The Big Play

1 Capítulo 01 – Welcome To Wherever You Are


Notas iniciais
"The Big Play" foi escrita entre os anos de 2017/2018 pelas autoras @LuPetris e @nikkafuza. Essa fanfic é um grande amálgama de ambas as autoras e reúne todas as ideias malucas, dramaticidade e amor pelo casal Romitri. Escrever essa fanfic foi uma experiência única, aquele tipo de conversão astral que acontece uma vez a cada cem anos. As ideias certas na hora certa com as pessoas certas. E sempre será uma prova da amizade que se construiu entre as autoras, mesmo que hoje sigam por caminhos diferentes. Boa leitura!

Welcome to wherever you are

This is your life; you made it this far

Welcome, you got to believe

That right here, right now

You're exactly where you're supposed to be

Welcome to wherever you are

Bon Jovi

Estava parada frente ao grande prédio espelhado no centro de Tampa¹ tomando coragem para entrar.

Ivan Zeklos sem dúvida havia se tornado uma das pessoas que eu mais gostava, mas detestava ir até o seu escritório. Toda vez que isso era necessário fazia eu me lembrar o porquê dele ter entrado em minha vida para começo de conversa e essa era uma recordação que gostaria muito de apagar.

Ele sabia do meu sentimento em relação àquilo e sempre tentava marcar nossos encontros em outros lugares, porém naquele dia ele devia estar especialmente atarefado para ter me pedido para ir até ali. E eu também não podia exigir muito. Ivan estava tentando me ajudar a arranjar um emprego e eu devia ser mais do que grata. Era mais uma das dívidas que teria com ele que se acumulariam na grande lista que já tinha.

Tomando fôlego entrei no saguão imponente e me identifiquei na portaria antes de pegar o elevador que me levaria ao andar dos escritórios da Zeklos & Ivashkov Advogados Associados.

Olhei para o espelho que havia no fundo daquela grande caixa de metal e respirei fundo. Estava um tanto pálida o que era bem visível graças à minha pele morena, na cor do interior de uma amêndoa, e apertei levemente minhas bochechas para colocar um pouco de cor ali. Ajeitei meus longos cabelos castanho escuros e olhei dentro de meus olhos quase negros.

Pare com isso, Rose. O passado é passado, pensei.

Mas era inevitável não me lembrar do primeiro dia em que estive subindo naquele mesmo elevador meses antes, amedrontada e desesperada para encontrar uma solução para minha situação.

Ivan era um conhecido advogado criminalista e havia sido indicado a mim por Christian Ozera, namorado de minha melhor amiga e companheira de quarto Lissa Dragomir, e eu esperava que ele pudesse me trazer uma solução que até então a polícia se negava a dar.

Fazia algum tempo que eu vinha sendo perseguida por uma rapaz no campus da Universidade e aquela situação estava começando a me assustar. Havia ficado com Nathan em uma das inúmeras festas da fraternidade, mas até então não sabia que ele era totalmente pirado. O que para mim era apenas uma noite de curtição teve algum significado doentio dentro da mente daquele louco e ele começou a me cercar em todos os lugares que eu ia, sendo inclusive agressivo com as pessoas que me rodeavam.

O toque do elevador e as portas se abrindo me fizeram dispersar aquela lembrança inoportuna e me foquei no homem com cabelo loiro escuro e lindos olhos azuis que me aguardava do lado de fora.

— Não precisava ter se incomodado em me esperar aqui – falei abrindo um sorriso para Ivan. – O que seus outros clientes vão pensar por você me dar esse tratamento especial?

— Você sabe que isso não é um incomodo pra mim e eles não têm que pensar nada, você é minha amiga – ele disse sorrindo igualmente.

Realmente nossa relação cliente-advogado havia evoluído para uma amizade, mas eu sabia que, no fundo Ivan, vinha nutrindo uma pequena esperança daquilo se tornar algo mais.

Evitava a todo custo alimentar esse sentimento, pois não me via preparada para encarar qualquer tipo de relacionamento ainda mais com um cara tão galinha quanto ele. Naquele momento, todas as minhas energias estavam focadas apenas em sobreviver.

Obviamente eu não precisaria ter essa preocupação se eu desse meu braço a torcer e pedisse ajuda aos meus pais, mas jamais daria a eles a oportunidade de soltar um “eu te avisei”.

Decidi que viveria por conta própria no dia em que liguei para avisá-los que tinha me mudado para a Flórida com Lissa ao invés de ingressar em Lehigh, como eles desejavam. Claramente não tive muita escolha num primeiro momento, já que Janine deixou registrado que eles não me dariam um tostão sequer para sustentar aquela loucura. Ela tinha esperanças de que com isso eu voltasse correndo para casa.

Porém, passado alguns meses em que ficou claro que eu não me dobraria à sua vontade, o velhote voltou atrás nessa decisão e se ofereceu para depositar uma generosa mesada em minha conta, a qual eu prontamente recusei. Eu tinha me virado muito bem até ali sem a sua ajuda e agora iria provar que poderia me sustentar por conta própria.

Pois é. A palavra "teimosa" não começa nem a me descrever.

O máximo que aceitava deles eram suas visitas frequentes – nas quais minha mãe não perdia a oportunidade de criticar meu estilo de vida – e concedia a honra da minha presença em sua casa no dia de Ação de Graças.

Deixei Ivan me guiar até sua sala. Eu nunca me cansava de admirar a beleza daquele cômodo e sempre me perguntava se fora ele mesmo quem decorou. As paredes tinham um tom de areia com algumas obras de arte sem sentido penduradas a esmo e alguns painéis em madeira, sofás de couro negro a um canto e, no centro, a imponente mesa de madeira maciça completava o visual.

— Sente-se Rose – Ivan sorriu, apontando para o sofá e se sentando ao meu lado. – Aceita café, água, alguma coisa?

— Estou bem, obrigada – dispensei rapidamente a oferta. Quando ele me ligou me falando que tinha uma possível oportunidade de emprego fiquei animada, mas, no momento, estava mais do que ansiosa para saber do que se tratava.

— Me desculpe por te pedir para vir até aqui. – Ele sorriu abertamente. – Mas é que hoje realmente não poderia sair do escritório. Logo mais terei uma reunião.

— Não se preocupe com isso, eu só tenho que te agradecer por me ajudar tanto, Ivan. – Olhei para baixo por um instante. – Eu não imagino como poderei te retribuir um dia.

— Ei – Ivan chamou minha atenção. – Nós já conversamos sobre isso. Eu não estou esperando retribuição nenhuma, Rose. Faço isso por você ser minha amiga, você sabe disso. Faria qualquer coisa por você.

— Então... – Sorri sem graça, buscando mudar de assunto. Sempre me sentia desconfortável e me sentindo culpada quando ele fazia esses comentários. – Você disse alguma coisa sobre uma oportunidade de emprego?

— Sim – ele imediatamente voltou ao seu tom de negócios. – Bom, Rose, eu vou direto ao assunto. Infelizmente está difícil conseguir algo na sua área. Na verdade em todas as áreas, você sabe como está a situação. Porém surgiu uma oportunidade com um grande amigo meu. Ele está procurando uma babá para sua filha e, bem, ele não quer colocar uma total desconhecida na casa dele e me perguntou se eu não conheço alguém.

— Babá? – perguntei espantada. Ele só pode estar de brincadeira comigo. Eu não estudei sete anos da minha vida para virar babá. Eu vou cuidar de um bebê? Como? Eu nunca nem vi um bebê pelado! Como ele espera que eu troque fraldas e coisas desse tipo? – Ivan...

— Rose – ele me interrompeu. – Antes de você negar, ouça o que eu tenho a dizer.

— Tudo bem – suspirei. Não custa nada ouvir a proposta.

— O nome do meu amigo é Dimitri Belikov – Ivan falou me olhando de forma significativa, como se esse nome quisesse dizer algo. Como não tive a reação que ele parecia esperar, continuou explicando. – Ele acabou de se divorciar e vai ficar com a guarda da filha, pois a mãe da garota viaja muito a trabalho. Ela tem sete anos, então não se desespere, você não teria que cuidar de nenhum bebê e nem trocar fraldas.

— Menos mal – disse pensativa.

Será que valeria a pena tentar? Faz semanas que fiz minha última entrevista e, como Ivan mesmo disse, a situação andava bem complicada. Sabia de muitos colegas que haviam se formado um ano antes e até agora não haviam conseguido nada.

— Porém há uma condição – ele hesitou por um momento. – Você teria que morar na casa dele.

— O quê? Por quê? – perguntei confusa. – Eu não vou ficar com a menina apenas enquanto ele está trabalhando?

— Essa é a questão – Ivan tratou logo de explicar. – Como ele é um atleta também acaba viajando bastante e pode acabar trabalhando em horários diversos. Mas você não ficaria completamente sozinha na casa. Teriam outros empregados e uma governanta.

— Não sei Ivan... Parece ser uma situação muito complicada. Eu não vou poder tirar folgas nem nada do tipo? Vou morar na casa de um total desconhecido? E essa garota? Se a mãe viaja e o pai também, como fica a cabeça dela?

Não tem maneira nenhuma de eu me submeter a isso ganhando o salário de uma babá.

— Rose, a oportunidade é única. – Ivan suspirou, provavelmente sabendo que eu teria exatamente aquela reação. – Antes de tomar sua decisão, esse é o salário que ele está oferecendo.

Eu peguei um pedaço de papel que ele me passou e... PUTA QUE PARIU! Que tipo de homem paga tudo isso para uma babá?

— E eu posso quase te garantir que a vaga será sua. Dimitri confia em meu julgamento – ele continuou enquanto eu ainda olhava para aqueles vários zeros abobada.

— Você não pode estar falando sério – falei voltando a olhar para ele.

— Estou Rose. Você pode não acreditar, mas mesmo sendo um advogado, muitas pessoas ainda confiam em mim – Ivan disse com um sorrisinho de lado, sabendo exatamente que não era a isso que eu me referia. – Olha, por que você não tira a noite para pensar e me responde amanhã? Mas analise a situação com carinho. Com isso você pode acabar com as suas dividas sem ter que recorrer aos seus pais e de quebra ainda sai da casa da Lissa. Você mesma estava reclamando que não aguentava mais ouvir os gemidos dela e do namorado.

Ele começou a rir instantaneamente ao se lembrar do meu relato sobre como Liss e Christian estavam transformando minha vida naquele apartamento em um eterno filme pornô e me limitei a revirar os olhos.

— Não devia ficar usando as histórias que eu te conto contra mim. Que tipo de advogado de araque você é? – ralhei.

— Você sabe que seu segredo está seguro comigo – Ivan piscou. – Então você vai pensar a respeito?

— Ainda não sei... Não é bem isso que eu esperava fazer depois de estudar tanto pra me tornar uma fisioterapeuta.

— Você ainda vai poder procurar algo na sua área, Rose. Não é algo para a vida toda. Pelo menos você resolve a sua situação por hora.

Pensei por um instante. Não era de todo o mal o que ele estava me propondo, mas seria um grande passo a se dar. Um grande passo longe do caminho que eu queria seguir.

Era uma decisão sobre a qual eu precisava refletir bem antes de tomá-la.

— Ok – acabei cedendo. – Eu prometo que vou pensar, Ivan. Até amanhã você vai ter sua resposta.

— Ótimo. Quem sabe pode me contar o que decidiu durante um café da manhã juntos? – ele perguntou esperançoso enquanto se levantava do sofá. Odeio quando ele faz isso, só me faz me sentir mais remorso em dispensá-lo.

— Eu tenho um compromisso de manhã – disse ao me erguer para acompanhá-lo para fora da sala. Era uma pequena mentira, porém necessária. Não posso incentivá-lo, não é justo com ele. – Vai ter que ficar para a próxima.

— É uma pena – Ivan falou me acompanhando até o elevador. – Quem sabe se você aceitar o emprego, posso ir tomar café da manhã com você na casa do Belikov.

— No meu local de trabalho? Jamais.

— Vou aguardar sua resposta, Rose. Te vejo amanhã de manhã. – Ele sorriu uma última vez antes do elevador se fechar, não me dando tempo de respondê-lo. Eu não acabei de recusar o convite para o café da manhã? Estou confusa.

Eu saí e peguei um táxi para voltar ao apartamento de Lissa. Nós nos conhecemos desde o jardim de infância e nos tornamos inseparáveis desde então. Eu amava Liss e a família dela como se fizessem parte da minha própria.

Ela morava relativamente perto do refúgio nas montanhas de Abe Mazur, como eu costumava chamar nossa casa, e, como eu, detestava estar enfiada naquele lugar isolado sem nada interessante por perto.

Por conta disso nós duas decidimos logo aos treze anos que nos mudaríamos para um lugar com muitas festas e diversão, de preferência perto do mar. A Flórida logo se tornou uma opção atraente, após vermos um filme qualquer que se passava em Miami.

Nós não conseguimos mudar para Miami, mas depois que Lissa me contou no último ano da escola que tinha sido aceita na Universidade de South Florida, em Tampa, fiquei torcendo para receber minha carta de lá também. Nós nos inscrevemos nas mesmas universidades, apesar de meus pais insistirem para que eu fosse para Lehigh.

Lehigh ficava apenas a quarenta minutos de distância da nossa casa e meu pai insistia que eu deveria ir para lá para continuar morando com eles. Por ele, eu teria passado o resto da minha vida debaixo da sua asa.

Só que Abe não conseguia entender que eu tinha outros planos para minha vida. Além disso, precisava ter o meu espaço. Eu estava crescendo e não moraria com ele para sempre. Fora que viver perto do meu pai era correr o risco de ver todos os caras interessantes em um raio de duzentos quilômetros correrem em disparada para longe de mim por conta das ameaças do velhote.

No fim, eu consegui convencê-lo a me deixar no mínimo morar no campus da universidade, o que foi bem difícil, diga-se de passagem, mas contei com a ajuda da minha mãe nessa parte. Ela me defendeu e falou pra ele que eu precisava aprender a ter responsabilidades.

Ainda me lembro o tanto que Janine gritou quando liguei no primeiro dia e contei que enfim estava instalada no campus. Só que de uma universidade na Flórida. Meu pai pegou o primeiro voo disponível até lá crente que me arrastaria de volta para casa. Porém, no fim das contas, eles não tiveram outra escolha a não ser respeitar minha decisão, já que todos os seus artifícios para me convencer a voltar atrás não haviam funcionado.

Eu desci do táxi e subi os lances de escada até o apartamento que no momento eu supostamente dividia com a Liss. Supostamente, porque para que eu dividisse esse lugar com ela, deveria ajudar com o aluguel e, graças a minha falta de emprego, ela tem arcado com todas as despesas sozinha. Ela teve sorte e conseguiu ser aceita em um hospital para começar sua residência logo após a formatura. Liss não ganhava tão bem, mas os pais dela davam uma ajuda mensal para mantê-la.

Talvez eu não devesse ser tão resistente em aceitar a proposta que Ivan fizera. Aquela situação estava realmente ficando bem incômoda.

Ainda com esses pensamentos, destranquei a porta do apartamento e fui acometida pela pior cena da minha vida.

Lissa estava praticamente deitada na mesa da cozinha com Christian, o namorado babaca, praticamente em cima dela. E, Deus, a bunda do Ozera não é nada que eu queira voltar a ver na minha vida.

— Rose, ah meu Deus! – Lissa o empurrou enquanto ele tentava se cobrir como podia. Eu estava congelada na porta, ainda com a mão na maçaneta. Por que na cozinha? Por que eles não podem fazer isso como pessoas normais no quarto? Já era ruim o bastante eu ter que ouvir os dois transando sempre que ele dorme aqui, agora eu tenho que ver também? – Me perdoa, eu não pensei que você voltaria tão cedo.

— Você poderia não voltar – Christian murmurou terminando de colocar a calça.

— Deus, por que na mesa? Eu como ali – eu disse com desgosto desviando os olhos daquela cena bizarra e fechando a porta. – Quero dizer, comia, porque nunca mais vou conseguir. Que nojo!

— Exagerada – Christian revirou os olhos

— Eu vou estar no meu quarto pelo resto do ano pra não ver vocês dois de novo – falei seguindo para o mesmo, sem dar chance de darem mais nenhuma desculpa. Não que o Ozera estivesse interessado em dar alguma, mas sabia que Lissa ia começar a me encher em breve. – Qualquer conversa que você esteja pensando em ter comigo Lissa, pode esperar até amanhã. Ou até nunca.

Fechei a porta e me joguei na cama puxando o travesseiro para cobrir a minha cabeça. Cara, eu queria tanto poder cair de cabeça e ter uma amnésia para esquecer o que acabei de ver.

Foi inevitável não voltar a pensar na minha situação de merda. E na bendita proposta.

Quando ingressei a Universidade de South Florida havia conseguido uma boa bolsa de estudos parcial e um financiamento estudantil para custear o restante. Consegui me virar bem até a formatura, mas depois de dois meses formada e com o financiamento prestes a ser cobrado, nenhum emprego em vista, morando de favor no apartamento de Lissa e ainda vendo uma cena dessas quando chego em casa, está mais do que claro que eu definitivamente tenho que aceitar esse emprego. Dessa forma Lissa vai conseguir ter a privacidade dela com o seus namorado anormal e eu vou conseguir ter dinheiro suficiente para pagar minhas dívidas e me sustentar sem ter que contratar um psicólogo para me livrar de um trauma por mais cenas como aquela.

Além disso, não poderia ser tão ruim assim. O salário era realmente atraente e pelo jeito mal iria ver meu patrão. O que poderia dar errado?

Com esse pensamento peguei meu celular, procurando o número do Ivan, e mandei a mensagem.

“Eu topo”

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¹ Tampa é uma cidade localizada na costa oeste dos Estados Unidos, no estado da Flórida. Localizada na Baía de Tampa, a região abriga um grande porto e estuário natural ao longo do Golfo do México. A cidade é o lar do time de futebol americano Tampa Bay Buccaneers que faz parte da NFL (National Football League).