coisas dela que estão lá dentro, por favor?

— Ah, claro... – ela me olhou de maneira questionadora, mas resolveu entrar na sala sem contestar e logo após reapareceu para me entregar a bolsa e as roupas da morena.

Eu voltei para o estacionamento e de longe pude ver Rose dentro do carro mexendo no rádio. A garota fazia uma careta diferente a cada botão que apertava e se assustou quando eu destravei a porta.

— Ei, você está precisando atualizar seu gosto musical, camarada – ela reclamou quando eu entrei e lhe entreguei a bolsa, jogando minha mochila no banco traseiro. – Claire já deve estar saindo da escola e você está me atrasando. Depois vai reclamar que eu não cuido dela direito.

— Você tem algo de valor dentro do carro? – perguntei ignorando suas provocações.

— Não – Rose suspirou rendida e se afundou no banco, cruzando as pernas, o que deixou suas coxas ainda mais em evidência.

Eu respirei fundo e dirigi para a saída do estacionamento. Parei na cancela e pedi para um dos seguranças que eu conhecia há algum tempo que levasse o carro dela até minha casa assim que possível.

Durante todo o percurso até a escola de Claire fiquei tentando me controlar para não olhar para as pernas da morena enquanto ela mexia distraidamente no celular. Quando enfim chegamos ao nosso destino vi que a maioria das crianças já havia saído. Eu realmente tinha nos atrasado um pouco.

— Me espere no carro – pedi antes de sair.

— Como se eu fosse desfilar por aí vestida dessa forma – Rose retrucou.

Eu corri até a entrada da escola onde Claire estava sentada em um degrau da escadaria, com a cabeça apoiada entre as mãos, parecendo entediada.

— Pai? – ela se espantou ao me ver. – Por que você está aqui? Cadê a Rose?

— Desculpe o atraso, querida – me abaixei para pegá-la no colo e dei um beijo em seu rosto. Eu percebi algumas pessoas parando para nos observar. – Rose está no carro.

— Aconteceu alguma coisa? – Claire me olhou desconfiada.

— Longa historia – revirei os olhos. – Vamos?

— Sim – ela sorriu, deitando a cabeça em meu ombro enquanto íamos em direção ao veículo.

— Rose, por que você está vestida assim? – ouvi minha filha perguntar logo que a coloquei no banco traseiro.

— Porque seu pai estava irritado e quis que eu viesse junto te buscar, então ele me atrasou e não deu tempo pra eu me trocar – Rose deu de ombros. Como é que essa explicação vai fazer sentido na mente de uma menina de sete anos? Mal fazia sentido para mim.

— Eu não estaria irritado se você não tivesse ido ao treino – devolvi ao me sentar no banco do motorista e dar a partida, seguindo o caminho de casa.

— Mas por que você está vestida como uma cheerleader? – Claire parecia curiosa.

— Porque eu sou amiga delas – Rose disse como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. – E elas querem que eu entre pro time.

— Isso está fora de cogitação – rosnei ao mesmo tempo que minha filha disse:

— Isso é muito legal! Pai, eu posso ser uma cheerleader também?

— De jeito nenhum! – exclamei depressa olhando irritado para Rose que começou a rir. Agora mais essa!

Talvez tivesse sido mesmo uma má ideia não tê-la deixado se trocar antes de sair.

Nós seguimos para casa com Claire tagarelando sobre o dia dela, o que foi bom para me distrair da forma como a morena estava vestida. Assim que estacionei o carro, Rose pulou para fora e marchou para a casa junto com Claire que correu à procura do gato e desapareceu. Eu suspirei cansado e peguei minha mochila e a de Claire antes de seguir para dentro, a tempo de ouvir uma pequena confusão se formar.

— O que em nome de Deus você está vestindo? – a voz de Kirova soou exasperada.

— Qual problema? – Rose estava parada diante da mulher com um sorriso zombeteiro. – Você não disse que queria que eu usasse um uniforme? Esse é o meu uniforme agora.

Ótimo! Ainda vou ter que lidar com essas duas agora.

— Isso é um absurdo – a governanta disse descrente. – Essa é uma casa de família, você deveria se envergonhar.

— Ué, você não vive me falando que eu me visto como uma prostituta? – Rose deu de ombros.

Por que ela tem sempre que provocar? Não pode ficar quieta uma única vez? Abe com certeza teve um trabalho infernal quando ela estava crescendo.

— Rose, vá se trocar – ordenei parando atrás da garota. – Kirova, pode deixar que eu lido com isso.

— Senhor Belikov, eu sinto muito, mas é que a senhorita Mazur... – a mulher começou antes de eu a interrompê-la.

— Não se preocupe, eu estava com Rose e é por isso ela está vestida dessa forma – expliquei sem refletir muito até que finalmente me dei conta de que aquela frase poderia ser interpretada de forma totalmente equivocada. Droga, como eu arrumo isso?

— Cuidado, camarada – Rose zombou indo em direção às escadas, claramente se divertindo com a expressão surpresa e sem jeito de Kirova. – Assim vão pensar que você tem um fetiche esquisito com o seu time.

— Rose – rosnei. – Não piore as coisas.

— Foi você quem falou – ela riu e desapareceu escada acima.

— Ela fez amizade com as cheerleaders do time e eu ofereci uma carona pra ela, foi só isso – tratei de explicar para a governanta que apenas assentiu e saiu rapidamente da sala antes que qualquer outra coisa pudesse ser dita. Só espero que ela não esteja com a ideia errada sobre Rose e eu. Isso é a ultima coisa que eu preciso agora.

Segui para o meu quarto também onde finalmente pude tomar uma ducha. Definitivamente, aquela mulher foi enviada para testar a saúde do meu coração. Se eu não enfartei até agora, provavelmente ele está bem.

Pelo menos o tratamento de silêncio foi suspenso e Rose voltou a jantar comigo e Claire, aparentando estar ainda mais animada que o normal após conseguir operar sua vingança.

No dia seguinte, acabei me atrasando um pouco por conta do trânsito e, quando cheguei ao CT, todos já estavam prontos e aguardando o início do treino. Só que, ao invés de já começarem a se aquecer, os jogadores estavam em um semicírculo no meio do campo. Qual a maldita distração da vez?

Vi que Ashford estava no meio deles com um celular em mãos e me aproximei para ver o que mostrava de tão interessante, sentindo mais uma vez meu sangue ferver ao constatar que era um vídeo de Rose dançando ontem. De onde ele puxou essa merda de celular para filmar aquilo?

— Ela é gostosa demais, cara – Mason comentou para alguém que estava ao seu lado e me segurei para não voar em seu pescoço. Pelo jeito nenhum deles havia notado minha presença ali ainda. – Até agora eu não acredito que ela estava literalmente em cima de mim naquela festa. Pena que teve que ir embora tão cedo...

Aparentemente ele não havia contado o motivo dela ter ido embora, apesar de que a cena que provoquei arrastando-a para fora da festa não ter sido muito discreta.

— Ela deve ter se assustado ao te ver de perto – Eddie provocou rindo.

— Você não deve ter pago o bastante, isso sim – Jesse disse em tom de deboche. – Não tanto quanto o Belikov paga e sabemos que ele pode pagar bem. Quem sabe se eu juntar uma grana, eu não consigo pelo menos manter ela com a boca ocupada no meu...

O resto do autocontrole que eu tinha sumiu naquele momento e fui para cima do loiro antes que sequer pudesse terminar aquela frase. Eu devia ter acabado com esse bastardo ontem mesmo!

Minha mão se fechou na gola da camisa dele para me dar firmeza e precisão suficientes para o soco que meti no meio da sua boca. Jesse se desequilibrou com o golpe e foi ao chão comigo por cima dele, ainda surrando a sua cara.

O que se seguiu depois foi uma completa confusão. Ralf tentou me tirar de cima do Jesse, mas foi impedido por Mason que bateu no moreno e outros jogadores entraram no meio da briga, uns para defender algum amigo, outros apenas tentando nos separar.

Sem nem perceber como aconteceu, me vi sendo puxado e segurado o mais distante possível de Jesse por Mikhail, Eddie e Winston. O loiro ficou estirado no chão até que a confusão se dispersou e uma equipe médica veio atendê-lo, removendo-o dali. Quanto aos demais jogadores, todos apresentavam alguns cortes e olhos roxos, mas nenhum deles ficara desacordado como aquele babaca. Ponto para mim.

— Eu posso saber o que vocês pensam que estão fazendo? – Stan começou a berrar no meio do campo. – E alguém me explica como um Quarterback derrubou nosso melhor Defensive Tackle¹?

Todos se mantiveram em silêncio enquanto nos dirigíamos aos vestiários onde Stan nos passou um sermão daqueles sobre união antes de nos dispensar do treino já que a maioria dos rapazes teria que fazer uma visita ao centro médico.

Eu não queria que minha atitude tivesse causado tal confusão, mas Jesse estava pedindo uma lição há um bom tempo e não me arrependia disso. Soube até que ele teve que ser removido por uma ambulância para o hospital. Espero que fique por lá um bom tempo.

Reparei que eu estava com um corte no supercílio que havia ganho Deus sabe como, mas, apesar do incomodo do machucado, preferi ir embora de uma vez e cuidar disso eu mesmo.

Assim que entrei em casa, segui para um banheiro do andar de baixo para tentar limpar o ferimento que não parava de sangrar, só que, no meio do caminho, acabei esbarrando com Rose.

— Ei, o que aconteceu com você?

— Um pequeno acidente no treino. Nada demais – desconversei continuando meu caminho. – Já estou indo dar um jeito.

— E como você pretende fazer isso sozinho? – ela perguntou pegando meu braço, me impedindo de avançar. – Você não deveria ter recebido atendimento lá no centro de treinamentos?

— Eu preferi vir embora.

— Depois eu que sou teimosa – Rose revirou os olhos. – Deixa eu te ajudar. Tenho que ver se você não precisa levar pontos.

— Não precisa, eu estou bem – neguei a ajuda, apesar de uma parte de mim ter gostado muito dessa atenção. Eu já me machuquei muitas vezes antes e Tasha nunca se importou muito. Geralmente ela nem notava esse tipo de machucado.

— Vamos, vá pra a sala que eu já te encontro lá pra cuidarmos disso – Rose pediu me olhando de forma gentil e isso acabou me dobrando.

Fui até o cômodo pressionando o ferimento e logo a seguir a morena chegou trazendo uma caixa de primeiros socorros que eu mantinha em cada banheiro. Ela se sentou no sofá e fez com que eu me sentasse no chão, me incitando a deitar a cabeça em seus joelhos.

— Feche os olhos – Rose instruiu e fiz como pediu, sentindo seus dedos afastarem gentilmente meu cabelo.

Ela estancou o sangue e limpou o corte com uma gaze molhada, avaliando-o por um tempo antes de fazer um curativo. Isso tudo durou menos do que eu gostaria. Eu poderia facilmente adormecer deitado em suas pernas daquela forma. Ali com certeza era um ótimo lugar para se ficar.

— Pronto – Rose anunciou e abri os olhos para fitá-la sorrindo para mim enquanto suas mãos permaneciam em meu rosto. Ficamos um longo tempo nos olhando em silêncio até que ela enfim desviou o rosto. – É bom colocar gelo nisso, antes que inche.

Aquilo me despertou para o fato de que eu continuava com a cabeça apoiada em suas pernas e me levantei a seguir, indo até a cozinha após agradecê-la.

Deus, estava cada dia mais difícil me afastar dela. Naquele momento em que nos fitamos tantas coisas se passaram por mim e finalmente me dei conta de que todas as minhas atitudes impulsivas nos últimos dias eram motivadas pelo puro e simples ciúmes.

Como eu me permiti chegar a esse ponto? Eu estou muito ferrado!

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¹ Defensive tackle (DT) ou "Defensor Maior", é um jogador de futebol americano que se posta na defesa (linha defensiva) no centro da mesma. A linha defensiva é tipicamente composta por 3 ou 4 jogadores; os no meio da linha são chamado "Defensive tackle". Todos pressionam a linha de ataque do time adversário, impedindo corridas e tentando derrubar o Quarterback. Os "Defensive Tackles" são os maiores jogadores da defesa.