Notas iniciais
*Jimin*
Anne devia estar morrendo de calor com aquelas roupas, e a culpa era minha.
Havíamos acabado de chegar na praia quando decidi falar com ela.
—Como está seu braço? – Perguntei. Eu juro por tudo o que há de mais sagrado nesse mundo que eu não apertei forte.
Ela me olhou com uma cara tipo “pergunta de novo que eu quebro seus dentes”, mas depois sorriu e falou:
—Está bem.
Eu lembro que ela disse ontem que isso era algo normal, mas não sei não... aparecer hematomas a um simples toque... isso aí está bem longe de ser normal porque eu definitivamente NÃO estava apertando o braço dela.
Meu rosto ficou vermelho ao lembrar da noite passada.
—E seu pescoço? Ainda está roxo? – Perguntei.
Eu estava com vergonha. Fiz ela ir até a sala para passar alguma coisa no hematoma que fiz no braço dela e acabei deixando ela com outro hematoma.
—Só um pouco. – Ela respondeu. Depois se aproximou mais e sussurrou tão baixo que quase não ouvi. – Acho que é melhor nós dois mantermos distância das quinas de mesa.
Suspirei. Eu não queria nem lembrar, minha coxa ainda estava doendo por causa daquela maldita mesa, eu juro que ela nunca esteve lá.
—Sobre ontem de madrugada... – Falei enquanto começávamos a nos afastar da van. – Foi muito bom ninguém ter acordado com todo aquele barulho que a gente fez, ia ser uma longa explicação.
Anne olhou para mim exasperada.
—“Barulho que A GENTE fez”?! Até onde eu me lembro, foi você quem tropeçou na mesa e me levou junto para dar um mergulho no piso. E outra... não fui eu quem começou a chorar.
Revirei os olhos.
—Eu NÃO estava chorando! Foi um reflexo da luz que vinha da janela e...
—Aceite que dói menos. – Ela disse me dando tapinhas no ombro e depois se afastando.
—EU ME RECUSO! – Gritei para ela.
Anne se juntou ao pessoal da produção e eu fui em direção aos rapazes fazendo um grande esforço para não mancar. Ainda vou quebrar aquela mesa e usar de lenha para a lareira quando chegar o inverno.
*Anne*
Eu estava morrendo de sono (culpa do fuso horário). Sentei em uma cadeira na sombra e tentei ao máximo, eu juro, fiz todo o possível para acompanhar as filmagens, mas acabei cochilando.
—Xiiiiu... Fica quieto, ela vai acordar! – Alguém sussurrou.
—Será que ela não vai se afogar se a gente fizer isso? – Outra pessoa perguntou também sussurrando.
—Você não tem que jogar na boca dela. V, você está gravando? – Uma terceira voz sussurrante.
—Estou. – A primeira voz respondeu.
—Ok, lá vai... – Essa voz eu reconheci. Yoongi.
Abri os olhos um pouco antes do momento em que ele viraria a garrafinha de água na minha cara.
—Eu te mato. – Falei em português, uma das poucas frases que eu havia ensinado ao meu amigo.
Ele recuou tomando cuidado para não deixar nem um pinguinho sequer de água cair em mim.
—Ah, cara... eu ia gravar – Taehyung reclamou. Depois olhou para mim e abriu um sorriso. – Não que eu quisesse que você acabasse toda molhada, mas... sabe né... eu queria.
Fiz uma cara feia e ele logo correu para trás do Suga.
Virei para o lado para ver quem eram os outros dois que estavam querendo assistir minha desgraça.
Jimin e Jungkook.
—Até você Jungkook?
Ele sorriu e balançou a cabeça.
—Hyung disse que seria hilário.
Torci o nariz e levantei. Eu estava toda dolorida. Nota mental: NUNCA mais durma em cadeiras.
—Quanto tempo eu dormi? – Perguntei.
—Uns vinte minutos. – Suga respondeu. – Estamos fazendo uma pausa porque o sol está muito forte.
Quando ele disse isso todos olharam para mim, provavelmente por causa das roupas que eu estava vestindo. Jimin era o único com um ar melancólico.
—Você acha que pode sobreviver até o final da gravação com essas roupas? – Perguntou ele.
—É o que eu pretendo. – Respondi.
XXX
As gravações pareceram demorar um século para acabar.
—Eu to morrendooo... – Suga veio reclamando e fazendo birra. – Você sempre carrega comida, tem alguma coisa aí?
—A gente já vai almoçar. – Respondi. – Você vai acabar ficando sem fome.
—Não fale em fome. – Disse Jin fazendo bico e colocando a mão na barriga.
—Vamos comer? Por favoooor. – Pediu Jimin.
—Tem um restaurante mais para lá. – Disse Rap Monster. – Que tal?
—Não é uma boa ideia.
Todos olhamos para J-Hope.
—É sério, comida... depois algum tempo numa van... nesse calor... vocês acham que isso daria certo? – Ele olhou para mim.
Ah...
Acho que fiquei vermelha.
—Eu voto em comer na gravadora. – Ele disse.
—Espera aí... eu não entendi – Disse Tae. – O que a van tem a ver com... – Ele pareceu entender. – Ahhhhhhhh... – Ele abriu um belo sorriso e abraçou os ombros de J-Hope. – Não se preocupe hyung, ninguém vai vomitar em você de novo.
Por via das dúvidas, decidimos comer na gravadora mesmo.
Estavamos na van quando Jimin me chamou discretamente.
—Eu peguei isso com as garotas da maquiagem. – Ele disse baixinho. – Elas disseram que a cobertura é muito boa, com certeza vai cobrir... er... você sabe.
Sorri pegando o potinho de base da mão dele.
—Obrigada. – Respondi baixinho também.
XXX
Os dias passaram voando, quando dei por mim, já fazia uma semana que eu estava na Coréia.
Rap monster estava lavando a louça e eu estava secando. Para falar a verdade, nenhum dos meninos queriam que a gente ficasse com esse trabalho, mas também não queriam fazer.
—Com cuidado. – Rap Monster falou quando fui pegar um prato do escorredor.
Devagar, bem devagar, tirei o prato e quase que todos os outros caíram. Eu e ele corremos para segurar tudo, mas mesmo assim uma panela acabou no chão.
—Eu disse que eles iam quebrar a cozinha! – Jin reclamou da sala.
—A culpa foi minha por ter empilhado tudo desse jeito, ou foi sua por ter tirado o prato? – Rap Monster perguntou.
Olhei para ele sem saber o que responder.
—Vamos dizer que foi sua então. – Ele disse passando espuma na minha cara.
Os garotos queriam assistir um filme e assim que terminamos fomos nos juntar a eles na sala.
—Senta aqui. – Jimin chamou batendo no lugar vazio entre ele e Suga.
Enquanto me dirigia até lá percebi J-Hope me seguir com o olhar. Ele andava muito estranho desde as filmagens na praia. Provavelmente não tinha esquecido ainda nossa história conturbada, não o culpo por isso.
Depois de algumas discussões sobre os filmes chegamos à conclusão de que, para agradar a todos, teríamos que assistir oito filmes diferentes.
—Isso não vai dar certo. – Disse Jin. Ele estava particularmente pessimista hoje.
Assistir um filme saiu de questão então começou uma discussão sobre o que a gente ia fazer. Aquilo estava ficando quase ensurdecedor.
—JÁ SEI! – Gritou Jungkook mais alto que as outras vozes.
Todos ficamos quietos e olhamos para ele.
—Ahhh... – Ele disse ficando um pouco vermelho. – Que tal fazermos compras?
Olhei para o relógio, eram nove e meia, onde a gente ia comprar alguma coisa?
Mas Jungkook ainda não tinha terminado de falar.
—Podemos mostrar nossa loja favorita para noona.
Essa declaração me deixou chocada, acho que deixou todos chocados. Jungkook tinha acabado de me chamar de noona.
Ele percebeu e ficou vermelho, muito, muito vermelho.
Tae começou a dar risada.
—Ok, então. Vamos fazer compras com nossa noona. – Ele riu e me puxou do sofá para que eu ficasse em pé.
Jimin ia protestar porque Taehyung segurou meu pulso e isso provavelmente deixaria outro hematoma, mas desistiu, a lembrança da nossa queda fez ele levar a mão à coxa e fazer uma careta, provavelmente recordando da dor.
—Vamos noona— Disse Taehyung passando o braço por meus ombros. Depois ele falou baixinho. – Mas não vá se acostumando, você é só um mês mais velha que eu.
Tive que rir.
Fomos para a tal loja. Não tinha nenhum cliente.
—Essa é nossa loja favorita porque fica aberta até tarde e não vem muita gente aqui nesse horário, então a gente pode vir e passar quanto tempo quiser experimentando as roupas. Fora que tem um montão de roupas incríveis aqui. – Disse Jungkook.
A loja era realmente legal. E a cada canto que eu olhava eu via as roupas mais linda que já tinha visto na vida. Os vestidos, principalmente, eram fantásticos. Mas eu não podia usar vestidos.
Engoli a vontade de chorar. Eu não ia deixar isso estragar a noite.
—Vamos escolher roupas para Anne. – Disse Rap Monster aos garotos e eles concordaram.
Mandaram que eu sentasse até que eles escolhessem a roupa. Foi o que fiz.
Quinze minutos. Eles demoraram exatos quinze minutos para escolher.
—Aqui. – Suga estendeu a roupa para mim. – Agora prove e mostre para nós, estamos curiosos pra ver o quanto somos incríveis para escolher roupas.
Era um vestido de renda de um rosa bem claro. A manga era ¾ e a saia era meio rodadinha. Aquele vestido era incrível.
—Eu acho que não... – Comecei, mas então olhei para o vestido novamente, ele era realmente muito lindo.
Levada pela beleza dele, acabei tomando uma decisão estúpida. Fui provar o vestido.
Quando coloquei aquele vestido o mundo pareceu ser diferente. Ele coube certinho em mim e aquele caimento fazia com que eu me sentisse maravilhosa, uma princesa. Aquele tom de rosa ficava perfeito na minha pele e acabei sorrindo de uma forma que há algum tempo não acontecia. Um mês, para ser mais precisa.
A lembrança fez com que eu olhasse para baixo e o encanto acabou.
Olhei para minhas pernas e recordei do motivo pelo qual eu não usava mais vestidos. A vontade de chorar veio ainda mais forte dessa vez. Eu precisava, precisava mesmo conter as lágrimas.
—Você precisa de alguma ajuda com o vestido? – Uma das atendentes entrou no vestiário.
Ela primeiro viu as lágrimas que eu estava lutando para não deixar cair. Depois olhou para o vestido e, por fim, para minhas pernas.
—Por favor, só... só diga a eles... diga a eles que o vestido não coube. – Falei. Não consegui mais conter as lágrimas e deixei que elas encharcassem meu rosto.
A moça me lançou um olhar complacente, como se tentasse me consolar, e foi embora.
Levei as duas mãos ao rosto, soluçando baixinho. Aquele era só um lembrete, um pequeno lembrete do que estava se aproximando, um lembrete do inevitável.
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