"Bom dia!" A voz de Amelia soou levemente pelo corredor enquanto Dean surgia à vista, claramente ainda não totalmente acordado. A luz do sol entrava pela janela da cozinha, lançando quadrados dourados sobre o piso xadrez. O cheiro de algo fritando impregnava o ar como uma promessa.

Ela estava de pé junto ao fogão, vestindo uma camiseta cinza suave e jeans, virando ovos em uma velha frigideira de ferro fundido. Seu cabelo ruivo estava preso em um rabo de cavalo frouxo, e ela exibia um leve, quase cúmplice, sorriso.

"Fiz algo para você comer," acrescentou, com um tom casual, mas atento.

Dean piscou para ela, ainda meio no modo sonolento, mas seu estômago reagiu mais rápido que o cérebro. Ele se moveu até a mesa e se sentou com um grunhido, os olhos se desviando para o prato que ela colocou à sua frente — dois ovos fritos, ligeiramente crocantes nas bordas, exatamente do jeito que ele gostava.

"Você sempre cozinha para estranhos?" ele perguntou, pegando o garfo.

Amelia riu suavemente. "Só quando eles parecem que precisam de um bom café da manhã."

Dean espetou um pedaço, mastigando pensativo. "Os outros já estão acordados?"

"Sam está lá fora com o Bobby," ela respondeu, apoiando o quadril no balcão. Seus olhos se voltaram para a janela acima da pia. "Ouvi eles falando sobre algum tipo de explosão."

Dean congelou. O garfo pairou perto da boca, depois abaixou. Ele tossiu, forte — pego de surpresa — e teve que engolir a mordida com um gole de água morna.

"Explosão?" ele repetiu, a voz rouca.

"Mhmm. Aconteceu ontem no fim da tarde, aparentemente. Estranho, não acha?"

Ele assentiu uma vez, lentamente. "É... estranho." Seu tom agora era cauteloso.

Houve uma longa pausa.

"De onde exatamente você disse que veio mesmo?" ele perguntou, fingindo casualidade.

"Alliance, Ohio. Levei quase o dia todo para chegar aqui. Uma viagem longa e entediante." Ela lançou um olhar para ele, como se estivesse tentando sondar algo, e então desviou o olhar.

Dean assentiu levemente. Aquilo não batia com o local onde a explosão tinha ocorrido — tinha sido em uma rodovia completamente em sentido oposto. Ainda assim, ela escondia alguma coisa. Ele podia sentir.

"Vou lá fora," ele disse, empurrando a cadeira para trás com um rangido no chão. "Obrigado... pelos ovos."

"De nada," Amelia respondeu, os lábios curvados num sorriso educado que não chegava aos olhos.

Dean lançou a ela um último olhar antes de desaparecer pela porta dos fundos. Amelia ficou ali por um momento, ouvindo as vozes distantes lá fora e o zumbido das cigarras através da tela rachada.

No segundo em que teve certeza de que ninguém voltaria, o sorriso desapareceu de seu rosto.

Com um olhar rápido em direção à janela, Amelia andou silenciosamente até a sala de estar. O ambiente cheirava levemente a óleo de motor e livros antigos. Partículas de poeira rodopiavam nos feixes de luz que atravessavam as persianas semiabertas. Ela se agachou junto à mesa desordenada e começou a remexer os papéis espalhados pela superfície — anotações sobre criaturas sobrenaturais, padrões climáticos, mapas codificados e recortes de jornal com bordas amareladas.

Os livros estavam empilhados de forma precária, com os títulos desgastados: Rituais Ocultos Através da História, Almanaque do Caçador, O Códice dos Espíritos Banidos. Mas nada do que ela precisava.

Ela se levantou e foi até a estante, os dedos deslizando pelos lombos até encontrarem um volume fino e surrado quase enterrado atrás de uma fileira de tomos mais grossos. Ela o puxou, o coração martelando de antecipação, e folheou rapidamente até as últimas páginas.

Seus lábios se moviam silenciosamente, os olhos varrendo o texto desbotado.

Lá estava. Exatamente como ela temia.

"Eu sabia," ela sussurrou, quase inaudível, como se a verdade naquelas páginas tivesse lhe arrancado o ar dos pulmões.

"O que você está fazendo?"

A voz foi aguda — áspera com suspeita.

Amelia se sobressaltou. Bobby estava parado no batente da porta, os olhos semicerrados, as mãos relaxadas ao lado do corpo. Para um homem da sua idade, ele se movia como um predador — silencioso, deliberado.

"Nada!" ela disse rapidamente, apertando o livro contra o peito como uma criança pega roubando.

Bobby atravessou a sala e pegou o livro gentil, mas firmemente, das mãos dela. Seus olhos examinaram a capa.

"O que está fazendo com essa Bíblia?" Seu tom era difícil de ler — parte curiosidade, parte advertência.

"Eu só... estava lendo. Parecia diferente das outras. Muito antiga"

Ele não respondeu de imediato. Em vez disso, caminhou de volta até a estante e deslizou a Bíblia para o seu lugar com um cuidado exagerado.

"Não quero você mexendo nas minhas coisas," disse, a voz baixa, mas firme. O aviso era claro: não me teste.

"Me desculpe," ela murmurou, recuando. Sua postura mudou — os ombros encolheram, o olhar abaixou — mas o arrependimento não parecia exatamente genuíno.

"Onde estão Sam e Dean?" ela perguntou após uma pausa, tentando soar casual.

"Eles precisaram sair. Voltam à noite."

E com isso, ele se virou e foi embora, deixando-a parada na sala silenciosa, sozinha com a poeira, o silêncio e o que quer que fosse que ela acabara de descobrir.


|•|


Diante deles, a floresta dava lugar à devastação.

O solo havia sido rasgado, uma cratera larga e aberta onde a vida antes existira silenciosamente. Terra e rocha foram lançadas em todas as direções, como se uma bomba tivesse explodido. As árvores mais próximas da explosão eram nada além de tocos carbonizados, ainda fumegando levemente, enviando finos rastros de fumaça cinza que rodopiavam para o céu nublado. O ar estava pesado com o cheiro de cinza e terra queimada, agarrando-se à pele e às roupas deles como um peso invisível.

Dean parou no meio do caminho, o feixe de sua lanterna tremendo levemente em sua mão.

“Mas que droga...” Sam murmurou, sua voz mal audível, carregada de inquietação. “É melhor chamarmos o Castiel. Agora.”

Dean engoliu em seco. Havia algo sobre aquele lugar—algo antinatural, antigo e observando. Ele podia sentir aquilo rastejando logo abaixo da superfície de sua pele. Deu um passo para trás e inclinou a cabeça em direção ao céu, coberto de nuvens e silencioso.

“Ei, Cass! Você pode me ouvir?” ele gritou, sua voz cortando a quietude.

Nada.

Apenas o vento farfalhando através das árvores mortas, como sussurros em uma língua que eles não conseguiam entender.

“Tem algo realmente errado aqui,” Dean continuou, erguendo a voz. “Achamos que é da sua especialidade.”

Ele olhou ao redor, os olhos vasculhando as sombras entre as árvores. O silêncio apertava, sufocante. Os pelos na nuca dele se arrepiaram.

“Cass, isso é importante...”

Um lampejo de luz cintilou à distância atrás deles, dobrando o ar como calor sobre o asfalto. Folhas farfalharam como se uma brisa tivesse passado, embora o ar permanecesse imóvel. Sam e Dean se viraram, tensos e prontos.

Da beirada da floresta, Castiel surgiu—seu sobretudo roçando suavemente nas folhas, sua expressão indecifrável, os olhos distantes.

“Não precisa repetir. Eu ouvi da primeira vez.” Ele caminhou em direção à borda da cratera sem dizer uma palavra, as solas dos sapatos estalando contra folhas queimadas e destroços. Então, num piscar de olhos, ele desapareceu e reapareceu no centro do buraco, parado em meio ao solo chamuscado como uma sentinela silenciosa.

Dean expirou bruscamente, a tensão em seus ombros apertando em vez de aliviar.

“Então, qual é o veredito?” ele gritou, a voz ecoando levemente no buraco cavernoso.

A voz de Castiel flutuou de volta até eles, calma mas vazia. “Ainda não posso confirmar nada.” Ele olhou para baixo, os olhos vasculhando o solo despedaçado sob seus pés. “Mas algo poderoso fez isso. Avisarei quando encontrar respostas.”

“Mas…” Sam começou, dando um passo à frente.

Antes que pudesse dizer qualquer coisa mais, Castiel desapareceu novamente, deixando apenas o leve brilho no ar e o vazio frio onde ele estivera.

Dean bufou baixo, frustrado. “Bom, isso foi útil.”

Sem dizer mais nada, ele se virou e começou a voltar para a floresta. Galhos quebravam sob suas botas, e o vento começou a aumentar, farfalhando através das árvores mortas com um som que era quase como uma respiração.

Sam o seguiu, lançando mais um olhar por cima do ombro para a cratera fumegante antes de desaparecer entre as árvores atrás do irmão.

O que quer que tivesse causado aquela explosão… ainda não havia terminado sua história.

Notas finais
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