O cemitério era uma catedral em ruínas. A terra havia se aberto em cicatrizes irregulares, lápides estilhaçadas como ossos frágeis, e o ar pesado ardia com o fedor de ozônio e enxofre. Acima, o céu noturno se retorcia violentamente, como se as próprias estrelas recuassem da ferida no mundo. No centro, o portal pulsava—um vórtice de luz carmesim cercado por fogo negro, suas bordas agarrando famintas o mundo dos vivos.

Amelia se ajoelhava à beira daquele abismo, seus dedos pressionados contra o solo chamuscado, sua voz uma corrente constante sob a tempestade. Sílabas antigas, cruas e guturais, escapavam de seus lábios—um encantamento mais antigo que a linguagem dos homens. Sua respiração saía em vapor no ar frio, e o suor se misturava ao sangue que escorria do corte em sua testa, manchando sua têmpora com uma faixa carmesim.

O portal resistia, expandindo-se a cada uma de suas palavras como se zombasse de sua tentativa frágil de selá-lo.

Uma voz repentina, baixa mas ressonante, cortou a cacofonia de trovões e gemidos da terra.

“Concentre-se… a estrutura está se quebrando.”

A cabeça de Amelia ergueu-se bruscamente, os olhos se estreitando. Através dos véus de poeira e luz, uma figura emergiu—seu sobretudo rasgado e manchado de fuligem, seu corpo tenso e desgastado pela batalha. Castiel.

Ela se levantou, cambaleando levemente.

“Você me ouviu… finalmente.”

O rosto de Castiel estava estoico, mas pálido, um ferimento profundo ao longo das costelas manchando sua camisa com um tom escuro e iridescente. Sem responder, ele estendeu a mão em direção ao portal e começou a entoar—a um dialeto celestial que ressoava com o feitiço dela, entrelaçando-se como um reforço.

Seus lábios se curvaram em frustração.

“Tarde demais… a guerra começou.”

Ele não vacilou.

“Eu sei.”

Ela avançou um passo, a fúria queimando sob o cansaço.

“Idiota. Eu te avisei!”

Castiel manteve o olhar no portal, sua voz inabalável.

“Você me avisou… e eu não ouvi. Eu voltei aos Céus. Eles me emboscaram.”

A terra estremeceu violentamente sob eles, lançando uma chuva de detritos. Ambos se firmaram, continuando seus encantamentos em uníssono, suas vozes colidindo em uma harmonia dissonante. Mas o portal apenas se alargava, as chamas negras agora lambendo as lápides ao redor.

De dentro do redemoinho carmesim, formas começaram a se consolidar—silhuetas retorcidas arrastando-se para o mundo.

“Os Hollowed” sibilou Castiel, sua voz tensa de pavor.

O estômago de Amelia se contraiu.

“É claro.”

Do portal saíam criaturas que outrora haviam se parecido com humanos, agora esvaziadas pela guerra celestial e despidas de toda essência. Seus corpos eram esqueléticos, envoltos em restos esfarrapados de carne; suas bocas costuradas, seus olhos vazios e negros.

Instintivamente, Castiel sacou sua lâmina de graça, embora seu braço tremesse sob o peso dos ferimentos.

Amelia invocou um pulso de luz protetora em suas palmas, sua voz agora mais fria.

“Não temos tempo para isso.”

Ele lançou-lhe um olhar cortante, frustração e urgência faiscando entre eles.

“Também não temos tempo para suas acusações.”

Ela virou seu olhar furioso para ele, sua voz cortante enquanto a tempestade rugia ao redor deles.

“Se você tivesse me ouvido, não estaríamos aqui.”

Sua mandíbula se contraiu ao aparar o primeiro ataque dos Hollowed.

“Agora não, Amelia.”

Suas palavras colidiram no ar carregado, a tensão espessa como a tempestade, mas com um acordo tácito, eles se voltaram para enfrentar a ameaça iminente.

Juntos, avançaram para o confronto. Castiel atacava com precisão metódica, sua lâmina cortando os torsos dos Hollowed em arcos de luz abrasadora, enquanto Amelia conjurava correntes de pura energia, enlaçando-as ao redor das criaturas e as derrubando antes de cravar uma adaga em seus crânios vazios.

Mas para cada um que derrubavam, dois surgiam, suas fileiras se inchando, empurrando-os para mais perto do abismo.

“Você está sangrando!” gritou Amelia sobre o estrondo, esquivando-se de um Esvaziado que investia.

Castiel aparou outro ataque, estremecendo.

“Você também.”

Ela olhou para o braço—o sangue pingava constantemente de um corte irregular que ela nem havia percebido, misturando-se ao sangue do ferimento na testa.

Eles giraram, ficando de costas um para o outro enquanto os Hollowed os cercavam, gritando silenciosamente. A atração do portal se intensificava, uma força gravitacional puxando-os pelos pés.

Amelia ousou olhar para Castiel, seu rosto exausto, seu corpo oscilando de fadiga.

“Não vamos aguentar.”

Ele respondeu com um aceno firme.

“Então vamos acabar com isso.”

Reunindo as últimas reservas de força, Amelia estendeu ambas as mãos em direção ao portal, traçando um sigilo complexo no ar enquanto Castiel espelhava seu movimento. Suas vozes combinadas formavam uma ressonância volátil, o ar ao redor deles crepitando com poder bruto.

Mas, naquele instante, um Hollowed rompeu suas defesas, investindo diretamente contra Amelia. Ela congelou, apanhada no meio do encantamento.

Antes que pudesse alcançá-la, Castiel se lançou entre eles, cravando sua lâmina no peito da criatura. Mas suas garras encontraram carne, rasgando profundamente o lado de Castiel, atravessando carne e graça.

Ele gritou, caindo de joelhos, sua lâmina tombando com um clangor abafado contra as pedras quebradas.

“Castiel!” gritou Amelia, correndo para o lado dele.

Ele tentou falar, sua voz áspera.

“Precisamos… precisamos fechar…”

Amelia balançou a cabeça, a voz se quebrando de raiva e desespero.

“Não podemos! Não agora!”

O portal rugia atrás deles, os Hollowed pressionando para frente.

Amelia percebeu que não havia mais chance: o feitiço falhara, e Castiel não podia mais lutar. Com um esforço final e feitiços de proteção apressadamente murmurados, ela forçou uma explosão de energia para fora, repelindo momentaneamente os Hollowed.

Ela envolveu os braços em torno de Castiel, que ainda estava consciente, mas mal se mantendo.

Pronunciando um encantamento agudo e gutural, Amelia invocou um feitiço de transporte, os sigilos brilhando mesmo enquanto o sangue escorria de seus próprios ferimentos.

O cemitério se desfocou, os gritos monstruosos dos Hollowed desaparecendo em um silêncio inquietante enquanto eles sumiam daquele lugar condenado.

Eles reapareceram com um estrondo no centro da sala de estar de Bobby, desabando numa pilha sobre o tapete gasto.

Bobby surgiu da cozinha, espingarda em punho, os olhos arregalados de descrença.

“Dean! Sam! Venham aqui, agora!”

“Eles voltaram… Os Arcanjos”. A voz de Amelia era baixa, mas resoluta, cortando através das réplicas do tremor. O sangue riscava o lado de seu rosto a partir de um corte irregular na têmpora, o carmesim vívido contra sua pele pálida.

“Jesus, Amelia… você está sangrando!” Bobby fez menção de se levantar da cadeira, mas Amelia estendeu a mão, impedindo-o com um aceno.

"Estou bem…" Sua voz tinha um tom de exaustão, mas seus olhos eram de aço. "Mas não posso dizer o mesmo dele."

Dean e Sam ergueram Castiel do chão, seu peso pesado entre eles enquanto o deitavam cuidadosamente no sofá gasto. Seu sobretudo e camisa já estavam encharcados de sangue, as manchas escuras se espalhando rapidamente. Amelia atravessou a sala em passos largos, ajoelhando-se ao lado dele, suas mãos movendo-se instintivamente para cuidar dos ferimentos. Seus olhos percorreram o rosto pálido dele, seus lábios ligeiramente entreabertos enquanto ele oscilava entre a consciência e a inconsciência.

O ferimento de Amelia já havia parado de sangrar; sob o corte, sua pele começava a se recompor com velocidade inumana. Em segundos, não havia mais traço do ferimento, exceto por uma tênue mancha de sangue seco.

Do bolso do casaco, ela retirou um pequeno feixe de ervas secas, o aroma forte enquanto ela as triturava metodicamente com um pilão de madeira dentro da tigela de barro que Bobby havia providenciado. Ao lado dela, um pequeno pote de ferro pousava sobre um queimador portátil, começando a fumegar enquanto ela o acendia, as chamas lambendo avidamente o ar frio. No chão, ela dispunha quatro largas tiras de couro, seu propósito sombriamente utilitário.

Com a ajuda de Sam, despiram a camisa de Castiel de seu torso dilacerado. Dean fez uma careta — longas lacerações irregulares marcavam o peito do anjo, feridas que pareciam pulsar fracamente com graça residual, como se a própria essência dele tivesse sido dilacerada.

Quando o fogo sob o pote rugiu com força, Amelia despejou as ervas trituradas nele, deixando a fumaça se enrolar e engrossar, pungente e acre.

"Que diabos é isso?" perguntou Dean, franzindo a testa enquanto instintivamente se afastava dos vapores amargos.

"Moxabustão" respondeu Amelia calmamente, ajoelhada ao lado de Castiel. "Uma técnica antiga—dolorosa, mas eficaz. Acelera a cura, expulsa a corrupção do corpo." Sua voz suavizou-se, quase reverente, ao afastar uma mecha de cabelo ensanguentada do rosto do anjo. "Os Hollowed que o atacaram… não feriram apenas o receptáculo. Eles atingiram sua própria essência, sua graça. Nunca vi um anjo tão intimamente ligado ao seu avatar. Ele é… raro."

Ela pressionou as ervas em brasa, agora reduzidas a carvões, diretamente sobre uma das feridas profundas no peito de Castiel.

O efeito foi imediato.

Um grito rouco e agonizante rasgou a garganta de Castiel enquanto suas costas arqueavam para fora do sofá, sua mão disparando para agarrar o pulso de Amelia com força de ferro.

"Cas!" Dean avançou instintivamente, mas Amelia encontrou seu olhar, calma e firme.

"Fique parado, Castiel" ordenou ela, com firmeza, sua outra mão pressionando suavemente a bochecha dele. "Você precisa disso."

Seu peito arfava com respirações irregulares, mas seu aperto afrouxou, e seus olhos se fecharam novamente, rendendo-se aos cuidados dela.

Amelia trabalhou com eficiência prática, aplicando os emplastros queimantes a cada ferimento, apertando as tiras de couro sobre eles para selar a cura. A cada aplicação, Castiel estremecia violentamente, um grito bruto escapando de seus lábios— mas Amelia não vacilava.

Por fim, ela se recostou sobre os calcanhares, enxugando o suor da testa.

"Agora, feche os olhos" sussurrou, alisando a mão sobre o peito ensanguentado de Castiel. "Descanse."

Como se suas palavras tivessem peso de comando, o corpo de Castiel relaxou completamente, escorregando novamente para a inconsciência.

Dean o fitou, mandíbula tensa.

"Pensei que anjos não dormissem."

"Não dormem" disse Amelia baixinho, levantando-se enquanto recolhia a tigela de barro e despejava os restos das ervas na pia. "A menos que estejam gravemente feridos. Sua graça precisa de tempo para se recompor."

Ela lançou um olhar a Bobby, que permanecia silenciosamente na porta, os olhos escuros de preocupação.

"Já protegi a casa, Robert" informou ela, sua voz prática, como se não estivessem todos à beira de algo catastrófico. "Mesmo sem seus receptáculos, Lúcifer e Miguel virão atrás de nós… e enviarão tudo o que têm. Demônios, anjos…"

Bobby soltou um suspiro brusco, passando a mão pela barba.

"Lá vamos nós de novo."

Dean soltou uma risada seca, passando a mão pelo rosto.

"Ótimo. De volta aos velhos tempos... pegar os anéis, abrir a jaula…"

"Não." A voz de Amelia foi firme, definitiva.

A testa de Sam se franziu.

"Como assim, não?

Ela se virou para eles, sua expressão grave.

"Tentei impedi-los de escapar da Jaula. Falhei. E quando eles fugiram… Lúcifer a destruiu."

O rosto de Dean empalideceu.

"Destruiu?"

Ela assentiu.

"Acabou."

"Filho da puta!" Dean cuspiu, andando de um lado para o outro. "E agora? Qual é o plano... improvisar?"

Sam olhou entre eles, sua voz mais baixa mas tingida de desespero.

"Tem que haver algo. Alguma forma de detê-los."

Os olhos de Amelia se voltaram para ele, um leve, quase conspiratório brilho surgindo em seu olhar.

"Existe" disse suavemente. "Lembra do que eu disse… sobre as espadas?"

A cabeça de Dean se ergueu.

"Você as encontrou?"

"Acredito que sim." Ela cruzou os braços, inclinando levemente a cabeça. "A Espada de Miguel… estava perdida. Mas acho que a encontrei."

Sam trocou um olhar com Dean, depois voltou-se para ela.

"E a de Gabriel?"

"Essa é para você, Sam." Seu tom não deixava espaço para debate.

Dean bufou, balançando a cabeça.

"Espera aí... Zacarias disse que eu era a espada de Miguel."

Os lábios de Amelia se curvaram em algo entre pena e exasperação.

"Zacarias mentiu, Dean. Você não era a espada… era o receptáculo. Eles perderam a verdadeira arma... A Chama da Morte."

Dean expirou lentamente, as implicações o atingindo como um soco no estômago.

"Onde está?"

Seu sorriso tornou-se levemente sardônico.

"No mesmo lugar de sempre. Num castelo… numa colina feita de quarenta e dois cães."

Sam piscou, depois gemeu quando a realização surgiu.

"Castle Storage. Rover Hill. 42."

Dean suspirou, já pegando a jaqueta.

"Claro."

Amelia olhou para todos eles, sua expressão se endurecendo.

"Isso não é apenas mais uma caçada. Isso é a guerra."

E com isso, a casa voltou a ranger sob a pressão de outra explosão distante, como se o próprio mundo os lembrasse: o tempo estava acabando.


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Seattle

O vento uivava pelas ruas estreitas de Seattle naquela noite, lançando folhas quebradiças em espirais caóticas pelo ar antes que finalmente se rendessem ao asfalto escorregadio abaixo. A cidade, geralmente tão viva mesmo depois da meia-noite, parecia contida—prendendo a respiração sob o peso da tempestade que se aproximava do Pacífico. Apresentadores locais de notícias ocupavam todas as telas com avisos sombrios: seria a pior tempestade em duas décadas.

Bem acima da cidade, no andar superior de uma casa geminada escondida no denso coração de Capitol Hill, Peter dormia sozinho.

Ele sempre dormia sozinho.

As pessoas o odiavam, embora ele dissesse a si mesmo que era por causa de seu sucesso—da riqueza, da notoriedade, da influência que havia conquistado através de acordos clandestinos e esquemas fraudulentos. Mas até ele às vezes se perguntava se não era outra coisa que viam nele. Algo oco.

Um estalo agudo o despertou—a batida insistente de um galho esquelético contra o vidro da janela, sua silhueta distorcida pela dança inquieta das sombras do lado de fora.

“Maldita árvore...” ele murmurou, virando-se de lado, esperando enterrar-se novamente no conforto do sono.

Mas a cama não estava mais vazia.

Onde, momentos antes, não havia nada além de lençóis amassados, agora estava sentado um homem—silencioso, imóvel, seu rosto marcado por escoriações e hematomas escuros, como se tivesse sido arrastado pelo próprio inferno.

A respiração de Peter ficou presa na garganta.

“Você foi escolhido.”

A voz do estranho era baixa e deliberada, cada palavra pontuada pela batida constante da tempestade lá fora.

Peter se ergueu num pulo, o coração martelando contra as costelas. “Mas que diabos...? Quem é você? Como entrou aqui?” Seus olhos saltaram para o canto do quarto onde, encostado na parede, um taco de beisebol de alumínio esperava como um amigo de confiança. Ele se lançou até ele, segurando-o firmemente, posicionando-o entre eles.

O homem não se mexeu. Apenas inclinou a cabeça, um leve sorriso brincando no canto de seus lábios rachados. “Acalme-se, amigo. Não há necessidade de medo.”

“Medo?” A voz de Peter se quebrou em descrença. “Você invadiu minha casa!”

A expressão do estranho não mudou, mas algo se deslocou no ar entre eles, uma frieza que não tinha nada a ver com a tempestade. “Você foi escolhido,” ele repetiu suavemente, “para ser meu receptáculo.”

Peter estreitou os olhos. “Escolhido... para quê?”

O rosto castigado do homem se abriu em algo que lembrava divertimento. “Para ceder seu corpo a mim. Eu sou Lúcifer.”

O aperto de Peter no taco se intensificou. “Saia da minha casa, seu lunático.”

Mas Lúcifer nem sequer vacilou. “Peter… ouça. Estou lhe oferecendo um acordo.”

Peter bufou, começando a se mover em direção à porta, mas havia algo na voz daquele homem—algo antigo e seguro—que o enraizou no lugar.

Lúcifer continuou, seu tom quase reconfortante. “Devolvo o seu corpo assim que terminar o que preciso fazer. E, em troca…” Seus olhos brilhavam com uma promessa sobrenatural. “Vou lhe dar mais sucesso, mais poder, mais prestígio do que você jamais ousou sonhar.”

Peter vacilou, o pulso rugindo nos ouvidos.

“Sucesso?” ele repetiu, a voz de repente mais suave, mais cautelosa.

Lúcifer inclinou-se para a frente, a luz da tempestade captando o brilho de algo antinatural em seu olhar. “Tudo o que você precisa fazer é dizer sim.”

Peter soltou um suspiro trêmulo, olhando para o espelho do outro lado do quarto, como se buscasse confirmação de que aquilo não era real—que era apenas algum pesadelo febril provocado por muitas noites mal dormidas e uísque ruim. Mas o reflexo do estranho estava lá também, tão sólido e inegável quanto a tempestade que rugia lá fora.

“Digamos,” Peter começou, passando a língua pelos lábios secos, “que eu ache que isso é um sonho... e diga sim. Você vai mesmo me tornar mais bem-sucedido?”

O sorriso de Lúcifer se alargou, frio e triunfante. “Eu só peço uma vez.”

Peter soltou uma risada aguda e incrédula, passando a mão pelos cabelos desgrenhados. “Certo… Lúcifer. Claro.” Seus olhos deslizaram até a janela onde a tempestade golpeava o vidro, depois de volta para o homem largado em sua cama. “O que é isso? Algum tipo de pegadinha?”

Mas o estranho apenas o encarou, inabalável, paciente como a morte.

Peter suspirou dramaticamente, revirando os olhos. “Tudo bem. Digamos que eu esteja sonhando… ou enlouquecendo…” Ele abaixou ligeiramente o taco, esboçando um sorriso. “Que se dane. Sim."

No momento em que a palavra saiu de seus lábios, o rosto do estranho se contorceu em um sorriso sombrio e conhecedor, e então o quarto detonou em um clarão de luz branca ofuscante, tão intensa que Peter quase cambaleou para trás.

E então… silêncio.

O corpo do outro homem no chão—aquele que supostamente era Lúcifer—jazia mole e vazio, como um fantoche com as cordas cortadas.

Peter passou por cima dele, mal lhe lançando um olhar, como se não fosse nada além de uma praga que ele tivesse acabado de esmagar. Aproximou-se do espelho, o coração desacelerando, a respiração estável.

Mas o reflexo que o encarava não era mais apenas Peter.

Um sorriso lento e satisfeito se espalhou por seus lábios—uma expressão de posse perfeita.

“Vamos aos negócios,” a voz que escapou de sua garganta ronronou, suave e malévola.

O Arcanjo das Trevas havia encontrado seu receptáculo.


Notas finais
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