The Bastard Heir

38 Capítulo 32 - Pão & Circo


Notas iniciais
Boa leitura, meus amores!

Capítulo 32

Pão & Circo

Correu os olhos pelo corredor, aguardando ansiosamente a troca dos guardas. Mais que discrição, era preciso sempre manter a segurança, se você tramava contra a vida do herdeiro do trono. Cora deslizou pelas paredes, sentindo o tecido grosso de seu vestido raspando os telões de gravuras em pedra e mármore. Rostos que ela nunca vira compunham a Torre de Setas, onde Otto morava no Castelo Grande. Eram rostos familiares, entretanto. Após anos de convívio, Cora aprendera a reconhecer os traços da Família Von Strauber, seu nariz grande, e seus olhos pequenos. Os guardas de Torre de Setas a conheciam muito bem, porém nunca sabiam quando a senhorita viria visitar o Comandante. Desde a partida dele, não tiveram uma sequer notícia de seu paradeiro, e, embora não quisesse admitir, Cora sentia-se preocupada sobre Otto. Claro que ele não era ninguém tão importante, entretanto... Revirou os olhos e partiu em passos firmes, ao final das escadas.

Os guardas a olharam com o canto dos olhos, sem serem desrespeitosos ou grosseiros, pareciam até mesmo aliviados de vê-la. Balançou a cabeça para eles, cumprimentando-os, seus mais fieis homens, a serviço de Otto, é claro. Bateu levemente na porta, duas vezes, pois se houvesse uma terceira significaria que estava desesperada, e ela definitivamente não estava desesperada. Nem mesmo um pouco ansiosa.

– Quem? – ouviu a voz de dentro do quarto. Otto sabia que era ela, seus guardas jamais deixariam outra pessoa se aproximar tanto sem ser anunciada, ele tinha olhos por todo Castelo Grande, desde as cozinhas até os estábulos, passagens secretas, das quais apenas ele e seus criados tinham domínio. Ah, a criadagem... Os únicos a quem Otto depositava mais fé que a ela.

– Sou eu, querido. – murmurou, baixo o suficiente para que os ratos ouvissem e logo esquecessem, mais baixo ainda para não alcançar os ouvidos de uma criança. Otto pediu para que entrasse, e assim o fez, acenando uma última vez aos guardas. O lado de dentro do quarto era ainda mais estranho, que os rostos de pedra. Haviam diversos rostos pelas paredes, todos diferentes e com expressões diferentes. A cama de Otto era coberta por um dossel carmesim e ele desfrutava de bolo e mel enquanto lia um livro. Cora segurou uma risada fraca. – “Sonetos e Outras Crônicas de Amor”?

O título estava escrito em português.

– Um presente de Portugal, a princesa me assegurou que o poeta é um talento raro. Até o momento, me parece razoável.

– Mas onde aprendeu português?

Ele ergueu uma sobrancelha e Cora sentiu-se tentada a sentar na cama e lhe jogar um olhar desafiador. Por outro lado, deu de ombros e suspirou.

– Me mandaram escolher português ou grego. O português me parecia muito mais simples.

Otto abriu um sorriso de leve, o que dizia que ele preferiria tê-la visto sentar sobre a cama e lançar um olhar desafiador. Cora sabia exatamente como lidar com ele, principalmente agora. Jennel, sua esposa, era uma mulher capaz de fazê-lo feliz, ela apenas não se esforçou o suficiente. Por outro lado, aquele era o primeiro relacionamento de Otto com uma garota mais jovem, ele normalmente preferia as mais velhas. Mas parece que sua idade não exige as mais experientes, e sim as mais energéticas. Não o culpava. Também sabia que há muito tempo Otto não a via como um interesse, mas sim como um objeto, e ela deixaria deste jeito até conseguir algo melhor que ele. Para se jogar um jogo de homens, é preciso saber pensar como um. É bom que eles não saibam pensar como uma mulher.

– E os preparativos? – ele perguntou, deixando de lado o livro.

– Os navios chegarão daqui duas ou três semanas, informou o capitão quando aportou na Grécia – ela contou, Otto gostava de estar a par dos assuntos da Corte. – E os reis da Inglaterra partiram há seis dias. Os franceses desejam ir quando firmarem o acordo de casamento com a princesa da Dinamarca. – ele não parecia surpreso – E o príncipe de Aragão permanece conosco, ele parece obstinado em sua busca por Hannelore.

– Um rapaz tolo. – Otto revirou os olhos e esperou por mais. – É só isso? Um mês e é isso que eu ganho... A Corte deve ter sido um tédio.

– Na verdade, para mim não. Wanda desapareceu e deixou Hartwig muito desesperado, ele até mesmo ponderava em chamá-lo para ajudar nas buscas, todavia ao que parece um dos selecionados de Hannelore a encontrou e a trouxe de volta. Ela fora raptada por hereges, durante o baile. E Hannelore viajou até uma catedral, se não me engano, ou seria um mosteiro? Não me lembro. Tudo indica que ela chegue em menos de doze horas, as chuvas impediram a viagem de volta.

– E você ficou se sentindo solitária? – Otto sorriu, malicioso.

– Não muito. Durante o baile encontrei algum entretenimento. – e então ela sorriu. Otto parecia surpreso, porém não bravo.

– E ele era tão bom quanto eu?

– Ah, um garoto, apenas, mas pode ser que tenha sido. Não me lembro, apenas acordei ao seu lado. – e então ela riu de leve – Você não imaginaria quem.

– Posso saber?

– Claro. Dunkel, seu Chefe de Exército – sentou-se agora sim na cama, observando a expressão neutra, até mesmo calma, de Otto. – Um inexperiente.

– Graças a Virgem aquele garoto não é um incestuoso ou coisa do tipo, até mesmo pensei se ele tinha algum interesse pelo sexo igual, afinal nunca demonstrou nada por qualquer moça... – e então abriu um sorriso – E você o ensinou bem? Eu espero.

– Não sei – Cora sentiu uma pontada de raiva. Como ele podia estar tão bem com aquilo? Eram mais de cinco anos juntos e ele ainda a tratava como uma prostituta qualquer.

Mas não era isso que ela era?

Se preocupar com isso apenas a aborreceria, era melhor aproveitar o pão de cada dia, enquanto ainda o tínhamos.

º º º

Desde quando deixava essas coisas acontecerem em seu castelo, debaixo de seu nariz? Virou-se no corredor e olhou em direção a um guarda, ele parecia ansioso ou nervoso, não saberia dizer. Se aproximou bem dele e o encarou.

– Onde está Gênova? – sua voz saiu mais grave que de costume. Menos doce.

– No Salão, Vossa Graça. – o homem respondeu imediatamente, com uma leve reverência. Willian o abandonou, não precisava manter mais que alguns segundos de conversação se já tinha sua resposta. Desceu as escadas, praticamente pulando os degraus, até encontrar a prima diante das grandes portas do castelo. A raiva, ou melhor, a fúria rugia em seu ouvido, embora tentasse se controlar bem. Duas vezes falhara, não seria aquela a terceira vez. Não! Definitivamente não. Agarrou-lhe o ombro com tanta força que a região ficou branca e em seguida vermelha. Gênova saltou para o lado e se arrepiou por completo, olhando-o assustada.

Onde está Hannelore?

As portas se abriram de imediato, e passos ecoaram pelo piso de mármore. Gênova o ignorou completamente, virando-se para as portas e correndo até duas figuras encapuzadas. O capuz caiu e revelou cabelos dourados e um rosto familiar. Elas se abraçaram, enquanto o rapaz apenas retirava a capa e a entregava a um criado que os ajudava. Os olhos dele se voltaram para o rei e em seguida para Gênova, e então ele abaixou a cabeça e pareceu um tanto incomodado com a situação. Willian olhou para sua filha muito bem. Dois braços, dois olhos, parecia feliz. Estava tudo bem. Respirou fundo, arrumou a barba e as ombreiras e se aproximou com passos leves, Gênova soltava sua sobrinha e em seguida a enchia de beijos. Quando terminaram toda a demonstração de afeto, ele pôde olhar diretamente para seu rosto e sentir o alívio invadi-lo um pouco mais. Todavia Hannelore parecia indiferente.

– Perdão, precisamos dormir na estrada por causa da tempestade – disse, distante.

– Tudo bem – murmurou, um pouco fraco com aquilo. Em menos de dez minutos soube de tudo e quando soube, se lembrou de seus filhos, seu príncipe herdeiro e sua pequena Gretel. Não queria segurar a mortalha de mais um. Também não queria continuar tão longe dela. – Sim, sim, tudo bem. É a chuva, afinal. – riu consigo mesmo, tão de leve que foi quase inaudível, porém revelou surpresa para ambas as mulheres. Em especial, Gênova. – O importante é estar aqui, ahm? É, é o que importa. – apertou as próprias mãos, sentindo-as suar frio.

Não tinha como. Jamais seriam pai e filha, ela deveria odiá-lo.

– Eu senti medo, pai. – e de repente viu-se diante de Cristina. Seu olhos se encheram de lágrimas, enquanto a envolvia com rapidez, tentando passar toda a segurança e conforto que ele deveria ter, mas que perdera há muito tempo. Hannelore, pequena, se acomodou suavemente debaixo de seu queixo, tão miúda que poderia ser uma boneca, e ele poderia quebrá-la, por isso não apertou tanto.

Eu também senti. – admitiu, mas apenas para ela, bem baixinho. Soltaram-se quase de imediato, enquanto toda a euforia passava e Gênova preenchia o ambiente com soluços de emoção. Hannelore sorriu, como Cristina sorriria, e tocou sua tia no ombro, empurrando-a em direção às escadas. O rapaz que outrora estivera ali, havia se ido há tempos, deixando o Rei sozinho. Willian passou as mãos pelo cabelo, arrumou o suspensório, e se encaminhou em direção à Sala do Rei.

Há meses deixara os cuidados de tudo nas mãos de Hartwig, desde a morte de Konrad, para ser mais exato. E não se arrependia disto. Mas um rei tinha de cuidar de seu reino, não simplesmente mandar que outro o fizesse. Entrou na sala decorada perfeitamente igual ao dia em que recebeu a notícia de que seu primogênito estava muito doente, e que provavelmente não suportaria mais uma noite. Os papeis sobre a mesa pareciam empilhados da forma como ele costumava deixar: Espanha, Portugal, Itália, Grécia, Dinamarca e... Aquilo seria Alemanha? Observou os papeis apenas por cima e achou a organização muito boa. Costumava revisar toda a pilha, deixando os assuntos sobre comércio por baixo e os de política de território em cima. Mas havia uma pilha especial, uma que deveriam tratar com cuidado redobrado. Hessen.

Olhou para aqueles papeis e para tudo o que eles já haviam assinado e quantas vidas haviam mudado. Respirou fundo, empurrou a cadeira e colocou todo seu peso sobre ela. Enfim. De volta à vida. Pegou o primeiro documento da primeira pilha, e tratou de ler com seus olhos afiados, acostumados com aquilo. Não deixou um detalhe sequer passar despercebido. Negócios com Portugal, sobre as navegações.

Não havia atividade em seu dia que o motivasse mais, que simplesmente sentar e resolver os problemas de seu reino.

º º º

Releu a carta pela décima vez, tentando desvendar exatamente o que aquelas palavras queriam dizer. Sentiu como se cada frase estivesse escrita em um terrível italiano, e realmente estava. Dominique nunca aprendeu italiano de verdade, o que sabia vinha das cartas que recebia uma vez por ano. Seu irmão mais velho a havia enviado há três meses, e só recebera agora. Ele estava em Florença, na Itália, reivindicando as terras de direito. Agora ele era Duque de Florença, e ela possuía mais um título em sua bagagem. Dominique sabia que quanto mais ostentasse em títulos e amizades, mais facilmente sua vida se tornaria feliz e assim os de Médici cresceriam como uma família forte. Junto da carta, Juliano enviara um grande baú feito de prata e ouro, com diversas roupas vindas da Itália para ela usar na corte de Overath.

Ouviu a porta do quarto se abrindo, mas ignorou completamente. Queria que ele viesse até ali e lhe chamasse, queria isso, pelos dias que ficou sozinha esperando na janela, olhando a neve branca e os cavalos negros. Pontos, todas as pessoas eram pontos naquele oceano infindável. As árvores desapareciam, não havia telhado ou céu, era tudo uma massa de brancura fria e então as pessoas e seus pontos. Um pingo de calor. Esmagando a neve debaixo de seus pés, assoprando a respiração em nuvens pelo ar. Gostava de desenhar na janela, desenhava gatos, sóis e até mesmo tentou desenhar um cão, mas ela nunca fora boa em desenho.

Acabou se frustrando e se angustiando ainda mais.

– Dominique! – Nikolaus disse, caminhando rapidamente para dentro da Biblioteca, enquanto ofegava. Seu rosto estava vermelho e a boina sobre os cabelos louros cheia de neve. Aquilo poderia tê-la feito rir, caso não estivesse querendo chorar. Ergueu os olhos para ele, e compreendeu no mesmo instante que algo não estava bem. – Aconteceu... algo?

Como resposta, esticou-lhe a carta, cujo papel estava amassado nas laterais por suas mãos hiperativas e manchas de chocolate também deixavam claro o que ela havia devorado algumas horas antes. Ao lado da menina, uma xícara de porcelana, um bule vazio e o cheiro de café no ar. A bebida extremamente cara e a preferida da nobreza parecia ser do agrado da italiana, e Nikolaus também gostava, embora só tivesse experimentado uma vez. Nikolaus lançou um olhar leve sobre a carta e rolou novamente os olhos para a menina. Ela estava esperando, por isso tratou de se pôr a par das palavras.

Dominique di Médici, Duquesa de Florença, Princesa das Bordas, Dama da Corte de Overath e irmã minha.

Venho por meio desta, de minha própria mão, parabenizá-la por seu aniversário de quinze anos. És já uma mulher, formada e formosa, como todos dizem, aqueles que voltam para a Itália. João disse que serias uma benção para nós, e acredito que sua vocação para a Igreja foi confirmada por essa profecia, pois realmente és um tesouro dos céus! Há cousas na vida de uma mulher que a fazem mulher e você deve esperar ansiosamente por estas, que a transformarão em uma poderosa rainha. Podes não ser rainha de terras, mas creio que conquistará o coração de vosso pretendente. Que, por acaso, devo mencionar.

Vossa visita a Lucrécia, nossa irmã, quando em Hungria, deu-te vista para o Duque Bonshov, senhor de terras e um comerciante amigo de nosso pai. Bonshov enviuvou recentemente de sua mulher, Madalena Bonshov [que descanse em paz], e suas viagens marítimas aportaram na Itália, e ele em pessoa veio até mim para pedir-te em casamento. Um homem muito honrado. Aliás, todos esses belíssimos vestidos foram presentes dele, comprados no centro de Veneza, uma verdadeira demonstração de seu encanto por vossa formosura, minha irmã.

– Ele quer te casar com um duque dos Países Baixos? – a pergunta fora mais uma exclamação descrente por parte do rapaz, entretanto Dominique fez apenas um gesto para que ele continuasse a leitura.

Tem sido de grande utilidade para nossa família na Corte de Overath, entretanto agora que tenho minhas filhas, poderei colocar sobre elas todo o peso que estava em ti. É hora de descansar, Dom, por isso sinta-se privilegiada por se casar com um homem tão rico e apessoado, além de poder voltar sempre para nós quando quiser. Terá seus filhos e será feliz. Informe a Princesa Hannelore de Overath que estou enviado uma de minhas filhas, Clarice, para substituí-la como dama na Corte. Boa ventura, irmã minha.

– E te tirará da Corte? – agora sim era uma pergunta, completamente desacreditada. Dominique assentiu solenemente, e Nikolaus desabou na cadeira ao lado. A biblioteca e seu silêncio era um ótimo lugar para lamentações, quando não se queria saber que o mundo ao redor existia. Ele enfim colocou a carta sobre a mesa e esticou-se até segurar as mãos de Dominique. – Você ficará bem?

– É claro. – ela assentiu, e então abriu um sorriso pequeno – Eu só... acho difícil me acostumar com um homem quarenta anos mais velho. Mas é assim, não? – ela então suspirou – Vou vir visitá-lo, e pedirei a Lory para te dar mais chances. Vocês conversaram na viagem, não? Diga que sim.

– Conversamos um pouco. – Nikolaus sabia que ela estava apenas mudando de assunto. – Me sentirei muito sozinho quando você for.

Ela então derramou sua primeira lágrima. E disse algo bem baixinho. Tão baixo que ele não compreendeu, e pelo modo como Dominique abaixou sua cabeça e começou a soluçar, descobriu que realmente não queria ouvir. Mesmo assim, pediu:

– Como?

Hoje.

– Não. – levantou-se, exasperado. – Não pode! – o sangue começou a ferver por suas veias. Que maldita carta era aquela? E como eles poderiam apressar tanto as coisas deste jeito? Clarice de Médici não havia chego à corte, seria um grande desrespeito para com Overath caso retirassem Dominique deste modo. E muito mais que isso, como eles iriam se despedir apropriadamente? Como iria aproveitar o resto de tempo com ela? – Não há como ser hoje.

– O Duque está em Castelo Alto, menos de dois quilômetros do Castelo de Overath. Chegará de noite, junto do irmão do rei, Otto. – ela mordeu o lábio, prendendo a respiração e fechando bem os olhos para conter-se. – Iremos pela manhã. Bonshov deseja retornar a seu lar e organizar o casório o mais rápido possível. O navio já está preparado, no porto, e todos os seus homens foram instruídos para não perderem tempo.

– É impossível. – continuou. – Uma loucura! Ele não pode simplesmente vir aqui e te tirar do castelo...!

– Sim, ele pode. Ele é o senhor meu noivo, e pela permissão de meu irmão, tem domínio sobre mim.

– Até que se casem, você é livre para escolher onde quer ficar. – Nikolaus a encarou, tão fixamente que poderia extrair dela todos os seus pensamentos, todos os gritos exasperados de “SIM”.

– Eu quero ir com ele.

º º º

Otto colocou seus pés dentro do Castelo de Overath, e respirou fundo aquele ar que lhe era tão confortável. O frio o abandonara assim que passou pelas grandes portas duplas. As escadas estavam com as mesmas cores, e as tapeçarias eram idênticas às de quando partira. Criados caminhavam para todos os lados e ele procurava por quem mais queria ver. Embora apenas nesse momento. Suas filhas o receberam com abraços, não tão sinceros. Mas ele não precisava dos braços dela. Cora entrou no castelo e não se preocupou com os olhares incriminatórios de sua filha mais velha, Edith. Ele gostava disso em Cora, esse jeito de provocar sem se importar.

– Bem vindo de volta, papai. – falou a caçula, com um sorriso besta nos lábios. Otto fingiu que lhe sorria também e voltou-se logo para quem interessava.

– Edith, vejo que passou muito bem em minha ausência.

– É claro – ela concordou com um meneio, friamente. Essa era sua menina. – E você também parece ter passado muito bem em sua ausência – e então lançou um logo olhar para Cora, que acenou de leve. Otto reprimiu uma risada sarcástica.

– Não tanto, querida, senti muitas saudades. E como fora o baile? Divertiram-se?

– Incrível, papai! – a caçula respondeu, e Otto sorriu novamente para ela, balançando a cabeça do jeito que ela fazia, tão idiota quanto.

– Foi bom. – Edith falou sem interesse especial. Mas não se podia realmente acreditar naquilo, ela herdou seu talento para camuflar emoções.

– Muito bem. E o Duque Anselm? Homem bom, este. – Otto esticou a coluna, fingindo desinteresse. – Ele me contou que planejava perdir-lhe em casamento no baile, será que o velho reuniu coragem para encantar minha princesa do gelo? – e entoa um sorriso gentil. Edith continuou tão neutra e maciça quanto uma pedra.

– Eu o rejeitei.

Otto parou por um segundo e quase deixou que a surpresa o tomasse, por outro lado apenas ergueu as sobrancelhas e soltou uma gargalhada sonora “Pestinha, não? Você quer brincar”. Ela era exatamente como Jennel, aquela menina teimosa e irresponsável achava que tinha algum poder. Era apenas uma mulher, mulheres serviam para casar e ter filhos. Elas não são ambiciosas, muito menos seletivas.

– Ele deve ter ficado muito triste. Estava planejando isto há meses.

– É uma pena para ele, mesmo. Mas há outras solteiras por ai e aposto que ele encontrou uma mais agradável no baile. Sozinho ele não ficou. – Edith encerrou o assunto e voltou os olhos para a irmã – Gênova não disse que gostaria de receber papai?

– É verdade! – a garota respondeu, como se houvesse esquecido o mundo dentro do bolso. – Vamos chamá-la! – e então agarrou o pulso de Edith e a puxou. A Primogênita teve a delicadeza de se virar e acenar uma despedida para o pai, antes de desaparecer escadas acima. Otto segurou a raiva até que estivesse apenas ele, seus guardas e sua prostituta.

– Esta garota... Ela merece uma lição. – disse.

– Ah, ela merece um castigo. – concordou Cora, rindo. – Deixe-a sem algo que goste.

– Irei providenciar. – Respirou fundo e abriu um sorriso – Vamos ver Gênova, então.

º º º

Não queria ter dito aquilo, realmente não queria. Sentia-se péssima, enquanto as criadas escovavam suas costas e lavavam seus cabelos, perfumando-a para conhecer seu futuro esposo. Ele chegaria aquela noite, e então a tomaria como esposa e eles partiriam para longe. Para muito longe. Assim como foi na Inglaterra, sentiu-se só, extremamente só, cercada apenas de servos e outros nobres que pouco lhe davam atenção. E quem era ela, realmente? Filha de um homem que enriqueceu pelo comércio e que comprava títulos até conseguir o de duque. E para quê? Ser morto e seus filhos expulsos e espalhados por toda a Europa. Agora estava ali. Vendida.

Dominique queria ter nascido homem. Por que as mulheres valiam menos? Ela nunca viu algo em que uma mulher não pudesse imitar, até mesmo com a espada, já vira uma que realmente sabia manejar. E também viu condessas extremamente inteligentes e servas com grande destreza que poderiam manusear arcos e flechas. Entretanto, estavam todas ali, presas a seus mundos de tecer e fiar, vestir e pentear. Para estarem perfeitas, para eles.

– Senhora, algum problema? – perguntou uma das criadas, da qual não se recordava o nome. Elas eram insignificantes demais. Tolas demais. Pobres demais. Talvez apenas o último fosse verdade. Dominique não sabia. – Pareces triste. Soube que irá conhecer o senhor vosso esposo, mui rico e prestigiado. Não deverias sorrir?

– Deixo que os barões sorriam por mim, quando na capela estiver de joelhos. Aqui, e agora, permito-me chorar. – disse, solenemente. Aquela criada a conhecia, todos no castelo a conheciam. E obviamente se surpreendeu quando o tom de voz de Dominique saiu sério e frio. Quem diria. A menininha está sendo madura. – Ao menos um dia na vida, pode ser um dia triste. Nos demais, apoiarei o senhor meu esposo e serei submissa.

A serva assentiu a cabeça loura e penteou as madeixas de Dominique em silêncio. Ela deveria saber mesmo a hora de parar de fazer perguntas. Só a irritava que outra pessoa se intrometesse em seus assuntos. Na verdade, Dominique estava se irritando com tudo e todos, desde que Nikolaus partira, de repente o mundo parecia se revoltar contra ela. E nem toda a alegria que juntava dentro de si era suficiente para todos aqueles acúmulos, A carta era apenas mais um. Havia Wanda, Hannelore, Gênova, Cora, Lothário, Hartwig... Eram tantos nomes. Tantas pessoas. Por que tantos? Na Inglaterra ao menos ela só precisava saber cinco nomes ou seis, era silencioso, era frio. E ela não precisava se importar com os problemas dos outros, apenas esperar quando decidiriam para onde ir, onde ficar.

– Vista-se, senhorita. – pediu a mesma criada, agora segurando o modelo de arame que Dominique usaria por baixo de seu vestido. Ele sustentaria toda a saia e o corpete, a deixaria tão magra e tão comprimida que qualquer um conseguiria passar o braço por sua cintura. Porém era pesado. Muito pesado. O vestido de tecido grosso e verde escuro da Itália pesava ainda mais. Seus ombros se curvaram assim que a criada deixou que caíssem sobre ela. As mangas eram apertadas demais nos braços, impedindo-os de se dobrar completamente, a saia se arrastava e às vezes enroscava no arame.

A mulher abriu a boca para dizer “linda”, porém a fechou imediatamente, lembrando-se que a senhora não queria ouvir mais que o necessário. Assim que terminou de escovar e secar os cabelos de Dominique, ela abandonou o quarto. A duquesa esperaria então, como uma princesa presa na torre, aguardando seu príncipe vir salvá-la. Mas no caso era o dragão quem iria buscá-la. A porta permaneceu fechada. Mesmo que implorasse, rogasse aos céus para que ela se abrisse, ainda assim, ficou fechada. Por horas, enquanto o Sol brilhava lá fora e a neve derretia lentamente, e então as nuvens voltavam a cobrir o Sol e a neve voltava a subir com uma tempestade. Dominique começou a morder os lábios, arrancar sua pele, sentindo as feridas que surgiam com a ponta da língua. Apertou fortemente o tecido do vestido, os pés já estavam mortos, mas não podia se sentar. O vestido a impedia. Apertado... Muito apertado... Lágrimas brotaram em seus olhos.

Muito sozinha. Sozinha demais. Virou-se para a janela, em busca de luz. E encontrou apenas o vidro embaçado e seus desenhos ressaltados, aqueles que ela fizera enquanto esperava ansiosamente por Nikolaus. Antes que os soluços viessem, porém, a porta finalmente se abriu, e a passos largos, Hannelore a envolveu em um abraço forte, tão forte que o corpete nem mesmo pareceu incomodar. Quando a soltou, a princesa sorria. Mas seu sorriso se desmanchou imediatamente.

– Dominique?

– Sim, Lore? – fungou, enxugando as lágrimas com a mão, usando muita força para dobrar seu braço o suficiente. Não na frente da princesa, não podia demonstrar essa fraqueza diante de Hannelore, que estava em meio a uma seleção para encontrar seu esposo. É. Encontrar o esposo. Ao invés de ser pescada, era ela quem pescaria. Sortuda.

– Por que... não me digas que não deseja se casar?

– Nunca. – concordou, balançando a cabeça – Nunca com ele. Jamais com alguém que não conheço, muito menos vi. Ele é anos mais velho, é viúvo, provavelmente nem terá mais filhos.

A princesa tocou sua bochecha. Ela era mais alta, e por isso teve de erguer o queixo de Dominique para que ela a visse olho a olho. Ambas nunca tiveram uma conversa mais profunda, não era preciso. Hannelore era uma garota de palavras fáceis, de assuntos diversos e banais. Dominique simplesmente seguia a onda, sem tocar muito em frases começadas por “eu”. Sabia que Hannelore a repreenderia por estar sendo tão infantil. Qual mulher esteve realmente feliz aos quinze anos, recebendo a notícia de que se casaria com um homem que nunca viu? Talvez as grandes rainhas, aquelas da qual o povo se recorda. Mas Dominique nunca serviu para um grande papel, isso sempre foi de Catarina. Ela apenas seguia.

– Eu sei. É horrível... – ela enxugou suas lágrimas, que ainda rolavam. – Mas se você se recusa a fazer isto, então é melhor deixar claro antes que comecem a arrumar a capela. – Hannelore segurou seus ombros com força. – Ou você jamais poderá voltar atrás.

– Lory...

– Vá, ande depressa! – ela a empurrou em direção a porta.

– Mas...

– Sem petulância. – a princesa apontou a saída – É uma ordem, senhorita de Médici. Não ouse desobedecer sua princesa.

Dominique piscou, atônita. O que é que estava fazendo? O que Hannelore queria que ela fizesse? Seu coração começou a palpitar mais intensamente, enquanto um rugido se formava em sua garganta. Sim. Sim!

– Como quiser, Vossa Majestade – curvou-se desajeitadamente, por causa do vestido e saiu correndo.

Quase não conseguiu passar pela porta, por causa da saia, mas continuou. Os sapatos faziam barulhos irritantes no piso, mas ela continuou. Pouco se importava com as boas maneiras ou com o sono de beleza daqueles gordos condes que nada faziam na corte além de paparicar o rei. Seguiu caminho, pois sabia que, caso retrocedesse, jamais voltaria à causa. Nenhum passo atrás. Nenhum. Seus irmãos a odiariam, a insultariam. Poderiam até mesmo retirá-la da família. E que retirassem! Eles nunca foram uma família, para começo de conversa, e jamais seriam. Ela nunca voltaria para a Itália, e nunca seria feliz se continuasse deixando que eles comandassem sua vida. Chega.

Não era apenas de Catarina que tinha de se livrar. Era de todos. Tinha de fugir de seu mundo.

– Eu não vou fazer isso! – gritou, abrindo a porta com tanta força que ela escapou de sua mão e bateu na parede, causando um barulho que ecoou pelo quarto. As cortinas estavam fechadas e as velas acesas, enquanto na cama, um rapaz apenas de calções lia um livro grosso e amarelado. Ele ergueu seus olhos azuis, espantado, principalmente por saber quem é que gritava. – Não vou, não vou, não vou!

– Você não vai?

Não. – toda a sua convicção foi depositada naquela simples palavra. E ela ecoou tanto quando a porta, fazendo com que todas as células do corpo de Nikolaus entendessem que ela realmente não ia aceitar o casamento com o homem nortista.

– Por quê?

– Pois não seria feliz caso o fizesse. Eu não quero me casar, quero viver antes de tudo, e quero sair deste mundo de nobreza e títulos. E de todos. Me isolar em alguma ilha, fugir dos meus irmãos. Traçar meu próprio futuro.

– É um bom plano. Deseja ir sozinha?

– Não, é óbvio que não. Eu não estaria aqui lhe contando tudo, caso esta fosse a intenção. Você irá comigo, e não me venha dizer que Hannelore é sua futura esposa, pois ela não é. E não será. Eu me encarregarei disto. – Dominique apontou o dedo para ele – E eu não me importo com o que o Papa dirá, mesmo que ela seja meu irmão.

– Algumas coisas devem ser ditas em silêncio, para que ouvidos maus não escutem. – Nikolaus levantou, e ela ignorou completamente o fato dele estar seminu. Na verdade ela tentou. – E você diz que a princesa Hannelore não será minha, embora tenha feito tudo o que pudesse para nos aproximar.

Dominique mordeu a língua, prendendo-a para não falar o que realmente queria falar. Mas Nikolaus não a perdoaria tão fácil por tudo o que o fizera passar.

– E disse que queria seguir para os Países Baixos com seu condezinho.

– Ele não é conde!

– Não me importa o título nobiliárquico que carrega! – ele gritou – Você disse muitas coisas, e muitas delas pareciam realmente verdade.

– Você não entende! Não era como se eu...

– Mas você disse. E ainda por cima disse para mim, alguém em quem confia. Ou ao menos eu acho que confia, pois eu não estou mais conseguindo te reconhecer.

– Espere, você não compreende...

– Claro. Quem compreenderia Dominique de Médici? Eu estou entendendo o seu jogo, Dominique, você quer correr para o lado que lhe for mais vantajoso, quer seguir aquilo que lhe trará mais benefícios. Então notou que seu condezinho não é tão vantajoso e agora o que será?

– Você está errado!

– É claro que estou errado! – ele estava vermelho, ofegante, parecia completamente enraivecido. Dominique também estava assim, com seu vestido apertado e a respiração quase extinta. Todavia uma pequena parte dentro de si dizia que Nikolaus estava enraivecido com ela, por ela. E aquilo a entristecia profundamente. – Você não me respondeu, Dominique de Médici, o que é que você quer?

Você! – As lágrimas recomeçaram, e todo o controle emocional que Hannelore trouxe fora por água abaixo. Realmente, realmente, ele era um idiota. Um completo idiota, um descarado, infiel, um cão muito, muito mau.

O silêncio que se instalou apenas deixou que suas lágrimas fluíssem mais. Enquanto soluçava e fungava, Nikolaus permaneceu imóvel em seu lugar ao lado da cama, esperando ela terminar. Se ele realmente gostasse dela, iria confortá-la e a incentivaria, como Hannelore. Mas ele não gostava dela. E Dominique não sabia por quê. Talvez algo que tenha falado, talvez realmente o fato de que ela havia aceitado o casamento no começo. Talvez, talvez, talvez. Todos aqueles talvez serviram apenas para reduzir seu choro a uma tristeza profunda, como um rasgo em seu peito, donde fluía apenas podridão. Até mesmo o perfume dos óleos que as criadas lhe passaram era notável no ambiente, enquanto sua putrefação arrebatava a tudo, tornando todo o inverno em inferno.

Um inferno frio como a lâmina da espada.

– Já terminou? Poupe seu teatro para quem importa.

Dominique sentiu como se algo dentro dela, dentro daquele abismo em seu peito, ruísse. Lentamente. E então com violência, como uma avalanche que viera de uma pequena bola de neve, rolando, rolando, encosta abaixo. E então seus soluços terminaram de vez. Não ergueria seus olhos, não queria vê-lo. Nunca mais, queria olhá-lo novamente. E ao mesmo tempo desejava tanto poder abraçar e falar normalmente com ele, como se tudo fosse apenas uma brincadeira de mau-gosto. E embora estivesse machucando-a realmente, não se importava. Só queria que fosse uma brincadeira. Poderia perdoá-lo. Poderia. Mas ele não parecia disposto a perdoá-la.

– Por favor... – sua última esperança, seria fugir. Sozinha, mesmo que no frio.

– Por Deus, cale a boca. Você me irrita.

Poderia viver o resto de sua vida se lamentando por aquilo, mas não se lamentaria por não olhar para frente. Ergueu seu rosto, a centímetros do de Nikolaus, olhando dentro de suas íris azuis. Foram semanas, semanas tão longas que nem mesmo o inverno de Overath seria capaz de apagar o calor dentro dela. Memórias. Homens são feitos de memórias, tecendo suas vidas, suas historias. Essas memórias eram suas. Essas memórias eram ela.

Você foi, mas não voltou. – sussurro. – Você diz que me odeia, mas não odeia. Mas eu vou, para longe. Mais longe que os Países Baixos ou a Inglaterra. E quando me perder...

– Já mandei calar a boca, sua...

Ele não terminou. Estava com seus olhos azuis vermelhos, intensamente. Ele não iria terminar, não tinha capacidade. Dominique desejava que ele se desse conta de tudo logo, enquanto toda a raiva esfriava, dando espaço apenas a tristeza dentro deles.

– O que você quer de mim? Eu sou boa em ser o que as pessoas querem. Talvez fique feliz.

Nikolaus trincou os dentes e cerrou os punhos, enquanto seu rosto se tornava vermelho novamente. Mas não raiva. Não havia ódio nele, apenas a tristeza. Fluindo através de seus olhos, em forma de gotas quentes. Seus ombros se uniram e ele fechou fortemente os olhos, como se isso o impedisse de chorar. Mas até mesmo os homens choram. E eles devem chorar, por aquilo que amam. Pois se um homem não chora, ele não é homem ou não ama. E não há como decidir qual dos dois é pior. Ele curvou a cabeça para frente, com o queixo no próprio peito. Dominique não iria apenas assisti-lo como ele fizera. Não podia ficar ali parada. Envolveu-o.

– Me solte – ele chiou entre seus cabelos.

– Não.

– Agora, me solte agora.

– Não vou, não. – brincou, sorrindo de leve.

– É patético, eu sou patético.

– Não... Não é. – ela sorriu mais, se permitindo abraçá-lo com mais força. – Talvez um pouco.

– Era verdade? – ele perguntou, com a voz abafada pelas madeixas de Dominique. Ela cheirava bem, era realmente notório. Nikolaus se controlou para não inspirar profundamente seu perfume. – Que você me quer?

O rosto de Dominique se tornou vermelho, mais que seus lábios, enquanto ela tentava encontrar toda aquela coragem de antes para dizer aquilo ou mesmo para ir contra seus irmãos e o Papa. O Papa! Não acreditava nas palavras que saíram de sua boca minutos atrás.

Como o silêncio o respondeu, Nikolaus abriu um sorriso pequeno.

– Então é melhor você não perder tempo. Pois a princesa é mesmo encantadora.

Dominique o soltou e olhou bem dentro de seus olhos, como que se inspecionasse-o.

– Não, você não a acha encantadora.

– A Lei diz...

– Sim, ela diz. E ela não existiria caso não fosse para ser derrubada.

– Seu irmão não gostará de ter um rei como inimigo.

– Que se dane o rei. E que se dane o meu irmão.

E, assim como futuramente escreveria Romeu e Julieta, eles concordaram que o que a lei dizia não era o que realmente sentiam ser certo. Então Romeu tomou Julieta em seus braços e sussurrou juras de amor, enquanto a donzela sorria para cada sussurro e suspirava para todos os versos. Então a beijou.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Não sou boa em romance, mas aqui está! E quero agradecer a leitora The Poisoned Apple pela recomendação que nos deu! Ficamos muito felizes, obrigada! Por favor comentem, incluindo as fantasmas! Os comentários estão ficando reduzidos e isso me deixa muito desmotivada ;-; Beijos da Meell Gomes