The Bastard Heir

13 Capítulo 11 - Aos Amigos a Vida, Aos Inimigos a Morte PARTE DOIS


Notas iniciais
Aqui é a Meel Gomes e desejo uma boa leitura a todos!

Capítulo 11

Aos Amigos a Vida, aos Inimigos a Morte

“Pelas alegrias da vida pagamos tão caro que não sei se seria melhor que fôssemos infelizes” – Marques Rebelo

Mas Hannelore ergueu a cabeça e sorriu, tão radiante que seria impossível não notá-la. Não seria reprimida por si mesma diante dos nobres, até mesmo Tia Genova e o Rei a observaram com o canto dos olhos, Hannelore sentia que exalava beleza e carisma, pontos que poderia culpar a sua mãe por ter, pois papai não parecia em nada com aquilo que encenava. Encontrou Edith pela multidão e acenou, levantando-se ligeiramente do trono. A dama fez uma mesura e apontou para sua irmã e a mãe, ambas sorriram e inclinaram a cabeça para a princesa. Senhora Von Strauber se aproximou das escadas do trono e se curvou.

– É bom conhecê-la, minha princesa. Desculpe não poder me ajoelhar, mas...

– Sim, eu sei, o bebê. – Hannelore sorriu. – Posso tocá-lo?

– Mas claro. – sua tia subiu as escadas e parou diante dela. Embora a barriga não fosse tão visível através do vestido, ao tocá-la, Hannelore sentiu o formato arredondado e jurou que o bebê chutou sua mão. Sentiu a alegria aumentar, conforme a mulher segurava sua mão e a forçava a tocar outros lugares. – Ele normalmente é furioso, gosta de me chutar até enquanto durmo. Aposto que será um garoto tão habilidoso com a espada quanto seu pai.

– Parabéns. – Hanne disse, soltando-a.

– Eu é quem devo dar os parabéns. Já tive três filhos, mas é sua primeira vez como princesa. – e ela riu. Hannelore notou o quanto sua tia, a esposa de Otto, era gentil e carismática. Tinha uma beleza angelical que faltava em Cora (a dama de companhia era sempre marcante e exótica, mas não exatamente angelical). Os cabelos dourados da mulher se enrolavam pelos ombros, caindo até os seios. Naquele momento, Hannelore não se lembrou do que seu tio fazia pelas costas dela, mas apenas em como Edith falara com empolgação sobre sua mãe. Ela estava certa. Era uma mulher boa. – Perdão, querida, me chamo Jenell, é um nome polonês. Sou filha do antigo Rei da Polônia.

– Oh, Vossa Alteza, perdoe-me. – Hannelore se levantou para curvar-se, mas a princesa da Polônia apenas sorriu e balançou a cabeça.

– No momento, sou apenas a Senhora de terras distantes e esposa do príncipe de Overath, segundo herdeiro. Você está acima de mim na hierarquia. Mas odeio este tipo de tratamento. Somos todos da família, não? Aposto que já conheceu Edith, minha filha, ela é um tanto geniosa, mas uma boa garota.

– Sim. Edith me ajudou muito quando cheguei ao castelo. Estas últimas semanas não poderiam ter sido tão animadas e organizadas sem ela.

Jenell Von Strauber sorriu e olhou por cima do ombro, para onde suas filhas estavam. Hannelore compreendeu e se despediu. Prometeram conversar durante o Torneio, e assim a esposa de Otto se juntou às filhas. Hannelore sentou-se novamente no trono, olhando ao redor. Esperou que mais alguém fosse conhecê-la, porém ninguém tinha o interesse. Novamente seus pensamentos se voltaram para Conrad, o meio-irmão. Ele conheceria ao menos metade daquelas pessoas.

– Fez muito bem, querida. – Tia Genova segurou sua mão e limpou a garganta, levantando-se em seguida. – Senhores! Por favor, Senhores! Nosso grande e bondoso rei tem um anúncio importante para fazer.

Ela voltou a se sentar, enquanto o salão silenciava. Hannelore notou o quão impressionante Genova podia ser, ela calou a todos e nem mesmo era a Rainha Oficial, apenas a prima de terceiro grau do Rei. Seu pai demorou-se um pouco antes de levantar. Ele estava como sempre, taciturno e monótono, como se quisesse correr dali, para algum local solitário. O rei limpou a garganta e disse, em alto e bom som, de um modo que todos ali poderiam ouvi-lo mesmo do lado de fora das portas fechadas. Era uma técnica que Genova tentava lhe ensinar, em vão. “Você tem de projetar sua voz, para ser ouvida em todos os Quatro Cantos do mundo”.

– Vassalos, Senhores, Duques, Condes e Barões. Meus senhores de exército e príncipes, reis e conselheiros reais. Anuncio agora a abertura do Torneio de Overath em homenagem a chegada de minha filha, a Princesa Hannelore de Overath, herdeira legítima. Como sabem, os cavalheiros de todos os lados de Overath estão aqui para conquistar a mão de Hannelore através de seu coração. Nada mais justo que o amor para decidir quem poderá governar o reino com harmonia junto de Hannelore. – ele demorou um pouco – Hannelore é uma menina doce e tímida, por favor, não a sufoquem. Sabemos que sua beleza vai além de qualquer senhora ou dama desta Corte, então, senhores, respeito. – alguns soltaram uma gargalhada. O Rei sorriu, satisfeito com o efeito. – E quero deixar claro a todos, por meio desta carta que diz: — o rei tirou um pergaminho de dentro do gibão e começou a lê-lo – que o Papa Leão, da Casa de Medici, absolve Hannelore Von Strauber de qualquer acusação contra seu sangue, tornando-a herdeira legítima de Willian Von Strauber, Rei de Overath, sendo assim, Princesa Hannelore de Overath, primeira de seu nome. A quem duvidar desta palavra, que a justiça de Deus caia sobre o mesmo, pois o Senhor não volta atrás em suas palavras e abençoa grandemente o reinado de Hannelore. Que assim seja, por toda a eternidade.

Todos aplaudiram ao rei e Hannelore notou como alguns se mostravam verdadeiramente felizes, como Jenell e Dominique, outros não pareciam aceitar tão bem, como o homem em quem Wanda não confiava (e quem Hannelore também não encarava com bons olhos, após o aviso da amiga). Conseguiu ver Eduardo no canto inferior do salão, junto de seus pais, rei e rainha de Aragão e Castela. Acenou para ele, que apenas meneou a cabeça, com os braços cruzados. Por algum motivo, a briga entre eles havia sido esquecida com facilidade e tanto Hanne quanto Eduardo se cumprimentavam pelos corredores e às vezes trocavam algumas palavras.

Mas não foi nele que sua atenção se prendeu, e sim em seus cavalheiros, a frente, todos vestidos com as roupas idênticas que Genova insistiu que ela escolhesse. Hannelore sempre achou charmoso o que todos chamavam de “suspensório”, embora achassem aquilo algo muito inglês. Genova dissera “Mas isto é tão feio, olhe como a calça fica sobre a barriga. Parece tão desconfortável”. Mas vê-los naqueles trajes, alguns com camisas de manga longa, outros com a mangas dobradas até os cotovelos, boinas, cartolas e os cabelos bem penteados, lhe dava um orgulho estranho, como se dissesse “Meus meninos”. Hannelore riu com este pensamento, e então voltou a escutar o que o Rei falava.

– ... sobre aquela colina, vencemos! E hoje é um dia de celebração, pois embora Hessen tenha tentado nos derrotar, a glória e a honra prevalecem o mal e Deus nos abençoa com presentes que não poderíamos sequer imaginar. Deus sabia que eu perderia meus dois filhos legítimos, e por isto me deu Hannelore, uma benção que não aceitei no começo, mas que hoje vejo como uma salvação para todos nós. À princesa. – ele ergueu o punho no ar, e todos os nobres homens repetiram o ato.

– À princesa – repetiram, suas vozes grossas ecoando pelo salão. Hannelore sentiu os pelos dos braços se arrepiando com a sensação que lhe era transmitida. O Rei voltou a se sentar e de repente os músicos tomaram a chance para iniciar um música animada. Aos poucos, todos se moviam, indo para fora do castelo ou conversando com alguém de seu nível. Genova permaneceu sentada e o rei também. Hannelore achou que deveria continuar ali, mas não queria perguntar, já não conhecia aquele estranho costume overathiano de erguer o punho no ar, e caso perguntasse o que deveria fazer, provavelmente Genova iria começar um sermão sobre a vida real e sobre a postura de um monarca, algo que Hannelore já estava cansada de ouvir (embora soubesse que a tia só queria ser simpática e atenciosa). Otto se juntou furtivamente a eles, com os braços atrás do corpo, olhando a multidão lentamente desaparecer.

– Belo discurso, Will.

Hannelore sentia-se mal por ainda não poder chamar seu pai de “Will”. Era sua filha e única herdeira, e ainda por cima uma bastarda, o que significava que Willian havia amado sua mãe verdadeiramente para quebrar sua honra e pecar. Engoliu em seco. Odiava pensar que era fruto de um pecado, preferia imaginar no amor que seus pais sentiam.

– Genova insistiu em treinar comigo meia hora antes. – o rei riu fraco, embora não houvesse de fato humor em suas palavras. Era como uma frase ensaiada que saía para manter todos afastados de seu verdadeiro estado emocional. Para Hannelore, isso era ainda mais triste.

– Espero que o Torneio não tenha incidentes, como no aniversário de Conrad. Pobre Senhor Luigi, era um bom vassalo. Cuidava da terra como ninguém. Desde que sua mulher assumiu, não consegue nos dar tantos lucros.

– O que houve com Senhor Luigi? – perguntou, de repente, notando que não estava interessada exatamente no senhor, mas sim no Torneio de Conrad, seu meio-irmão. O que Otto sabia que ela não sabia? Provavelmente muita coisa.

– Ah, uma lança no coração. Fim trágico, mas morreu com honra.

– Morreu? – Hannelore sentiu as costas eretas como se estivesse amarrada a um poste. – Mas as justas não são combates de verdade, só dura até caírem do cavalo.

– Mas às vezes uma espada muito afiada encontra uma garganta muito branca. – Otto deu de ombros – Acidentes acontecem.

– Isto é verdade. – Genova concordou – Porém Senhor Luigi estava entrando em vários desacertos com seus vassalos. Não me admiro que tenham se unido e contratado o cavaleiro para limpar o velho.

– Que horror. – foi a única coisa que ela conseguiu dizer.

O rei permanecia olhando a multidão, sem participar ou ouvir a conversa ao redor. Isto deixava Hannelore intimidada, como se fosse a sua presença que o mantivesse calado. Por fim, Otto se aproximou se sua esposa e junto das filhas, partiu para o local onde o Torneio aconteceria. Agora o salão estava quase vazio, com a exceção de guardas, servos e os três sentados no trono.

– Hannelore, se quiser, pode ir procurar suas companheiras. – Genova disse, gentilmente.

– Obrigada.

Ela se levantou, hesitante. Segurou o vestido enquanto descia as escadas e ousou olhar por cima do ombro, uma última vez para papai. E então desapareceu porta afora, observando a grande estrutura construída ao redor das justas, onde quem não estivesse participando poderia se sentar para assistir. Aconteceriam quase vinte justas aquele dia, e mais vinte no dia seguinte. Apenas no Domingo é que conheceriam o ganhador. Os prêmios iam de primeiro a sétimo lugar, com um lugar para a Guarda Real de Overath aos três primeiros, caso quisessem. Normalmente ninguém aceitava, pois a Guarda Real não possuía terras, riquezas ou família. Viviam e morriam para a família real.

Hannelore encontrou as escadas que levavam até os bancos mais altos, onde se sentaria com o pai, sua tia e Otto. Jenell acenou e se aproximou dela, suas filhas sorriram, e Edith apontou para alguns dos cavaleiros que treinavam a espada como entretenimento ao público. Observou como eles eram hábeis e rápidos. Hannelore jamais conseguiria segurar uma espada com tanta facilidade e ainda observar o adversário, aparar golpes e estocar com toda a força, parar alguma ação no ato e saltar para trás.

– Um dos nobres cavalheiros estará nas justas hoje. – informou Edith. Ela chamava os selecionados de “nobres cavalheiros”, o que ela achava mais respeitoso que meramente “selecionados”. Hannelore sentiu animação.

– Quem?

– Não sei o nome, mas dizem que sempre adorou lutar e que é um dos oficiais de Otto.

– Um soldado? – os olhos de Hannelore saltaram.

– Um capitão. Não sei exatamente o título, talvez seja líder de um dos batalhões, mas ele é famoso por ter ajudado Otto com a vitória sobre o Castelo da Fronteira. Castelo Von Zimmer, onde moro. Papai apostou nele.

– Eu não concordo em apostar. – Jenell disse, mas sorria, feliz. Ela era uma mulher difícil de se irritar.

Hannelore olhou para os homens na arena e avaliou-os. Alguns pareciam treinar todos os dias, eram altos e musculosos, com cabelos presos e espadas pesadas. Porém outros mais pareciam fazendeiros que guerreiros. Eram magros, queimados de sol e mal erguiam a ponta da espada. Os combates pareciam muito desiguais em sua opinião, mas não sabia exatamente como funcionava um Torneio, por isso apenas continuou rolando os olhos pelos moços, até encontrar um rosto familiar. Hannelore prestou muita atenção em seus garotos e jamais ignoraria um deles que tinha o mesmo porte físico que Otto e o Rei Willian. Imponente, bravo e honroso. Dunkel riscava o chão com sua espada de dois gumes extremamente afiada. Ele era bem mais alto que os escudeiros e seus olhos ostentavam o peso que apenas um homem que assistiu a outro morrer por ter.

Estava tão interessada no Torneio que não notou a figura arcada e branquíssima que surgiu ao seu lado. Era o sacerdote que Wanda havia marcado como inconfiável. O homem sorriu, com olhos amigáveis, e perguntou se poderia se sentar ao seu lado. Como não havia ninguém para ocupar o lugar, Hannelore permitiu.

– É um dia ruim para Torneio – disse o homem – As nuvens estão se formando e logo choverá. É horrível ver dois homens brigando na lama. – ele enxugou o suor das mãos em suas roupas longas e escuras. – Princesa, a senhorita está muito bela hoje, devo acrescentar.

– Obrigada, senhor, é muita gentileza.

– Ah, perdão, não me apresentei. Sou Lothario, nomeado por seu pai como o inquisidor, mas prefiro me ver como bispo. – e sorriu, gentil. Wanda parecia muito precipitada em dizer que o homem velho não era digno de confiança.

– Uma de minhas damas falou sobre o senhor.

– Ah, disse? – ele piscou os olhos, talvez sem jeito – Quem seria?

– Wanda, a moça morena. Tem sangue estrangeiro. – Hannelore notou como ele se remexeu na cadeira, inquieto, mas sorriu.

– Sim, sim, sei quem é. Sei muito bem quem é. Menina de temperamento difícil, além de ser fruto de uma relação fora do casamento. Mas creio que isto não é um problema para você, certo?

Hannelore sentiu a ponta do alfinete que era a língua de Lothario. O velho sorriu, tão gentil quanto poderia, e virou-se para o Torneio. Ninguém parecia ter ouvido o que ele dissera, o que deixou Hannelore ainda mais irritada. Porém ergueu o queixo e fingiu que não escutara a acusação camuflada. Uma princesa não deve se deixar abater por simples palavras, aquele homem não sabia o que dizia, ou era um dos testes de Genova, para ver se ela já havia aprendido a ser uma princesa.

Os músicos começaram a tocar seus instrumentos de metal, flautas e alaúdes acompanharam o canto, e no alto de um pedestal, o primeiro ministro surgiu, com um pergaminho em mãos. Ele pigarreou e disse, com voz alta e clara, de um jeito que até parecia fácil.

– Primeiro duelo do primeiro dia de Torneio em Overath. Sir Brandon e Sir Neath.

Dos lados opostos da arena, os homens entraram, com seus escudeiros e as armas. As lanças foram empunhadas e subiram nos cavalos. Visivelmente, Brandon era mais preparado que Neath, um jovem com no máximo dezessete anos e que tremia, debaixo dos cabelos ruivos. O som das trombetas rompeu o murmurinho das apostas e ambos colocaram os cavalos em suas posições. Quando a permissão foi dada, partiram um para cima do outro com suas lanças esticadas. O primeiro golpe passou como o vento, de um modo que os olhos de Hannelore não conseguiram acompanhar, até que notasse que tanto Brandon quanto Neath ainda estavam inteiros, entretanto ofegantes. Seria tão difícil assim duelar? Os cavalos voltaram a correr, e Brandon parou no centro, com sua lança erguida. Neath tentou acertá-lo nas costelas, onde o faria cair do cavalo, porém o cavaleiro foi mais rápido e cortou o ato com o cabo de sua lança, quebrando a arma de Neath e chutando seu cavalo, que relinchou e saiu trotando com força. Neath lutou para se segurar, agora desarmado. Seu escudeiro se aproximou e lhe entregou a segunda arma: a espada. Tão fina que Hannelore sentiu que Neath estava sendo enganado. Porém logo Lothario abriu um sorriso grande no rosto.

– Por que está sorrindo? – não conseguiu deixar de perguntar.

– Pois aquela é uma espada de estocada. Difícil, mas muito boa para combates corpo-a-corpo. O menino não está brincando. Ele quer a coroa de louros – e voltou a sorrir.

Hannelore queria que Neath ganhasse, pois seria como Davi e Golias, um servo e o leão. Brandon não desceu do cavalo e não trocou sua arma. Trotou em direção a Neath que se manteve parado. No último segundo, o garoto chutou o rosto do cavalo do inimigo, que cambaleou e caiu sobre as muralhas da arena, relinchando, esmagando Brandon. O homem ergueu-se, enraivecido, e gritou pelo escudeiro. Neath saltou do cavalo e se preparou para o duelo. A espada de Brandon era muito maior que a de Neath, com cabo longo, lâmina grossa e fio duplo. As pessoas gritavam, entusiasmadas. Brandon se jogou sobre o menino, que desviou facilmente da espada e saltou para o lado do adversário, enfiando-lhe a espada entre as costelas. A placa de peito retiniu, porém Brandon cambaleou para o lado. Ergue a espada e gritou de fúria, abaixando-a em um ato mortal, porém Neath era tão rápido quanto os cavalos em corrida e ele já não estava no lugar de antes, mas sim bem a frente de Brandon, acertando-o um dos olhos com o cabo da espada de estocada. Ele se abaixou quando Brandou tentou cortas sua cabeça com a espada nas duas mãos e passou a perna por debaixo dos pés de Brandon, fazendo o grande homem cair no chão como uma pedra. Em seguida jogou-se sobre o corpo de Brandon e estocou a espada em seu peito, sobre o coração. O sinal foi dado e Neath soltou o homem, levantou-se e ergueu a espada de estocada. A multidão foi ao delírio.

– Bom rapaz, muito bom rapaz. – elogiou Lothario – Apostarei nele no próximo duelo.

– Pensei que bispos não apostassem. – espetou o velho, porém ele devolveu com uma risada seca.

– Também sou um inquisidor, não se esqueça.

º º º

Tom Odell – I Know

Wanda estava sentada com as pernas cruzadas sobre uma das ameias das muralhas de Overath, de onde conseguia ver perfeitamente o duelo. Costumava ir para lá com Conrad quando queria assistir ao pôr-do-Sol. Fora ele quem a convencera a subir até ali. Ainda se lembrava daquilo.

Os cabelos ao vento, o vestido nos joelhos.

– Se você nunca tentar, nunca saberá se consegue.

– E se eu morrer, aí é que não saberei. – respondera, porém segurou sua mão e se deixou ser puxada pela força do príncipe. Ele deu um passo para o lado e apontou para o horizonte. A aldeia e as vilas de comércio logo abaixo.

– Pronto. Agora você pode voar. – e riu – Abra os braços. Eu estou te segurando. Wan, pela misericórdia do Senhor, você poderia ao menos confiar um pouco em mim?

– Já confiei muito. – ela se encolheu, sentindo o vento frio. – Estou com medo. Pare, Conrad! — gritou, quando ele oscilou para trás. – Pare com isto! Está louco? E se você cair? O que falarei a meu pai e ao rei? Que deixei o príncipe cair de uma muralha e quebrar alguns ossos, talvez a cabeça.

– Se cairmos desta altura, morremos. – Conrad respondeu, simples, porém ousado e risonho. Wanda não conseguia entender de onde vinha tanta audácia. Mas isso a atraía, e queria confiar mais nele, para sentir mais daquilo. Aos poucos, abriu os braços e sentiu os dedos de Conrad em suas costelas. – Eu vou segurar, prometo.

– É melhor mesmo. – respondeu, trêmula. Quando finalmente abriu-se por completo, sentiu o vento levar o vestido, os cabelos e principalmente seu ser para outro espaço, para um lugar nas alturas, onde voava. Riu. Gargalhou. – Isto é... É adorável!

– Eu sei – Conrad sorriu, orgulhoso por ter impressionado uma garota. – Mas se tio Otto nos vir, irá falar em como sou irresponsável por arriscar minha vida e a de uma bela donzela.

Wanda riu.

Lembrando-se disso, agora, tudo parecia mais bonito ali em cima. Tanto o Torneio, quanto o sol e o vento. O silêncio era pacífico e as pessoas, apenas pontos misturados. Gostava de observá-los. Eram vidas banais, vidas que não teriam um significado verdadeiro. Meras vidas no mundo, um fio do universo. Tudo era ilusão, todas as coisas eram apenas ilusões. As pessoas nasciam e morriam a todo tempo, e quando alguém morre, outro nasce e toma seu lugar na vida. Todas as coisas acontecerão novamente, e quando morrer, nada terá real importância. Nem um rei, nem um Papa, nem Conrad. Não tem importância nada disto. Pois é tudo vida e a vida sempre termina, e outra começa. Em um ciclo sem fim. Então olhava para aquelas pessoas lá embaixo e contemplava quão ridículas eram, aproveitando tudo de forma tão ridícula, rindo e falando de coisas ridículas. Vivendo uma vida ridícula. Pobres almas miseráveis. Não tinham sentido. Não tinham valor. Eram todas as mesmas vidas, eram todos do mesmo pó.

º º º

Havia apenas uma coisa que odiava mais que Torneios: chuva em um Torneio. Assim que começou a chover, todos tiveram de correr para dentro do castelo, onde se abrigaram do frio. Os servos serviram imediatamente as mesas de jantar, embora ainda fosse cedo. Muitos duques e barões conversavam, bebendo seu vinho quente. A mesa real estava em outro patamar, onde a princesa, o rei e o resto da família real se sentava. Olhou para eles e em seguida para Mariellena. Sua amiga segurava os talheres assim como Madame Ana havia ensinado, embora ainda não estivessem acostumadas com aquilo. Era um pouco estranho segurar instrumentos de prata para enfiar comida na boca, mas diziam ser mais higiênico e nobre.

– Queria ouvir os cantores. – reclamou, enquanto Madame Ana não estava por perto. Mariellena acenou a cabeça, concordando. Os vestidos molhados foram trocados, porém os cabelos continuavam grudando no pescoço e no rosto. Mariellena não tinha problemas com isto, pois suas madeixas louras eram bonitas mesmo molhadas, entretanto os seus grossos e revoltados cabelos encaracolados se recusavam a obedecer a escova. Madame Ana dizia que as madeixas tinham personalidade própria. – Será que poderíamos pedir para que viessem?

– Papai disse para ficar aqui. – respondeu a companheira.

Sim. O pai de Mariellena era um dos mais importantes arqui-duques do castelo. E quando ele lhe dava uma ordem, ela obedecia a risca, algo que Antonietta achava um pouco bobo, pois ninguém reclamaria se elas fossem buscar os cantores para acalmar a Sala das Lareiras. Madame Ana se voltou para elas e ambas sorriram forçadamente. A moça de longos cabelos ruivos e seios retos estava encarregada de cuidar da formação das jovens senhoritas duquesas, Mariellena e Antonietta, porém todos os dias implorava para que aquele tempo acabasse, pois as pequenas eram realmente difíceis. Filhas de pais viúvos, partilhavam de uma amizade profunda desde o nascimento. Madame Ana às vezes tinha de convencer a Mariellena, para que somente ela conseguisse convencer Antonietta, que, em sua opinião, era a mais teimosa.

– Poderíamos correr e ninguém nos alcançariam. Todos estão molhados e são velhos. Inclusive Madame, ela usa saltos. – disse entre dentes, porém Mariellena balançou suas tranças louras e uniu as mãos.

– Papai está um pouco irritado com o trabalho, por isso não quero desobedecê-lo.

– Tudo bem. – sorriu – Podemos pedir para Madame Ana buscar os músicos. E ela adora música. Aposto que concordaria.

Mariellena concordou com a cabeça. Virou-se para a Madame e puxou seu vestido rosado sem graça. A moça abaixou a cabeça, um pouco decepcionada por ter de fazê-lo para Antonietta. Seus olhos diziam tudo, porém Antonietta não se importava se Madame Ana não gostava dela. Tinha Mariellena e sua amiga gostava sim dela, então apenas ignorava aos adultos.

– Madame Ana, poderia chamar os músicos? Está tudo muito barulhento, a música pode acalmar a todos.

Madame Ana pensou por alguns segundos e deu de ombros.

– Sim, pode ser que funcione. – e virou as costas, partindo. Madame Ana era assim, não era uma madame em nenhum dos quesitos, mas fora contratada pelo pai de Mariellena e por isso tinha de se comportar como tal. Todos sabiam que ele apenas queria poder passar mais tempo com a moça. Mariellena dissera que não se importava se o pai se casasse com Madame Ana, pois queria que ele fosse feliz e apenas isto.

Quando se virou para Mariellena, a menina estava lendo. Às vezes Antonietta sentia-se distante da amiga, pois não gostava de ler, nem escrever, como ela. Mariellena era muito boa em dançar e costurar, porém ela era uma negação em tudo isso e mais um pouco. Ficar na sombra de Mariellena nunca fora algo ruim, na verdade gostava de ser esquecida. Menos pela amiga. E nestes momentos, onde não podia compartilhar com ela um de seus gostos, sentia-se afastada. Solitária, olhou ao redor, para todo o salão. Seu pai conversava com alguns viscondes e com o primeiro ministro. Mordeu o lábio.

E então tudo aconteceu. Uma mulher jogou-se ao chão, o vinho se espalhou por todo o vestido, ela gritava e tentava respirar, sem sucesso. Seus olhos explodiam nas órbitas, as veias de sua garganta saltavam e as mãos se abriam com posições impossíveis. E então era cuspiu sangue, em seguida vômito, bile e parte de seu estômago. Quando os cabelos louros já estavam completamente vermelhos, como o vinho, ela arquejou, virando de barriga para cima, onde se via o trabalho de uma grávida, tentando rasgar o próprio ventre e salvar seu filho. Mas era tarde.

O salão se afundou no mais completo silêncio, e só depois que todos já havia corrido para ver o que havia acontecido, é que Antonietta notou que a mulher estava na mesa real, ao lado do rei.

º º º

Hannelore correu os olhos pelos quadros. Estava andando há algum tempo, pois o salão não fazia seu estilo. Encontrou Wanda parada diante de um dos quadros, observando-o com ar sonhador. Quando conseguiu vê-lo, notou os traços angulosos e os cabelos castanhos. Conrad. Seu meio-irmão, morto. Respirou fundo, pois não sabia o que falar. Não conhecera Conrad, porém Wanda o conheceu e acima de todos, ela havia sido amiga dele. O que será que a menina pensava dela, em tomar o lugar do irmão tão rápido, logo após a morte dele? Wanda provavelmente a odiava. Talvez até mesmo pensasse que ela é algum tipo de impostora que matou Conrad para conseguir a coroa, ou... Hannelore suspirou, estava pensando demais. Wanda não a odiava, e muito menos pensava em coisas tão ruins.

– Hanne... – ela virou o rosto para o outro lado e enxugou as lágrimas que, até então, Hannelore não havia notado rolando em sua face. A menina estava completamente ensopada, com o vestido grudando nas pernas e nos seios, os cabelos presos em um coque frouxo e a marca de sujeira debaixo das unhas. – Não está no Salão, com os outros?

– Senti que não era bem-vinda. Queria caminhar. E por algum motivo vim para cá. – sorriu, gentilmente, e Wanda encolheu os ombros, fungando. – Ele foi... Foi uma pessoa boa?

– Conrad? – seus olhos brilharam de lágrimas – Sim, ele era uma ótima pessoa. Sempre alegre e confiante, parecia que nada dava errado com ele, sua saúde era de ferro e ele estava sempre disposto a ajudar.

A cada palavra, Hannelore se sentia ainda pior, como se a culpa pela morte de seu meio-irmão caísse sobre seus ombros.

– Sente muita saudade dele?

– Na verdade, não. Conrad um dia morreria, como todos, só aconteceu mais cedo. Sei que ele não existe, e nada de sua identidade restou. Suas memórias, seus sentimentos, tudo se foi para sempre. Mas isto é o ciclo da vida, e um dia eu também deixarei de sentir e de pensar, e minhas memórias não servirão de nada. Eu morrerei e minha alma se perderá eternamente. E acredite, eu não tenho medo disso. Já aceitei que todos morrem, a morte só chega mais cedo para alguns.

Hannelore mordeu os lábios, segurando suas próprias lágrimas. Por algum motivo, conseguia sentir a intensidade da saudade que Wanda sentia por Conrad, e mesmo que ela dissesse que já havia superado, ainda estava triste. Ainda chorava. Ela não conseguia se fazer de forte diante de seus olhos. Hannelore sabia. Ela estava definhando.

– Me conte mais de Conrad. – pediu, e quando Wanda ergueu seus olhos, apenas sorriu.

Notas finais
Gente! Consegui meu notebook, até que enfim! Agora escrever ficará muito mais fácil, e aos leitores de outras fanfics minhas, se preparem pois logo postarei capítulos! Obrigada desde já! Pedido da Sofia: por favor, enviem frases (como as que usamos no começo dos capítulos) que definam seus personagens. Beijos da Meell.