Notas iniciais
Boa leitura.

O Casamento

O rosto de Orlando era um turbilhão de cores e expressões, mas a que sobressaia era vermelho e os olhos incrédulos. Por fim, ele abriu a boca e uma exclamação saiu dela, denotando toda a sua indignação. Fora enganado! Serafina armou tudo para que quando chegasse o momento em que voltar atrás seria praticamente impossível, ela lhe contasse aquela desgraça. Uma princesa que não é virgem! Com quantos homens ela havia se deitado até dizer isso a ele? Quem era seu amante? Céus, ela nunca o teria como amado? Orlando sentiu o golpe balançando-lhe os pensamentos, completamente apavorado com a ideia de se casar sem ser amado e ainda mais agora que já estava apaixonado por ela. Sim. Era verdade, não conseguia irritar-se com ela, nem culpá-la, ou humilhá-la. Só conseguia sentir a insegurança e a traição.

— Há quanto tempo? – perguntou, enfim. A voz embargada a desânimo.

— Como?

— Há quanto tempo você não é virgem? – a pergunta foi mais ríspida do que queria soar, e Serafina encolheu os ombros. A estava assustando, e isso o matava.

— Alguns meses, acho que... dois. Uma semana antes de chegar a Overath. – respondeu.

Então compreendeu exatamente o que havia acontecido e seu coração se encheu de raiva, ódio incontrolável, vontade de matar todos os foras-da-lei. E provavelmente fora numa floresta como aquela em que estava acampando, por isso Serafina se mostrou tão hesitante, tão medrosa. Orlando sentiu raiva de si mesmo, como pôde ignorar algo desse jeito? Quanta dor, quantas memórias Serafina suportou apenas por seu luxo ridículo? Abraçou-a sem pensar, enquanto as lágrimas rolavam e ele chorava por ela. Nenhuma mulher merecia ser estuprada, era horrendo, um pecado que Deus deveria condenar com o pior castigo do Inferno. Pensar nas chamas consumindo as almas dos homens que tocaram em Serafina o fez se sentir melhor, e apertá-la ainda mais, agora chiando baixinho. Quando olhou para seu rosto, viu-a mordendo a boca, tentando não chorar com os olhos cheios de lágrimas. E então se afundou no peito de Orlando e desabou em soluços e chiados embargados.

— Me desculpe – pediu, notando que sua voz também estava embargada. Poderia já amá-la tanto?

Beijou-lhe a testa e segurou seu rosto com as duas mãos, obrigando-a a olhar dentro de seus olhos.

— Me desculpe.

Seus lábios encontraram os de Serafina, ávidos, as mãos escorregando por seus ombros até as costas, formando leves círculos sobre seu pescoço com os dedos pelo caminho, beijando-a diversas vezes, sem interromper-se por um segundo, o corpo ganhando vida e um desejo irrefreável consumindo-o a cada centímetro da pele dela que se tornava familiar.

As lágrimas de Serafina molharam a ponta de seu nariz e ele esfregou-o por sua bochecha, ela murmurando palavras desconexas, pedidos de perdão, chamando nomes que ele não conhecia. Talvez os de seus pais. Parou de acariciar e olhou para seu rosto, os olhos fechados e os lábios abertos, erguido para ele. Queria beijá-la de novo e de novo, mas se controlou, passando os dedos pelas manchas de lágrimas secas nas bochechas e no queixo de Serafina, limpando-a. Ela abriu os olhos, curiosa.

— Apenas me diga se te machucaram muito. – pediu, arrependendo-se em seguida. Claro que a haviam machucado, como não machucariam? Sentiu-se ainda pior. Indigno de estar segurando-a tão próxima assim.

— Não... – ela sorriu – Não muito – e então beijou-o, com a mão puxando-lhe a cabeça até ela, o braço livre segurando-lhe o braço. Orlando foi tomado pela surpresa, a mais incrível e genuína surpresa, que o fez perder os sentidos por alguns segundos. Afinal estivera ponderando que Serafina não o amava, que ela havia se entregado a outro. E agora ela o puxava para si. Haveria uma surpresa tão maravilhosa quanto? – Você é forte... – ela sussurrou sobre sua pele, descendo os beijos pelo pescoço – Cheira bem para um francês...

Parou-a.

— Para um francês? – piscou os olhos, decidindo se ria ou se sentia ofendido. Então decidiu que não importava, pois ela estava tão adorável com aquele sorriso travesso que não haveria qualquer motivo que tirasse os olhos de Orlando de sua princesa.

— É melhor voltarmos. – Serafina disse, ainda com as bochechas ruborizadas, virando-se para a direção da tenda. – Ou o casamento não irá acontecer.

Orlando que implorar para que ficassem mais um pouco ali, beijando e rindo um do outro. Mas tinha de concordar que as responsabilidades implicavam em suas presenças. Em todo caso, haveria tempo para essas coisas após o casamento. Uma vertigem tomou-o pelas partes baixas e sem pensar, olhou seu desejo para avaliar se precisaria esconder ou não. Por sorte não fora tão grave.

— Me ajude aqui! – ela ordenou, com os braços cheios de sacolas, indo amarrá-las ao cavalo de carga.

— Sim, Minha Senhora. – concordou imediatamente.

º º º

Serafina olhou-se novamente no espelho, enquanto a criada dava os últimos ajustes a costura do vestido. Seu cabelo fora escovado com maestria, as madeixas agora tocando seu pescoço. Queria casar-se com os cabelos longos, aqueles que ela cuidara co tanto carinho, vermelhos, volumosos... Mas cresceriam. Cabelos não faziam casamentos, tudo o que ela precisava estava ali, Orlando, um bispo e ela mesma, em um vestido turquesa, com um véu escuro sobre seu rosto, como era comum em Overath.
Em uma hora seria a princesa da França, esposa de Orlando de Valois. Sorriu, com certeza era uma noiva apresentável, não a mais bela, nem a mais honrada. Mas Orlando a queria e isso bastava, pois soube em seu beijo, no modo como a olhava, que nem mesmo a pior desgraça que caíra sobre sua cabeça o impediria de amar. Em que outro canto da Europa encontrar um rei com tais valores, com tal coração? Quem mais haveria de amar uma mulher desgraçada? Tinha tanta sorte. Tanta sorte...

— Finn! – virou-se imediatamente, os olhos se enchendo de lágrimas antes mesmo de ver Elizabeth com os braços abertos. – Finn! – e correu para abraçá-la, como não fazia há anos. Serafina entregou-se ao abraço da irmã, sentindo-se tremendamente feliz e segura ali, no calor de um peito tão familiar. Elizabeth tinha o mesmo rosto de mamãe e os cabelos estavam ainda mais longos que antes. – É tão bom encontrá-la, minha irmã! Como roguei aos céus para que chegasse em segurança a Overath, lá onde meu noivo está não se fala em outra coisa! Veja, os presentes que os nobres mandaram! Estamos todos em festa.

Serafina viu os criados arrastando pilhas e pilhas de presentes. Abriu um sorriso contido, pois nada daquilo poderia comprar a presença de sua irmã. Elizabeth nunca fora a mais próxima, mas ainda era a família. Ter um deles em seu casamento era uma felicidade indescritível.

— O que houve com seus cabelos? – Elizabeth tocou-os – Estão curtos como nunca os vi antes! – e então abriu um sorriso – Já se sente francesa, começando modas novas? Agora pareces muito mais madura que eu, e olhe que sou mais velha por cinco anos! Céus, minha irmãzinha está para se casar com uma idade muito inferior a que eu me casei!

Serafina riu.

— E com um príncipe muito melhor. – disparou. Elizabeth arqueou as sobrancelhas, recebendo o sarcasmo.

— Ora, ora. Aí está uma Serafina que eu não via há anos. Onde se escondeu seu espírito ardiloso? – e então Elizabeth a cutucou com o cotovelo, como se fossem crianças novamente – Que este príncipe lhe fez para despertar a antiga Serafina?

— Me deu uma prova de que o Céu realmente existe, minha irmã. – respondeu, sem gaguejar ou medir palavras. Elizabeth caiu na gargalhada.

— Um galanteador! É um perigo para as damas da Corte!

— Creio que seria um perigo, se não estivesse completamente domado. – e então piscou, audaciosamente – As rédeas que o prendem estão muito bem firmes em minhas mãos.

— E essas rédeas são gentis?

— Suaves e cheias de amor. – Serafina deixou-se cair na cama, suspirando. Como nunca fizera antes. – Devo ser uma péssima dona... Mimá-los nunca é bom.

Mas antes que Elizabeth respondesse, uma gargalhada grossa irrompeu quarto adentro, e Orlando de Valois pisou duro no carpete, com os braços cruzados e um sorriso sarcástico no rosto. Seus olhos eram vorazes, como os de um predador. Mas Elizabeth duvidou que estivesse cheio de ira. Parecia mais cheio de... como os franceses chamam, frenesi.

— Devo aceitar o elogio de ser um príncipe melhor e me ofender com o insulto a minha independência no casamento? – perguntou, travesso. – Ou talvez retribuir a audácia?

— Deves se ajoelhar perante sua senhora e implorar perdão pela língua afiada. – disparou Serafina, cruzando os braços sob os seios. Isso os ergueu um pouco, deixando o decote mais aberto, o que, Elizabeth concluiu, era uma bela estratégia.

Príncipe Orlando de Valois, Delfim da França, curvou-se servilmente e dobrou um joelho, retirando a boina da cabeça.

— Me perdoe, graciosa senhora, fui insolente. Rogo perdão.

— Está perdoado – ela concordou com um meneio. – Devo apresentar-lhe meu noivo, Príncipe Orlando. Orlando, esta é minha irmã mais velha, Elizabeth de Oldemburgo, mulher do príncipe de Brandeburgo, no Sacro-Império. – apresentou-os formalmente, embora estivesse brincando com os laços em seu corpete. – Agora, poderia se retirar, Orlando?

Orlando fez uma cara dolorosa.

— Ora, por favor, você acabou de ferir um dos princípios do dia do casamento!

— Qual? – ele perguntou, levantando-se.

— O noivo nunca vê a noiva antes do casamento. Agora terei de escolher outro vestido, um que você ainda não tenha visto.

— Mas este está bonito.

— Eu sei, por isso iria me casar com ele. – ela revirou os olhos, mas estava sorrindo.

Orlando suspirou, assentindo, caminhando penosamente para a porta. Virou-se uma última vez e acenou, tímido. Deixou-as sozinhas. Serafina soltou uma risada fraca, os olhos perdidos na porta fechada.

— Ele não é adorável?

Elizabeth assentiu, sorrindo. Eram perfeitos um para o outro, temeu que o esposo de Serafina não pudesse suportar seu jeito autoritário e ardiloso, mas havia encontrado um passivo-agressivo encantador, um homem devoto e sarcástico, para contrastar com sua personalidade sagaz e oportunista. Seriam reis perigosos, um dia. Por ora, eram apenas um casal amável.

Estava feliz por sua irmã.

Mas não pôde deixar de sentir uma pontada de inveja.

º º º

Como era costume, Orlando entrou primeiro no salão de cerimônia, onde todos os convidados estavam. Seus pais, logo a frente, com suas coroas e o cetro de Rei da França, seus primos e amigos sentados nos primeiros bancos. Do lado da noiva, havia Elizabeth, a irmã de Serafina, com uma coroa simples de princesa consorte e uma flor de laranjeira em mãos. A maioria das pessoas que estavam assentadas ali eram cavaleiros overathianos, a Princesa Hannelore e sua pequena corte de damas e família. Orlando sentiu o suor começar a escorrer pela raiz dos cabelos, afinal estava muito nervoso e aquela roupa era apertada demais. O pajem segurando o brasão da França parou ao lado de seus pais, e ele se viu no altar, onde seria unido a uma mulher diante de Deus pelo resto da vida.

— Príncipe Orlando de Valois, Delfim da França, Senhor de Nápoles e Duque de Lyon, Duque da Bretanha, Rei da Sicília...

O bispo enumerou seus títulos, embora quase nenhum deles realmente valesse quanto Rei da França. Orlando se perguntava por quê tinha de ser duque de tantos lugares se nunca estivera lá para cuidar realmente das pessoas ou por quê ser rei de Nápoles se morava na França. Dois reinos tão longínquos, além disso, o tratamento era apenas titular, pois os espanhóis tomaram Nápoles. Seu pai, Carlos, queria intensificar o poder francês na Península Itálica, até que a Itália se tornasse o braço da França e assim tivesse um Império. Deste modo, se defenderia dos flamengos e também de Fernando de Aragão.

— ... Benedictus, a Deo electi, lé Présent Divin. – Orlando curvou-se, recebendo a benção. Em seguida, o pajem trouxe um documento escrito em latim, assinado pelo Papa e pelos Reis da França. Era o documento que tornaria seu casamento legal.

Subiu os degraus do altar, ajoelhou-se e assinou lentamente seu nome. Carlos... Orlando... D’Orleans Valois... Delfim da França. Observou o nome de Serafina escrito ao lado do seu, onde ela assinaria. Beijou-o.

Alguns suspiros foram soltos pelas damas presentes, outros abafados por seus próprios pais. Orlando sabia que normalmente os homens que se mostravam contentes e satisfeitos com seus casamentos poderiam ser vistos como fracos e impotentes para mais de uma mulher. A traição era algo bem visto na Corte, um rei com muitas amantes era propenso a ser um rei com muitos filhos. Mas sempre achou a ideia detestável.

— Princesa Mary Serafinn Tatyana Von Oldemburg. – anunciou o pajem, entrando com o brasão da Dinamarca e Noruega. Atrás, Serafina deslizava com seu vestido amarelo claro, destacando os cachos ruivos que caíam por entre o véu escuro.

Ela parou ao seu lado, olhando para o bispo, como se fosse à imagem da confiança, e ele um mero garotinho ansioso e assustado. O bispo leu seus títulos, embora fossem muito menores que os dele, por ser a terceira filha do Rei João. Serafina subiu os degraus, ajoelhou-se, escreveu seu nome e, como que previamente combinado, beijou o de Orlando. Sentiu suas bochechas ardendo, enquanto os pais riam baixinho, trocando cutucões, e as damas fungavam, enxugando lágrimas. Lado a lado novamente, deram-se as mãos, e pela primeira vez Orlando notou que ela tremia. Sentiu-se consolado, ao menos não era o único.

O bispo leu as bênçãos do casamento e abençoou-os como um casal. Por fim, restavam os juramentos.

Eu, Charles Orlando De Valois, Delfim e Herdeiro da França e Bretanha, recebo-te, Serafina, como minha esposa, para te ter e te conservar, deste dia em diante, para o melhor e para o pior, na riqueza e na pobreza, na saúde e na doença, até que a morte nos separe, e para isto empenho a minha palavra”.

A voz de diplomata fora bem treinada para que fosse um barítono excelente, mas seus olhos o traíam, enquanto se enchiam de lágrimas. Céus, nem podia crer, estava tudo certo em sua vida, sua esposa, seu trono, amigos confiáveis, saúde e riqueza. Não merecia tanto. Não merecia nem metade.

— Serei vossa esposa airosa, a mãe dedicada dos filhos que gerarmos, até que a morte nos separe, e para isto empenho a minha palavra, te aceito como meu esposo. – Serafina disse, com as mãos sobre as suas, olhando-o serenamente. Ela tinha tanta força, tanto equilíbrio. Orlando ficava feliz por ter alguém assim ao seu lado.

— Perante Deus e perante estas testemunhas – o bispo fez o sinal de Jesus Cristo com a mão – Eu vos declaro Príncipe Herdeiro Carlos Orlando da França e Princesa Herdeira Maria Serafina da França.

º º º

Vinhos importados da Itália preenchiam a quase todas as taças douradas daqueles nobres faustosamente trajados, duquesas conversavam com baronesas, condes conversavam com marqueses, e o rei dialogava com seu igual, aparentemente todos pareciam satisfeitos ao som dos tamborins, flautas e da cantora local contratada, Annelise Schneider, cuja voz melodiosa recebia elogios por parte dos convidados.

Lá estava eu, quando tu vás lá.

Pela floresta do vale.

Docemente tocou o rouxinol.

Caminhei até o verde

Meu verdadeiro amado

Estava aguardando impaciente.

Meu coração pula em êxtase

Em beijos, vejo o vermelho de teus lábios.

Ela recitava em seu canto um poema de Walther Von der Vogelweide, um dos maiores nomes da poesia germânica. A rainha da França já lhe desejava em sua corte para cantar nos festejos, mas apesar da cantora ser bela e encantadora, a nova princesa dos francos era a verdadeira estrela. Todos queriam conhecer melhor Serafina Oldenburg... De Valois. Ela nunca imaginou que o dia em que carregaria o nome do marido chegasse.

Entretanto as disputas não encerravam, senhores tentavam criar coragem para convidar alguma dama para dançar, uns eram ousados, outros eram como o soldado Falk, que simplesmente não conseguia mover o pé e pedir uma dança com a princesa. Mas, quando Dunkel olhou para seu lado, notou que outro rapaz parecia querer fazer o mesmo que ele, Alberich. Eles descolaram-se da coluna e começaram a caminhar em passos lentos por entre a multidão, a fim de não chamar atenção de todos para aquela batalha, porém o soldado focou tanto no inimigo que não notou a senhorita distraída que passava logo a sua frente, acabando por esbarrar com ela no caminho.

— Ai... — Emma gemeu de dor, teria o feito mais alto se Dunkel não tivesse tapado sua boca, por parte da jovem o normal seria que ela já tivesse dado um pontapé no cavaleiro, porém se recompôs quando viu se tratar de Dunkel.

— Perdão, Emma.

— Ah, é só você! Se desejar conversar com o duque de Henstaufen, ele não está presente, viajou para o norte e só retornará semana que vem.

— Não é com o comandante que eu... Chamou-o pelo titulo?

— E eles não são dele?

— Sim, mas... Eu já fui tantas vezes em sua casa e a senhorita nunca o tratou assim, sempre o intitulou pelo o que ele é para ti.

— Pai? — cruzou os braços. — Não, eu não tenho pai. Sabia disso?

Dunkel revirou os olhos.

— Emma, o comandante Von Strauber é um homem ocupado, não pode culpar as responsabilidades dele se é isso que lhe magoa. Pense que é graças ao esforço dele que a senhorita e teus irmãos são os herdeiros mais ricos desse reino, podendo equiparar-se a princesa.

— Herdeiro? Posses? — a morena suspirou. — Para ser um bom líder não é necessário ser um pai ruim, pelo visto o senhor ainda não sabe da história... Você não tem nada a ver com nossos problemas familiares, não tem compromisso agora? Vá.

O rapaz chegou a virar-se, mas era tarde, a princesa Hannelore e o conde Alberich já dançavam sorridentes. Naquele mesmo instante ele voltou-se para trás, pronto para deixar o ambiente, porém Emma ainda estava lá, de braços cruzados e um semblante triste. Por que não, pelo menos poderá dizer que dançou com alguma donzela.

Quando as pessoas passavam perto da mesa dos casados, faziam uma mesura em sinal de respeito, mas Serafina e Orlando nem pareciam notar, pois simplesmente não conseguiam deixar de contemplar um ao outro, sorriam alegremente que os olhos pareciam brilhar. A baronesa Gabrielle, observando de longe, concluiu o porquê dos jovens quererem se casar logo.

“O sorriso deles abre-se devagar e depois resplandece, como se fossem sorrisos dos anjos”.

A ruiva saiu do movimentado salão de festas, por um corredor que interligava diretamente com a sala das artes, que no momento estaria completamente vazia, mas lá estava o rei Willian contemplando uma pintura antiga.

— O senhor realmente odeia festas? — indagou aproximando-se dele com um sorriso.

— Estou me divertindo tanto — comentou sem humor. — Desejo todas as felicidades aos noivos, mas festas de casamento não combinam comigo.

— Imagino.

— Duplo sentido? — ele a encarou seriamente.

— Apenas disse.

Ele voltou a observar aquela pintura, uma noite estrelada. A baronesa entendeu perfeitamente aquilo, ele estava sofrendo.

— Minha grande amiga, a princesa Cristina tinha um fascínio por estrelas... Com toda essa festa, o casamento, o senhor lembrou-se dela? Depois de todo esse tempo...

— Como poderia associá-la a algo que nunca ocorreu?

— Mas que vocês desejaram, sonharam e por pouco não conseguiram. — disse gentilmente. — Imagine se tudo tivesse ocorrido da maneira como os senhores imaginavam?

Willian iria dizer alguma coisa, mas calou-se.

— O senhor retornou alguma vez nesses anos, a aquele mosteiro?

— Todo dia vinte e três do terceiro mês.

— Hora de substituir esta homenagem aos mortos, para comemorar o aniversario da tua filha, garanto que Cristina desejaria isto.

Willian deu um sorriso fraco.

— Sabe algo que eu queria, realmente? Aquele diário dela.

— Pensei que estava contigo, Willian?

— E eu contigo, mas nunca o encontrei.

— Ela anotava quase todos os fatos da vida dela naquilo. Foram três, lembra-se?

— Claro, eu tenho os dois, mas este terceiro eu nunca achei, então presumo que fora queimado ou está escondido muito bem.

— Pretendo visitar o mausoléu dela logo, ninguém além do senhor, precisam saber disso.

— Por que essa pressa? — o rei perguntou.

—Recebi uma carta do meu marido, ele pede para que eu e meu filho Matias retornemos mês que vem para a Hungria. Conseguimos negociar com os turcos uma trégua e...

William apoiou-se na parede, de repente curvado sob os joelhos, agarrando o peito do gibão. A dor foi intensa e penetrou seu coração. Imediatamente a baronesa foi ao auxílio do rei, apoiando-o em seu ombro e chamando por ajuda. Por sorte um criado servia vinho ali perto e ouviu os gritos, foi ao encontro de ambos e ajudou-a a levar o rei até seu quarto. Ela permaneceu alguns minutos ao lado da cama de William, observando-o dormir serenamente. Quando o médico chegou, disse-lhe que não precisaria de uma dama no quarto enquanto inspecionava o rei e com isso foi-se, rumo ao seu destino previamente dito.

º º º

Estava já ficando entediado após tanto vinho, música, danças e pessoas indo falar com ele. Orlando sentia-se abandonado por quem mais queria ao seu lado, sua esposa, Serafina. Mas não era culpa dela. Todos os fidalgos da França queriam conhecer a nova princesa, todos os seus duques, condes, marqueses, barões e cavaleiros queriam saber mais sobre a nortista que deixara sua fé ortodoxa para se juntar à Madre Igreja Católica. Ela era o centro das atenções, em seu vestido de festa, indo dançar com todos que pediam, sorrindo e abençoando bebês quando lhe eram trazidos. Os franceses a amavam por ser... por ser ela. E Orlando sentiu-se estupendamente feliz por seu povo aceitá-la de tão bom grado. Era a sua Joana D’Arc à dinamarquesa. Orlando sorriu, entretido ao vê-la rodopiando pelo salão.

Não percebeu quando o arcebispo chegou até a mesa.

— Senhor Orlando. – disse, chamando-lhe a atenção. Orlando ergueu os olhos lentamente até o servo de Deus, com sua roupa pomposa e seus cabelos ralos. Parecia velho o suficiente para ser seu avô e deveria ter participado de diversos casamentos. – Deve dizer a nós quando irá consumar o casamento para que possamos abençoá-los. – falou delicadamente. Orlando ergueu as sobrancelhas, não sabia disso. – Em Overath é costume que três filhos de Deus, simbolizando a trindade, vão ao quarto da consumação e abençoe o casal em sua cama, para que o casamento seja fértil.

— Mas a festa não acabou... – Orlando tentou recompor-se.

— Todavia é o noivo quem decide quando a consumação deve ser celebrada. – o arcebispo interrompeu-o.

— Ah. – Orlando exclamou, surpreso. Ele poderia escolher em que momento ir para o quarto fazer o que queria realmente fazer. O que sempre quis desde que chegara aos doze anos. Mas seria imprudente se dissesse para que fossem agora? A festa ainda estava no meio, seria problema? E Serafina aprovaria isto? Ela queria fazer agora? Foi poupado da dúvida quando ela se aproximou, deixando o salão de baile.

— Algum problema? – perguntou, toda sorrisos.

— Nosso arcebispo nos avisa de que podemos sair da festa para ir à consumação quando quisermos e ele deverá nos abençoar na cama. – explicou, sem poupar detalhes, o que assustou ao homem de Deus, que não esperava que um esposo fosse tão explícito com sua mulher.

— Então vamos agora, mais um segundo aqui e meus pés não vão me deixar consumar coisa alguma. – e com isso, ela desceu as escadas do patamar da mesa dos noivos e seguiu o arcebispo e mais seus dois padres em direção ao corredor. Enquanto ia, os olhares voltavam-se para ela e também para Orlando, que se pegou já ao lado de Serafina, como um esposo de verdade. Sorriu. As pessoas pararam de dançar e a música cessou. Então todos começaram a bater palmas e a incentivá-los a irem até a consumação, desejando fertilidade ao casamento, amor para ambos, muita felicidade e as bênçãos de Deus.

— Está com medo? – perguntou no ouvido de Serafina, enquanto caminhavam até o quarto, com o trio religioso a frente. Ela balançou a cabeça em afirmativo e isso o deixou mais tranquilo, pois não seria o único. Então o medo tomou-o novamente – Você não quer? Digo, tem medo de que seja como...

— Não, sei que não será. – ela garantiu, olhando-o firmemente. – Não será como se eu fosse violada a força. – e com isso, beijou-o delicadamente. Orlando sentiu os braços envolvendo-a, e antes que chegassem a frente da porta do quarto, estavam andando nos braços um do outro. Um dos padres ousou olhar para trás e logo desviou o olhar, constrangido. Mas Orlando não se importou. Era sua esposa, sua mulher. Ninguém lhe diria como demonstrar seu afeto com ela, faria o que queria, pois era homem, e por isso era ele quem ditava as regras de seu relacionamento. E isso o entristeceu, pois realmente não queria machucar ou magoar Serafina.

Os padres abriram a porta e o arcebispo entrou, já fazendo o sinal eclesiástico, abençoando o lugar em latim. Orlando e Serafina entraram no quarto ricamente decorado com veludo e musseline coloridos, o dossel que enfeitava a cama era de um vermelho vinho tão escuro que era impossível ver o que havia por trás. As almofadas enfeitavam o tapete em frente à lareira, com velas e pratos de chocolate e morangos. Orlando não pôde esconder seu espanto ao erguer as sobrancelhas grossas e escuras. Aquele lugar era... erótico demais. Quem o havia organizado? Serafina puxou o tecido do dossel e sentou-se na cama, sentindo que deveria fazer o mesmo, sentou-se do outro lado e segurou suas mãos. O arcebispo fez novamente o sinal eclesiástico do Senhor Jesus Cristo e recitou uma benção em latim, em seguida os padres o imitaram.

— Uma boa noite ao casal. – disse e virou suas vestes em direção a porta, com os padres logo atrás. A porta fechou-se com um estrondo e Orlando estremeceu ao notar que estava sozinho sobre uma cama segurando as mãos da mulher que amava e queria. E não sabia o que fazer. Bem, saber, ele sabia. Já tivera muita experiência na França. Céus, envergonhava-se deste passado, agora que sabia o que acontecera com Serafina. Como podia ele ter perdido sua castidade com tanta alegria, e ela com tanto sofrimento?

— Você quer que eu tire meu vestido? – ela perguntou, a voz hesitante, porém os olhos fixos em Orlando, incentivando-o a responder. Mas ele permaneceu inerte, tentando decidir como abordar uma mulher que já fora violada. Como fazer sem que ela se lembrasse do ocorrido? Como conseguir ser gentil e provar que ele não queria o próprio prazer, mas o prazer dela? – Orlando...? – ela encarou-o com mais intensidade. E como ele não respondeu, irritou-se. Segurou as mangas de sua camisa, chacoalhando-o. – Orlando!

Por que pensar demais? Caiu em si como se caísse no oceano, envolveu-lhe o rosto e a puxou sem rodeios, deitando-se enquanto a beijava, satisfeito por ficar por baixo e receber os carinhos das mãos de Serafina em seus cabelos e braços. Ela retribuiu o beijo, dando-lhe até mais do que havia proporcionado. Então, silenciosamente, desabotoou-lhe o corpete e puxou as mangas até jogá-las no chão. Seus seios eram adoráveis, com certeza amamentariam filhos fortes e meninas lindas. Queria ter o bebê nos braços agora mesmo, e então notou que antes tinha de fazer algo para tê-lo. Acariciou-a lentamente, até que Serafina estivesse mordendo os lábios, vermelha e com os olhos fechados. Beijou-a mais, antes de enfim mudar de posição.

— Finn... – murmurou sobre seu ouvido.

Orlando queria lhe dizer milhares de coisas, mas nada parecia suficiente para exprimir agora. Serafina, Serafina, esse nome nunca soara tão bonito antes, nem tão adorável, ou tão doce, ou tão irresistível... Orlando namorara muitas condessas, muitas filhas de cavaleiros de seu pai, mas nenhuma o fazia cantarolar seu nome enquanto sugava o cheiro de seus cabelos, esmagando-a debaixo de seu peso.

— Está me machucando, Orlando – ela reclamou, segurando seu quadril, na cinta dos calções. – Você é pesado.

— Sou grande – retrucou, ainda enrolando em acariciar o rosto dela com o nariz.

— Grande e insensível, me deixe respirar.

— Não – resmungou, afundando-se em seus seios. Ouviu-a bufar, enquanto se jogava novamente nos travesseiros. – Não mesmo.

Permaneceu venerando mais um pouco aquela mulher que era sua esposa. Então notou que sua cintura estava amarrada por um corselete e a saia do vestido ainda estava ali, bem debaixo dele. O que demoraria mais, tirar sua própria roupa ou a dela? Optou pelo mais rápido, arrancou a camisa e rasgou os lados de algodão que a amarravam, jogou os calções no chão e permaneceu apenas com a camisola debaixo. Ela estava um tanto ruborizada, embora ainda não o visse, e ela achou engraçado, afinal Serafina provavelmente já namorara alguns outros homens, com a beleza que tinha, com certeza ninguém a deixaria passar sem ao menos uma beliscada.

Por fim, pôs-se a desfazer os nós do corselete, às suas costas. A tarefa se mostrou irritante.

— A sua criada sabia que íamos para a noite de núpcias? Essa coisa é impossível. – resmungou, e ouviu-a rir. – O que foi?

— É só rasgar. – disse, segurando a risada. Orlando piscou, confuso.

— Rasgar?

Serafina colocou as mãos dos cois lados da peça de couro e de repente ele viu ligamentos entre uma e outra tira de couro mole, tecido. Com um movimento, ela rasgou um dos lados do corselete e jogou-o também no chão. Orlando achou aquilo a coisa mais frustrante até o momento.

— Vai me dizer que a saia se rasga também?

— Não, é um presente de Elizabeth. – ela retrucou, com uma careta rabugenta e despiu-se delicadamente, dobrando a peça e a colocando sobre uma cadeira. – Está pronto.

— Muito bem. – Orlando concordou, ignorando a vergonha que de repente o abatera. – Temos de começar, não?

Serafina riu.

— Continuar, Orlando, continuar...

Notas finais
Espero que tenham gostado, beijos da Meell.