The Bastard Heir
47 Capítulo 39 - Chegada ao novo paìs
Notas iniciais
Capítulo 39.
Chegada ao novo país.
Planting the Fields – Marc Streitenfeld
Há quatro coisas que não voltam atrás:
A palavra dita,
A seta lançada,
A oportunidade desperdiçada.
O passado.
Ditado antigo, c. 750 d. C.
O pajem guiava o corcel marrom da princesa pelo cabresto devagar, enquanto a jovem observava as estonteantes paisagens naturais daquela região com certo estado emocional de ansiedade e medo, a cada passo ela estava mais perto de seu verdadeiro destino. Nortolf. Capital de Hessen. Foram duas semanas cansativas de viagem, primeiramente as três naus lusitanas saíram de Lisboa e uma semana depois desembarcaram em Nápoles — o reino italiano conquistado por seu avô materno Fernando de Aragão — Teresa aproveitou para passar a noite na residência de uma duquesa, amiga de sua avó, pois no outro dia ela viajaria pelos mares novamente até o sul de Hessen – única parte do reino aonde o mar chega— e a partir daí uma escolta real estaria lhe levando para a capital.
A rainha Maria realmente dedicou-se para que a sobrinha tivesse um séquito digno de sua posição na hierarquia. Eram exatamente cento e cinquenta guardas, entre eles quarenta e cinco arqueiros, tudo para proteger a preciosa joia. Sessenta damas, burguesas e nobres, estavam lhe acompanhando, estavam presentes alguns clérigos, escravos que carregavam as varias bagagens da princesa e por fim, soldados que seguravam os estandartes do brasão real português, sua cor era prata com cinco escudetes azuis em cruz, cada um carregado com cinco besantes de prata em aspa; e bordura vermelha carregada com sete castelos de ouro.
Teresa em poucos dias seria rainha, a senhora daquelas terras, seria esposa do soberano, madrasta de duas princesas, teria de tomar conta de um castelo, da corte, haveria plebeus para zelar e se mais bênçãos caíssem sobre ela, seria uma futura mãe, seus dezenove anos a ajudariam muito.
Ainda era difícil acreditar que tinha chegado em segurança e que se casaria com rei de Hessen, senhor de todas aquelas terras. Como ele seria? Todos dizem que é um homem bonito e charmoso, gosta muito de equitação e falcoaria, além de ser muito simpático. Mas não é raro que outras pessoas “endeusem” seus senhores para as damas ficarem mais eufóricas em contrariem matrimônio. Entretanto essa união era abençoada por Sua Santidade, um homem conectado diretamente com o Senhor, portanto Teresa não tinha nada a temer. Seria uma rainha! Ela tinha conhecimento sobre a baronesa Laurent, Isabeau, qualquer prometida deveria saber sobre a vida pessoal de seus futuros consortes, todavia a portuguesa fora esperta. Instituiu em sua clausula contratual, que o rei deveria banir aquela mulher da corte. Assim ela esperava que o fizesse.
— Mein Mann, mein König... — Teresa murmurou em alemão para si mesma, com os olhos fechados.
— Como se sente minha senhora? — perguntou Alice, a jovem escrava moura, que caminhava ao lado do cavalo da infanta.
Alice, além do árabe, sabia falar um português fluente, porém nada conhecia da língua alemã e já sentia as dificuldades que enfrentaria em Hessen por isso. Ela nasceu no muçulmano Reino de Granada, no sul da Península Ibérica, em uma família de origens marroquinas, porém quando aquele pequeno pedaço de terra fora conquistado pelos castelhanos espanhóis, sua família foi obrigada a converter-se para o cristianismo e adotar nomes diferentes, contudo por praticarem ainda a fé islâmica escondidos, fugiram para Portugal. E mesmo assim eles foram descobertos. Para salvar a todos da fogueira, o patriarca da família ofereceu a filha mais nova, formosa e saudável, como uma serva para a corte. Isso foi há três anos, quando ela tinha quatorze anos, e hoje Alice continua servindo a princesa, e agradeceu aos Céus por não ser uma tirana.
— Tento ficar calma, mas a ansiedade passa a tomar conta do meu coração aos poucos.
— Pense que logo estará em um castelo quentinho — ela disse olhando para frente, sem jamais olhar no rosto da nobre e muito menos tocá-la. — E tenho certeza que todos irão amá-la.
— Como podeis ter certeza?
— Que futura rainha permitiria que eu, simples serva de Sua Alteza, pudesse falar e ficar perto de tão digna dama?
Teresa sorriu em agradecimento, mesmo que as etiquetas não permitissem que Alice olhasse diretamente no seu rosto quando em público. Agora que havia parado para pensar que estava em novas terras, Teresa percebeu que em breve deveria acostumar-se a língua alemã, os costumes de Hessen, as tradições... Nossa muita coisa deveria aprender! Mas as palavras de seu querido pai sempre viriam a sua mente antes de tudo, sempre que ela pensasse em desistir deveria lembrar delas. Jamais esqueça de onde veio, de onde nasceu... Suas raízes.
Inspirou fundo, endireitou-se na sela, satisfeita por recordar-se de que é uma princesa. A sua disposição melhorou muito e Teresa passou a observar os pássaros voando no céu bem azulado e limpo a perder de vista sobre os majestosos vales verdejantes, as cadeias de montanhas bem longínquas, e um fio de água prateada que parecia cortar a região por inteira. Algum tempo depois, a guarda passou perto de um grande campo dourado de trigos, o que deixou a moça simplesmente encantada. Havia uma aldeia encravada ao vale, há metros de distância, Teresa queria passar por lá e conhecer melhor o lugarejo, mas para manter a calma do percurso e evitar que todos fossem para perto da futura rainha, seguiram pelo outro caminho.
Pararam todos. Eles depararam-se com muitas pessoas, talvez mais de duzentos. Não apenas cavaleiros guerreiros estavam presentes, mas homens nobres, algumas senhoras e membros da igreja. Inicialmente Teresa ficou assustada, mas ficou aliviada em ver que eram soldados de Hessen, pois diversos homens carregavam o estandarte real. Uma bandeira vermelha, com uma águia amarela no centro e três estrelas em cada ponta simbolizando a trindade cristã.
Duas lindas éguas brancas, devidamente ornamentadas, estavam um pouco mais a frente, indicando que as donzelas de feições delicadas montadas eram de longe as mais importantes naquele séquito de Hessen. Um homem baixo e corpulento, que aparentava seus quarenta anos, ruivo e com olhos castanhos claros, trajado a uma túnica negra de estampas douradas e uma boina preta, aproximou-se e usou de sua voz firme.
— Seja muito bem vinda ao Reino de Hessen, Princesa Teresa de Avis — o homem disse em seu melhor português e meneou a cabeça por alguns segundos, em seguida fez um gesto com a mão para que dois homens carregassem uma pequenina escada de madeira para a princesa descer do cavalo.
Teresa segurou a mão de um dos criados e desceu do cavalo, tomando cuidado com seu vestido branco e o manto rosa. Chegou mais perto do cavalheiro que lhe saudou.
— Quem és senhor? E não vos preocupeis, fale em alemão, pois preciso acostumar-me a ouvi-lo todos os dias a partir de agora.
— Chamo-me Anton Dirk, Duque de Reikstolen e Primeiro Ministro de Hessen, ao seu dispor — respondeu gentilmente, meneando a cabeça novamente.
Teresa olhou curiosamente por trás do primeiro ministro e viu que os mesmos criados que a ajudaram a descer do cavalo, faziam o mesmo com as duas damas em cima das éguas claras, a que parecia ser a mais velha mostrou que não havia gostado muito e desceu da égua antes que o homem a ajudasse. Elas vieram para próximo e Anton as apresentou solenemente.
— Essas lindas meninas, são vossas enteadas, minha senhora, as irmãs Von Kopper. Suas Altezas, Josephine e Marthe, princesas de Hessen, filhas de meu senhor.
— Majestade — Josephine e Marthe disseram em uníssono, segurando a barra de seus vestidos, verde e azul respectivamente, e curvando-se. Elas usavam chapéus de penas que combinavam com as cores de suas vestes.
— Soyez les bienvenus — apresentou-se a princesa Marthe erguendo-se.
Os olhos verdes que todo Von Kopper legitimo possui, são lindos.
Pensou Teresa observando a beleza das duas princesas. A mais velha tinha cabelos castanhos ondulados, a mais nova já possuía cabelos loiros encaracolados, mas elas compartilhavam os intensos olhos verdes claros.
— Não a necessidade de falar francês comigo pequenina Marthe, apesar de conhecer tal idioma, prefiro que fales comigo em sua língua natural.
— Neste caso então, seja bem vinda e não sou tão pequena Majestade, tenho treze anos — respondeu alegremente, arrancando um sorriso de Teresa, pois se se lembrou muito de sua irmãzinha mais nova, Isabel.
— Majestade, em nome de meu pai e senhor, o Rei Maximiliano, eu a princesa herdeira de Hessen, venho recebê-la com todas as honrarias e dignarias possíveis. Como vês, estávamos aqui apenas a vossa espera — ela sorriu por não ter errado sua fala.
— Pensei que nos conheceríamos apenas em Nortolf, princesa Josephine.
— Era o rei que viria — deu com os ombros — Mas alguns assuntos de estado o impediram de estar aqui e meu pai me deu está missão, em Nortolf tudo está sendo preparado para vossa chegada. Tivemos a sorte de chegar a tempo para vos receber. Amanha estaremos chegando na capital. Estamos no condado de St. Marien, este lugar faz fronteira com o ducado de Henstaufen de Overath, por isso viemos preparadas para qualquer eventual ataque. E creio que como princesa herdeira, devo começar a assumir papeis diplomáticos como este.
— Agradeço muito princesa Josephine.
— É a futura rainha, e com certeza a mulher mais protegida deste país inteiro. Primeiro ministro, prossiga — Josephine ordenou.
— Senhores, que falta de educação é está? Mais respeito. Soem as cornetas, pois estão diante da Rainha.
Aquela cena arrepiou a nobre por inteiro, quando os arautos tocaram as cornetas, todos os membros do séquito de Hessen, incluindo as princesas e o primeiro ministro, bradaram “Viva a Rainha”.
— Es Lebe Die Königin — todos pronunciaram três vezes em alemão, antes de ajoelharem-se perante a princesa, que observava com imensa felicidade e orgulho de si própria.

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