The Big Play
13 Capítulo 13 – Rock You Like a Hurricane
Here I am
Rock you like a hurricane
Scorpions
Dimitri's POV
Acordei cedo para mais um dia, apesar de não ter treino. Na verdade todas as atividades estavam suspensas naquela semana graças ao furacão Rosemarie que se aproximava da Baía de Tampa.
Eu achei o nome dessa tempestade bem adequado, já que faz quase dois meses que um outro furacão Rosemarie entrou na minha vida. Eu realmente cogitei me livrar dela algumas vezes durante esse tempo, mas essa hipótese foi totalmente descartada depois do episódio com meu carro. Ouvir a conversa que ela estava tendo com Claire aquela noite não me deixou nenhuma dúvida de que Rose era tudo o que eu e minha filha precisávamos na nossa vida nesse momento.
Nós havíamos conversado sobre a questão dos atrasos de Claire depois daquilo e, até onde eu sei, tudo se resolveu. Pelo menos nenhum outro telefonema da escola foi feito para Tasha ou para mim.
Minha ex-mulher não pareceu muito satisfeita com o fato de eu não ter demitido Rose, mas aparentemente resolveu engolir aquilo e não tem mais me enchido a paciência nas últimas semanas. Aliás, eu tenho tido uma relativa paz naqueles dias que quase começava a me assustar.
Como tudo na cidade ficava fechado e acabávamos presos dentro de casa com comida estocada e geradores ligados quando tínhamos aquele tipo de tempestade, aproveitei que Tasha estava por aqui e combinamos que ela pegaria Claire e a levaria para passar uns dias na Disney. Iria ser bom para minha filha ficar um tempo com a mãe e ainda não ter de ficar isolada em casa.
Após averiguar se estava tudo em ordem na dispensa, passei na cozinha para pegar uma caneca de café e comecei a procurar Claire e Rose, já que a casa estava extremamente silenciosa. Eu havia dispensado Karp e Kirova por aqueles dias para não correr o risco delas acabarem presas na minha casa e longe de suas famílias.
Acabei encontrando as duas na sala de tv entretidas em algum desenho esquisito com o que me pareceu serem esqueletos. Eu achei que Rose tomaria mais cuidado depois de nossa conversa sobre o que ela deixa minha filha assistir. Teve uma noite que a garota veio dormir no meu quarto, aterrorizada por um filme cheio de monstros que as duas assistiram.
Na época eu questionei Rose a respeito e ela me mostrou do que se tratava. "A viagem de Chihiro". Eu esperava um filme de terror pelo o que Claire disse e não um desenho como parecia ser o caso, o que foi bem estranho. Quem sabe um dia eu assisto isso para ver o que tem demais.
Apesar de minha preocupação vi que, no momento, Claire parecia estar se divertindo com o esqueleto cantante que falava algo sobre o Natal.
— O que é isso? – perguntei me encostando no batente da porta.
— Bom dia, pai – Claire sorriu animada. – Isso é só o melhor desenho do mundo.
— Bom dia, princesa – sorri diante do revirar de olhos de minha filha. Eu sei que ela não gosta muito do título, mas é isso o que ela é pra mim – Bom dia, Rose. E o melhor desenho do mundo tem nome?
— "O Estranho Mundo de Jack" – Rose respondeu se espreguiçando e capturando minha atenção imediatamente. Por que essa mulher tem que ser tão gostosa, Deus?— Ela me fez acordar pra ver esse antes de viajar.
— Claire, você já arrumou suas malas? – perguntei.
— Sim, a Rose me ajudou – ela disse orgulhosa. – Está tudo pronto.
— E agora eu vou separar uma blusa pra você levar, pois a temperatura lá fora está caindo – a morena sorriu ao passar por mim para sair da sala.
— Vai estar frio na Disney, pai? – Claire questionou curiosa.
— Provavelmente não. O clima aqui está ruim por causa do furacão, lá vai estar um tempo bom, não se preocupe.
Eu observei pela janela o céu nublado que parecia escurecer a cada minuto. É bom Tasha se apressar. Quero que elas estejam fora do alcance da tempestade quando a chuva começar.
— Eu queria ficar para ver o furacão com você e a Rose – ela disse pensativa.
— Ninguém aqui vai ver o furacão, Claire. Nós só vamos ficar dentro de casa sem fazer nada. Você vai se divertir mais estando lá.
Após dizer isso eu me toquei que a morena e eu ficaríamos completamente sozinhos por quatro longos dias naquela casa sem ter escapatória. Ela havia conversado com Lissa, mas parece que a amiga tinha outros planos, então não teve alternativas senão permanecer ali. Não que algo fosse acontecer entre nós. Apesar de todas as provações, o meu auto controle havia se provado bem resistente até ali e não seria apenas alguns poucos dias que mudariam isso.
— Mas eu queria ver mesmo assim – Claire deu de ombros, alheia aos meus pensamentos e nos concentramos no desenho. Quer dizer, eu ainda estava tendo dificuldades em entender alguma coisa do que estava acontecendo na tela. Por que diabos presentes de Natal estavam tentando comer as crianças?
Quando o filme acabou, fui até a cozinha colocar minha caneca na lava-louças, sendo seguido de perto por minha filha e acabamos encontrando Rose ali com um pote de iogurte.
— Você perdeu o final – Claire reclamou.
— Sinto muito, baixinha – Rose deu um sorriso fácil. – Eu aproveitei que você estava bem acompanhada e vim comer algo, já que você não deixou quando pulou na minha cama de manhã.
— Claire – eu ralhei. Ela não deveria incomodar Rose no quarto dela. – Você não pode invadir o quarto da sua babá e a acordar quando sentir vontade.
— Sinto muito – Claire quase parecia envergonhada, mas escondeu um pequeno sorriso.
— Cara, eu devo ter dado trabalho para o meu velho – Rose gargalhou com a visão. – Eu era exatamente igual.
— Isso sim seria algo interessante de se ver – comentei, recebendo um olhar curioso de Claire.
Antes que Rose pudesse responder, o clima amistoso foi interrompido pela chegada de Tasha. Seu olhar não era dos melhores ao recair sobre a morena, deixando bem claro para mim o que ela sentia em relação a babá.
— Bom dia, Dimka. Bom dia, Rose – ela corrigiu sua expressão abrindo um sorriso completamente falso. – Claire, não vai dar um abraço na mamãe?
A menina correu animada em direção a Tasha que a encheu de beijos. Pelo menos isso, já que na última vez em que esteve aqui ignorou completamente a menina e depois desapareceu por semanas.
— Rose – a mulher se levantou com mais um de seus sorrisos dissimulados. – Você poderia levar Claire para se arrumar enquanto eu resolvo alguns detalhes com o Dimka?
— Claro, Tasha – a morena respondeu prontamente e deixou o pote de iogurte que estava comendo para trás, levando minha filha para longe de nós.
— O que você quer, Tasha? Eu só espero que essa conversa envolva a devolução das últimas cópias das chaves – suspirei, me segurando para não iniciar mais uma discussão. Será que ela nunca iria perder essa mania?
— Eu só quero saber o porquê – ela disse parecendo realmente magoada.
— Você vai ter que ser mais específica – respondi confuso esquecendo momentaneamente a questão das chaves. O que aconteceu agora? Do que ela vai me acusar dessa vez?
— Por que você vazou aquelas histórias maldosas sobre mim? – a voz de Tasha saiu embargada.
Que histórias? Do que ela está falando?
— Tasha – eu comecei com cuidado. – Eu realmente não sei do que você está falando...
— Vai falar que você não viu o que a tal amiga da sua babá escreveu sobre mim?
— O quê? Eu não vi nada – falei confuso. Quem escreveu o que sobre Tasha?
— Não minta pra mim – a mulher agora realmente estava chorando enquanto mexia no celular e em seguida o estendeu para mim.
Era o blog da tal Jill Dragomir. Essa garota outra vez...
A matéria realmente me surpreendeu e não de uma boa maneira. Em resumo, falava o quanto Tasha era uma péssima mãe, que não prestava atenção na Claire e que a deixava aos cuidados de uma babá que era uma total estranha para ela. Tudo isso permeado com muitos detalhes, tal qual a história da troca do gato e até mesmo a nossa última briga. Como diabos essa desgraçada ficou sabendo de tudo isso?
— Como... – eu comecei a falar, mas me interrompi, sem saber realmente o que dizer. Não é a toa que Tasha está tão mal, a matéria era completamente horrível.
— Por que você fez isso? – ela perguntou de novo chorando.
— Tasha, eu não fiz isso – me defendi rapidamente. – Eu nunca faria uma coisa dessas, você sabe disso...
— Então quem fez? – Tasha enxugou os olhos. – Só tinha nós dois, Claire e a babá aquela noite nessa casa. Eu duvido que a Claire tenha conversado com alguma repórter de meia tigela.
— Rose não faria isso, Tasha – prontamente a defendi.
Ou será que faria? Não por maldade, talvez, mas ela pode ter comentado algo com a amiga que é irmã da Dragomir. Deus, aquilo parecia ser o mais lógico.
— Não faria? – ela devolveu ofendida. – Eu fiquei sabendo que Rose é amiga íntima da tal Jill. Christian me contou que elas cresceram juntas. Então por que ela não faria? Você a conhece tão bem assim para garantir que essa mulher não fez isso?
— Ela não deve ter feito por mal, Tasha – suspirei.
Droga! Rose nunca me falou que era tão amiga da tal Jill. Inclusive deu a entender que não era próxima da garota apesar dela ser irmã de Lissa.
Será que a morena tem me espionado esse tempo todo? Eu não queria nem pensar que isso pudesse ser possível, mas tudo parecia indicar o contrário e não posso permitir que esse tipo de coisa aconteça na minha casa.
— Eu vou resolver isso com ela, eu prometo – voltei a dizer. – Agora, por favor, pare de chorar. Você não vai querer que a Claire te veja nesse estado
Eu me aproximei de Tasha, passando o braço pelo ombro dela e a puxando para um meio abraço. Ela poderia ser o que fosse, mas antes de ser minha ex-mulher, ela fora uma grande amiga e sempre seria a mãe da minha filha. E eu não quero que ela sofra.
— Obrigada, Dimka – ela sorriu de forma triste, deitando a cabeça em meu ombro. – Eu sinto falta disso, sabe?
Antes que eu pudesse pensar em alguma resposta adequada, Claire e Rose entraram na cozinha nos pegando naquela situação constrangedora. A morena nos avaliou rapidamente e saiu dali sem graça.
Eu me despedi da minha filha e de Tasha então fiquei pensando no que fazer. Eu teria que confrontar Rose. Isso nunca poderia acontecer na minha casa. Eu confiei totalmente nela e ela não podia agir dessa forma.
Eu resolvi me acalmar um pouco antes de ter essa conversa e me tranquei na sala que ficava abaixo da biblioteca pelo resto da manhã. Já que não teríamos treino essa semana, Stan havia me passado lição de casa, mas não conseguia me concentrar em nada realmente. Fiquei a maior parte do tempo parado em frente à janela, observando a tempestade chegar.
Ainda não tinha começado realmente a chover apesar do céu escuro do lado de fora e, o vento estava ficando cada vez mais forte. Àquela altura Tasha já deveria estar próxima de seu destino com Claire.
Peguei meu celular para falar com elas, mas parei quando ouvi uma batida na porta.
— Entre – murmurei
— Eu só vim avisar que a Tasha ligou – Rose disse timidamente da porta. – Ela queria avisar que já estavam fazendo check in no hotel.
— Obrigado, Rose – falei cansado e ela já ia se afastando, mas tomei coragem para seguir em frente. Eu tinha que resolver isso de uma vez por todas. – Rose, eu posso conversar com você um instante?
— Claro – ela concordou confusa entrando de vez no cômodo.
— Sente-se – indique um dos sofás e ela obedeceu.
— Rose... Eu quero saber sobre Jill Dragomir – comecei sem rodeios, me sentando à frente dela. Parecia um reflexo do dia em que nos conhecemos.
— Jill? – ela perguntou ainda mais desorientada e isso me exasperou um pouco. Ela realmente ia fingir que não sabe do que eu estou falando? – A irmã da Lissa?
— Sim, a própria – busquei me manter calmo. – Você com certeza já sabe da tal matéria sobre Tasha que ela publicou e isso é completamente inaceitável. O que acontece nessa casa diz apenas respeito à minha família e não a terceiros.
— O quê? Do que você está falando? – agora o choque em sua voz parecia realmente genuíno. Quase a ponto de me enganar.
— Eu sei que Tasha comete muitos erros – continuei –, mas você não tinha direito nenhum de contar nada do que acontece aqui pra ninguém. Não me importa o quanto você e Jill são amigas.
— Opa, Dimitri, calma lá – Rose me interrompeu. – Eu realmente não faço a mínima ideia do que você está falando. Eu não sou amiga da Jill, sou amiga da Liss. E eu não falo sobre o meu trabalho com nenhuma delas. O que está acontecendo?
— Você vai me falar que não está ciente disso? – eu questionei entregando meu celular aberto no tal blog. Ela leu a matéria e eu vi a perplexidade surgir em cada linha de seu rosto.
— Espera – disse Rose, abandonando o aparelho sobre a mesa de centro e se levantando. – Você realmente está pensando que eu contei tudo isso para Jill?
— Você era a única presente para saber tantos detalhes – devolvi, também ficando em pé.
Começava a ficar sem paciência. Eu não queria demiti-la e nem estava cogitando isso, pois só machucaria a Claire se o fizesse, mas devo mostrar que esse tipo de comportamento é totalmente inadmissível.
— Você realmente está me acusando? – ela elevou a voz. – Dimitri, eu não faço a mínima ideia de onde essa louca tirou isso, mas com certeza não fui eu quem contou, eu juro.
— Não minta pra mim, Rose – eu me irritei, mas procurei manter a voz controlada. – Você quer que eu acredite que magicamente esse projeto de jornalista conseguiu acesso a segredos da minha casa? Logo depois que a amiga dela começou a trabalhar pra mim?
Rose não respondeu, apenas me encarou indignada e magoada. Eu queria muito acreditar que aquele choque era genuíno, que ela não tinha feito isso. Eu realmente confiara nela até ali. Mas os fatos eram gritantes demais para me deixar enganar.
— Você pelo menos pensou em como a Claire iria se sentir lendo isso? O que ela iria pensar ao ler que a mãe não se importa com ela e a abandonou? – o olhar de perplexidade foi substituído por raiva.
— Já chega – Rose rosnou. – Eu não fiz isso. Não me importa se você acredita ou não. E já que eu não sou digna da sua tão preciosa confiança, eu estou fora daqui.
— O quê? – agora foi a minha vez de ficar chocado enquanto ela saía do escritório rumo ao seu quarto e logo fui atrás dela. Rose acabou de pedir demissão? Não era isso que eu queria com aquilo. Claire precisa dela, ela não pode ir embora assim.
— Rose, o que você pensa que está fazendo? – perguntei parando à porta do quarto, observando-a jogar algumas roupas dentro de uma mochila e equilibrar um celular junto à orelha ao mesmo tempo.
— Ei, essa pode ser a sua casa, camarada, mas esse é o meu quarto por enquanto. Então eu quero você fora daqui agora – ela disse me empurrando para longe do batente e fechando a porta na minha cara.
Rose me expulsou de um quarto dentro da minha própria casa? É claro que ela tem esse direito, já que é o quarto dela, mas o que ela quis dizer com por enquanto? Ela está realmente pensando em sair com um furacão à nossa porta?
— Ei, Liss? Mudança de planos, eu preciso ficar na sua casa hoje— escutei-a falar ainda encarando a porta fechada. – Mas eu realmente preciso. Não sei, Dimitri veio com uma historia maluca e eu preciso...
Eu me senti mal por estar ali escutando sua conversa e desci para a cozinha. Depois do terceiro copo de água, consegui colocar meus nervos de volta no lugar. Eu preciso pensar claramente agora, Claire nunca me perdoaria se Rose simplesmente fosse embora assim. Eu só queria garantir que nada desse tipo voltasse a acontecer e não causar aquele desastre
Olhei pela janela e vi que a tempestade começaria logo. Ótimo! Ela não teria como sair de casa nessa tempestade e vou ter tempo suficiente para convencê-la a desistir de ir embora.
Pelo menos foi o que pensei até ver a garota indo em direção à porta levando uma mochila. Ela só pode estar de brincadeira.
— Aonde você pensa que vai? – perguntei segurando o braço dela.
— Eu já disse. Estou caindo fora daqui, camarada – Rose devolveu irritada tentando se soltar.
— Não me chame assim – soltei de forma rude. – E o que você vai fazer? Caminhar até a casa da Lissa no meio de um furacão?
— Não – ela revirou os olhos. – Eles não estão lá, o prédio dela aparentemente está na rota do Rosemarie.
— E então o que você está fazendo?
— Eu vou voltar pra casa do meu pai – Rose disse dando de ombros como se estivesse falando algo que fazia toda a lógica. – Eu mando buscar o resto das minhas coisas assim que possível.
— Você está sendo ridícula. Você não vai sair dessa casa. Muito menos com esse furacão chegando.
— Você não manda mais em mim. Aliás, você não deveria se preocupar com a fofoqueira aqui, não é? Assim os seus grandes segredos estarão seguros – ela me provocou com desdém. – O que será que eu poderia divulgar da próxima vez? Sua conta bancária? Seu número privado? O que você come no café da manhã?
— Rose, me desculpe. Eu não acho que você tenha feito por mal – tentei consertar. Da forma como estava irada já começava a achar que ela realmente não fez de propósito. – Talvez você só comentou alguma coisa pra ela ou pra Lissa sem querer.
— Ou talvez eu não tenha feito isso! – Rose exclamou irritada. – E adivinha só: eu não fiz. Eu nunca seria tão indiscreta.
— Olha Rose, vamos nos acalmar primeiro e...
O toque do meu celular vindo da biblioteca interrompeu meu raciocínio e eu a olhei cansado.
— Fique aqui – pedi antes de correr para lá. Não podia deixar de atender o telefone com minha filha fora de casa e confiei que Rose não seria louca o suficiente de continuar com aquela ideia absurda de sair com esse tempo. Ainda mais porque o aeroporto de Tampa está fechado e ela não teria para onde ir.
— Belikov – atendi o celular assim que pus as mãos sobre ele, sem nem ver quem era.
— Dimitri? – eu ouvi uma voz conhecida.
— Oi Christian.
— Ei, cara eu só queria saber como estão as coisas – ele parecia sem graça. Provavelmente a namorada deve ter contado para ele o que aconteceu. – Rose ligou pra Lissa e estava com a ideia maluca de voltar para a Pensilvânia ainda hoje e Liss está morrendo de preocupação. Ela ainda está aí, não é?
— Não se preocupe, Christian – eu suspirei cansado. Aquilo não termina nunca? O dia começou tão bem...— Eu não vou deixar ela sair daqui hoje.
— Dimitri, eu realmente sinto muito por essa confusão – ele continuou. – Quando tia Tasha foi lá em casa depois da briga de vocês eu não imaginei que a Jill ouviria nossa conversa.
— Espera, como é? – perguntei surpreso. Que história é essa agora?
— Logo depois da briga de vocês, minha tia passou na minha casa porque precisava desabafar – Christian explicou. – Nós estávamos recebendo minha cunhada e o namorado, então eu levei ela para o meu quarto enquanto Lissa ficou com eles na sala. Só quando soubemos dessa confusão é que Lissa se lembrou que Jill passou um bom tempo no banheiro. Com certeza aquela bisbilhoteira ficou ouvindo atrás da porta já que, pelo que eu li, boa parte da matéria se baseia no que minha tia contou.
— Merda – xinguei em russo. – Olha, eu preciso ir. Conversamos depois.
Nem esperei a resposta dele para desligar e saí à procura de Rose. Agora sim eu preciso resolver isso, ela estava falando a verdade todo o tempo e eu fui completamente injusto. Idiota! Tudo o que você falou pra ela...
O celular tocou mais uma vez em minha mão e o atendi pensando ser o sobrinho de Tasha.
— Christian, eu realmente não posso falar agora...
— Não é o Christian – a voz irritada do Ivan me pegou de surpresa. – Qual é o problema com você, Dimitri?
— No momento eu tenho vários – murmurei chegando ao local onde tinha deixado Rose e percebendo que ela não estava mais ali. Merda! Mais essa agora.
Olhei para a janela e percebi que tinha começado a chover. Ela não deve ter saído com aquela tempestade sobre nós. Deve ter se trancado no quarto ou ido para alguma outra sala.
— Rose me ligou e disse que você a acusou de ter deixando vazar fofocas da sua casa – meu amigo ralhou ao telefone. Eu até tinha esquecido que estava na linha com ele quando comecei a rodar pelas outras salas. – Ela nunca faria isso, está entendendo? E definitivamente ela não precisa passar por nada disso, Dimitri.
— Ivan, eu cometi um erro – confessei sem achá-la em lugar algum. Ela não faria aquilo. Ela não teve a droga dessa ideia.— Tasha apareceu chorando aqui de manhã e teve essa história...
— Sim – ele rosnou. – A história que Jill postou. Rose nem conversa com essa garota, ela não tem paciência pro entusiasmo dela. E você acha que eu colocaria uma amiga daquela intrometida dentro da sua casa? Sabendo o trabalho que ela te dá?
— Eu vou arrumar isso, mas agora eu preciso ir – falei subindo as escadas de dois em dois degraus.
— É bom mesmo. Se ela resolver voltar pra casa do pai, Abe nunca mais vai deixá-la voltar e eu juro que nossa conversa não vai ser nada agradável – Ivan ameaçou antes de eu desligar.
— Rose – eu chamei ao bater à porta de seu quarto. Ela tem que estar aqui. – Roza...
Eu abri a porta e constatei que o cômodo estava completamente vazio, assim como o banheiro. Ótimo, dessa vez eu estraguei tudo e ainda deixei essa maluca se colocar em perigo. É isso aí, Belikov, você conseguiu!
Eu corri em direção à garagem e pulei no carro. Rose não poderia ter ido tão longe, não haveria um táxi sequer trabalhando à essa altura.
Dirigi por alguns minutos e a encontrei algumas quadras abaixo de casa, totalmente encharcada, andando em direção ao centro de St. Petersburg com a mochila nas costas. O que ela está pensando? A chuva começava a piorar cada vez mais com fortes rajadas de vento.
— Rose, entre no carro – eu disse abaixando o vidro do passageiro, dirigindo devagar ao seu lado para acompanhar os passos obstinados da garota.
Ela usava uma calça jeans e uma jaqueta fina com capuz e devia estar congelando com essa roupa. Seus cabelos estavam grudados em seu rosto e ela ainda mantinha aquele olhar raivoso.
— Vá pro inferno, Belikov – ela praguejou.
— Por favor, entre no carro. O que você está acha que vai conseguir com isso?
— Eu vou voltar pra casa do meu pai.
— E o que você pretende, Rose? Andar até a Pensilvânia no meio de um furacão? Entre na droga do carro – comandei.
— Não seria uma má ideia – ela devolveu teimosamente, se abraçando por conta do frio. – Eu vou me hospedar em algum hotel perto do aeroporto e assim que ele abrir vou embora.
— O Rosemarie vai passar exatamente lá. Você vai sair de uma área segura para ir para uma área de risco?
— Eu vou sobreviver – ela murmurou. Por que essa mulher tem que ser tão teimosa?
— E vai cruzar a Skyway Bridge a pé? – perguntei com ironia.
— Eu posso pedir uma carona.
É isso, já chega. Se essa maluca não tem responsabilidade sobre si mesma, eu terei. Parei o carro e puxei o freio de mão, saindo atrás dela. A chuva estava gelada e o vento não ajudava em nada.
— Rose, me perdoa – eu disse a alcançando e puxando-a pelo braço para olhar para mim. – Eu errei, errei muito. Eu deveria ter acreditado em você. Mas, por favor, agora entra no carro.
— Volte pra lá, Dimitri – Rose retrucou com desprezo, tentando se soltar. – Eu não preciso de você e de suas dúvidas.
O vento tinha aumentando consideravelmente trazendo uma chuva de granizo e derrubando uma árvore há poucos metros de nós, fazendo a garota gritar. Mas que perfeito! Agora além de molhado ainda estou levando pedrada na cabeça e correndo o risco de morrer. Deus realmente resolveu me castigar por brigar com ela.
— Rose, você vai entrar no maldito carro antes que acabe matando a nós dois – rosnei, enlaçando sua cintura e a arrastando para o carro enquanto ela se debatia e gritava.
Só me faltava alguém achar que eu estou sequestrando-a. Não que isso fosse acontecer já que não havia viva alma na rua. Ninguém era louco o suficiente para pôr o pé para fora de casa. A não ser aquela mulher e eu.
— Me solta, Dimitri – Rose gritou me dando pequenos tapas quando a forcei a se sentar no banco de passageiro e afivelei o cinto.
— Você vai voltar pra casa comigo e nós vamos resolver isso como adultos – eu disse antes de fechar a porta e dar a volta rapidamente no carro para impedir uma nova fuga. Felizmente ela se limitou a cruzar os braços e permanecer emburrada.
Eu dirigi com cuidado, já que a chuva estava aumentando cada vez mais e mal enxergava o caminho à minha frente. Chegamos em casa e, assim que estacionei o carro e acionei o portão eletrônico para que se fechasse, Rose tentou sair, mas tranquei as portas.
— Você já me trouxe de volta – ela revirou os olhos. – Agora me deixa sair.
— Eu deixo, mas vamos conversar – falei ao destravar a porta e sair antes dela.
— Nós não temos nada pra conversar, Dimitri – Rose respondeu decidida após bater a porta atrás de si. – Você me trouxe de volta e eu concordo em ficar aqui até o aeroporto abrir. Depois eu estou fora.
— Olha, me perdoe, ok? – me surpreendi com o desespero em minha voz quando parei na frente dela, bloqueando sua passagem para dentro de casa. – Eu realmente estraguei tudo, eu errei e muito em dizer aquelas coisas. Sei que não foi você quem fez isso, eu não deveria ter te acusado. Eu realmente sinto muito.
— Eu nunca te dei nenhum motivo para desconfiar de mim dessa forma, Dimitri – ela parecia realmente magoada. Parabéns, você é mesmo um babaca! – Eu nem sabia que a Jill te conhecia ou que ela escrevia alguma coisa sobre você. E de onde você tirou que somos amigas? Eu já te falei que quase não tenho contato com ela aquele dia no bar.
— Eu sei de tudo isso. Você tem toda a razão. É que a Tasha apareceu tão transtornada mais cedo por causa dessa história e ela me disse que o Christian contou que você era amiga da Jill e eu... – me refreei quando vi que estava me embolando nas palavras e aquela explicação toda já não fazia mais qualquer sentido. – Olha, não importa os 'comos', o que interessa é que eu te julguei injustamente e você nunca, jamais fez qualquer coisa para merecer esse tratamento. A verdade é que eu fui um idiota e verdadeiramente sinto muito pela forma como eu te tratei. Se você quiser, pode me punir por isso, você tem todo o direito. Eu sei o quanto é criativa e tenho certeza que vai encontrar uma boa forma de fazer isso...
Ela deu um pequeno sorriso e abaixou a cabeça, me fazendo acreditar que estava indo pelo caminho certo.
— Mas não vá embora, por favor. Isso devastaria a Claire e ela não merece pagar pelos meus erros. Ela precisa de você. Eu preciso de você aqui, Roza... – acabei soltando e, quando percebi, tratei logo de me corrigir. – Quero dizer, eu confio totalmente em você com a Claire e não poderia encontrar alguém melhor para cuidar dela. Minha filha é mais feliz perto de você...
E eu também sou, admiti para mim mesmo, mas não poderia falar isso.
— Roza? – ela me perguntou após todo aquele discurso. Eu a chamei de Roza?
— Desculpe – murmurei sem jeito. – É o seu nome em russo. Eu costumo misturar russo com inglês quando fico nervoso.
— Entendo – Rose disse e se limitou a me avaliar por longos segundos. Por um instante me senti hipnotizado por aqueles olhos escuros que pareciam escanear a minha alma.
Nossa conexão se quebrou quando ela abaixou os olhos repentinamente e deu a volta por mim para seguir para dentro de casa.
— Aonde você vai? – me senti um tanto atordoado.
— Tomar um banho, eu estou congelando. Você também devia fazer o mesmo.
Só então que eu percebi que estávamos ambos encharcados em meio a uma temperatura que mal chegava aos quinze graus por conta da tempestade. Pelo menos fugimos do vento.
— Você vai ficar? – questionei esperançoso.
— Pra onde mais eu iria no meio de um furacão? – ela deu de ombros e ameaçou continuar seu caminho, só que não era aquela a resposta que eu queria. Dei um passo em sua direção, bloqueando a porta com um braço.
— Eu quero dizer, você vai ficar ficar? – Mas que pergunta! Onde estava a minha eloquência?
Ela sorriu de forma aberta, fazendo algo em mim se aquecer apesar do frio e manteve o suspense por um instante antes de finalmente responder:
— Vou. Tenho uma punição a planejar.
Retribuí o sorriso, um tanto abobado e tirei meu braço da frente para lhe dar espaço, observando-a entrar na casa. Tinha a estranha sensação de que poderia aceitar com prazer qualquer penitência que ela me impusesse.
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