Minha nossa, mas o que aconteceu com você!? — Danna correu até mim, horrorizada.

- Nada, não aconteceu nada... Eu só quero ir embora, por favor... Vamos sair daqui. — Eu respondi entre soluços.

- Vamos sim. Mas antes você vai me falar o que aconteceu. — Ela me encarou séria e eu apenas balancei a cabeça em um sinal negativo. Logo depois, Brandon surgiu, acompanhado de duas garotas que se agarravam à ele como urubus ao lixo. Desviei o olhar, rapidamente, tentando esquivar-me daquele lugar e imediatamente, Danna entendeu quase tudo.

- Você! — Ela berrou na direção em que Brandon estava. — Você fez isso! — Disse, pronta para ir na direção do garoto, mas eu a impedi. Ele a olhou com tom de sarcasmo, voltando a fitar-me, enquanto piscava para mim, irônicamente.

- Só vamos embora, Metade. Estou lhe pedindo. — Murmurei, segurando em sua mão e ela concordou, guiando-me para fora daquele lugar até seu carro.

- Eu poderia matá-lo por isso, sabia!? Ele é um idiota, não quero mais ver vocês dois juntos, nem quero que converse com ele ouviu!? Ignore-o, mesmo que esteja morrendo. — Ela me dava bronca, enquanto dirijia.

- Não sei como pude ter sido tão burra à esse ponto... — Disse, fitando a paisagem escura, através da janela.

- Nem eu. — Ela respondeu, incrédula. — Há quilômetros, percebe-se que ele é um idiota, Chistie. Você mesma sabia disso, deixou-se levar apenas por uma simples conversa sobre música. É o que!? Achava que ele ia se transformar em alguém totalmente diferente, assim, do nada?

- Não, não foi isso... Eu só achei que... Ah, é complicado. — Murmurei, perdida em pensamentos.

Estava tão distraída que mal percebi quando ela estacionara carro em frente à minha casa.

- Prometa que vai se cuidar e vai ficar bem. — Ela perguntou, cautelosamente.

- Ok. — Respondi, com um meio sorriso.

- Sabe que qualquer coisa pode me ligar né!? -

- Sei sim, obrigada por tudo. — Respondi, abraçando-a fortemente.

- Amanhã é um novo dia, vai ficar tudo bem — Ela murmurou de volta e eu sabia que apesar da bronca, era a maneira dela de dizer que estava preocupada comigo e que me amava. Era como dizia o ditado, "A gente só briga com quem ama." Quem havia dito isso mesmo?

Removi a chave de dentro do casaco e pude ver que a luz da sala estava acesa, algo que era bem estranho, pois, Riley na certa não havia chegado, afinal, eu tinha saído cedo demais e minha tia Hannah provavelmente estava dormindo. Abri a porta, vagamente, olhando para os lados e caminhei até a sala.

- Tia!? — Perguntei, enquanto meu olhar seguia por cada espaço do ambiente, à procura de algum movimento, mas nenhuma alma viva parecia ter estado ali para contar história. Chutei levemente a porta atrás de mim e segui em direção à escada.

Então um ruído despertou minha atenção.

Pisquei algumas vezes e me virei rapidamente, mas não havia nada além do vento que soprava através da janela, e as cortinas se agitavam gentilmente com o vento frio que vinha do lado de fora. Desci alguns degraus e fui ao encontro da mesma para fechá-las, porém, meus mecanismos desarmaram-se diante da extraordinária visão que punha-se à minha frente naquele momento. A noite estava quieta, solitária, como se estivesse imersa em um sono profundo, calmo e repleto de sonhos. O céu encontrava-se cravejado de estrelas que brilhavam como diamantes naquela noite. Suas cores variavam em tons que se entrelaçavam em grande harmonia e iam do cinza escuro até o azul cobalto.

- É uma linda noite, não acha? — Uma voz familiar ecoôu atrás de mim, despertando-me de meu davaneio. Me virei na mesma hora e me deparei com...

- Daniel! — Exclamei surpresa e feliz ao mesmo tempo. Seus braços envolveram-me em um abraço aconchegante. Ele era muitos centímetros mais alto do que eu, o que me fazia ter de ficar na ponta dos pés para abraçá-lo corretamente. Seus cabelos ainda estavam molhados do banho e tinham um cheiro ótimo assim como o da sua camisa, o que me fez fechar os olhos por um breve instante e me perder naquele momento. Mal pude notar que estava abraçando-o mais forte do que o necessário. — Chris, eu te adoro mas.... Eu ainda vou precisar do meu braço, sabe? — Ele murmurou, seguido de um riso baixo e eu o soltei, à medida em que sorria sem jeito.

- Me desculpe, eu esqueci totalmente! Não estou tendo um dia bom, enfim... Como está o seu braço!? — Perguntei, alinhando uma mecha que havia se soltado da trança para trás da orelha.

- Está melhor, na verdade! — Ele sorriu, exibindo dentes impecáveis. — Eu acho que nunca mais quero ver uma moto na minha frente outra vez! Mas... e o seu!? — Ele gesticulou para meu braço machucado.

- Isso!? Ahn... Bobagens, você sabe, gente desastrada cai por toda parte. — Eu dei de ombros, procurando mudar de assunto. — Mas porque raios você estava andando de moto, afinal!? -

- Eu precisava trocar aquele meu violão e também tinha que ver cordas novas. Obviamente, eu não podia sair daqui com o carro e correr o risco de voltar para casa e meu pai ver tudo aquilo no porta malas, então eu peguei uma carona no carro do Matt e na volta, passei na casa dele para deixar as coisas lá e ele fez o favor de me emprestrar a moto para que eu voltasse com as coisas para casa. Eu só não contava que fosse chover tanto e a estrada fosse ficar tão derrapeira. — Ele deu de embros, após se explicar.

- Você podia ter se morrido por causa de uma bobagem, sabia!? — Murmurei em uma careta.

- Vaso ruim não quebra. — Ele deu um pequeno sorriso torto e logo continuou. — Além do mais, eu prometi que nunca te deixaria, lembra!? Promessas assim não se desfazem por qualquer coisa.

Houve um silêncio nessa hora, como se nenhum dos dois soubesse mais o que dizer ou como se não houvesse mais nada para ser dito. Nunca fui boa em demonstrações de afeto, embora os mesmos ainda queimassem com a intensidade de uma chama incandescente dentro de mim. Eu os sentia cada vez mais forte, por toda parte, o tempo inteiro... Mas nunca soube executá-los com destreza.

Após um longo silêncio, estávamos lá, os dois rindo. Sem explicação, sem causa, tudo resolvido. E era uma das coisas que eu mais amava em Daniel. Ele nunca me pressionara, nunca me questionava e sei que seria incapaz de fazer algo que me fizesse sentir desconfortável perante à alguma situação. Ele era simples, calmo. Ele me aceitava assim, errada, do jeito que eu era. E eu o aceitava também. Com ele eu podia ser eu mesma sem medo, e isso era algo inexplicável.

- Bom, vai ficar tarde e eu acho melhor ir andando. — Disse Daniel, levantando-se do sofá de onde estava sentado e o acompanhei até a porta, ainda sorrindo. — Nós... Nos vemos amanhã, certo!? — Ele arqueou uma expressão divertida e não pude evitar de rir com aquilo. Então, novamente, ele se aproximou, depositando um pequeno e breve beijo em minha testa e se afastou, gesticulando um "até" no ar e começou a caminhar com as mãos em seus bolsos, como de costume. Aquilo era tão Daniel!

Praticamente me joguei em minha cama, após terminar o banho. Meus cabelos ainda molhados, espalhavam-se pelos travesseiros e pelo pijama e eu me sentia inexplicávelmente bem! Era incrível como uma simples conversa com Daniel havia me feito esquecer quase de todo o pesadelo horrível que eu tinha passado por aquela noite.

Meu fofíssimo gato de estimação, Sr. Robert, saltou elegantemente para cima da cama, aninhando-se perto de mim, enquanto ronronava em um sinal para que eu acariciasse sua cabeça minúscula. E assim o fiz. Ele balançava a cabeça lentamente, de um lado para o outro em um sinal de aprovação e então, abriu seus grandes olhos azuis para fitar-me. Olhos azuis, como os de Brandon — o pensamento me veio, de imediato de imediato.

- Não! — Disse em voz alta. Eu o odeio, odeio! Não quero tê-lo em meus pensamentos, não quero saber nada sobre este garoto. Não quero sentir nenhum tipo de sentimento por ele, seja amor ou ódio, afinal, ambos sempre acabam nos corroendo cedo ou tarde e eu não seria mais uma em sua lista! — Meu orgulho estilhaçado praticamente berrava dentro de mim.

O som do telefone ecoôu pelo quarto. Quem seria à esta hora!?

- Alô!? — Eu atendi, sem vontade alguma de falar ao telefone, como sempre.

- Christie!? Oh, Christie! Que bom que você está acordada, eu preciso tanto falar com você! — A voz manhosa de Tess surgiu do outro lado da linha.

- O que!? Você... Como? Como você tem o meu número? — Eu exclamei boquiaberta.

- Você me deu, ué. — Disse ela, como se estivesse falando com uma doente mental, no caso, eu.

- Não dei não. —

- Deu sim, não se lembra!? Enfim. Ah, Christine, aconteceu algo terrível! — Continuou ela, com a entonação de uma atriz de novela mexicana.

- Diga... — Respondi com uma voz que dizia claramente em letras maiúsculas "Tédio, olá".

- É a Megan! Aquela "suposta namorada do Brandon". Ela viu você saindo correndo, arrasada, de um lugar em que você havia se escondido com o Brandon depois do show! E agora está dizendo para todos que você se ofereceu para ele como uma vadia barata e que ele te deu um fora, Christie! Todos estão falando de você! Óh, não sabe como eu lamento, sei que isso é uma completa invenção daquela bruxa loira! Você jamais faria isso!

- O que!? — Perguntei, estupefata. Minhas mãos tremiam tanto que quase levei o telefone ao chão. Mal pude notar que estava prendendo a respiração a tanto tempo que minha face já estava quase ganhando um lindo tom arroxeado. Soltei o ar pesadamente e tentei manter a calma. — E é óbvio que ele pelo menos teve a decência de desmentir isso tudo, certo!? — Perguntei, esfregando a testa em um sinal de nervoso.

- Bom... É que, na verdade, ele não disse nada... — Ela respondeu com um hesitante.

- Droga, droga! Isso não vai ficar assim! Que golpe baixo! Como ele pôde fazer isso? — Eu praticamente berrava ao telefone, impedindo Tess de dizer uma mísera palavra a cada vez que a mesma hesitava. — Tess, obrigada por me avisar, mas eu preciso de um tempo para tentar digerir isso tudo, ok? Boa noite.

- Espera! O que você vai fazer!? — Ela perguntou em pânico.

- Você vai ver. — Respondi, pressionando o botão "desligar".

Na manhã seguinte, percorri praticamente todos os cantos daquele maldito colégio atrás de Brandon, mas quanto mais o procurava, mais tinha a sensação de que ele parecia ter evaporado desta dimensão. Aquilo já estava me tirando do sério, completamente, mas eu não iria desistir assim tão fácil.

Soltei um suspiro pesado devido ao cansaço de ter ficado tantas horas andando. Eu não estava acostumada à fazer exercícios com frequência e já estava começando a sentir os efeitos disso. Encostei-me próxima à uma árvore para descansar um pouco e larguei a mochila próxima a mesma. Caminhei até o rio que passava por perto de onde eu estava para molhar o rosto e em seguida, chequei duas mensagens novas que havia recebido nas últimas horas em meu celular. A primeira era a de Riley e dizia "Vou sair mais cedo hoje, pegue carona com a Danna, beijos, R." e a segunda era de Daniel, o que me fez sorrir levemente, de imediato. A mesma dizia "Pizza hoje?" Não pude evitar de rir com aquilo e prontamente, as respondi.

Algum tempo depois, comecei a arrumar minhas coisas para ir embora, já conformada com minha derrota naquele dia e então, algo chamou minha atenção.

Não muito longe, ouvi uma voz masculina. Parecia irritado, sua silhueta executava movimentos bruscos, gritava, ativara coisas contra a grama e grunia. Mas não pude ver quem era. Senti a curiosidade incontrolável de correr até o local, desvencilhando-me das àrvores pelo caminho, enquanto ainda assim, tentava ser discreta. O homem desconhecido ajoelhou-se no chão, cobrindo a cabeça com os braços em desespero.

- Eu não entendo, deveria estar dando certo! Porque eu ainda não consegui!? — A voz me parecia familiar, porém, ainda não podia distingui-la com clareza, devido ao fato de a mesma estar demasiadamente alterada. Seu tom agora parecia um lamento tão profundo, que por um instante, pensei ter sentido um enorme abismo em meu peito.

Antes que pudesse perceber, as palavras escaparam por meus lábios.

- Não conseguiu o quê? — Perguntei.

A figura virou-se prontamente para mim e na mesma hora, congelei no lugar aonde estava ao perceber de quem se tratava.

- O que está fazendo aqui? — Brandon perguntou em um tom tão rude, que quase não conseguia reconhecer aquele garoto irônico e sarcástico de sempre. Será que se tratava mesmo da mesma pessoa?

Sua aparência estava terrível. Parecia acabado, sua blusa tinha rasgos por diversas partes. Seus cabelos negros estavam mais desgrenhados que o habitual e sua pele havia adquirido um tom centenas de vezes mais pálido. Não tinha sequer, nenhuma relação com aquela figura gloriosa à qual havia estado comigo ontem enquanto me humilhava publicamente,

- Estava te procurando. — Eu procurei não gaguejar. — Preciso falar com você.

- Já está falando. — Respondeu ele, bruscamente.

- Bom... — Eu hesitei, nervosa e soltei um suspiro pesado. — Exijo que você desminta todas as calamidades que Megan anda proferindo sobre mim desde ontem. Isso é calúnia e você sabe disso. — Ele me encarava de forma séria, sem esboçar qualquer reação.

Houve uma pequena pausa e em seguida, Brandon pôs se a rir, mas não da forma cínica e escárnia do abitual, e sim de uma forma completamente assustadora.

- E porque eu faria isso? — Ele me lançou um olhar sombrio.

- Já disse. Porque é mentira e não irei admitir que me faltem ao respeito. — Retruquei.

- Faltar ao respeito. — Ele repetiu. — Claro que sim. Eu até poderia lhe fazer este favor, porém, eu ainda não entendi o que eu teria haver com isso? Afinal, até agora, tudo que você tem dito sempre acaba terminando unicamente em "você." Portanto, não vejo aonde isso possa ser problema meu. Resolva suas coisas sozinhas. — Ele caminhava em minha direção enquanto falava e então, parou por um instante e começou a andar ao meu redor, parando logo atrás de mim. — Ou será que isso tudo não é apenas mais um pretexto seu para me ver novamente? — Ele sussurou em meu ouvindo, provocando calafrios por minha espinha.

- O quê!? — Fitei-o horrorizada. — Não acredito que você possa estar dizendo um absurdo desses! Eu o... — Ele me interrompeu com um sinal de silêncio e em seguida voltou a rir, caminhando de costas para mim, enquanto voltava a falar.

- "Óh, eu o odeio! Nunca mais quero ver você na minha frente, saia daqui." — Ele repetia as mesmas palavras que eu havia dito para ele no dia anterior, em uma tentativa ridícula de imitar minha voz e começou a rir mais alto do que anteriormente. — Claro. É isso que ia dizer!? Tão previsível, Rydell... Coitadinha!

Fechei minhas mãos em punho, dividida pelo ódio e angústia ao escutar aquilo. Não conseguia entender o porque de tanto ódio, de tanto rancor! Eu nunca havia feito nada à aquele garoto para que ele me humilhasse daquela maneira. Meus olhos ardiam em um sinal de choro, porém ainda reprimia as lágrimas, em relutância.

- Porque me odeia tanto? O que eu te fiz? — Perguntei em um tom baixo demais.

- Ódio!? — Ele repetiu, ainda com aquele sorriso cínico em sua face. — Sabe, Rydell? Eu tenho a impressão de que você se considera uma pessoa brava, digna, nobre! Você gosta de se fazer de vítima, adora isso, não é!? Essa é sua "praia". Você gosta, aliás, você AMA sofrer e eu apenas estou de dando o que você tanto quer! Deveria me agradecer por isso. — Ele respondeu, fitando-me. — Mas... Respondendo a sua pergunta... Bom, há uma linha tênue entre o amor e o ódio. Para ambos, são necessários sentimentos intensos. — Ele se explicava, com toda a calma do mundo. — Para o ódio, é preciso uma força arrebatadora, uma vontade tão grande de destruir à aquele indivíduo, que sua mente passa a se tornar um quadro perfeito do mesmo. Logo, de certa forma, esta pessoa é importante para você, ainda que de uma forma... Obscura. — Ele sorriu. — Mas você, Rydell... Por você não sinto nenhum dos dois. Você é indiferente para mim, como um sinônimo para o "nada". Você é nada, Christie. — Ele me deu um leve tapinha no braço, dando de ombros, enquanto ia embora.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.