The Better For You
2 Capítulo Um.
Suspirei pela décima vez antes de respirar fundo e sentir o cheiro inconfundível de cocaína. Podia sentir a pura adrenalina corroendo minhas veias, depois me deitei confortavelmente na cama de casal, que agora parecia minúscula e rolei os olhos devido ao prazer insano e doentio. Meu telefone vibrou e gritou escandalosamente, minha visão estava turva demais para eu ver um palmo a minha frente, tateei a cama cheia de lençóis emaranhados de seda e senti algo mais perto, vibrando mais e mais perto.
– Percy! – era a voz a minha mãe
Ela tinha uma voz meiga e aveludada que me acalmava desde pequeno, se eu fechasse os olhos e me concentrasse eu ainda poderia ouvir sua voz cantando suas canções de ninar e suas mãos acariciando a confusão de meus cabelos. Agora, sua voz parecia longe, como um rádio em uma sintonia errada, e ao mesmo tempo parecia irritante como se pudesse estourar meus tímpanos, tentei ignorar a força sobrenatural que queria fechar a porta em um impulso e me afundar mais e mais na cama fofa.
– Estou ocupado, mãe. – gritei de volta e cambaleei até a porta passando a chave e caindo logo em seguida
O celular estava na minha mão, percebi tentando não rir da minha lerdice, ele vibrava furiosamente como se estivesse implorando para ser atendido de uma vez, atendi e coloquei no vivo voz me jogando de bruços dez centímetros depois da porta, ajeitei ele rudemente ao meu lado, senti todo o meu corpo ferver, era uma pena já que eu não poderia sair e mesmo que pudesse ver a feição da minha mãe em uma repleta decepção mordendo os lábios e controlando para que as lágrimas não descessem... Não era a melhor coisa de se ver depois ter almoçado com certeza.
– Hey, Percy. – a voz alta, rouca e alegre... pressionei os olhos para a tela grande do Iphone
A foto do cara bronzeado com um sorriso contagiante e zombeteiro com um topete ridículo e olhos risonhos azuis preenchiam a tela, o rosto estava iluminado pela luz da tarde, tínhamos tirado esta foto quando ficamos umas horas a mais surfando, bebendo o resto de uísque que o pai dele deixara de lado e algumas drogas que consegui arranjar, me lembro de ter ficado até uma hora da manhã na praia cheio de areia e depois de ter corrido para a casa dele com minha prancha em um braço e minha blusa pendendo no ombro, eu tinha subido pelo telhado da casa dele até chegar na minha e me espreitar pela janela do meu quarto e entrar sem fazer barulho. Uma pequena missão impossível.
– O que quer, Luke? – rosnei, pressionei os lábios como se fosse parecer menos hostil
– Uau, já está chapado, Percy? Pensei que ia esperar para a festa de hoje à noite.
Rolei os olhos e levei minha mão direita ao pulso coçando lentamente com a palma e funguei.
– Não importa, diz logo o que quer. – tentei não gritar
Podia sentir as pontas dos meus dedos arderem assim como meus lábios, meu rosto, minhas bochechas e meus olhos, eles lacrimejavam tanto que eu não sabia se era a claridade que entrava sorrateira, ou o que acontecia com meu corpo casualmente, fiquei com a segunda opção, era mais lógica.
– Okay, Percy, a Thalia está por ai? Tentei ligar para ela hoje cedo, mas parece que ela está fazendo coisas idiotas que não pode me atender.
– O que quer com a minha prima? – resmunguei franzindo os lábios
Nunca era bom confiar minha prima pequena – e que eu considerava inocente aos dezesseis anos – com Luke, um safado e drogado que era muito conhecido pelas suas conquistas.
– Minha prima, sabe, a Annie, eu falei com você sobre ela, vai deixar NY um pouco e vai passar as férias de verão por aqui... E você sabe, como ninguém, que eu não posso faltar a festa foda de hoje a noite, acho que como a Thalia é menina poderia...
– A Thalia não está aqui, Luke, ela dormiu na casa de uma amiga fazendo trabalhos sobre algumas coisas estudiosas demais para eu poder me interessar. – murmurei ainda em um tom raivoso me lembrando com certo esforço
Acho que era muito difícil Luke passar um domingo preguiçosamente deitado em sua cama se drogando ou assistindo o filme, ele sempre tinha que vir me atormentar, paquerar minha prima e elogiar minha mãe e seus cookies. Era isso que acontecia nos dias de domingos preguiçosos onde não viajamos e não tínhamos festas legais para ir, mas tínhamos uma festa legal para ir, mas eu não iria. Era uma festa um tanto... Vulgar, mesmo eu sendo um drogado miserável que não merecia a compaixão de ninguém, lá estariam os mais drogados mais miseráveis que as pessoas nem se davam o trabalho de olhar, então hoje assim que acordei decidi pegar minha dose de drogas diárias e fazer isso sozinho na paz do meu quarto, mas parecia que Luke queria ser um desses drogados ai. Suspirei forte e pisquei os olhos tentando voltar a ter minha consciência zeladora e inteligente.
– ...eu não queria ficar em casa. – o ouvi sussurrar
– Acho que posso ficar com ela.
Eu disse consciência zeladora e inteligente, não consciência bondosa. Seria a última coisa que eu poderia fazer para Luke, mas acho que os efeitos das drogas estavam mais alto que eu esperava, minha mão começou a tremer e senti meu lábio inferior fazer o mesmo. Embora Luke fosse meu melhor amigo, e creio que quase úNico exceto por Nico – um cara um tanto responsável que apenas usava um ecstasy por mês –, na verdade, o úNico que eu seria louco de confiar minha vida, cuidar de uma criança, praticamente uma criança que seria esta prima dele, era um grande trabalho, eu não estava dando conta de mim mesmo. Apesar de saber que eu não conseguiria, nem queria me drogar por hoje – a tarde que tive valia por dois dias – seria chato e eu perderia o interesse rápido. Em todas as ocasiões – e para não ferir meu orgulho e nem minha dignidade e nem minha palavra – eu poderia cuidar da prima sem cultura do Luke, só era ligar na Disney e pegar comida suficiente por uma noite e pela manhã também.
– Sério? – hesitei antes de confirmar, cruzei minhas mãos com força com o interesse que eles parassem de tremer tanto
Desabei minha cabeça entre meus braços cruzados e respirei fundo sentindo meu coração bater tão forte no meu peito que era como se ele fosse sair dali em menos de dois segundos, respirei fundo mais uma vez na esperança que ele voltasse ao normal.
– Sério – me ouvi falar -, eu vou dormir no seu quarto, né? – minha voz estava abafada, mas não me dei o trabalho de levantar e me aproximar do Iphone, suspeitei que ele não me ouviu e não me responderia, mas ele estava alegre quando começou a falar
– Aham, pode ficar e comer o que você quiser, cara. – poderia até vê-lo dando de ombros com um daqueles sorrisos que mostrava todos os dentes – Ela sabe se cuidar sozinha, meus pais viajaram,eles só não querem quebrar a promessa de meus tios de não deixarem a Annie segura.
– Tudo bem, Luke. – comecei tentando terminar o assunto, ergui minha cabeça e curvei os lábios tocando a tela e desligando a chamada
Senti o chão quente conta a minha pele que parecia muito fria agora e procurei um maço de cigarro no chão, eu pensei em aprender em ser mais organizado e aprender a deixar os cigarros sempre ao lado da porta quando eu caísse assim e tivesse que dormir porque estava cansado – ou sem forças – para caminhar de volta para minha cama confortável, lambi os meus lábios que estavam secos demais e fechei os olhos sentindo todo o meu corpo amolecer, finalmente.
***
– Percy, querido...Percy. – era a voz da minha mãe, podia reconhecer a voz aveludada em qualquer lugar, mesmo se eu estivesse drogado o suficiente para não saber o meu nome
Ela sussurrava em meu ouvido quando rolei para o lado e passei a mão pelo o peito respirando com dificuldade, bati meu peito com força para que o ar chegasse mais rápido em meus pulmões, abri os olhos sentindo a luz forte bater em meus olhos como se fossem mortais... Era horrível, cocei os olhos e comecei a respirar devagar para controlar minha respiração, ardia quando eu respirava, eu já deveria ter me acostumado com essa sensação de meio minuto morto.
– Mãe? – murmurei tampando os olhos com as costas das mãos
– O Luke está ai, querido. – ela acariciou meus cabelos como fazia quando era criança
Minha cabeça tombava em seu colo vestido por uma saia que ia um pouco acima dos joelhos, a cabeleira castanha clara com luzes caia fazendo cócegas em minha bochecha, ela puxou para apenas um lado do ombro e o colocou atrás da orelha com um pequeno gentil.
– Muito obrigada, dona Sally. – dei um beijo demorado em sua bochecha e respirei fundo antes de me sentar e cambalear – ou tentar – até o banheiro.
Virei-me quando ouvi minha mãe me chamar. Ela era linda e mesmo nos dias de domingo fazia questão de ir se arrumar como se fosse sair.
E ela iria.
Ela vestia uma blusa de seda rosa com o colarinho para baixo bem passado e os dois primeiros botões abertos, mas mesmo assim com um ar de comportamento. Os botões eram transparentes e discretos contra a blusa rosa clara, a saia era de cintura alta preta, deixando-a ainda mais discreta, suspirei.
Ela sairia de casa e andaria com sua bolsa no ombro com um sorriso discreto passando pelas pessoas que estavam na praça, acenaria para alguns vizinhos e perguntaria como está sendo seu domingo, falaria com algumas crianças e bagunçaria os cachos de Liam, o garoto pequeno perto da igreja, ela faria uma rápida referência assim que entrasse e procuraria um assento ao fundo, se sentaria e assistiria tudo calada. Se fizesse calor ela daria um nó no cabelo e prenderia mais a bolsa contra si indo em direção ao cemitério.
Sempre fora assim.
Não iria mudar agora.
Nunca iria mudar, na verdade.
Afastei os pensamentos da minha mente colocando no mais profundo lugar que eu nunca conseguiria retirar. Um lugar que amanhã, eu nem ao menos me lembrasse de nada, não me lembrasse que uma igreja ou cemitério existisse.
– Você vai sair hoje? – a expressão preocupada estava nela
Os olhos castanhos esverdeados estavam amedrontados, os ombros curvados, os braços cruzados sobre o peito e os lábios franzidos.
– Eu vou cuidar da prima do Luke, ele vai sair... E não quer deixar a garota sozinha.
Assegurei-lhe firme lançando um sorriso, ela suspirou e balançou as chaves extras nos dedos finos com as unhas grandes e bem feitas, sorriu triste e suspirei tentando sorrir também sabendo que nunca poderia lhe tirar a mania idiota e cheia de preocupação maternal que ela tinha em sempre ter uma chave extra. Os que às vezes, me salvava, literalmente.
Entrei no banheiro e enterrei minhas mãos na confusão que se encontrava meu cabelo, mechas negras misturadas e apontando para todos os lados que seria possível. Estava frio quando me dei conta, as gotículas de chuva batendo furiosamente contra a janela do meu quarto, poderia imaginar o pequeno edredom verde sobre minha poltrona na varanda totalmente molhado, era aconchegante fechar a janela, sentar ali e ficar olhando o mar tomando um chocolate quente, mas da última vez que eu fui ali, deixei a janela aberta e molharia tudo. Estiquei meus dedos, como se me desse coragem para tomar banho e arranquei minhas roupas entrando no banheiro.
Eu estava indeciso entre a água fria para esfriar a cabeça e o meu corpo ou a água morna para me aquecer do frio, mas escolhi a fria. Sempre dava certo. Meus lábios tremeram quando a água atingiu minhas costas com força, fechei minhas mãos em punho para controlar a tremedeira que as possuía, estiquei os pés e os braços bagunçando meu cabelo a cada vez que fazia isso.
A água fria parecia me matar, esfreguei minhas mãos contra meus olhos e fiquei um tempo assim até me sentir acordado o suficiente e passar uma noite assistindo uma droga de filme ou qualquer coisa do tipo, peguei o sabonete em liquido e o despejei em minha mão me ensaboando, me molhei novamente brincando com a água para que o momento de ficar com a garota demorasse mais e mais, e quando eu chegasse lá estivesse ainda mais cansado e fosse dormir.
Enrolei a toalha em minha cintura e mordi os lábios abrindo o meu guarda roupa, estava muito frio em meu quarto, e em Los Angeles, parecia estar à mesma coisa observando pela minha janela. Aproximei-me lentamente, a janela da varanda estava fechada e o edredom não era verde, era branco em cima da poltrona. Minha mãe havia trocado tudo e fechado a janela, a pequena mesa de vidro estava com uma jarra de água e um copo, minha mãe era perfeita.
Lembrei-me do calor infernal que fez hoje de manhã assim que acordei e logo da brisa leve passeando pelo meu quarto e agora o frio de congelar. Sempre era assim.
Esfreguei uma mão na outra e puxei um jeans gasto com alguns rasgos na altura do joelho, procurei uma blusa fina depositando rudemente pelo jeans e um casaco meio grosso azul desbotado com um capuz, peguei minha touca que usara semana passada na minha última festa e coloquei sobre meu cabelo molhado apenas correndo os dedos por ele, puxei como um gorro velho sobre meus ouvidos e calcei tênis confortáveis, por fim. Parei e pensei em arriscar meu reflexo no pequeno espelho ao lado da porta branca cheia de traços do banheiro.
Meus cabelos negros lisos estavam escondidos pela touca velha cinza – ainda mais desbotada que o casaco – meus olhos cor tão verdes como o mar calmo lá fora com um toque mais azulado no meio, sei lá era estranho, eles pareciam mais opacos que o normal e logo abaixo cobertos de olheiras sobre a minha pele bronzeada, mas pálida. Escondi minhas mãos no bolso e suspirei mais uma vez.
A porta estava encostada, enfiei meu maço de cigarros no bolso dianteiro e desci as escadas o cutucando de vez em quando para ter certeza que o deixaria ali.
Luke estava desconfortável, os olhos um pouco vermelhos e os lábios pressionados com tanta força que estavam vermelhos. Na maioria das vezes, Luke sempre se soltava com a minha mãe, ela era o tipo de “tia” que ele nunca tivera e mãe também, mas hoje, ele parecia mais focado em sair correndo dali.
– Hm, temos que ir, mãe. – avisei cutucando Luke
– Sim, Sally, podemos nos ver depois. – ele balançou a cabeça e andou apressado até a porta de entrada
Baixei o olhar para meus tênis quando entrei no Audi A6 do Castellan.
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