The Big Play
17 Capítulo 17 – Girls Just Wanna Have Fun
That's all we really want some fun
When the working day is done
Oh girls they wanna have fun
Cyndi Lauper
Alguns dias após a primeira grande vitória do time de Dimitri, estava andando pela casa tentando arranjar algo para fazer a fim de me distrair em minha folga, quando o russo me chamou em seu escritório. Comecei a praguejar mentalmente, já imaginando que ele iria reclamar sobre a maldita foto que Claire me fez postar no domingo, mas o homem apenas me entregou uma carta.
— O que é isso? – perguntei pegando o envelope que parecia grande demais para ser uma simples carta.
— Não sei – ele deu de ombros, apesar de me olhar com curiosidade. – Estava no meio da minha correspondência.
Isso é estranho, ninguém me manda carta nenhuma. Muito menos ali.
Não aguentei esperar sair do escritório e abri o envelope ali mesmo, sendo surpreendida pelo convite de casamento de Adrian.
Bem, isso era ainda mais esquisito. Tudo bem que eu saí algumas vezes para beber com ele e Ivan, mas não esperava ser convidada para o evento. Eu só vi a noiva uma vez na vida.
— É o convite de casamento do seu primo – comentei para um Dimitri que me olhava de forma inquiridora.
— Ele te convidou? – o russo pareceu igualmente surpreso.
— É o que diz aqui – respondi. – Acho que preciso comprar um vestido novo e bem rápido. Tenho menos de duas semanas.
Comecei a virar as costas, porém Dimitri me chamou quando estava a meio caminho da porta.
— Rose? Eu... Bem, eu não ia te pedir isso, mas já que você também foi convidada, será que podia me ajudar a vestir a Claire? – ele perguntou sem jeito. – Eu não faço ideia de como fazer isso de forma adequada.
— Claro, eu dou um jeito nisso – concordei com um sorriso.
— Eu imagino que você não vai conseguir colocá-la num vestido, mas tente encontrar algo que sirva.
— Ei, eu consigo colocá-la em um vestido – devolvi ofendida. Aquilo seria um verdadeiro desafio, mas eu com certeza conseguiria.
— Isso eu duvido muito – o russo deu um pequeno sorriso, daqueles que me fazia perder o fôlego por alguns segundos.
— É um desafio? – semicerrei meus olhos ao me recuperar.
Dimitri apenas balançou a cabeça e não me respondeu, me olhando com diversão.
— Eu vou te ensinar a nunca duvidar de mim, camarada – disse antes de sair do escritório.
Só que a coisa foi ainda mais difícil do que eu imaginava. Revirei o guarda roupas de Claire e, após descartar alguns vestidos pequenos demais para ela e outros simples demais, não consegui nem sugerir que ela provasse os que separei. A menina ficou realmente irada por simplesmente me ver remexendo naquelas roupas e tive de inventar a desculpa de que apenas estava tirando as que não serviam mais para doação.
No final de semana Dimitri acabou tendo outro jogo fora e Tasha ficou com Claire o que me impediu de levá-la para as compras. De qualquer forma eu mesma não achei nada de interessante para vestir nas lojas que fui e isso começou a me preocupar já que o casamento seria no sábado seguinte. Pelo que Ivan me explicou, Sydney e Adrian marcaram essa data justamente porque o Buccaneers jogaria na quinta em casa. Aparentemente metade dos padrinhos eram jogadores do time.
Só que o fato de o russo ter dois jogos tão próximos um do outro acabou por me deixar sem folga naquela semana e fiquei ainda mais desesperada porque além de não ter uma roupa para Claire, que estava irredutível sobre ir à festa de calça jeans, não tinha uma roupa para mim.
Foi por isso que apelei para Dimitri deixar que Claire faltasse à aula na sexta feira a fim de resolver esse assunto. Era a minha última chance e por isso tive de bolar uma boa tática para convencer a menina do que eu queria. Só esperava que aquilo funcionasse.
Eu a acordei na sexta no horário de sempre e quando ela começou a vestir o uniforme, a interrompi.
— Não vamos a escola hoje – disse dando um grande sorrindo
— Não? – ela perguntou confusa. – Meu pai não vai gostar.
— Eu me resolvo com ele – dei de ombros antes de escolher uma calça jeans e uma camiseta qualquer para a garota que ficou instantaneamente animada. Nem comentei que ele havia deixado, pois Claire, como eu quando tinha a idade dela, parecia sempre gostar mais do que era errado. – Hoje nós teremos um dia de garotas.
— Sério? – o olhar de Claire murchou na hora. – Isso parece ser ainda mais entediante que a escola.
— Eu já te fiz fazer algo entediante? – perguntei olhando-a de forma sugestiva e a deixei momentaneamente pensativa.
— O que se faz em um dia de garotas?
— Muitas coisas divertidas – sorri. – Nós vamos passar a manhã em um salão de beleza sendo completamente mimadas, depois almoçamos e tomamos um sorvete na beira da praia. E eu preciso da sua ajuda para escolher um vestido para o casamento de amanhã. Não tenho nada para vestir.
— Sorvete? – ela perguntou subitamente interessada. – E nós vamos poder comer o que a gente quiser no almoço?
Dimitri raramente deixava a garota comer besteiras e percebi que tínhamos mais uma coisa em comum. Ambas éramos facilmente compradas com comida. Bom saber.
— Nós podemos fazer o que a gente quiser – dei uma piscadela. – São só as garotas hoje. Seu pai não tem direito a dar nenhuma opinião.
— Certo – Claire concordou. – Vamos.
Nós seguimos até um salão no centro de Tampa e realmente passamos a manhã toda ali. Fizemos uma massagem nos pés e depois as unhas enquanto passávamos por todos os tipos de tratamentos capilares possíveis. Conversamos o tempo todo e Claire parecia estar gostando muito até que a manicure tentou aplicar esmalte em suas unhas.
— Ei, você não precisa pintar se não quiser – falei. – Eu mesma só vou passar base e mais tarde decido o que vou fazer.
— Ok – ela sorriu aliviada. Apesar disso, a garota realmente parecia estar se divertindo.
Nós almoçamos em um restaurante a beira da praia, onde ela insistiu em se entupir de batatas e hambúrguer. Se ela soubesse o quanto o pai dela é bom fazendo isso...
— Minha mãe nunca come essas coisas – Claire sorriu dando uma colherada no sundae que compramos na sorveteria ao lado. – Ela diz que engorda só de olhar.
— Sua mãe não sabe o que está perdendo – eu disse com cumplicidade, fazendo-a rir.
Então finalmente partimos para a parte difícil da missão, uma vez que encontrar um vestido para mim estava se provando um desafio tão grande quanto encontrar algo para Claire. Todo o tempo ela fazia caretas e colocava defeito naqueles que eu provava. A vendedora aprendeu rápido que quando a menina falava que eu estava parecendo uma princesa isso não era um elogio.
— Por que você tem que usar um vestido? – ela perguntou frustrada enquanto eu colocava o que pensava ser o sexto vestido.
— Porque eu fico bonita num vestido, você não acha?
— Em alguns até que fica – Claire deu o braço a torcer.
— Então, é só uma questão de achar aquele que se encaixa no seu gosto. Você nunca pensou em usar um? – perguntei. – Quero dizer, um que você realmente gostasse?
— Eu não quero ficar parecendo uma princesa ou uma boneca – ela resmungou do lado de fora do provador quando saí para me olhar melhor no espelho.
Aquele vestido era simplesmente lindo, em um tom azul turquesa, longo, com uma fenda até metade da coxa, decote em forma de coração e deixava minhas costas totalmente nuas. Creio que esse era o último que eu iria provar. Estava perfeito.
— Eu não estou parecendo uma princesa agora, estou? – comentei, olhando Claire pelo espelho que me olhava embasbacada.
— Não, você tá linda – ela disse me encarando com os olhos arregalados. – Você tem que comprar esse vestido.
— Está vendo – sorri de forma triunfante. – Eu consegui escolher um sem ficar parecendo uma princesa. Por que você não tenta também?
— E se eu não encontrar nenhum? – Claire me lançou um olhar desconfiado antes de eu fechar a porta do provador para me trocar.
— Então você não precisa comprar nenhum – respondi. – Mas não custa nada tentar, não é?
— Ok – a menina respondeu em um suspiro rendido após um grande silêncio e me contive para não fazer uma dança da vitória ali mesmo. Calma Rose, você ainda não venceu.
Nós seguimos para o setor infantil e deixei que Claire explorasse à vontade. Eu mesma vi uns cinco vestidos que iriam ficar lindos nela, mas achei melhor que ela mesma tomasse a iniciativa.
— Sua filha parece ser muito independente – a vendedora me falou enquanto a garota observava uma arara com o nariz torcido. – Quantos anos ela tem?
— Ela tem sete – respondi sorrindo. – Mas ela não é minha filha, eu sou a babá.
— Eu poderia usar esse – Claire apontou para um vestido no mesmo tom azul turquesa que o meu com detalhes em renda preta. Não era cheio de frescuras e babados como alguns outros, mas a delicadeza me surpreendeu.
— Com certeza este vai ficar lindo – a vendedora se adiantou. – Vamos prová-lo então?
— O quê? Eu não gosto de provar roupas – a garota fez uma careta.
— Vamos Claire, nós temos que saber se serve antes de comprar – pedi com cuidado.
— Ah, então deixa pra lá. Melhor eu ir de jeans mesmo – ela deu de ombros, já virando as costas.
— Não! – exclamei pegando o vestido e o observando. – Eu acho que esse serve.
— Sim – a atendente veio em meu socorro. – Com certeza serve.
— Em casa você experimenta ele – suspirei para Claire que parecia bem satisfeita em conseguir o que queria. Ela podia ser extremamente geniosa quando quer. – Vamos levar os dois.
Após acertar nossas compras, seguimos para casa. Eu estava simplesmente exausta, apesar de bem satisfeita comigo mesma. Pelo menos consegui fazer a garota escolher um vestido. Só espero que ela o use amanhã.
Assim que estacionei na garagem, Claire fez menção de correr para dentro, porém parou à porta.
— Rose – ela me chamou quando abri o porta malas para retirar as compras.
— Sim?
— Eu me diverti hoje – a menina sorriu e correu para dentro, me fazendo rir de sua atitude.
Eu subi para o meu quarto a fim de guardar o vestido e segui para o quarto da Claire para colocar o dela no armário. Ao entrar lá, deparei com Dimitri sentado na cama com a filha, que contava todos os detalhes do dia, completamente animada.
— Boa tarde, Rose – ele sorriu. – Vejo que vocês duas tiveram um dia cheio hoje.
— Foi um dia de garotas, pai – Claire explicou. – E isso não é uma coisa chata como parece.
Ele levantou uma sobrancelha para mim, espantado com aquele comentário, mas apenas dei de ombros e me voltei para o armário para evitar ficar admirando-o. Oh, homem sexy, meu Deus!
— E o que você comprou para vestir? – o russo perguntou a Claire, apesar de eu sentir seus olhos ainda sobre mim, conforme terminava de guardar a roupa.
— É um segredo, você só pode ver amanhã. Mas é igual ao vestido da Rose.
Ao me virar, dei de cara com o olhar incrédulo dele e não pude me furtar de manter o suspense.
— Sinto muito, Dimitri – sorri ao piscar para ele. – Como você ouviu, é um segredo.
Voltei minha atenção para os sapatos de Claire, separando um preto que combinaria e fechei as portas do guarda roupas.
— Tia Vikka vai passar aqui amanhã cedo pra levar você pra se arrumar com suas primas – Dimitri avisou a garota.
— Ah, pai, mas eu não quero ir – ela resmungou, mas resolvi não participar daquele drama.
Segui para o meu quarto e separei um esmalte nude para passar nas unhas mais tarde, então peguei minha caixa de joias para escolher o que usar as que combinariam com o vestido. Estava tão absorta na minha tarefa,que nem percebi Claire entrar correndo no quarto.
— Rose, meu pai disse que eu posso me arrumar com você amanhã – ela disse animada, pulando na minha cama.
— Apenas se isso não for atrapalhar a Rose, Claire – Dimitri falou em tom de reprovação, me observando da porta do quarto.
O quê? Eu vou literalmente arrumar a garota para o casamento? Eu vou saber fazer isso?
— Por favor, Rose – a garota pediu em um tom suplicante e deu um sorriso inocente. – Nós podemos ter outro dia de garotas.
Eu olhei para ela e para Dimitri. Bom, eu nunca tive problemas em arrumar meu próprio cabelo e fazer uma maquiagem decente, então deixar a garota apresentável não deveria ser mais difícil que isso. Acho que eu consigo.
— Não tem problema – sorri para Dimitri. – Não vai me atrapalhar. Pode deixar que eu arrumo.
— Eba!! – ela exclamou em puro êxtase.
— Obrigado, Rose – ele deu um pequeno sorriso satisfeito antes de sair do meu quarto.
— Quantas joias lindas você tem – Claire declarou pegando um colar da caixa que estava aberta sobre a cama.
— Quer me ajudar a escolher uma para amanhã?
— Sim – ela disse com empolgação. – Como você comprou tudo isso?
Sorri com essa pergunta. Realmente eu tinha muitas joias ali e poderia ter me mantido por um bom tempo se resolvesse vender algumas, mas eram todas especiais. Meu pai me dá um conjunto novo a cada aniversário e eu simplesmente não poderia me desfazer disso.
— Foram presentes, na verdade.
— Do seu namorado? – a menina me perguntou com curiosidade.
— Do meu pai – respondi sorrindo.
— Uau! – ela exclamou, pegando uma pulseira de ouro e perolas que tinha algumas pequenas rosas douradas. Ela parecia absolutamente apaixonada pela peça. – Você tem que ir com essa.
— Não dá, ela não me serve mais – eu ri, pegando a pulseira entre os dedos. Era tão delicada. – Essa foi a primeira que meu pai me deu, quando eu tinha mais ou menos a sua idade.
— Que pena – ela pareceu desapontada, mas logo em seguida ergueu uma gargantilha de diamantes que Abe me deu há uns dois anos. – E esse?
— Esse é perfeito – sorri, procurando os brincos e o bracelete.
— Claire – Dimitri reapareceu na porta enquanto eu guardava a caixa no armário, deixando sobre minha cômoda o conjunto escolhido por Claire e a pulseirinha que ela tanto havia gostado. – Por que não deixa a Rose descansar um pouco?
— Mas nós estamos conversando – a garota reclamou.
— Você vai ter bastante tempo pra conversar com ela amanhã – ele insistiu. – Agora vamos, me ajude a preparar o jantar.
— Ok – ela suspirou e foi até a porta. – Você vai jantar com a gente, né Rose?
— Eu não perderia por nada – sorri.
Após o jantar, fiquei em meu quarto pesquisando alguns penteados simples pra fazer no cabelo da garota. Separei algumas sugestões para mostrar para ela no dia seguinte e logo fui dormir porque o dia seguinte seria ainda mais longo.
— Acorda Rose – fui levemente sacudida por pequenas mãos no que me pareceram apenas alguns minutos depois que me deitei.
Será que o gato entrou no meu quarto outra vez? Espera... o gato não falaria comigo. Eu abri os olhos para encontrar Claire ao meu lado.
— Claire, o que você está fazendo aqui? – resmunguei notando que o sol já brilhava lá fora. – Que horas são?
— Já é hora de acordar – ela sorriu de forma inocente. – Nós temos que nos arrumar!
— Claire ainda faltam... – chequei meu celular para ver que ainda era sete horas da manhã. Por que ela não fez isso nos dias que eu me atrasei para levá-la para a escola? – Faltam umas oito horas para o casamento.
— Mas eu não consigo mais dormir – ela reclamou. – Então vamos assistir um filme.
— Tá bom, eu vou me trocar – murmurei me levantando da cama ainda sonolenta.
— Não precisa – a menina começou a me puxar para a porta do quarto. – Vamos deitar na sala.
— Claire, espera. Eu não posso ficar de pijama – disse de forma mais eloquente. Não havia cabimento eu ficar desfilando pela casa vestida daquela forma. Já basta a vez que Dimitri me flagrou assim quando o gato mal feito resolveu atacar.
Coloquei uma camiseta qualquer e um short de malha e segui para a sala com a garota, mas nem consegui prestar atenção ao filme que ela colocou. Mal me deitei no sofá e adormeci ali mesmo.
— Claire, o que eu já te falei sobre acordar a Rose? – fui novamente despertada por um sussurro irritado com sotaque russo.
— Mas eu queria assistir tv – a garota choramingou e permaneci de olhos fechados. Quem sabe ninguém notasse que acordei e eu pudesse dormir um pouco mais.
— Você poderia ter vindo sozinha.
— É mais legal quando Rose está comigo.
— Você pelo menos deixou ela comer alguma coisa? – a voz de Dimitri estava cada vez mais próxima e eu jurava que ele estava me olhando, pois sentia um formigamento em meu corpo.
— Não, nós viemos assistir o filme, mas ela dormiu – Claire reclamou.
— Rose? – Eu senti a mão forte e quente do russo em meu ombro. – Rose?
Eu abri os olhos para encontrar um par de olhos chocolate me avaliando. Dimitri estava ajoelhado do lado do sofá e fui inundada por aquele perfume de loção pós-barba que já me era tão familiar.
— Você está com fome? – ele perguntou enquanto eu me sentava me espreguiçando.
— Que horas são?
— Dez horas – Dimitri não tirou os olhos de cima de mim e me senti subitamente esquentar. Por que após tanto tempo convivendo com ele meu corpo ainda reagia dessa forma? – Sinto muito pela Claire.
— Tudo isso? – soltei enfim me focando em outra coisa que não o homem lindo à minha frente. Não planejava dormir tanto assim. – Claire já comeu?
— Sim. Você está com fome? – ele repetiu a pergunta.
— Eu me viro, obrigada – eu sorri me levantando. Na verdade eu tinha que começar a nos arrumar logo.
Pedi para Claire ir tomar banho enquanto eu tomava café da manhã e logo que retornei ao quarto, ela se sentou em minha cama para eu secar e modelar seu cabelo em alguns cachos suaves com meu modelador. Depois pintei as unhas dela no mesmo tom nude que usaria nas minhas e mandei-a almoçar com o pai, aproveitando para tomar meu próprio banho e esmaltar minhas unhas.
Quando ela voltou, fiz um penteado simples trançando apenas algumas mechas em cima e deixando o resto solto, para que pudesse ficar mais à vontade na festa. Eu vi que Claire estava totalmente animada com todo aquele processo, tanto que até me deixou passar um pouquinho de sombra perolada em suas pálpebras e um gloss rosinha claro.
Então foi a vez de arrumar o meu cabelo. Modelei-o em ondas e joguei por cima do ombro direito e fiz uma maquiagem leve, levando em conta que o casamento ocorreria no meio da tarde. Apenas dei um toque a mais nos olhos, valorizando o seu contorno natural.
Eu havia acabado de vestir Claire e observava meu ótimo trabalho quando uma pequena batida na porta nos interrompeu.
— Rose? – Dimitri chamou do outro lado. Claire revirou os olhos e foi atender.
— Hoje é um dia de meninas, pai – ela disse abrindo apenas um fresta da porta. – Você não pode entrar aqui.
Antes que o russo pudesse responder alguma coisa, ela fechou a porta e voltou a sentar na cama.
— Claire! – repreendi-a indo até a porta e encontrando o homem confuso do lado de fora. E que homem! Quando eu penso que Dimitri não pode melhorar, ele me aparece de terno.
— Eu só queria avisar que temos que sair em quarenta minutos – Dimitri informou um pouco desconcertado.
— Sem problemas – sorri sem graça por seu olhar em mim e apertei convulsivamente o robe de seda ao meu redor para não ficar muito indecente diante dele. – Estaremos prontas antes disso.
Terminei de calçar os sapatos de Claire, então pus meu vestido e ela me ajudou a fechar a gargantilha em meu pescoço. Coloquei os brincos e o bracelete e, para fechar o conjunto da obra, calcei sandálias em um tom dourado envelhecido.
Após nos observarmos no espelho e tirarmos uma selfies juntas, Claire estava prestes a sair do quarto para mostrar sua roupa ao pai quando a chamei.
— Ei, espera.
— O que foi? Faltou alguma coisa? – ela perguntou confusa.
— Na verdade ainda falta um detalhe em você – me aproximei para colocar a pulseira que ela tanto admirara em seu pulso. – Você não poderia ir sem nenhuma joia, não é?
A garota me encarou, aparentemente sem saber o que dizer.
— Como eu te disse, meu pai me deu isso há muito tempo – expliquei. – Agora eu quero dar pra você... Se você quiser, é claro.
— Sério? – um grande sorriso iluminou o rosto dela quando assenti. – Obrigada, Rose!
Ela me abraçou antes de sair correndo e dei um último retoque na maquiagem, pegando minha carteira no mesmo tom da sandália e segui o caminho até o andar de baixo a tempo de ouvir Claire.
— Pai, você tem que vir ver a Rose, ela está linda...
— Claire, eu estou indo. Não precisa me puxar – Dimitri reclamou.
Nesse momento eu cheguei ao fim da escada e quase bati de frente com o russo que vinha sendo arrastado por sua filha. Ele estacou onde estava, me avaliando demoradamente. Pude sentir seus olhos em cada detalhe em mim e com certeza a temperatura naquele ambiente aumentou consideravelmente.
E, por Deus, acho que eu não tinha reparado o bastante nele antes quando esteve na porta de meu quarto. O russo estava simplesmente perfeito com os cabelos bem alinhados e presos, com um terno que muito provavelmente fora feito sob medida. O homem parecia ainda mais alto e imponente vestido daquela forma e precisei de muita força de vontade para não me imaginar atacando-o nos próximos segundos.
— E olha a pulseira que a Rose me deu, pai – a voz de Claire foi um grande reforço para meu auto controle que por um instante esteve muito próximo de vacilar.
— Achei que você tinha comprado apenas o vestido – ele disse sem desviar os olhos dos meus. – Depois me diga quanto foi para que eu possa reembolsá-la.
— Ela não comprou. O pai dela deu pra Rose quando tinha minha idade – Claire explicou rindo. – Vou lá mostrar pro Capitão Willy
— Claire, tome cuidado com a pulseira – ele alertou a menina que já havia corrido para a outra sala, gritando apenas um "ok" como resposta. – Eu vou cuidar pra que ela a te devolva inteira.
— O quê? – perguntei surpresa. – Não, você não entendeu. Foi um presente.
— Rose, aquilo deve ter um grande valor sentimental – Dimitri disse ainda me avaliando.
— Sim – sorri me lembrando do dia que meu pai me deu aquela pulseira. Eu me senti uma verdadeira rainha ao receber aquilo. – Mas a pulseira já não me serve mais e eu gostaria muito que Claire ficasse com ela. É uma boa forma dela sempre se lembrar de mim.
Ele me observava com aquele olhar intenso e senti um calor se espalhar por todo o meu corpo enquanto Dimitri parecia absorver cada palavra que eu disse.
Então, repentinamente lembrei da conversa que tive com a antiga babá de Claire no outro dia e o modo como ela era tratada com indiferença naquela casa e uma possibilidade se passou por minha cabeça, fazendo com que eu me repreendesse imediatamente por não ter cogitado-a antes.
— A menos... – hesitei. – Que você ache inadequado eu dar algum presente para sua filha, nesse caso...
— O quê? – foi a vez dele se surpreender. – Não! Desculpe, não queria passar essa impressão. Só fiquei admirado em ver a Claire usando algo tão... Feminino. Na verdade o conjunto todo. Como você conseguiu?
— Eu não vou revelar meus segredos, camarada – eu disse sorrindo e notei um tímido sorriso aparecer igualmente em seu rosto.
— Se vocês ficarem aí conversando, nós vamos nos atrasar – a menina apareceu suspirando e logo nos pusemos em movimento em direção à garagem.
Durante a curta viagem até Sarasota, Claire decidiu contar para Dimitri como foi a nossa busca por um vestido e a garota estava realmente empolgada em falar, pois mal dava tempo para que ele respondesse alguma coisa. De certa forma isso foi bom para me fazer ignorar um pouco a tensão que se formou em mim enquanto estava naquele carro. Meu corpo inteiro parecia reagir ao perfume dele que estava impregnado em cada centímetro cúbico de ar ali dentro.
Assim que paramos em frente ao hotel onde ocorreria o casamento, um manobrista apareceu para pegar o carro, me ajudando a descer e dando a Dimitri um breve olhar de reconhecimento. Pois é, o grande Quarterback do Buccaneers não passava incógnito em lugar algum.
Nós seguimos até o local indicado para a cerimônia e demos em um grande jardim com um bonito gazebo de madeira no meio. A maioria dos convidados já estavam presentes e Claire correu em direção à Viktoria e outras mulheres que parecia realmente surpresas com a aparência da menina. Dimitri também acabou sendo levado por alguém do cerimonial, já que era um dos padrinhos, e me vi completamente fora do lugar ali por não conhecer mais ninguém. Talvez vir tenha sido uma má ideia.
Eu me sentei em uma das cadeiras e resolvi apenas aguardar a coisa toda começar, evitando me sentir ainda mais deslocada, mas logo alguém se sentou ao meu lado.
— Eu disse pras minhas tias que eu ia sentar com você – Claire sorriu de forma gentil. – Eu não queria que você ficasse sozinha.
— Obrigada, baixinha – sorri aliviada, sentindo como se talvez eu tivesse um lugar nisso tudo afinal.
A cerimônia começou logo a seguir e vi o noivo se dirigir ao altar, seguido de quatro padrinhos. E que padrinhos! Além de Dimitri, havia o tal Mason que conheci outro dia no treino, Ivan, que acenou para mim com seu sorriso fácil, e, para fechar o conjunto, Eddie que com certeza estava muito bem naquele terno. Claro que nenhum deles parecia tão apetitoso quanto um certo russo, mas não havia como deixar de admirar aquele belo conjunto de homens ali reunidos.
Então me dei conta que se Eddie estava ali, muito provavelmente Jill também estaria. Olhei em volta e a vi sentada perto de uma mulher que devia ser a mãe da noiva, dada sua aparência.
O cortejo das madrinhas entrou à seguir, mas dessas apenas Viktoria me era familiar, e então Sydney fez sua grande entrada. Ela estava radiante em seu vestido tomara que caia com decote em coração, detalhes em pedras na cintura e uma grande saia que se abria em camadas de seda e tule. Seus cabelos estavam soltos e envoltos por um véu que lhe davam um ar quase angelical.
Era visível a alegria e admiração de Adrian enquanto ela andava em sua direção. Realmente eles formavam um belo casal. Improvável, dados seus gênios tão diferentes, mas ainda assim combinavam perfeitamente.
A cerimônia foi rápida e muito bonita e logo todos fomos encaminhados até o local da recepção. Claire correu para algum canto que não vi e decidi seguir o fluxo para o salão em busca de minha mesa.
— Rose, quando eu penso que você não pode abalar ainda mais o meu coração... – Ivan surgiu ao meu lado e começou a me guiar para um canto. – Venha, estamos na mesma mesa.
— Ok, mas sem exageros Ivan – comentei rindo.
Até que não seria tão mal estar ao lado de meu amigo, já que não conhecia quase ninguém ali. Ou pelo menos foi o que pensei até estar sentada entre ele e Dimitri e ter as três irmãs do russo me encarando com uma expressão nada amigável.
— Rose, você já conhece as outras adoráveis irmãs do seu patrão? – Ivan me apresentou. – Essa é Karolina e aquela é a Sonya. E os dois sofredores ao lado delas são Luke e Jamie.
Dei a todos um sorriso cordial, o qual não foi correspondido na mesma medida.
— É um prazer – Karolina declarou de forma fria se virando para conversar com Luke, seu marido.
Ok, eu definitivamente não sou bem vinda aqui. Será que era sobre isso que a tal Abby tinha falado? Será que a família de Dimitri era esnobe o suficiente para se desagradar por estarem sentadas na mesma mesa que uma babá?
— Então Rose – o loiro continuou tentando buscar um assunto já que ninguém parecia colaborar –, fico feliz em saber que o Belikov finalmente te liberou para alguma diversão.
— Engraçadinho – Dimitri murmurou ao meu outro lado, apesar de não parecer estar prestando muita atenção no que se passava na mesa, pois não parava de perscrutar o salão à procura de Claire.
— Gostei muito dos diamantes – Ivan comentou. – São do velhote?
— Ivan, eu já te disse mil vezes que só eu posso chamá-lo de velhote, estamos entendidos? – retruquei com diversão. Eu precisava fazê-lo perder essa mania ou o dia que encontrasse Abe de novo ele ia descobrir o tamanho da ira de um Mazur. – E, sim, foram presentes dele.
— Presentes bem caros, eu diria – Viktoria observou do outro lado de meu amigo e notei que tinha a atenção de todos os Belikov na mesa. Até mesmo o homem ao meu lado deu um tempo na busca pela filha para me olhar. Parecia que só então ele reparou nas joias que eu usava e me senti subitamente envergonhada por aquela atenção toda.
— Bem, na verdade foi o meu...
Fui interrompida no meio da frase pelo anúncio da entrada dos recém casados e todo o salão explodiu em aplausos. Quando todos estavam acomodados novamente, começaram os discursos da maid of honor¹ da Sydney que causou algumas lágrimas dos mais próximos e logo Ivan se levantou para seu discurso como best man², fazendo várias piadinhas sobre Adrian e o fato de Syd ter finalmente prendido seu amigo.
Em algum momento, Dimitri saiu da mesa discretamente e acabou perdendo o brinde. Depois disso os garçons começaram a servir alguns canapés enquanto um buffet era montado.
Não voltamos ao assunto de minhas joias, o que me deixou um pouco desconfortável, já que fiquei desconfiada que talvez a origem delas pudesse estar sendo mal interpretada pelos demais. Minha suspeita era reforçada pelo olhar mordaz que Viktoria e suas irmãs me lançavam cada vez que Ivan fazia suas tentativas descaradas de flertar comigo.
Com o passar dos minutos, voltei a me sentir deslocada naquele lugar, sem ter nem Claire para usar de desculpa, uma vez que tanto ela quanto Dimitri haviam sumido de vista.
— Venha, Rose – Ivan de repente me incitou a levantar da mesa e me puxou para o outro lado do salão. Acabei seguindo-o, apesar de estar completamente confusa. Onde ele estava me levando?
Fomos até uma mesa na qual algumas senhoras bem distintas estavam sentadas. Havia duas, uma loira e uma morena, que me parecia bem familiar, na casa dos cinquenta e tantos anos e uma terceira senhora já bem idosa que parecia prestes a morrer a qualquer minuto. Apesar disso, a forma como a velha me avaliou me deu arrepios.
— Mãe, eu gostaria de te apresentar uma pessoa... – Ivan disse sorrindo para a mulher loira e tive a instantânea vontade de cavar um buraco no chão e pular dentro. Eu não acredito que ele vai fazer isso comigo! Qual é o problema dele? – Essa é minha amiga, Rose Hathaway Mazur.
— Sua amiga, Ivan? Você nunca me apresentou uma amiga antes – ela lhe deu um sorriso de pura cumplicidade e me segurei para não revirar os olhos. – É um prazer conhecê-la, Rose. Meu nome é Helen Zeklos.
— O prazer é meu, senhora Zeklos – sorri sem graça. Eu definitivamente vou matar o Ivan assim que sairmos desse casamento para não deixar testemunhas.
— Não tem necessidade de me chamar de senhora – Helen sorriu abertamente e Ivan parecia estar em completo êxtase enquanto travávamos um diálogo sobre a cerimônia e a festa até ali.
A senhora morena me olhou de forma curiosa durante todo o tempo, provavelmente pensando que eu sou namorada do Ivan, até que Claire apareceu do nada e segurou minha mão me puxando para a frente dela.
— Rose! Você já conhece a minha avó?
— O quê? – perguntei surpresa, apesar de finalmente entender porque o rosto da mulher me era familiar. Dimitri era bem parecido com sua mãe.
— Vó – Claire disse se sentando no colo da senhora. Ivan parecia distraído conversando baixo com sua mãe. – Essa é a Rose, ela é minha nova babá.
— A nova babá? – a velha múmia, que até então esteve quieta, me olhou com indiferença, provavelmente se perguntando por que a babá foi convidada para a festa.
— É um prazer, Rose. Eu sou Olena, a mãe do Dimitri – a avó da garota me deu um sorriso acolhedor.
— Vó, foi a Rose que me arrumou – Claire voltou a ficar em pé e girou para que Olena a olhasse. – E ela me ajudou a comprar esse vestido também, olha é igual o vestido dela.
— Foi você quem escolheu, Claire – me apressei em dizer antes que a mulher pensasse que eu sou louca e estou fazendo a menina andar com roupas combinando com a minha, ainda que de igual o vestido só tinha a cor.
— Sim, mas só escolhi porque era igual o seu – ela sorriu e então estendeu o braço para a avó. – E olha a pulseira que ela me deu. Rose disse que foi o pai dela que deu pra ela quando tinha minha idade e...
Claire simplesmente não parava de falar e eu não sabia aonde enfiar a cara. Por que eu não poderia continuar sentada na nossa mesa recebendo os olhares raivosos das irmãs de Dimitri? Estava mais confortável lá sem ter aquela velha esquisita que eu ainda não sabia quem era me analisando todo o tempo.
— Isso é realmente bonito, Claire – Olena disse examinando a pulseira, sorrindo com indulgência para a neta. – Eu nunca pensei em te ver tão animada por usar um vestido.
— É porque não é um vestido de princesa – a menina sussurrou como se fosse segredo. – Rose me ensinou que não precisa ser princesa para usar um vestido.
A velha então falou algo em russo para Olena em tom de repreensão. Será que ela é a tal bisavó que a Claire me contou que é bruxa? Bom, ela tem cara de bruxa mesmo.
— Sinto muito, Rose, esqueci de apresentar. Essa é a minha mãe, Yeva— Olena indicou a velha que murmurou mais alguma coisa em sua língua antes de se dirigir a mim.
— Mazur é um sobrenome diferente – ela observou.
— Meu pai é turco.
— Turco? – Olena sorriu. – Isso é incomum. E sua mãe também é de lá?
— Escocesa, na verdade – expliquei. Pelo menos a mãe do russo se esforçava por me deixar mais confortável, ao contrário das filhas... – Eu herdei o Hathaway dela e o Mazur do meu pai.
— Na minha época, a criança herdava apenas o nome do pai – Yeva murmurou.
— Bem, meus pais se casaram apenas após o meu nascimento, então acabei herdando os dois sobrenomes – dei de ombros.
Antes que a tal Yeva pudesse falar mais alguma coisa, Olena disse algo em russo para ela e se voltou a mim.
— Me perdoe por isso, Rose.
— Não foi nada – respondi confusa. Eu, hein!
— Vó, a Rose não está bonita? – Claire disse impaciente por não estar fazendo parte da conversa. – Eu que ajudei ela a se arrumar.
— Está tudo bem aqui? – senti o aroma do pós-barba de Dimitri antes mesmo de ouvir sua voz atrás de mim. – Espero que a Claire não esteja te incomodando, Rose.
— Não me incomodou – menti um pouco.
Não fiquei exatamente incomodada, mas não pude deixar de me sentir fora de lugar ali, apesar de a culpa de estar naquela situação fosse inicialmente de Ivan.
— Ela só estava apresentando a nova babá – Olena olhou o filho de forma afetuosa.
— Claire – Dimitri se aproximou da garota, olhando-a com reprimenda. – Rose não está trabalhando e você já a importunou o suficiente hoje. Por que não vai brincar com seus primos?
— Ok – a menina riu de forma travessa e saiu correndo em direção à mesa em que estavam as outras crianças.
— Não brigue com a garota, Dimka – Olena sorriu. Parece que Tasha não é a única a usar esse apelido esquisito. – Ela apenas está entusiasmada com a nova companhia. Devo dizer que nunca a vi assim com ninguém.
— Sim, Rose tem feito milagres – ele deu um pequeno sorriso em minha direção e senti os olhos de Yeva perpassar entre nós, nos avaliando.
Nossa conversa foi cortada pela chegada de um casal que veio questionar se estávamos aproveitando a festa e avisar que o buffet já estava aberto.
— Rose – Olena me olhou e apontou para o casal. – Deixe-me apresentar os pais do noivo, Daniella e Nathan Ivashkov.
Uma onda de choque se passou por mim ao ouvir esse nome. Eu olhei para o senhor de cabelo prateado, constatando que obviamente ele não era o mesmo Nathan que me aterrorizou meses atrás, mas o simples fato de ouvir esse nome trouxe todas aquelas lembranças à minha mente e senti a cor fugir do meu rosto imediatamente.
— Rose? – ouvi o russo me chamar.
Eu busquei me recuperar da melhor maneira possível, disfarçando meu mal estar, e cumprimentei o casal que logo se afastou para dar atenção a outros convidados que estavam na mesa ao lado.
— Você está pálida – Dimitri observou. – Está se sentindo mal? Talvez você deva se sentar.
— O que aconteceu? – Ivan magicamente surgiu ao meu outro lado, me amparando.
— Deve ter sido uma queda de pressão – Olena declarou preocupada. – Ela estava bem até o Nathan e a Daniella chegarem.
— Melhor levá-la para nossa mesa – o loiro sugeriu, prontamente identificando a fonte do problema.
— Ela está tremendo – ouvi a apreensão na voz de Dimitri que parecia nos seguir de perto enquanto eu deixava Ivan me guiar até meu lugar.
Eu queria poder falar que estava bem e pedir para que ninguém se preocupasse, mas a crise de pânico que tomou conta de mim me impedia de dizer qualquer coisa. Eu me sentia prisioneira em meu próprio corpo. Parecia que ele não me obedecia mais.
Os tremores continuavam a acontecer conforme eu me sentava à mesa e aquelas imagens voltaram a tomar conta da mim. Lembranças daquele momento em que eu tive certeza que morreria e que seria uma morte lenta e dolorosa... No meio de tudo isso, minha mente buscava por um ponto de apoio, algo em que ela pudesse se focar e voltar a funcionar corretamente. Cheguei até a cogitar a hipótese de me espetar com o garfo que estava ali na mesa e me focar na dor que aquilo traria.
Ivan se sentou ao meu lado e tive consciência de vários pares de olhos sobre mim. O loiro falava alguma coisa tentando me acalmar e chamar minha atenção para si enquanto me abanava com um leque que ele conseguiu sabe-se lá de onde. Eu tentei olhar na direção dele, mas meu corpo ainda se recusava a obedecer. Na verdade eu sentia como se ele fosse se desligar a qualquer momento.
Então eu senti uma mão quente e firme segurando a minha e logo em seguida aquela voz carregada de sotaque chamou o meu nome.
— Roza? – Ouvi-lo me chamando daquela maneira devolveu um pouco a sanidade que eu achei que estava perdendo. Olhei para Dimitri e vi que este segurava uma taça de água gelada diante de mim. A preocupação era evidente em seu rosto. – Beba, você vai se sentir melhor.
Eu senti ele apertar gentilmente minha mão e eu me foquei naquele toque que começou a me ajudar a recuperar o controle sob o meu próprio corpo. Peguei a taça de suas mãos, ainda trêmula.
— Talvez se vocês a deixarem respirar um pouco ela melhore mais rápido – Viktoria declarou revirando os olhos.
— Eu estou melhor – consegui dizer com a voz fraca. – Não se preocupem.
— Você sempre teve problemas com pressão? – Dimitri perguntou preocupado, ainda segurando a minha mão. Ele não parecia ter notado isso, mas eu sim. E a sensação de ter a mão dele segurando a minha era simplesmente indescritível.
— Não... – eu tentei pensar em alguma desculpa. – Sinto muito, eu não dormi bem a noite e não consegui comer direito antes de sair, é só isso.
— Eu te falei que deveria ter mandado a Claire se arrumar com a gente, Dimka – Karolina disse com simpatia. – Se você continuar a explorar a coitada assim, ela logo pede demissão.
— Ivan, por que não faz um prato para a Rose? – Viktoria sugeriu. – Como amigo dela você deve saber o que ela gosta de comer.
Ivan não pareceu muito satisfeito em ser sutilmente expulso dali, mas ele não teve muita opção então foi fazer o que a irmã do russo pedia.
— Eu sinto muito pela Claire – Dimitri declarou encabulado e finalmente se deu conta de nossa situação, soltando minha mão. Por um instante tive a vontade irracional de puxar a mão dele novamente para mim, mas me segurei. Era como se aquele contato entre nós fosse meu ponto de equilíbrio.
Eu sentia o olhar das irmãs dele sobre mim durante todo o tempo. Ótimo! Agora elas devem estar me achando louca.
Logo Ivan trouxe meu prato e tratei de me ocupar em comer apesar de estar com o estômago um pouco embrulhado. Os demais ocupantes da mesa se dispersaram para se servir igualmente e meu amigo ficou comigo até que voltassem, perguntando mais de uma vez se eu estava melhor.
Quando todos retornaram, foi a vez de Ivan fazer seu próprio prato. Diferente do loiro, Dimitri só me questionou uma vez sobre como me sentia, mas pude notar seus olhos me estudando por várias vezes durante a refeição.
Após algum tempo, alguém veio e falou alguma coisa para Ivan. Ele fez um sinal para Dimitri e ambos pediram licença indo até onde Adrian estava. Nossa mesa estava bem em frente a pista de dança e, nesse momento, foram colocadas diante de mim duas cadeiras com um laço e mais quatro cadeiras simples ao lado voltadas para o outro lado. Seja lá o que vai acontecer, eu vou ver em primeira mão.
As irmãs de Dimitri, que estavam sentadas de costas para a pista de dança, perceberam que iria acontecer alguma coisa e se moveram para se sentar ao meu lado. Todos os padrinhos de Adrian se sentaram nas cadeiras a frente e logo depois Adrian apareceu de mãos dadas com uma Sydney extremamente confusa ao seu lado. Os dois se sentaram nas cadeiras com laços.
— O que está acontecendo? – ouvi Adrian perguntar para Syd com um sorriso.
— O pior é que eu não sei – a garota respondeu aflita.
Foi quando uma música começou a tocar ao fundo e Adrian se levantou batendo palmas seguido de todos os padrinhos que começaram a dançar. A pobre noiva parecia estar em choque.
Não pude deixar de rir. Eu podia esperar isso de Ivan – bem, eu espero qualquer coisa do Ivan –, mas do Dimitri? Apesar de demonstrar um certo constrangimento em participar da dança, eu diria que ele estava bem a vontade. Eu definitivamente nunca pensei que veria o russo dançando Destiny's Child.
E, Deus, aquela letra poderia ser mais sugestiva?
Kelly, can you handle this?
Michelle, can you handle this?
Beyonce, can you handle this?
I don't think they can handle this!
Todos eles arrancaram os paletós e um por vez foi até a noiva para fazer uma apresentação especial para ela. Aquela era definitivamente uma mulher de sorte, tendo esses cinco homens maravilhosos dançando para si.
Chegou a vez de Dimitri dançar e ele fez uma espécie de dança de cowboy, como se estivesse empunhando um laço, e nesse momento nossos olhares se cruzaram. Na verdade foi mais do que isso, ele olhou diretamente nos meus olhos enquanto dançava como se o fizesse para mim.
There you are, come on baby
Don't you wanna, dance with me
Can you handle, handle me?
Será que eu conseguiria dar conta daquele homem? Ei, você não deveria ter esse tipo de pensamento sobre o seu chefe. Foco, Rose.
Percebi que Ivan estava na ponta oposta de Dimitri, mas eu não conseguia parar de olhar para o russo durante toda a sua performance. E podia jurar que sentia o olhar das três irmãs dele sobre mim em alguns momentos.
Ainda assim, não conseguia conter a gargalhada ao assistir aquilo e quando eu pensei que não poderia rir mais, Eddie começou a dançar com o Mason, enganchado em sua cintura e rodopiando pela pista. Sydney parecia não acreditar que aquilo estava acontecendo em seu casamento e estava prestes a entrar em colapso.
De repente a música parou e eles pegaram as cadeiras levando-as para o meio da pista. Quando a música voltou a tocar a pobre noiva pareceu prestes a sair correndo, pois todos eles começaram a fazer danças sensuais nas cadeiras, apesar de Dimitri ter se limitado a fazer flexões de braço no chão.
— Eu não acredito que o Dimka aceitou participar disso – Karolina comentou rindo.
— Coitada da Syd – Viktoria continuou. – Parece que vai ter uma síncope a qualquer instante.
Apesar de tudo, o fim da dança foi fofa, com Adrian entregando uma rosa para a noiva ao som de Bruno Mars e logo em seguida a puxou para a primeira valsa dos dois. Abrindo assim, a pista de dança para todos.
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