The Best Part Of Me.
12 A Little More.
Notas iniciais
Angeles Saramego.
Dizem que quando você encontra o amor, o primeiro grande amor da sua vida, podem passar anos mas ele será inesquecível. Que existem coisas na vida que por mais que você lute contra todos os dias não poderá esquecê-los, e que até seus medos mais ocultos que você torce para esconder de baixo de uma cama, uma hora vem à tona te assombrando como seu pior pesadelo. Nesse momento era exatamente assim que me sentia, alguém com tantos sentimentos que de uma hora para outra estavam vindo a luz, minha cabeça implorava por um mínimo descanso que fosse desde ontem, desde o maldito baile em que German me pediu uma dança, o que eu não sabia era que uma simples dança, só uma, seria capaz de mudar o curso das coisas. Meus sentimentos, meus medos, minhas inseguranças e me deixar vulnerável a tudo que eu acreditei durante anos ter morrido, e ontem pude ver o quão redondamente estive enganada, me enganando para tentar negar o óbvio.
Apertei contra meu peito uma foto minha e de German que achei escondida por entre algumas caixas, sorríamos apaixonados como se não houvesse mais ninguém naquele mundo que construímos, e só aí me dei conta. Nunca poderia esquecê-lo, esquecer tudo o que passamos. E mesmo a dança durando somente uns três minutinhos, está nos seus braços novamente me trazia segurança, a paz que eu precisava. A sensação era a mesma de anos atrás quando eu estava apaixonada pelo pai da minha sobrinha, essa sensação de fogo por entre as veias me consumindo havia continuado intacta desde que pus meus olhos pela primeira vez em quem acreditei ser o vilão da minha história até hoje, exatamente 8 anos e 8 meses depois.
Meu coração se aqueceu quando pensei em tentar perdoá-lo, e faria isso contando sobre nossa filha, a ideia chegava a me ferver o sangue só de imaginar o quanto ela gostaria de ter ele como pai e a ele igual. Fitei as ruas movimentadas de Buenos Aires pela sacada quase que inerte com os olhos presos no sol fraquinho quase que imperceptível começando a iluminar a cidade majestosamente às cinco da manhã, metida em uma onda de pensamentos que corriam voraz por cada mínima célula do meu corpo e para minha sorte ou não, German estava em quase todos eles.
— Acordada tão cedo?
Paralisei com o balde de água fria cheio de realidade, e foi então que entendi que a vida era feita de escolhas. Eu escolhi está com outra pessoa, em outro continente, agora não poderia mais apontar culpados depois de quase seis anos. Soltei lentamente a respiração que nem sabia que prendia, escondendo a foto dentro da blusa branca de seda que usava, forcei um sorriso desejando que Leo não me perguntasse sobre o que escondi, até porque eu o amava, ou pelo menos achava que isso era amor, nunca chegaria aos pés do amor que senti por German, ninguém chegaria, porém ainda sim era amor.
— Sim. Aproveitei para pensar um pouco. — Minha voz saiu mais baixa do que eu gostaria.
Pude ouvir seus passos e logo senti seus braços fortes abraçando minha cintura, um gesto tão simples que me levou as lembranças de como German me abraçou ontem, de como nossos lábios quase se tocaram implorando por aquele contato. Não poderia ceder, em nada, principalmente em passar o dia revivendo memórias quando tinha uma vida para levar em diante. Leonardo depositou um beijo no meu pescoço, nada malicioso, mas sim com um carinho imensurável. A única certeza que tinha era que precisava dele, o queria ao meu lado.
E mais uma vez outro balde de água fria, esse foi tão real que pude me arrepiar, estava confusa entre os dois. Isso já tinha me ocorrido uma vez, está entre duas pessoas, e não terminou nada bem, para nenhum dos três. Uma vez li num trecho de um livro reflexivo que o amor é como um campo de batalhas, e nele vale tudo para ganhar. No meu caso, mentiras e ocultações para não ferir os sentimentos dele, o que me confortava é que ante qualquer relacionamento eu sempre teria Alice e Violetta, isso era tudo que me importava agora.
— Vamos voltar a dormir, você precisa descansar. — Sua voz sussurrou, enquanto apoiava o queixo no meu ombro. Concordei, sentindo algo que deduzir ser o sono.
— Tudo bem, vamos.
Fomos até nossa cama e me deitei de costas para Leonardo, por medo de que como ele me conhecia tão bem saber nitidamente o que se passava comigo, ou perceber o que sentia agora. Nunca se passou pela minha cabeça que aquela dança mudaria tudo repentinamente, fechei lentamente os olhos em busca de descanso para minha mente agitada enquanto segurava firme a foto que tinha escondido dentro da blusa, ao contrário do que pensei, dormir hoje estava sendo mais difícil do que qualquer outro dia. O nervoso me tomava ao imaginar que daqui há algumas horas contaria pra German sobre Alice, embora uma grande placa de alerta vermelho insistisse em me atormentar.
Sem conseguir dormir nem por meia hora que fosse abri meus olhos ainda na mesma posição quase que fetal, por cima dos cílios chequei com enfado a hora e ao constatar que eram sete da matina decidi contra minha vontade levantar cautelosamente para não acordar Leonardo. Ao andar senti um incômodo pela foto grudada ao meu abdômen, fui até o closet o abrindo devagar tentando fazer o mínimo de barulho possível, levantei a blusa pegando a foto e a analisando pela última vez antes de deixá-la cair no esquecimento até ter de tomar uma decisão.
Peguei a caixa lilás em baixo da última gaveta que eu guardava alguns álbuns importantes, quando realmente ia guardá-la a foto cai no chão, suspirei e a peguei entendendo que uma lembrança assim não poderia ficar escondida, mas o que podia fazer?
— O que é isso? — Ouvi Leonardo questionar atrás de mim.
Paralisei espantada, pensando em um turbilhão de coisas. Ficar ou Fugir? Mentir ou dizer a verdade? Arriscar ou perder tudo que tinha? Lutar ou me render? Nada seria tão facilmente resolvido assim, e eu escolhi a pior hipótese que minha mente apresentou naquele momento. A mentira.
— É uma foto. — Expliquei tensa. Tomei uma respiração funda. – Minha e de Violetta que tiramos na praia.
Merda! Minha mente gritava comigo, o olhar dele se estreitou confuso ao perceber que eu apertava a foto contra mim nervosa, não queria que ele visse aquela foto. Porque não era somente uma simples foto, já tivemos problemas demais.
— Posso ver? — Questionou aproximando-se.
Droga. Pigarreei sabendo que ele me pegaria na mentira, e mesmo assim continuei com outra desculpa.
— Não, melhor não… Está cheia de poeira e…
— Angie.
Sua voz dura ordenando só de mencionar meu nome e sua mão estendida não me deram outra opção, que não fosse lhe entregar a foto. Meus dedos mexiam frenéticos diante de uma reação quase nula sua desde o momento que a fitou, estava chateado, podia sentir daqui.
— Desculpe… — Foi a única coisa que pôde sair da minha boca. Leonardo suspirou.
— Te desculpar pelo que? Por saber que você ainda sente alguma coisa por ele? Ou pela mentira?- Agora me fitou com um tom sarcástico, que quase nem se notava. – Não é de hoje que eu noto que ainda existe algo entre vocês, Angeles!
A culpa começou a me consumir, uma hora ou outra eu sabia que isso aconteceria, e pela milésima vez desde que cheguei em Buenos Aires praguejei contra German mesmo sabendo que dessa vez não era culpa dele, era somente minha.
— Não sinto mais nada por ele, Leo. É só uma foto que não tem importância! Você não acha que está fazendo muito barulho por uma simples recordação?
Tentei mudar o rumo da conversa, por mais que me custasse admitir, Leonardo estava certo dessa vez. Não era uma simples foto, não aquela. Ele riu abafado.
— Claro, uma recordação de quando vocês eram noivos. — Ele ironizou. – Quer saber? Não me importa.
— Leo… — O chamei branda.
— Não quero conversar agora, vou tomar banho pra ir trabalhar. — Ele deu alguns passos a frente, mordi meu lábio inferior percebendo seu transtorno, Leonardo deu um passo atrás ficando quieto ao meu lado. – Mas se esse imbecil acha que eu vou desistir de você assim, ele está muito enganado. Você é minha, entendeu?
Assenti calada, surpresa com aquele comentário que apesar de ser possessivo me causou uma sensação boa quando senti seus ciúmes. Sem esperar que eu falasse algo saiu rumo ao banheiro e bateu a porta com força me fazendo dar um pulinho pelo susto, com o coração saindo pela boca. Dava pra ver o quanto mudou em dois segundos, o quanto ficava possesso só por imaginar que eu e German teríamos algo. Só que eu, Angeles Carrara Saramego nunca voltaria a ter qualquer coisa além de amizade com ele por mais que uma pequena parte de mim quisesse, isso era uma promessa. Era passado, por mais que nosso relacionamento tivesse sido incrível eu não estava disposta a me magoar de novo com a mesma pessoa. Não poderia suportar essa dor, tudo que eu tinha que fazer era ficar tranquila pra contar sobre Alice.
Balancei a cabeça espantando qualquer pensamento absurdo que pudesse me colocar em situações como essa, isso só me comprovava a dor de cabeça que teria em fazer qualquer coisa que o pai da minha sobrinha estivesse no meio, peguei a foto que Leonardo tinha deixado cair no chão e a guardei dentro da caixa em baixo dos álbuns evitando a olhar. Agarrei uma toalha indo monotonamente ao banheiro de hóspedes, tomei um banho rápido sabendo que demorar no banho seria um gatilho pra pensar mais do que deveria, voltei para o quarto vendo meu namorado com uma carranca enquanto tentava arrumar sua gravata.
— Quer ajuda?
Me aproximei em passos lentos. Mal me olhou e bufou.
— Não, arrumo essa merda no carro. — Cuspiu com rispidez. – Já vou indo, não precisa me esperar mais tarde.
Leo pegou a gravata com grosseria, pegou sua pasta passando por mim como um furacão furioso e batendo a porta com força, fechei os olhos praguejando mentalmente por me sentir tão confusa assim. Por está sendo tão fraca quando não deveria, e por está revirando um assunto que até ontem tinha dado como encerrado, e eu me odiava demais por isso agora.
Vesti um vestido vinho rodado que ia até dois dedos acima do joelho, calcei um meião preto e pus um coturno preto de salto, pra finalizar vesti um blazer preto simples e deixei meu cabelo solto liso mesmo. Não fiz nenhuma maquiagem apenas passei um gloss de morango, borrifei um pouco de perfume e saí do quarto rumando até o quarto de Alice onde para minha surpresa a encontrei acordada segurando sua ursinha.
— Bom dia querida. — Beijei sua testa.
— Bom dia mamãe. Tio Leo tá zangado? — Seus olhinhos curiosos me fitaram. Sentei ao seu lado na cama, suspirando profundamente.
— Não, de onde tirou isso mocinha? — Menti sorrindo. Alice não precisava se preocupar com a gente. Ela riu subindo no meu colo.
— Já tá na hora de se arrumar pra irmos, não acha? — Beijei sua testinha, Alice escondeu a cabeça nos meus cabelos manhosa.
A abracei com um medo danado de perdê-la pra German. Não poderia nem sequer pensar nessa possibilidade, isso acabava comigo.
— Tá me apertando mami. — Alice disse sufocada me trazendo a realidade, afrouxei o abraço a soltando.
— Desculpa. — Ri. – Ei, que carinha é essa?
— Não queria ir hoje.
Alice ficou murcha de repente me preocupando, será que aconteceu algo?
— Por que? Alguém tá fazendo alguma gracinha com você?
Ela negou balançando a cabeça.
— Sabe que pode me contar tudo não é? — Afaguei seus cabelos loiros.
— Sei, mas não é nada. Eu só queria passar o dia com você no Studio. — Colocou as mãozinhas no meu rosto o apertando, fiz a carinha de peixinho a fazendo rir ao tentar me imitar. Com alívio constatei que era só isso mesmo.
— Prometo que vou levar você pra passar um dia todo comigo, mas hoje eu tenho que resolver um montão de coisas. — Alice se animou.
— Um montão? — Questionou com seu sorriso.
— Um montão! — Confirmei me levantado com ela no colo. – Agora vamos, se não as duas vão chegar atrasadas.
Arrumei Alice num tempo recorde, a vesti com um vestido branco com listras azuis e um cinto de laço vermelho. Deixei seu cabelo solto pondo uma tiara de laço vermelho que fazia conjunto com seu vestido, e ela calçou suas sapatilhas pretas. Peguei sua bolsa e descemos juntas em silêncio, vi Catalina na cozinha arrumando as coisas e a mesa do café posta.
— Bom dia, dona Angie. — Me cumprimenta com um sorriso. – Bom dia, Alice.
Alice acenou com a mão, sentando-se na mesa.
— Bom dia, Catalina. E pode parar com essas formalidades comigo. — Especifiquei lançando-lhe uma piscadela cúmplice, sentando-me ao seu lado.
…
— Tchau querida, boa aula. — Beijei sua testa. – É Catalina quem vem te buscar hoje, comporte-se que eu não demoro ok?
— Sim, mamãe.
Alice entrou na sala e dei meia volta saindo do colégio, entrei no carro pensando no abacaxi que teria de resolver daqui a pouco. Seria melhor ligar pra ele? Ir falar pessoalmente? Droga, não tinha mais seu número e Violetta ia achar suspeito se a pedisse sem explicar o motivo. Espera, eu tinha um motivo, podia ser a papelada do Studio. Ok Angeles, relaxa. É só o German, pai da sua filha. Tranquila. Tentei repetir para minha pessoa várias vezes, enquanto refazia meu plano em como ia pedir pra ele me encontrar porque obviamente não podia ir tão nervosa assim.
Durante todo o caminho fui fazendo e refazendo minha desculpa, até estacionar em frente ao Studio, confesso que meu coração estaria prestes a sair pela boca enquanto eu era consumida pela ansiedade. Não poderia adiar, não era por German e nem por mim que tomaria essa atitude. Era por Alice, uma criança que precisava do pai tanto quanto precisava de mim. Que por mais que eu tentasse não poderia fazer os dois papéis ao mesmo tempo. Era só por ela.
Cumprimentei alguns alunos e entrei encontrando Vilu na porta da sala dos professores mexendo em seu celular.
— Vilu. — A chamei.
Ela levantou a cabeça e sorriu.
— Oi tia. Estava a ponto de ligar pra você. — A fitei confusa. – Antônio quer ter uma reunião com os professores.
— Sabe o motivo?
Violetta balançou a cabeça negando.
— Acho que é pra falar sobre o baile e dar boas notícias.
Mordi meu lábio nervosa ao reviver lentamente a dança que tive com German.
— Tá tudo bem? — Perguntou fitando-me.
— Sim. — Balancei minha cabeça forçando um sorriso. – Vamos entrar?
Vilu assentiu. Entramos na sala dos professores, e sentamos lado a lado. Antes que eu perguntasse sobre o sumiço dela ontem, Antônio, Pablo e Beto entraram na sala.
— Bom, eu convoquei essa reunião primeiramente para dar os parabéns a todos os professores que organizaram o baile de ontem. Foi tudo perfeito.
Os professores se entreolharam com sorrisos, com certeza tínhamos trabalhado bastante e eu tinha confiança de que teríamos boas notícias.
— E então Antônio? — Vilu perguntou mal conseguindo conter seu sorriso.
Ele suspirou retirando seu óculos, um clima de suspense inundou a sala dos professores.
— Antônio? — Pablo chamou-o já preocupado.
— A arrecadação foi muito boa, temos uma quantidade muito boa para quitar alguns gastos… Mas… — Ele deu uma pequena pausa. Mas? Mas o que?
— Não diga que…
Beto sentou-se atônito.
— Mas o dinheiro que arrecadamos não é o suficiente pra salvar o Studio. — Todos nós murchamos. – Então teremos uma exoneração parcial de tudo.
— Você acabou de dizer que a arrecadação foi boa e agora terá que fazer uma exoneração? — Pablo se levantou transtornado.
Eu não tinha nem palavras para descrever ao perceber que ou o Studio se reergueria ou fecharia de uma vez com essa decisão, e eu não poderia fazer nada para ajudar.
— Não tenho outra escolha, essa é a decisão final. Esqueci de avisar que agora o novo contador do Studio será German, eu espero que ele tenha êxito em tapar as brechas que foram feitas por dívidas com juros altíssimos.
Ele saiu da sala nos deixando boquiabertos.
— O que é isso? — Vilu levantou seu olhar pensativo.
— Significa demissão, e corte de todos os gastos que gerem despesas acumulativas para o Studio.
Minha sobrinha arregalou os olhos.
— E agora?
— Ele não pode fazer isso. Muita gente vai ser demitida, pessoas que precisam de emprego! — Beto murmurou baixo. Suspirei.
— Não vamos contestar essa decisão, eu vou tentar pensar em algo e ver o que podemos fazer. — Expliquei. Beto negou com a cabeça e saiu sem dizer uma palavra.
— Tô atrasada pra aula. Com licença. — Violetta se pronunciou levantando-se e saindo da sala, percebi o quanto tinha se chateado com a decisão de Antônio e não era pra menos. Me cortava o coração vê-la assim.
Pablo sentou-se ao meu lado, me ajeitei na cadeira o olhando.
— Não vai ser fácil.
Assenti, segurando em sua mão.
— O Studio vai sair dessa, como sempre saiu. — Tentei confortá-lo, apesar de que depois disso eu não sabia o que aconteceria. Era incerto demais. Pablo sorriu de lado, acarinhando minha mão com seu polegar.
— É incrível como você tem as palavras certas no momento certo. – Eu sorri, quieta. – Você tá com uma cara… Aconteceu alguma coisa?
Mordi meu lábio, precisava contar pra alguém o que eu pretendia. Até porque eu sabia que poderia confiar nele, era meu melhor amigo desde sempre.
— Pretendo contar a verdade pra German.
Pablo me olhou confuso.
— Sobre o que?
Revirei os olhos com a lerdeza do meu amigo, o lançando um sorriso cínico. Pablo arregalou os olhos se dando conta do que eu falava.
— Vai falar sobre a Alice? Tem certeza disso?
Respirei profundamente por alguns segundos, eu arriscaria muitas coisas que estavam jogo. Ele entenderia o motivo de não ter contado antes.
— Sim. Alice precisa saber quem é seu pai biológico, eu ando muito ocupada desde que cheguei aqui e não tenho conseguido dar a atenção que ela precisa, muito menos o Leonardo. — Fiz uma pausa pra respirar. – Tenho certeza que ambos vão gostar muito da ideia, faço isso por ela.
— Olha, eu tô muito orgulhoso de você. Continuar mentindo sobre ela só vai magoar a você, está tomando a decisão certa. — Pablo sorriu aquecido, o acompanhei assentindo.
— Só quero que tudo saia bem. Me deseje sorte.
Brinquei me levantando. Pablo levantou-se e pôs suas mãos nas minhas bochechas as apertando.
— Muita sorte. Tenho uma aula agora, conversamos mais tarde?
Confirmei. Pablo me deu as costas indo em direção a porta.
— Espera! — Ele me parou me mirando confuso. – É que… Hm… Será que você poderia me passar o número dele?
Minhas bochechas ruborizaram. Pablo riu assentindo, anotou o número num pedaço de papel e entregou-me saindo da sala em seguida. Fitei seu número por alguns segundos com um nervoso que não cabia em mim, era por Alice. O ligar assim depois de tantos anos ia soar estranho, mas precisávamos conversar. Trêmula, comecei a digitar seu número.
Analisei o celular por alguns segundos criando coragem, eu tinha que ser forte por Alice. Não teríamos nenhuma relação além de pais da nossa filha. Para de enrolar! Minha mente gritava, respirei fundo apertando em chamar.
— Alô?
Ouvir sua voz depois de tanto tempo assim me trouxe muitas recordações, meu coração acelerou e eu constatei que precisava me acalmar.
— German? É a Angie.
Um silêncio na linha por alguns segundos, ele estava tão surpreso quanto eu.
— Angie, quanto tempo. Aconteceu alguma coisa?
Respirei fundo.
— Precisamos conversar. Pode me encontrar mais tarde? É importante…
(…)
Geral.
German desligou o telefone surpreso com um pequeno sorrisinho bobo que insistia em não sair de seu rosto, seu coração acelerou só com a possibilidade de encontrá-la novamente, tinha sido uma surpresa e tanto. No entanto, mais do que isso esperava ter uma possibilidade real de que o perdoasse, não pôde perceber antes o quanto estava cego de raiva e por isso havia a perdido.
— Que sorriso é esse? — Ramallo chegou sorrateiro no escritório observando o amigo que tinha um olhar perdido.
German riu como se tivesse visto um passarinho azul.
— Angie.
— Logo vi. — Ramallo sorriu sentando-se de frente para o amigo como de costume. – O que houve?
— Angie acabou de me ligar pedindo pra nos encontramos daqui há pouco. — O moreno tamborilou os dedos na mesa agitado. Cada célula de seu corpo ansioso gritava dentro si por ela. – Mas não disse o motivo, me pareceu importante.
— Isso é muito bom German, vocês finalmente vão poder esclarecer tudo.
— Sim, tomara que ela entenda Ramallo. — German colocou a mão no queixo, ansioso levantou-se pegando a chave de sua BMW.
— Ela vai, tenho certeza que vocês vão se entender.
— Tomara Ramallo, não vejo a hora de esclarecermos tudo.
— Mas você já vai? Tínhamos uma reunião marcada pra agora com o fornecedor. — Ramallo levantou também.
— Marca pra depois.
German saiu com pressa indo até a garagem, por algum motivo tinha um bom pressentimento.
….
Angeles saiu do Studio adiantada, decidiu que ia de pé mesmo já que era perto e assim poderia formular como contaria o que tinha que contar, não seria fácil. Saber que estava a um passo de contar um segredo que esperava esconder a sete chaves e que mais ainda, era sobre sua filha a quebrava. Não sabia como seria a reação de German, o que viria depois? Brigariam na justiça pela guarda de Alice? Um arrepio percorreu sua espinha só de pensar.
Balançou a cabeça espantando esses pensamentos, não se preocuparia até que realmente tivesse com que se preocupar. Para sua infelicidade ou não, tinha começado a garoar, nem tinha percebido a mudança de tempo.
Droga! Praguejou irritada quando percebeu que ficava mais forte, seria um sinal pra voltar dali? Negou sentindo as gotículas frias a arrepiarem ao caírem em si, não poderia voltar já que estava perto da praça, só mais dois quarteirões. Angie apressa os passos lembrando que tinha um toldo na praça que poderia protegê-la da chuva, com a mente dando voltas sabia que se não contasse agora perderia a coragem e não contaria mais.
….
German faz a curva em seu carro e vê uma moça loira andando apressadamente na garoa que se tornava chuva, sente seu coração acelerar e vai a seguindo lentamente com o carro até parar perto dela e abrir o vidro surpreso.
— Angie?
Angie para assustada, com a mão no peito pelo susto. Ao ver que era German o encara surpresa.
— German, eu estava indo para a praça te encontrar. — Murmurou envolvendo seus braços em torno da própria cintura para se aquecer do imenso frio que vinha junto com o sereno.
— Entra, podemos ir para outro canto se quiser.
Angeles o olhou desconfiada.
— Acho melhor não… Eu espero a chuva passar e nos encontraremos na praça daqui há pouco. — Respondeu o mirando nervosa.
Afinal o que tinha para falar não seria fácil, German até mesmo poderia querer tomar sua filha e isso lhe enchia de medo.
— Angie, não seja teimosa. O que custa você entrar no carro? Vai ficar resfriada desse jeito e ter que repousar. — German explicou com um sorriso.
Lembrou-se que quando eles ainda eram noivos, Angie odiava só pensar na hipótese de passar o dia todo na cama sem poder fazer nada, a não ser que estivesse com ele fazendo coisas deliciosamente proibidas. Angie suspirou rendida, ele mesmo depois de tantos anos ainda a conhecia bem. Não poderia ficar resfriada até mesmo para não passar pra sua filha.
— Tudo bem! — Ela sussurrou dando a volta e entrando no carro um pouco molhada.
Fato que German não se importou, pelo contrário só notou o quanto ela ficava ainda mais linda assim. Ele fechou o vidro do carro e voltou sua atenção para a bela loira ao seu lado. Angeles o fitou sem acreditar no que estava prestes a fazer, respirou fundo, não poderia deixar transparecer seu nervoso.
— Então o que queria falar Angie?
— German, eu tenho algo muito importante para te falar porém não sei por onde começar.
— Pelo começo, Angie. — Brincou.
Ficaram em silêncio por alguns segundos.
— Eu fui embora de Buenos Aires porque pensei que poderia esquecer isso e que nunca mais olharia para você, mas eu estou aqui novamente e não sei como te contar a verdade, eu fiquei com muito medo de você ficar com raiva. Eu só… Me desculpa, só não posso mais esconder isso. — Angie dizia nervosa, seu olhar alternava entre os olhos e a boca carnuda dele ali tão próxima do seu rosto. Balançou a cabeça atordoada vendo que ele ainda a fitava com um pequeno sorriso de canto. – German eu…
— Angie não diga mais nada. — German disse a olhando, fechou os olhos e se aproximou. Convicto que ambos precisavam daquilo mais que tudo.
Angie que até então estava inquieta, percebia o que ia acontecer mas não tinha forças para tentar resistir aquilo, necessitava de seus lábios desde que havia chegado. Mirava German se esquivando até suas costas encostarem na porta do carro, sentiu sua respiração se fundindo com a dele e sua mente deu pane deixando-a inerte. Precisava de um pouco mais do que só o ódio que acreditou guardar por ele durante anos, pra fazer pará-la. Ali ela era toda dele, sem máscaras, sem dores, sem orgulho.
German encostou seus lábios nos lábios molhados dela fazendo várias correntes elétricas passearem pelo seu corpo com a sensação de está beijando o amor da sua vida novamente, seus lábios encaixando-se perfeitamente faziam o estômago de Angie revirar com as famosas borboletas. Com Angeles não era diferente, por um minuto sua mente cedeu a fazendo esquecer de tudo. Seus medos, mágoas, motivos pra não fazê-lo. E ela simplesmente se entregou ao momento intenso, movimentando com calma seus lábios nos dele enquanto segurava seus ombros fortes o trazendo mais para si.
A sintonia era tanta que poderiam quase sentir seus corações batendo no mesmo ritmo, sentindo a sensação de estar nos braços um do outro depois de anos. A imagem de Leonardo bombardeou na mente de Angie a fazendo se sentir culpada por está traindo-o dessa forma tão cruel, e como se tivesse saído de um transe, Angie despertou reunindo forças e afastando German de si que lhe lançou um olhar confuso.
— Angie, eu… Me desculpa. Não sei o que houve, foi um arrebatamento da minha parte. — German tentava se explicar agitado. Ela evitava o olhar tentando processar o que acabara de acontecer, bochechas vermelhas e respiração ofegante, tinham cometido um grande erro. Ainda sim, para ele, ela continuava perfeita.
— Angie?
— Eu sabia que ia ser um erro te procurar. — Angie se pronunciou rispidamente, já abrindo a porta e saindo no sereno mesmo sem dar chance dele terminar de falar.
Havia saído sem falar nada, mas talvez fosse melhor assim, afinal não poderia perder sua bonequinha mesmo sabendo que o fazia era errado.
German olhava estático para onde Angie se encontrava há pouco, lembrou do gosto dos lábios macios dela contra os seus retribuindo cada movimento de amor que faziam, balançou a cabeça negativamente concordando com Angie que aquilo havia sido um erro dos grandes. Angie tinha toda razão em ficar com raiva dele, afinal tinha a beijado mesmo sabendo que a magoara muito durante esses anos e ainda por cima ela agora engatara um relacionamento com outro homem, esse era o problema! Angeles era de outro homem e não poderia beijá-la pois outro já fazia isso no seu lugar. De qualquer forma seria melhor assim, dar um tempo para organizar seus sentimentos.
Até porque o tempo cura tudo.
German Castillo.
Andei de um lado para o outro sem saber o que fazer, minha cabeça dava voltas cada vez que lembrava do gosto dos lábios macios de Angie contra os meus, nem conseguia acreditar que tinha a beijado depois de tudo. Foi um ato tão impetuoso, não pude me controlar ao vê-la falando todas aquelas coisas. Cada célula minha gritava que eu queria Angie, como eu conseguiria esconder que ainda a amava? Como fazê-la me perdoar por mais esse deslize? Eu era um grande imbecil, consegui desperdiçar talvez a única oportunidade que teria para tentar consertar tudo. Precisava dela, mais do que imaginava. Mesmo sabendo que estava chateada, lembrei que retribuiu com vontade o beijo que durara alguns poucos segundos, foi como estar no paraíso. E por que retribuiu? Talvez nem tudo o que tínhamos havia se perdido. Meu coração se aqueceu ao pensar que Angeles ainda podia sentir algo, que ainda tinha sobrado algum resquício sentimento por mim.
Sentei-me em frente ao piano apoiando o queixo nas mãos, tentando acalmar meus pensamentos desordenados, tantas lembranças, tantos sentimentos envolvidos. Isso não poderia ter acontecido agora, Angeles tem toda razão de me odiar. E se antes tínhamos qualquer possibilidade de nos acertamos, agora eu via tudo dissipado por minha ansiedade em tê-la, havia estragado tudo. De novo.
— Pai? Tá tudo bem?
Levantei a cabeça fitando Violetta que se aproximava com um pequeno sorriso de canto.
— Sim, está tudo bem querida. – Menti sorrindo. Não queria que ela soubesse o que houve, com certeza ficaria ao lado da tia. – Está aí há quanto tempo?
Melhor seria esquecer isso por hora, deixar que Angie se acalmasse e tentar conversar com ela em outro dia. Havia pisado feio na bola, e possivelmente não ia querer me ver nem pintado de ouro.
— Cheguei agora. Na verdade eu queria lhe pedir um favor.
Segurei em sua mão, afagando-a.
— Pode me pedir o que quiser meu amor.
Ela sorriu.
— É sobre o Studio. O Antônio vai fazer cortes em massa e isso significa demissão de pessoas que precisam de um sustento, porque não temos dinheiro pra quitar a dívida. Poderia ajudar contratando essas pessoas na sua empresa?
Percebi o quanto o assunto do Studio a afetava, e eu faria de tudo pra ver Violetta feliz.
— Claro que sim. Só não quero que se preocupe, vou passar lá amanhã e conversar com Antônio está bem?
Vilu me abraçou, retribui seu abraço forte.
— Estou muito feliz que você seja o novo contador do Studio!
— Eu também estou Vilu.
Angeles Saramego.
Depois que saí do carro de German furiosa comigo mesma por aquele grande deslize e ver o quão molhada estava, percebi que não poderia ir pra casa agora e menos ainda nesse estado quase que deplorável, eram quase três e meia quando cheguei ao Studio. Vi que havia bastante gente do lado de fora aproveitando o intervalo das aulas e não entrei, fui direto pro meu carro a fim de evitar perguntas da minha sobrinha, do Pablo ou de quem quer que fosse. Sentei no banco ligando a rádio, e para minha surpresa, passava All I Ask — Adele. Só que infelizmente não consegui me concentrar na música, e sim no momento em que retribui o beijo de German. O que tinha dado em mim? Balancei negativamente a cabeça com algumas lágrimas teimosas nos olhos invadindo meu rosto de forma lenta.
Nunca ia me perdoar por isso, era incrível como cada vez que chegava perto de German eu me magoava, eu e German sempre fomos um erro muito grande a única coisa boa que saiu desse relacionamento foi Alice, toda vez que a olho, penso que foi nosso maior acerto. Arrepiei ao lembrar dos nossos lábios juntos, da corrente elétrica que senti e das borboletas. As malditas borboletas que há meses não sentia mais com Leonardo. Isso só me levou a ter certeza de que eu precisava afastar German da minha vida, para me proteger, e para proteger meu relacionamento que desde que estamos aqui anda em corda bamba. Passei rispidamente a mão pelo rosto, pensando em pegar o primeiro voo direto pra Europa com Alice amanhã, entretanto não poderia fugir assim, tinha muitas obrigações aqui e não ia deixar Violetta novamente, nem o Studio em sua pior fase.
Deitei minha cabeça no volante, sem conseguir conter o choro que queimava minha garganta, talvez fosse melhor assim. Que German nunca soubesse nada sobre Maria Alice.
— Angie?
Pablo chamou-me tirando-me do transe. Não levantei o rosto, ele baixou o volume da música e com a mão livre afagou meus cabelos.
— Quê? – Minha voz saiu abafada. – Como me achou?
— Vi você passando pra cá e fiquei preocupado. — Levantei a cabeça enxugando as lágrimas. – Pelo jeito as coisas não foram bem, não é?
Suspirei, droga. Mil vezes droga! German não ia acabar comigo assim, não outra vez.
— Não consegui contar Pablo. — Solucei mortificada. Ele passou a palma pelo meu rosto.
Pablo fitou-me perdido.
— Como não conseguiu contar? Me explica direito, Angie.
— Não pude porque ele me beijou, e eu retribuí. — Respondi tentando conter minha respiração descompassada.
— Então vocês se beijaram?
Questionou tão atônito quanto eu.
— Você tinha razão desde o início Pablo, eu deveria ter falado as coisas como são antes de ter vindo para cá. A culpa é minha. — Me desesperei chorando, ignorando sua pergunta.— Eu nunca deveria ter mentido, na verdade eu nunca deveria ter saído nem da Europa com minha filha, foi um erro grande.
— Não Angie, você não tem culpa. Ele que te beijou. — Tentou me consolar.
— Porque eu pedi! — Afirmei enxugando algumas lágrimas que ainda insistiam em cair.
— Então você reconhece que ainda ama ele?
Aquilo foi como um soco no estômago, não poderia sentir nada por ele.
— Pablo, eu só… Não posso. Sou comprometida com um homem que me daria o mundo se eu pedisse, tenho uma filha para cuidar e não posso envolvê-la nisso, além de ter a Vilu. Não dá. — Murmurei chorosa.
— Angie você sente isso, não precisa ter vergonha, apenas aceite. E fica calma pois como você disse, tem que pensar na sua filha. Me parece então que você não vai mais contar…
— Só me abraça, por favor. — Pedi em súplica, com o coração apertado. Pablo suspirou, logo o fez me envolvendo num abraço meio torto por estarmos dentro do meu carro, enquanto afagava meu cabelo.
Foi aí que eu entendi que a decisão uma vez tomada, a dúvida se evapora, mas quando se toma uma decisão e as dúvidas persistem é o momento de preocupar-se. Porque a dúvida só revive quando dá de cara com o que o coração deseja, só ele sabe o que realmente quer. Por isso, quando por fim, se tem o que mais deseja não existem mais dúvidas. Só existe a certeza de que a partir desse momento, se pode ser feliz.
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