The Better For You
42 Capítulo Quarenta e Um.
Notas iniciais
Quando eu cheguei a Londres, eu deveria me lembrar de todas as coisas que eu sofri lá, mas eu realmente, eu nem estava pensando nisso. Eu só pensava no que eu ia falar para Thalia quando afirmasse que era tudo mentira. Por que, realmente, você acha que eu... Eu aqui, Percy Jackson, poderia errar? Tudo que envolve Annabeth Chase, eu saberia em menos de cinco minutos.
Então, lá estava eu na frente do espelho do antigo hotel que eu fiquei. O quarto parecia o mesmo, claro, no entanto era no sétimo andar, três andares a baixo do que fiquei na minha última viagem.
Eu estava rezando para que ninguém de importante me conhecesse, contudo se isso acontecesse, havia um cara com um piano lá que ia tocar a festa toda também. Silena havia falado comigo antes, e jurou por todos os santos que não sabia de nada sobre Annabeth estar grávida, o que me deixou bem mais confiante sobre esfregar na cara de Thalia que eu estava certo. A festa era elegante demais, eu vestia um terno preto com uma gravata azul de riscas pratas. Eu estava em dúvida entre colocar gel nos cabelos que não se comportavam ou apenas deixá-los do jeito mais bagunçados que poderiam estar. Por fim, enfiei meus dedos no gel e encharquei meus cabelos até eles ficarem “varridos” para um lado e de aparência molhada, o que pra mim foi uma vitória.
Dessa vez, eu alugara um carro. Ele era preto e pouco chamativo, o que foi uma boa escolha ao chegar aquele lugar cheio de pessoas importantes e chiques.
E foi neste momento que o plano começou a falhar. Chelsea Champoudry era filha de um velho, chamado Nereu, ele ainda não havia morrido, como eu esperava, ele era um grande amigo do meu pai, entretanto. Chelsea era uma garota altiva e sempre alegre, seus cabelos eram louros puxados para o branco, o que deveria deixá-la velha, mas só aumentava sua beleza brilhante. Ela era tão branca que parecia uma boneca de olhos azuis pálidos, ela mal tinha bochechas, ela ficava com o rosto mais fino do que deveria ser. Usava uma maquiagem leve e seu vestido era amarelo tão pálido quanto sua pele, ele era longo e puxado no busto cheio de pedrinhas. Seu carro estava na frente do meu e todos paravam na frente de fotógrafos, como se fôssemos famosos na estréia do filme. Então, eu percebi que não poderia enganar ninguém porque... Nah, todo mundo me conhece. Ficaria meio difícil tentar me esconder, além de Chelsea praticamente ter voado em meu pescoço.
- Meu Deus, Percy, como você cresceu.
Flash. Flash. Flash.
- É. – disse desconfortável. Flash. – Você também cresceu para uma garotinha desajeitada e branquela de onze anos.
Ela soltou um sorrisinho, segurando meu pescoço. Flash.
Dei um sorriso brilhante e segurei sua cintura até trezentos flashes terem me deixado tonto. Caminhamos ainda abraçados até a entrada do local da festa, que por acaso era enorme. Muitas pessoas já caminhavam por dentro, pegando uma taça de champanhe, do vinho, uísque, ou qualquer bebida alcoólica que os garçons serviam. O chão era de mármore brilhante e o teto trazia imensas luminárias elegantes, um palco, realmente, grande foi montado. Um piano reluzente preto estava colocado no meio dele, eu estava tentado a ir até ele e começar a tocá-lo, mas me contive a pegar um copo quadrado de uísque e bebericá-lo. Eu e Chelsea nos mantemos juntos, conversando.
- Ouvi falar que você e Annabeth estavam namorando. – ela tocou naquele assunto
Dei um sorriso amarelo.
- Não, na verdade... Só... – tossi, envergonhado – Só tivemos um caso passageiro, sabe... Não deu certo.
- Hm... Que pena, sinto muito, vocês pareciam tão felizes juntos naquela foto do seu campeonato.
Dei um sorriso verdadeiro, eu acho que meus olhos brilharam de felicidade.
- Sério? Parecíamos felizes?
Chelsea soltou uma gargalhada educada, eu percebi que ela estava se contendo para não se contorcer.
- O que foi? – arqueei a sobrancelha, tentando ver seus olhos – O que eu disse? – perguntei, ingênuo
- Ah, Percy, eu não sou estúpida. Você fez uma cara de cachorrinho sem dono quando disse que vocês estavam felizes.
- Você estava mentindo?
Ela novamente sorriu, acolhedora.
— Não, eu não estava mentindo. Mas, dá pra ver que você tá morto por ela.
Não respondi, nem deveria. Então, mudei de assunto sobre como estava sua vida, seus pais e o que se passava por ela. Descobri que ela virou atriz, mas ainda cuidava da parte pequena que seu pai mantinha no Olimpo, por isso veio e porque queria ver os velhos amigos. Como eu.
- A gente pode tocar? – perguntei, apontando por cima do ombro para o palco improvisado
- Bom, eu não sei. No entanto, adoraria ver você cantando e tocando. – ela disse com um sorriso incentivador
- Hm, ok. Talvez eu cante. – murmurei, indeciso – Se pessoas realmente legais, além de você, cheguem. Esses daqui não merecem ouvir minha voz. – disse esnobe
Ela soltou um risinho e bebericou seu vinho.
- Me desculpa dizer isso, mas... Pessoas interessantes é como aquela loira que vem ali atrás da Cachinhos Dourados? – ela perguntou
Primeiro, eu olhei a Cachinhos Dourados, porque eu esperava que fosse ela, mas não era. Apenas Silena. Seu rosto em forma de coração pareceu ser perfeito em meio à multidão que entrava – ou que fugia dos fotógrafos, como preferir –, seus olhos azuis brilhantes estavam delineados por uma sombra preta pesada demais, porém combinando com ela, seu nariz fino ficou bem mais bonito quando ela acenou para alguém atrás de si e os lábios se abriram em um sorriso delicado. Seu vestido era longo, assim como o de quase todas mulheres, era um vestido dourado opaco de um ombro só com franjas longas, a cada passo bruto que ela se virava para falar com alguém, todas elas se mexiam, fazendo-a parecer uma fadinha. Beckendorf vinha ao seu lado, usando um terno cor de giz sobre a pele escura.
Quando meus olhos foram para a “loira”, senti meu coração falhar uma... Duas... Quatro batidas, consecutivamente. Era impressionante como ela poderia ficar linda a cada dia que nos víamos, seus cabelos estavam de lado, como se ela colocasse tanto laquê para que eles ficassem com os cachos bem formados e ondulados, a franja posta certamente do mesmo lado e por um prendedor prateado que combinava absolutamente com seu vestido – que era o mais impressionante de todos, e não digo apenas porque eu sou apaixonado por ela, e sim, porque Chelsea disse que era um Givenchy Haute Couture de Riccardo Tisci e eu sei esse nome porque ela soletrou para mim, apenas me xingando e me chamando de burro e insensível. Annabeth usava um vestido cor de baunilha tomara que caia, cheio de pedrarias no top, como se estivesse marcando a curva do seu corpo e o que realmente me fez quase ir para o hospital, foi a âncora que depositava sobre seu busto cheio. A âncora que eu dei. A minha âncora. Ela olhou para mim, ou além de mim – exatamente, ao meu lado – e sorriu, como se não me conhecesse. E eu implorei pra que não.
- Ela está sorrindo para mim. – Chelsea me falou o óbvio, acenando alegremente – Acho que você pode ir tocar o que seja que for tocar.
- Eu fui contratado para isso mesmo. – dei de ombros, tentando esconder o sorriso de vê-la
Deixei o uísque na primeira bandeja que vi sendo passada por um garçom. Um pianista tocava qualquer música clássica, talvez de Beethoven, quem sabe, era uma música ambiente e ninguém estava se importando com isso, antes que eu pudesse chegar ao palco, Silena e Annabeth já o estavam subindo. Silena, sorridente com seu vestido dourado opaco, fazendo barulhos graciosos enquanto subia as escadas improvisadas, o pianista deu uma breve saudação e desceu as escadas. Silena pegou um dos microfones e entregou o outro a Annabeth, eu hesitei e tentei ficar o mais escondido que pude. As duas carregavam papéis nas mãos, como se fossem lembretes do que iriam falar, mas era apenas decoração. Porque elas sabiam muito bem o que teriam que fazer, cada gesto, cada passo, cada olhar, cada mexida de cabelo e o tipo de sorriso que deveria dar em cada momento.
Silena foi a primeira a se pronunciar.
- Oi? Boa noite. – cumprimentou os convidados, sorrindo gentilmente – Eu, Silena Beauregard, agradeço a todos que puderam comparecer a nossa festa de comemoração de inverno do Olimpo! É realmente uma honra poder comemorar nossos lucros com todos os nossos convidados.
Palmas ecoaram pelo salão lustroso.
- Boa noite, novamente. Eu sou Annabeth Chase e assim, como a minha amiga, Silena, me sinto honrada de compartilhar esse momento grandioso para a filial do Olimpo. Neste ano, conseguimos encontrar muitos talentos novos e até mesmo patrociná-los de um jeito assustador! Para isso, não foi apenas eu e Silena que nos esforçamos para que eles estejam famosos pelo mundo e sim, a cada palavra revelada, a cada gesto inovador e audacioso que muitos partilharam conosco. – agradeceu
- É isso mesmo. Nossa festa é para parabenizar nossos talentos descobertos durante o ano, e para vocês, que fazem parte da maior corporação do mundo! – citou, alegre, no entanto, ela olhou confusa para os rostos que se espalhavam e a olhavam, todos frenéticos – Bom, eu ainda estou um pouco confusa, porque algo saiu dos nossos padrões...
- Eu queria muito me desculpar por essa irresponsabilidade que foi carregada por nós. Fizemos a decisão de contratar um músico, mas ele ainda não apareceu, no entanto, disseram-nos que eles estavam entre vocês. – Annabeth deu continuidade
Ela vai me xingar até a minha última veia, ela vai me matar e me chamar de irresponsável quando estivermos sozinhos, pensei comigo mesmo, esperando pela morte. Mas, tossi e levantei a mão, envergonhado.
- Ah. – Silena soltou – Pode subir, querido, pode subir. – ela me chamou e realmente, estava assustada
Contudo, como disse antes, os olhos de Annabeth estavam apavorantes e assustadores, ela apenas dizia entre as entrelinhas: Você me fez passar vergonha, você vai pagar por isso, seu desgraçado, miserável.
- Ok, resolvemos o problema. Obrigada pela paciência de vocês.
Por que ela se explica tanto? Não foi menos de cinco minutos! Ela não precisava pedir obrigada, adverti em minha mente.
- Palmas para o nosso músico, Percy Jackson, que veio direto dos Estados Unidos, apenas para nos dar uma boa apresentação da sua música espetacular.
Ah, qual é, não precisa colocar tanta pressão.
Subi e senti todo o meu rosto queimando, os microfones que as meninas estavam carregando já não estavam mais lá, todo o salão se manteve mais escuro, como se eu fosse o ponto principal da festa.
Thalia não me havia contado sobre isso.
Um microfone estava encaixado a cima do piano. Sentei-me no banco fofo e olhei para todos que me encaravam com expectativa.
- Hey, boa noite. – cumprimentei, encarando todos
Daí eu me lembrei de algo muito, muito, muito importante: eu não sabia que porra eu ia cantar.
Tossi, envergonhado.
- Bom, como Silena disse, eu sou Percy Jackson, e estou muito grato de ter sido convidado – porque você não foi, gritei na minha cabeça– para esta espetacular festa que vocês promoveram aqui.
Eu tenho que enrolar enquanto eu tento achar uma boa música. Vamos, Percy.
- Na matriz, em Los Angeles, não costumamos fazer festa de inverno, porque sempre é tão quente, então é sempre a festa de verão, no entanto, a festa aqui parece ser mais bela do que lá. – Flashes voavam doidos pelo meu rosto, pisquei os olhos com força e voltei a falar – Seria realmente legal se vocês fossem.
Não era algo fabuloso a se dizer, porque todos ainda me olhavam, esperando por mais. Mas, eu já havia achado a música certa.
- Essa música é lenta, e espero que todos se agrupem em casais. – pedi – What’s Left Of Me.
Posicionei-me corretamente em frente ao piano, pensando se eu conseguiria cantar e tocar na frente de tantas pessoas. Meus dedos dedilharam as teclas suavemente, a letra e as notas voando freneticamente pelos meus olhos.
- Watch my life pass me by, in the rearview mirror, pictures frozen in time are becoming clearer. I don’t wanna waste another Day, stuck of my mistakes, yeah – sussurrei contra o microfone ouvindo minha voz ser ecoada
Meus dedos estavam mais habilidosos que eu imaginava, e eu até pensei em tossir pra melhorar minha voz rouca, mas decidi que iria estragar a música. O refrão seguia, e a música vinha lenta com as notas suaves.
- ‘Cause I want you, and I feel you, crawling underneath my skin, like a hunger, like a burning to find the place I’ve never been, now I’m broken and I’m fading, I’m the half man I thought I would be, but you can have... – melodiei, com a voz baixa e mais rouca do que eu imaginava, por fim, sussurrei: — what’s left of me. – sussurrei, de um jeito até melancólico demais
- I’ve been dying inside, little by little, nowhere to go, but goin’ out of my mind in endless circle, runnin’ from myself until you gave me a reason for standing still.
Abri meus olhos enquanto cantava. Muitos casais dançavam, abraçados pelo hall. Mas, Annabeth continuava lá. No canto do salão, me olhando, com lágrimas nos olhos, pensei em correr até ela, pegá-la em meus braços e enxugar suas lágrimas, ou melhor, não deixá-las cair, como qualquer clichê. Mas, isso não fazia parte do plano. Não, definitivamente. Aqui era o plano A. Repeti o refrão, ainda olhando seus ombros curvados, suas bochechas coradas e seu nariz arrebitado fungando repetidamente, sua nobreza clássica se esvaiu de seu rosto e deu lugar a uma garotinha indefesa, esperando que ninguém a visse chorando.
- Falling faster, barely breathing, give me something to believe in, tell me it’s not in my head.
Era estranho, porque eu estava tentando fazer com que minha voz soasse baixa e menos rouca do que ela aparentava estar, no entanto, quanto mais eu sussurrava, mais eu sentia que ela saía rouca. Olhei mais uma vez para os casais dançando lentamente no hall, eu pensei que nem devia ter aceitado fazer isso, quando vi Annabeth correndo em meio a eles, com a cabeça baixa e o vestido de baunilha, esvoaçando lentamente enquanto dava seus passos.
- Take what’s left of this man, make me whole once again. – murmurei, mirando seu cabelo se perder do outro lado do hall
Continuei a música de olhos fechados, gravando a mente de uma Annabeth frágil quase a minha frente. Eu não sabia se estava tudo bem, mas sabia que os meus dedos afundavam com mais força no piano, como se eu estivesse com raiva, as notas saíam mais rápidas e mais pesadas, a música até começou a ficar menos de cinco segundos horrível, decidi que era melhor parar. Continuei a música, do seu jeito, lento.
Annabeth voltou. Com uma maquiagem nova, mais leve, percebi. Uma sombra branca nos olhos, lápis preto e sua boca continuava rosada, os olhos não mais vermelhos e chorosos. No momento que nossos olhos se encontraram novamente, eu apenas sentia o subir do meu peito quando eu respirava lentamente, eu sentia cada mínimo espaço do meu corpo, o leve bater do meu coração ecoava nos meus ouvidos, e minha voz atravessava o hall, profunda. Olhei seu rosto delicado, como se os versos a seguir, fossem a pergunta que eu mais queria que ela respondesse.
- Will you take what’s left? Take what’s left of me... - a música acabava aqui, pelo cantor, mas não para mim, olhei novamente para os seus olhos tempestuosos com riscos azuis claros – Please, darling. – cantarolei
Em seguida, palmas soaram por todo o salão.
- Obrigado. – agradeci e desci as escadas
Até o final da festa, eu não vi Annabeth. No entanto, eu liguei para Thalia.
- Silena me confirmou que ela não está... Hãh-hãh. – murmurei nosso código
Eu estava encostado na soleira da porta, com o celular contra meu ouvido, tentando me desviar das pessoas que passavam por mim.
- Calminha aí. O plano B vai confirmar tudo.
- Silena não pode...
- Estar mentindo pra você?
- É.
- Só você saberá.
Novamente, eu fui saber. E lá estava eu acordando cedo no domingo, saindo de casa e atravessando Londres com meu carro alugado.
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