The Big Play
20 Capítulo 20 – Rich Girl
Notas iniciais
All the riches baby, won't mean anything
All the riches baby, don't bring what your love can bring
All the riches baby, won't mean anything
Don't need no other baby
Your loving is better than gold and I know
Gwen Stefani
Dimitri POV
Desde que dancei com Rose no casamento eu não conseguia parar de pensar naquele maldito instante de fraqueza e aquilo estava me levando ao ponto da insanidade. Eu precisava dar um jeito de apagar aquela imagem da minha mente ou eu iria acabar fazendo uma grande besteira.
Mas parecia simplesmente impossível esquecê-la quando Rose está em todo lugar que eu olho. Nem mesmo na academia eu me livro dela.
Tudo bem que ela realmente estava certa quanto aos meus exercícios estarem errados e eu odiava isso. Só que, naquele momento, eu só queria descontar toda a frustração que sentia por não tê-la beijado na festa e não estava realmente pensando no que estava fazendo.
É claro que eu estava certo por não ter me deixado levar pelos meus impulsos. Ela é a babá da minha filha. Eu não posso estragar a melhor coisa que já aconteceu na vida da Claire por causa de uma atração física. Mas nenhum desses argumentos estavam sendo fortes o bastante para convencer o meu corpo a esquecer a sensação de tê-la tão próxima a mim.
Às vezes eu me pergunto quanto tempo demoraria para encontrar alguém que se desse tão bem com a Claire quanto ela e pondero se valeria o risco jogar tudo isso para o alto para poder dar vazão ao que eu estava sentindo, mas a resposta sempre vem em seguida. Eu nunca encontraria outra pessoa igual. Rose é única e eu não posso colocar tudo a perder.
Porém, mesmo tendo ciência de tudo isso, eu não pude deixar de sorrir quando Claire convidou a morena para assistir ao jogo conosco mais tarde naquele dia. Era incrível como minha filha dava voz à minha vontade de tê-la por perto e é claro que um convite vindo da menina não tornava a situação inapropriada.
Não vi qualquer problema em atender ao pedido de Claire de mandarmos uma foto para ser exibida pelo canal de esportes no intervalo e, ouvindo o conselho de Vikka, mantive Rose fora do enquadramento, mas, por uma distração, não notei as pernas dela praticamente grudadas nas minhas.
E foi uma péssima distração. Além das muitas especulações, tive de aturar os narradores fazendo comentários inapropriados sobre as pernas dela. Fora que ainda descobri que já tinham falado dela em outro jogo em que Claire pediu uma foto também a Rose e isso fez meu humor piorar muito.
Mas numa coisa eu devo concordar com eles: ela é mil vezes melhor que a babá do Brady.
Eu achei que esse assunto estava encerrado quando o término da partida se aproximava, mas o péssimo desempenho dos times levou os narradores a voltarem a falar do bronzeado das pernas da morena ao invés de comentar o jogo e eu não aguentei mais. Senti como se algo dentro de mim estivesses prestes a explodir e precisei sair dali para esfriar minha cabeça.
Só que Rose nunca iria facilitar a minha vida. Ela tinha que me seguir e começar uma discussão. Eu sei que ela estava certa, fui eu quem tirou a foto e eu tinha que ter prestado atenção, mas só de pensar em todos aqueles homens babando por aquele belo par de pernas sentia toda a minha racionalidade fugir de mim.
Apenas quando ela me acusou de agir como um louco é que parei para pensar sobre as minhas atitudes. Realmente eu devo estar parecendo um maluco para Rose. Ao mesmo tempo que eu me aproximo, acabo a afastando em seguida. Começo uma conversa amigável na cozinha e, quando tudo está evoluindo entre nós, saio e a deixo praticamente falando sozinha. Eu a chamo para dançar na festa e a largo no meio da pista. Não é a toa que ela tem dúvidas sobre a minha sanidade.
Aquele meu comportamento ambíguo estava se provando pior do que o minha vontade de agarrá-la naquele mesmo instante e carregá-la para o meu quarto, pois Claire acabou presenciando nossa discussão. Para a minha sorte era Rose quem estava ali e não outra pessoa.
O modo como a morena lidou com aquela situação provocou um sentimento estranho dentro de mim. Tasha mandaria a garota não se meter e ficar longe da conversa de adultos, enquanto ela fez questão de deixar claro que não estávamos brigando e ainda tratou de distrair minha filha.
Rose é simplesmente perfeita. Mais do que eu mereço. Eu só tinha admiração por ela e por cada atitude que tomava com relação a Claire. Era por esse motivo que não podia por isso a perder.
Porém eu só percebi que ela deveria estar mais chateada do que eu imaginei quando a morena não apareceu para jantar. Claire queria ir chamá-la, mas eu achei melhor lhe dar um pouco de espaço.
Depois de colocar minha menina na cama, decidi tentar conversar com Rose, quem sabe me desculpar pela minha atitude, só que, ao abrir a porta de seu quarto, encontrei-a dormindo. A morena parecia realmente cansada e estava com algumas mechas de cabelo caídas sobre o rosto. Tive de resistir ao impulso de me aproximar e tirar aqueles fios de cabelo de lá para poder apreciar melhor a sua figura.
No outro dia, eu levei Claire para a escola e fui direto para o treino. Os jogadores me olhavam com uma expressão estranha, mas decidi ignorá-los. Deve ser por causa da tal foto que apareceu durante a transmissão da partida. Devem estar loucos para saber quem era a dona daquelas lindas pernas, mas eu não estava com humor para questionamentos e acho que minha expressão fechada deixou isso bem claro, pois ninguém falou nada.
Eu busquei Claire na escola e passei em um restaurante para pegar o jantar. Não estava com vontade de comer minha comida hoje e, às vezes, é bom deixá-la comer um pouco de carboidratos.
Foi aí que as coisas começaram a ficar esquisitas.
Assim que entrei em casa, comecei a ouvir uma voz masculina desconhecida e o dono dela não parecia estar nem um pouco feliz dado o seu tom.
— ...tem mentido pra mim esse tempo todo. Eu não vou aturar mais isso. Seu tempo aqui acabou.
Quem é esse? E com quem está falando? Eu segurei a mão de Claire enquanto seguia para a sala de onde parecia que vinha o som.
— Eu decido quando eu vou embora, velhote, e não você – a voz de Rose soou irritada. – Já disse que não tenho medo de você.
Velhote? Seria esse o tal homem sobre quem Ivan falou na festa? O tal que lhe deu as joias? Então Rose realmente tem um amante rico? Eu não vejo nenhuma outra opção dela conseguir aqueles diamantes sem ser assim. Mas o que ele está fazendo na minha casa e ainda por cima a ameaçando?
Assim que chegamos à entrada da sala, eu impedi que Claire corresse até Rose ao avistar um homem alto parado em frente a ela e de costas para onde eu estava. Por sua postura, ele estava muito irado, apesar de a morena não parecer se importar muito.
— Já chega – o homem segurou o braço de Rose com certa violência e senti a raiva se apossar de mim. Quem ele pensa que é pra encostar nela dessa maneira? Ninguém tem permissão para tratá-la assim. Quem quer que seja. – Eu tive calma com você nos últimos sete anos e permiti essa sua loucura, mas minha paciência acabou. Você vai entrar naquele jatinho comigo agora e eu vou te levar pra casa.
Sete anos? Ela está com ele a todo esse tempo? Eu ainda não consegui ver o rosto do homem, mas pelo porte ele parece ser bem mais velho. Será que é disso que ela gosta? Homens mais velhos? Por isso parece estar sempre fugindo do Ivan? Faria sentido, já que eu nunca a vi com ninguém. Uma mulher dessas não pode ficar sozinha por tanto tempo.
Se bem que eu poderia jurar que na festa Rose estava com tanta vontade de me beijar quanto eu queria beijá-la. Ela não parava de olhar pra minha boca, e... Espera!
Ele disse jatinho? Que jatinho? Para onde ele pensa que vai levar minha Roza?
— Com licença – eu disse em alto e bom som, me fazendo ser notado, após mandar Claire para a cozinha com o jantar. – Posso saber o que está acontecendo na minha casa?
— Ah, então você é o idiota que está se aproveitando da minha garota? – ele se virou na minha direção e eu encarei um homem alto de meia idade. Ele tinha um olhar de ódio na minha direção.
— Sua garota? – minha voz saiu praticamente como um rosnado por conta da irritação e olhei em direção a ela com certa mágoa. Então ela realmente é amante desse velho?
Mas que direito eu tenho de cobrar algo de Rose? Ela não é nada minha, é apenas a babá de Claire.
— Sim. Ela é minha garota – ele devolveu em um tom ameaçador avançando em minha direção, mas não deixei me intimidar. Eu posso dar conta desse velho.
Só que Rose entrou na frente, provavelmente com medo que eu acabasse machucando aquele papa anjo.
— Velhote, pára com isso – a morena pediu com uma voz doce que me irritou mais ainda. – Por favor, me ouve.
— Rose... – eu só queria que ela saísse da frente antes que eu mesmo a arrancasse dos braços daquele esquisito. Minha raiva era tanta ao vê-la praticamente o abraçando que nem ouvi o que ela falou a seguir que o fez parar.
— Droga, Rosemarie – o homem pareceu se desarmar sob o olhar da garota. – Não me olhe assim enquanto eu tento bater no idiota que acha que pode se aproveitar da minha filha.
— Sua filha?
Que merda é essa que está acontecendo? Esse é o pai dela? O que ele está fazendo aqui? E por que quer me bater? Desde quando eu estou me aproveitando dela? Na verdade eu até queria, mas nunca fiz nada inapropriado. Será que ele consegue ler mentes?
Depois disso, eles começaram a conversar em uma língua que eu não entendia. Turco, eu suponho. Eu nunca me senti tão perdido em minha própria casa.
Rose tratou logo de despachar seu pai, mas ele não saiu sem antes me ameaçar e ainda tomar um chute de minha filha.
Eu mandei que Claire pedisse a Kirova que a servisse antes de ir embora, pois precisava conversar com a Rose à sós e me sentei no sofá para aguardar que retornasse.
Então comecei a repassar aquela conversa estranha e tudo que absorvi sobre o pai da morena. É impressão minha ou a babá da minha filha é rica?
— Se você for me demitir me avisa logo pra eu poder aproveitar a carona do meu pai – ouvi a voz incerta de Rose vinda da porta. Eu estava tão perdido em meus pensamentos que nem havia notado que ela tinha retornado.
Eu logo me levantei e parei na sua frente.
— É claro que eu não vou te demitir. – Na verdade eu queria sacudi-la, abraçá-la, amarrar no pé da cama, qualquer coisa para impedir que ela fosse embora. Que ideia é essa? – Mas por que você não me contou?
— Porque você nunca perguntou – ela respondeu como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. Claro, como se eu fosse adivinhar isso.— E sempre que a gente começava a falar sobre qualquer coisa do tipo você dava um jeito de fugir ou nós éramos interrompidos.
— Eu... eu sinto muito – murmurei pensando em todas às vezes que ela começou a falar sobre a família e eu resolvi me afastar por temer aquele tipo de intimidade com ela.
— Creio que temos muito o que conversar, camarada – ela suspirou.
— Pai – Claire apareceu na entrada da sala. – Eu terminei de comer, posso ir brincar com o Capitão Willy?
— Primeiro faça a lição de casa – eu instrui ao ver a garota correndo escada acima, então voltei a olhar para Rose. – Talvez nós devêssemos comer.
Ela concordou com um aceno e seguimos para a cozinha onde lhe servi com um pouco de pasta italiana que havia comprado na cantina.
— Pode começar – falei lhe empurrando o prato e servindo outro para mim.
— Nem sei por onde eu começo – Rose deu um sorriso constrangido, olhando para a comida a sua frente.
— Quem sabe pelo motivo de você estar trabalhando como babá se seu pai tem um jato particular – instiguei me sentando ao seu lado.
— É uma longa historia – ela começou a brincar com macarrão usando o garfo, claramente nervosa.
— Acho que vamos ter bastante tempo – sorri para encorajá-la.
Rose, então, me deu um resumo sobre sua vida e os negócios de seu pai enquanto jantávamos. Pelo que entendi, o tal Abe é dono de uma luxuosa rede de hotéis e cassinos em Vegas e ela cresceu em uma casa tão grande quanto essa, ganhando mais do que eu lhe pago apenas como mesada.
Aparentemente o pai queria mantê-la debaixo de sua asa e sonhava que ela assumisse seus negócios, mas não era o que Rose queria para si então ela literalmente fugiu para a Flórida. Quando os pais descobriram é claro que não aprovaram sua decisão e ameaçaram cortar seus privilégios, mas Rose não se importou e começou a se virar por conta própria. Mesmo depois, quando voltaram atrás, ela não aceitou sua ajuda e deu um jeito de se sustentar sozinha até ali.
Eu não sabia se a achava completamente estúpida por ser teimosa a esse nível ou se a admirava por ser tão independente e dona de si.
Mas uma coisa eu não podia negar: a fúria do homem era totalmente justificada. Como eu me sentiria se a Claire agisse dessa forma? Só de pensar em minha menininha saindo de casa para cursar faculdade onde quer que fosse já sentia um calafrio.
E foi então que me dei conta de algo muito importante. Rose não precisa desse emprego. Ela estava ali porque realmente queria estar. A morena poderia ter ido embora naquele dia do furacão e com certeza teria uma vida melhor do que tem aqui. E se na próxima vez que eu falar algo errado ela cumprir essa ameaça? Eu tenho que ser cuidadoso. Não posso permitir que saia assim da minha vida, não a essa altura.
— Tem mais uma coisa – ela disse um tanto temerosa após terminar a comida. – Sobre como meu pai me descobriu aqui...
— Sim?
— Então... Eu....
— Rose, só fale. O que aconteceu?
Ela suspirou pegando o celular do bolso e procurando algo.
— Bem, isso aconteceu – a garota me entregou o aparelho. Ali estava o blog da maldita Jill Dragomir e uma foto nossa. Uma foto completamente comprometedora de quando estávamos dançando. Fico admirado que o pai dela não estivesse mais irado. No lugar dele eu seria incapaz de responder por meus atos.
— Maldita – murmurei enquanto lhe entregava o celular de volta.
Droga, isso não é bom. Eu preciso falar com a Vikka. Eu peguei meu celular já mandando uma mensagem para ela.
— Eu realmente tive vontade de bater na Jill por isso – Rose disse sem graça. – Eu queria enfiar a cabeça dela no teclado do próprio notebook, mas todos parecem achar que isso não é uma boa ideia.
— Eu acho que é uma ideia original – comentei rindo. – Mas duvido que impediria que seu pai visse.
— Mas iria ajudar a me acalmar – ela deu de ombros.
— Eu sinto muito que você tenha sido envolvida nisso, Rose – suspirei. – Como você mesma viu, ela é uma grande fã.
A campainha tocou logo em seguida, chamando nossa atenção.
— Eu atendo – ela se levantou sorrindo. – Não quero que você seja surpreendido por mais nenhum membro maluco da minha família.
Enquanto a morena foi atender a porta, eu comecei a arrumar a cozinha e trocar mensagens com a Vikka. Ela estava a ponto de matar Jill.
Rose ressurgiu, sendo seguida por Lissa. Era a primeira vez que via a garota ali e o fato dela ser uma Dragomir não me animou muito.
— Dimitri, nós estaremos lá fora se você precisar de algo – Rose sorriu de forma animada. Parecia realmente contente em encontrar a amiga.
— Olá Dimitri – Lissa disse timidamente. – Desculpe incomodar, mas eu precisei checar Rose depois que ouvi que Abe esteve aqui.
— Oi. Não tem problema. Você é bem vinda para visitar Rose sempre que quiser – dei um rápido sorriso. Ela não tem culpa da irmã que tem e, agora que sabia que podia perder a morena em um piscar de olhos, não me oporia com sua presença ali se isso a fizesse feliz.
— Eu... Eu sinto muito pela minha irmã – a loira continuou. – Eu acho que ela caiu do berço quando era pequena, sabe...
Não pude deixar de rir com isso.
Eu subi e ajudei Claire com a lição de casa antes de ir para o meu quarto. Após um banho que era pra ser relaxante me deitei para descansar, mas não consegui dormir. Só conseguia pensar no quanto esse dia tinha sido revelador.
Na manhã seguinte voltamos à rotina de sempre e esperava ter um dia mais tranquilo que o anterior.
Pelo menos no CT as fofocas sobre Rose e eu pareciam ter sido esquecidas já que os rapazes do time estavam um pouco alvoroçados por estarem planejando alguma festa para nossa próxima folga a qual incluía a participação das cheerleaders. Não dei muita importância a isso já que meu tempo de algazarras havia acabado, agora tenho uma filha para criar.
Porém, minha paz se esvaiu à hora do almoço, quando Vikka entrou como um furacão no refeitório chamando atenção de alguns jogadores. Eu imediatamente abandonei meu prato e a segui até uma sala de reuniões vazia, pois sabia que com ela tão irritada assim, boa coisa não sairia dali.
— Eu não sei o que fazer – ela jogou as mãos para o alto. – Eu realmente estou perdida diante dessa situação. Não sei se solto uma nota de esclarecimento ou se simplesmente ignoro as fofocas e espero passar.
— É tão ruim assim? – respirei fundo. Imediatamente o celular dela começou a tocar e minha irmã fez um gesto para o aparelho, desligando-o.
— Está assim a manhã inteira – Vikka revirou os olhos. – Querem saber o que está acontecendo. E é claro que não vão acreditar se eu falar que ela é apenas a babá.
— Não vejo porque não acreditariam? – dei de ombros. Será que é tão difícil assim? Por mais que a minha vontade fosse outra, nada aconteceu entre nós de fato.
— Dimitri – ela me fuzilou com os olhos. – Você estava prestes a beijá-la.
— Você está maluca? – perguntei com um ultraje fingido. Bem, eu estava prestes a beijá-la, mas é um absurdo que minha irmã caçula sequer pense que eu era capaz disso.
— Isso não importa agora – Viktoria disse depois de me olhar atentamente por alguns segundos. – A questão é: como essa maldita conseguiu a foto? A imagem está muito boa para ter sido tirada por um celular. E, além disso, ainda temos a outra foto na qual Rose aparece do seu lado. Ela tinha mesmo que ter se enfiado bem ali? Não podia pensar um pouco?
— Na verdade ela fez de propósito – expliquei lembrando da péssima situação em que eu me encontrava. – A Dragomir queria tirar uma foto comigo e eu estava extremamente desconfortável com isso. Rose percebeu e pediu pra trocar de lugar com ela.
— Quem tirou essa foto?
— O fotógrafo do casamento.
— Ótimo, mais um para eu processar – ela disse pensativa. – Vou conversar com o Adrian e ver quais as possibilidades. E pode ter certeza que dessa vez essa doida não me escapa, quem sabe assim ela aprende a não se meter na vida das pessoas.
— Você acha que isso é necessário? – perguntei. – Um processo só vai atrair ainda mais atenção sobre mim.
— Talvez... – Vikka revirou os olhos antes de me analisar com cuidado. Ela sabia que o que eu falava era verdade, mas se sentia bem em pelo menos poder ameaçar alguém. – Dimitri, você realmente confia na Rose?
— Como assim? – sua pergunta me pegou desprevenido.
— É que toda essa historia parece perfeita demais para ter acontecido ao acaso – ela me deu um olhar significativo. – Rose é a pessoa que mais tem a ganhar com isso.
— Vikka – soltei em tom de aviso. Ela não podia sequer estar cogitando algo assim
— Qual é, Dimitri. Admito que ela está sendo ótima com a Claire, mas não podemos ignorar o fato de que ela conhece a Jill desde criança. Fala sério, uma babá recém formada que não tem onde cair morta de repente é apontada como envolvimento romântico de um Quarterback famoso? É conveniente demais a ela.
— Nunca mais pense em insinuar uma coisa dessas – abaixei meu tom, me segurando para não gritar com minha irmã. Ela não fazia ideia do que estava dizendo e a forma como julgou a morena fez meu sangue ferver. Tudo bem que eu mesmo já cai nessa armadilha antes, mas isso não voltaria a se repetir. – Rose jamais faria uma coisa dessas. Ela não é assim. E, além disso, ela não precisa de nada disso. Poderia muito bem largar tudo a hora que bem entendesse.
— Como assim não precisa de nada disso? – minha irmã perguntou confusa. – Ela é só uma babá.
— Era o que eu achava até ontem – suspirei. – Eu cheguei em casa e, bem, o pai dela estava lá.
— Você conheceu o pai dela? – Vikka me perguntou chocada. – E o que ele estava fazendo lá? Ele costuma visitá-la?
— Não. E ele estava furioso por conta dessas fotos. Quando eu cheguei em casa, dei de cara com um homem de meia idade gritando com ela e ameaçando levá-la embora.
— E por que ele estava tão irritado?
— Ela não tinha contado pro pai que estava trabalhando como babá. Aparentemente ele achava que Rose estava trabalhando na área dela e, quando viu a tal foto, veio direto da Pensilvânia para arrastá-la de volta pra casa.
— Ainda não entendi qual é o problema dela trabalhar como babá – ela deu de ombros.
— O tal Abe é um grande empresário do ramo hoteleiro... – contei então o que Rose me explicou ontem. – E ela é a única herdeira de tudo.
Viktoria parece ter ficado tão atônita quanto eu e ficou alguns minutos digerindo a informação.
— Isso explica as joias da festa – ela balbuciou. – E eu achando que ela tinha um caso com alguém rico.
— Também pensei isso – declarei com desgosto percebendo quão maldosos poderíamos ser. – E o que mais tem a dizer a respeito?
— O que mais eu diria? – Vikka deu de ombros. – Que ela é maluca? Bem, acho que está bem claro que ela é. Mas admito que admiro a garota por gostar de ser independente. Ela provavelmente não quer viver como uma herdeira, quer trabalhar para conseguir o próprio dinheiro, e isso é meio que... incrível, eu acho.
— Ela é incrível – não pude deixar de sorrir recebendo um olhar curioso da minha irmã.
— Estou percebendo – ela sorriu ao se levantar. – Olha, eu vou cuidar de tudo com a Jill, mas tente não ser visto com Rose. Nós não devemos alimentar isso, de qualquer maneira.
Depois que minha irmã foi embora, eu retornei ao treino achando que enfim as coisas se resolveriam. O dia foi bem puxado e quando saí só queria a minha casa, mas tive que lidar com mais uma visita inesperada.
Ivan estava encostado em meu carro no estacionamento e tinha cara de que não estava de muito bom humor.
E agora essa...
— Ivan... Está tudo bem? – perguntei ao me aproximar.
— Nós precisamos conversar, Dimitri – ele disse me avaliando.
— Ok – respondi em dúvida. – Vamos pra minha casa?
— Não! – ele se apressou em dizer. – Eu... Eu prefiro conversar aqui. E serei rápido.
— O que está acontecendo? – insisti quando vi que ele não ia falar mais nada, só ficava ali me observando.
— Eu vi a foto, Dimitri – Ivan continuava com uma expressão séria. – Você tem algo a me contar?
— Puta que pariu! – exclamei irritado em russo. – De novo essa história?
— O quê? – ele me fitou.
— Eu só dancei com ela, Ivan. Da mesma forma que você dançou depois.
— Ela é minha amiga, Dimitri – Ivan disse em tom de aviso. – Mas você é o patrão dela. E na foto parecia...
— Não está acontecendo absolutamente nada entre nós – revirei os olhos me sentindo um pouco exasperado com Ivan. Por que ele tem todo esse interesse? E mesmo se estivesse acontecendo algo, não é da conta dele.
— Tem certeza? – ele me avaliou com cuidado.
— Claro que sim – respondi apesar disso fazer um estranho sentimento de culpa crescer dentro de mim. Mas, por que estou me sentindo assim? Eu não menti.
— Ela deve ter ficado irritada – sua expressão se suavizou diante de minha reafirmação e me senti pior.
Pára, Dimitri! Não é como se Ivan fosse o namorado dela ou algo assim. E eu não estou sendo desleal. Nada acontecia realmente entre Rose e eu.
— Piorou quando o pai dela apareceu em casa – suspirei buscando afastar aqueles pensamentos.
— Abe esteve na sua casa? – Ivan perguntou surpreso e eu lhe dei um breve resumo. – Cara, eu não gostaria de estar no seu lugar. Aquele homem sabe assustar alguém. Ainda me lembro da formatura da Rose, quando ele me convidou a ir até a casa dele na Pensilvânia pra me mostrar a sua sala de armas.
— Aparentemente Rose teve a quem puxar na criatividade com ameaças – sorri ao me lembrar da garota querendo bater a cabeça da Dragomir com o notebook.
— Qual foi a ameaça? – Ivan sorriu
— O quê?
— O Abe, o que ele te falou?
— Ele ameaçou cortar minhas mãos pra que eu nunca mais jogue.
— Ah sim, essa foi boa – Ivan gargalhou. – Aposto que ele usa o mesmo método com quem ele pega trapaceando em um dos cassinos dele.
— Por que você nunca me contou que ela era uma herdeira? – acabei soltando em tom de acusação. O fato de Rose não ter me contado era em grande parte por minha culpa, mas Ivan poderia ter dito, afinal ele é meu amigo.
— Bem, acho que você já percebeu o quanto aquela mulher é teimosa, não é? – meu amigo respirou fundo. Ele não fazia ideia do quanto. – Rose nunca quis depender de ninguém e detesta que se metam na sua vida. Eu mesmo só fui descobrir isso depois de algum tempo, então achei que ela não iria gostar se eu saísse contando. Por isso preferi que a iniciativa partisse dela.
— Entendo – eu disse após um tempo. Realmente não poderia cobrá-lo por não ter falado nada. A vida é dela. – Olha, Ivan, eu preciso ir pra casa, o dia foi bem puxado hoje. Tem certeza que não quer ir visitar a Claire? Ela iria adorar isso.
— Não vai dar. Eu tenho um encontro agora... Com a dama de honra da Syd.
— Achei que você tivesse saído com ela da festa – comentei despreocupado. – Vai sair com ela outra vez?
— Fazer o quê? Ela é legal – ele deu de ombros. – E a Syd disse que se eu não desse uma chance pra prima dela, me esfolaria vivo. Aquela baixinha sabe assustar.
— Você não muda – sorri e entrei no carro após me despedir.
O resto da semana passou voando. Pouco a pouco a fofoca por causa da tal foto começou a morrer e Vikka esqueceu de seus processos.
No sábado, Rose apareceu no treino aberto para a família com Claire e novamente atraiu bastante atenção. Eu não gostei nem um pouco de vê-la ao lado de Eddie e Mason durante os intervalos. Eles pareciam bem enturmados e estavam muito a vontade juntos. E Jesse... Bem, aquele idiota a seguia com o olhar aonde quer que fosse. Eu queria pessoalmente tirar aquele sorriso de seu rosto quando decidiu se aproximar dela, mas a morena fez um bom trabalho o rejeitando.
Domingo jogamos em casa e tivemos mais uma grande vitória o que deixou o time ainda mais sedento pela comemoração planejada para segunda a noite. Eu tinha deixado claro que não iria, mas quando o dia chegou quase repensei minha decisão, já que Claire havia ido pela manhã passar um tempo com a mãe que voltou de mais uma viagem e não havia mais nada o que fazer em casa.
Rose acabou não jantando comigo, pois alegou ter feito um lanche mais cedo e isso parece ter tornado minha noite ainda mais vazia. Eu não conseguia parar de pensar no quanto queria a companhia da morena e comecei a cogitar a possibilidade de convidá-la para assistir algum filme novamente. Eu poderia deixá-la escolher qualquer coisa que ainda assim seria bom.
Quem sabe poderíamos usar a sala de cinema e... Não, melhor não! Isso não seria nem um pouco apropriado. Eu poderia pensar em muitas coisas para fazer com Rose naquela sala e eu não preciso me testar dessa maneira.
Como se meus pensamentos a chamassem até ali, Rose surgiu na cozinha quando eu terminava de colocar a louça na máquina e... Puta que pariu! Que roupa é essa que ela está vestindo? Ou melhor... O que ela não está vestindo?
Era um vestido tomara que caia extremamente curto exatamente da cor da pele dela com detalhes brancos, dando a impressão que aqueles desenhos estavam marcados diretamente em sua pele.
Deus, quando eu penso que Rose não pode testar mais o meu auto controle... Eu podia jogá-la em cima daquela bancada e... Merda! Eu não posso pensar isso.
— Dimitri? – Ela me perguntou e eu percebi que devia estar olhando fixamente para ela há algum tempo. – Você me ouviu?
— Desculpe... O que você disse? – eu não conseguia desviar os olhos daquele corpo incrível e estava precisando de muito de mim para não me mover em sua direção a qualquer segundo. Sorte minha que eu estava do outro lado da bancada porque não havia como disfarçar o efeito imediato que ela me causou.
— Eu vou sair – ela deu um sorriso envergonhado parecendo resumir tudo o que tinha dito anteriormente. – Te vejo amanhã?
— Claro. Até amanhã – eu disse automaticamente, mais uma vez a checando e... Ei! Aonde ela pensa que vai em uma segunda a noite vestida dessa maneira?
Eu quase fiz essa pergunta em voz alta enquanto assistia Rose saindo e me refreei no último segundo. Que direito eu tinha de cobrar explicações dela? Amanhã era sua folga também e ela podia fazer o que bem entendesse.
Tentei então me distrair assistindo o fim da partida do Monday Night Footbal¹, depois troquei de canal para algum filme, então peguei um livro para ler, mas nada daquilo estava prendendo a minha atenção. Eu precisava saber onde ela foi. Será que pretendia passar a noite toda fora? E com quem?
Aquelas questões estavam me consumindo. Eu acho que iria esperá-la acordado para tentar descobrir... Se bem que isso não seria nada adequado. A não ser que Rose não soubesse que eu a estava esperando...
Minha linha de pensamentos foi interrompida por uma ligação de Mikhail. Que estranho! Ele disse que ia para a tal festa. Por que diabos estava me ligando?
— Dimitri – ele me saudou alegre e ouvi o som alto ao fundo. – Por que você não está aqui?
— Eu disse que não iria, Mikhail – revirei os olhos. Quer dizer, eu até cogitei ir por um segundo, mas agora estava mais interessado em esperar a morena voltar.
— Você realmente deveria estar aqui – ele riu. – Você não sabe o que está perdendo. Rose sabe mesmo aproveitar uma festa.
Espera. O quê? Ele disse Rose? Minha Rose? Quer dizer, não exatamente minha...
— Rose? – perguntei para confirmar.
— Sim – Mikhail gargalhou já parecendo meio alto. – Ela fez amizade com as cheerleaders, e olha, eu preciso te dizer... Elas estão dando um show aqui hoje, principalmente Rose. Você deveria...
— Estou indo – cortei-o irritado, desligando o telefone.
Que historia é essa dela fazer amizade com as cheerleaders? E que tipo de show ela está dando nessa festa? Se bem que com aquela roupa ela não precisaria de muito para ser a atração princip... Meu Deus! Ela está naquela festa com aquele vestido???
Não por muito tempo!
_________
¹ Monday Night Football é o nome dado a transmissão do jogo que acontece na segunda-feira a noite. A maior parte das partidas ocorre nos domingos, mas todos os times jogam uma vez na temporada na segunda e outra na quinta, fora o sorteio para as datas especiais. Há sempre alguns times que jogam na Ação de Graças, outros no Natal e outros no primeiro dia do ano.
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