The Bastard Heir
24 Capitulo 20 - Saudades, lembranças que marcaram a alma.
Notas iniciais
Capítulo 20.
Saudades, lembraças que marcam a alma.
"A melancolia é a felicidade de ser triste". — Victor Hugo.
Em seu coração, Willian tentava apenas esquecê-la. Mas como desprender-se de alguém tão importante? Como abandonar de vez alguém para quem fizera um juramento de eterna aliança? Um juramento que nem a morte é capaz de separar. Cristina fazia parte das suas doces nostalgias, algo que ninguém poderia tirar dele.
Graças ao muro invisível erguido pelo amor dela, Willian conseguira suportar o destino de um casamento arranjado com uma mulher louca e ser um rei, uma posição que ele nunca desejou de fato. Era bom poder estar sempre acima, liderar, ter o controle de tudo... Ora essa. Quem ele queria enganar? Nunca teve liberdade para viver sua propria vida e sempre teve que fazer tudo pela maldita “imagem”. Gostava de seu pai, porém teria sido mais feliz sendo filho de algum camponês. Caso tivesse conhecido sua princesa Cristina, neste status plebeu, com certeza sua amada não teimaria nem um pouco em fugir com ele. Ousada como ela era. Sonhador como ele foi um dia. Apaixonados como ainda são.
Ah se pudesse ir embora... Se Conrad estivesse vivo, poderia passar naquele exato momento todos os poderes de Overath para ele. Em seguida, ele partiria e se esconderia do mundo. De preferência algum pequeno castelo próximo ao mar ou até mesmo um chalé rústico. Willian queria apenas fugir, todavia seus planos foram arruinados quando seu menino fora embora e agora ele precisava ficar preso naquela corte conspiradora.
Dizem que as pessoas que guardam dentro de si, os bons sentimentos e emoções permanecem uma alma vivaz e jovem, porém aqueles que guardam a melancolia e todos os tipos de tristeza envelhecem mais a cada dia. Mas era na melancolia de suas emoções que o rei encontrava sua felicidade, pois é nela que estão habitadas as suas lembranças.
— Então ela ofereceu essa quantidade de dinheiro para o servo, além disso... — contava o ministro, mas quando notou que o amigo estava a pouco de dormir, estalou os dedos a frente de seu rosto. — Willian, está me ouvindo? Willian acorda.
O mesmo balançou um pouco a cabeça e despertou, estava morrendo de sono.
— Estou lhe ouvindo, fiquei apenas um pouco disperso. Desculpe o que dizia mesmo? — perguntou o homem colocando as mãos no rosto.
— Que você deveria descansar um pouco mais, meu amigo, está parecendo um morto vivo — disse risonho tocando em seu ombro.
— Desculpe, desculpe. Eu realmente não estou muito disposto a nada.
— Não me surpreendo — respondeu dando com os ombros. — Sabe, acho que deveríamos nos divertir um pouco. Quem sabe ressuscitar o Joe e Ivor? Lembra-se? Esses eram nossos nomes falsos quando costumávamos a frequentar a taverna.
— Frequentávamos? — perguntou irônico. — Eu só fui naquela espelunca uma vez e ainda por cima paguei sua conta! A minha e de uma mulher com quem você passou a noite. Desgraçado. Ainda por cima deixou-me bêbado sem saber como voltar.
— Havia te esquecido. Depois quando eu voltei lhe encontrei desmaiado no meio do caminho... Foi engraçado — respondeu gargalhando. — Bons tempos, apesar de tudo, foram bons tempos. O passa depressa e quando menos esperamos, nós já estamos mortos — suspirou.
Ah, tantas recordações, algumas levadas pelo tempo e outras ainda vivas no coração. O tempo corre depressa e dizem que é o melhor remédio para as curas e marcas de ferro e fogo que cicatrizam o coração. Willian permitiu-se sorrir, não era seu melhor sorriso, mas fora verdadeiro. Bem mais verdadeiro do que o sorriso que dera no torneio. Lembrou-se dos seus momentos de infância e juventude.
Na sua infância tinha Genova como sua única grande amiga e às vezes irmã. Aos treze anos, Willian e Genova trocaram seu primeiro beijo. Um beijo completamente inocente e talvez desajeitado, eles apenas queriam saber como era experimentar isso, pois não seria nada agradável fazer perguntas sobre relacionamentos dentro de uma corte religiosa governada pela infanta espanhola Beatriz, antiga rainha consorte de Overath e mãe de Willian e Otto. Entretanto no dia seguinte, Willian brincava com seu cavalo de madeira sem sequer lembrar-se do momento e Genova andava para todos os cantos com sua bonequinha de pano.
A duquesa de Brauner deve se lembrar do momento inocente. Afinal foi seu primeiro beijo, no entanto Willian e ela são tímidos demais para perguntar algo desta natureza. Mesmo assim, os dois sempre tiveram respeito um pelo outro e nos dias atuais, os primos se enxergam mais como grandes irmãos. Willian até fora convidado para ser padrinho de Isabella e Adam, filhos de Genova com o falecido Wagner. Um convite que o monarca aceitou com todo o prazer e que de certa forma, aumentou o prestigio dos herdeiros Beckhard, pois ter o próprio Rei como padrinho é uma grande honra e privilégio de poucos.
Depois em sua fase adolescente, veio Hartwig. Nem se lembra de como conhecera este homem, a quem no fundo admirava e possuía uma certa inveja. Nada muito grave, porém Willian tinha uma profunda raiva de como Hartwig conseguia encontrar alegria em tudo, nem sempre, mas na maioria das situações ele era sorridente e assim conquistava a todos. É do tipo que faz amizade até com os inimigos. Um homem apaixonado pela vida, uma eterna criança que gosta de se arriscar. Com Hart, Willian compartilhou praticamente todos os momentos de sua juventude. As brincadeiras, alegrias, tristezas e ataques de fúria. No barão de Flaming e ministro de seu país, ele encontrou o irmão leal que sempre o apoiou. Algo que Otto nunca fora. Willian sentia que precisava retribuir tudo o que seu irmão de coração já fizera por ele, apenas não sabia como.
A noite estava magnífica e ao mesmo tempo enigmática, era época de lua minguante, por isso a escuridão banhava aquele céu misterioso. Entretanto, as estrelas, com seu encantamento davam um jeito de fazer contraste com aquele mar negro. Hartwig ficava lendo algum livro qualquer e Willian apenas tentava cochilar. Ninguém notou e muito menos notaria o que se aproximava. Ela surgiu de repente através de uma luz branca. Uma mulher de compleição angelical e bela, airosa em todos os sentidos. Não era um anjo e muito menos trajava branco, usava um vestido azul turquesa e um diadema de ouro puro. Seu sorriso tomou conta do rosto quando se sentou no braço da poltrona púrpura e gentilmente acariciou o rosto de Willian, dando-se ainda a liberdade de depositar um beijo em sua testa. Infelizmente o mesmo não a via, mas de certa forma sentia.
Willian acordou, ergueu-se bruscamente e olhou para todos os lados, porém não achou nada. A única coisa que sentia naquele salão fora um aroma. Um aroma de rosas que surgiu repentinamente, o que era estranho, levando em consideração que a sala do chá sempre estava impregnada pelo cheiro dos doces deliciosos que a duquesa Genova degustava durante a tarde.
— O que houve? — perguntou Hart fechando seu livro.
— Nada, eu pensei... — continuava olhando e não achava nada. — Esquece — sentou-se novamente.
— Boa noite, meus senhores — cumprimentou Genova, trajava um vestido negro e caminhou até a poltrona retirando aos poucos o véu branco do rosto.
— Mais que honra nos traz essa bela e digníssima senhora — Hartwig levantou-se com um grande sorriso e ao chegar perto de Genova, se ajoelhou e segurou sua mão educadamente depositando um beijo de cavalheiro. — Genova Marie Beckhard, Duquesa de Brauner, Condessa de Hennort e Senhora das propriedades austríacas de Poysdorf e Bregenz.
— Também Marquesa de Hollenzorth — completou Willian.
Desde a adolescência, Hartwig sempre teve um carinho muito grande por Genova. Assim como Willian, ele enxergava na nobre mulher, uma espécie de irmã mais velha, porém o primeiro ministro sempre gostava de brincar com a duquesa. Muitas vezes lhe provocando com flertes, mas nada intencional.
— Genova, minha dama, quando aceitará um pedido meu para um passeio pelos vales floridos deste país?
— Sonhar não custa nada, meu querido — respondeu sorridente acariciando os cachos loiros do homem.
— Pelos menos tentei — disse fingindo tristeza. Após isso ficou sentado pelo chão mesmo, sem se importar com etiquetas. — Genova, eu não ficaria com você não. Muito pálida para o meu gosto, eu prefiro morenas...
Antes que pudesse continuar sua fala, teve seu rosto — pálido por sinal — esbofeteado pelo leque cor de vinho da duquesa.
— Isso não é nada — afirmou tocando na cabeça, onde a dor era mais forte. — Willian já apanhou de uma mesa de canto.
— Mesa de canto? — indagou confusa, redirecionado seu olhar ao rei, que sentava na poltrona à direita, a mais próxima da lareira.
— Regina — fora a única palavra que ele respondeu, se encolheu mais na poltrona. Conversas sobre sua falecida mulher o deixavam meio constrangido.
A mulher que ninguém via continuava sentada no braço da poltrona de Willian, seu sorriso sumiu ao ouvir o nome de Regina sendo mencionado, a bem da verdade, ela também parece ter ficando um pouco constrangida. Aproximando-se mais do rosto do rei, a donzela misteriosa sussurrou no ouvido de Willian.
— Não há guardas lá fora, precisa ir ao jardim. Vá rápido, meu amor, nossa princesa precisa de ajuda.
— Não precisa mais explicar, entendo bem. Sabem. Senti saudades da Hanne no jantar, talvez tenha optado pelo desjejum no quarto. Suas damas fizeram o mesmo, as criadas disseram que a porta de seu quarto estava trancada. Provavelmente deve estar dormindo. Os últimos dias tem sido cansativos.
Willian novamente levantou-se, todavia ao invés de voltar a sentar, caminhou até a porta. Subitamente sentiu vontade de ir ao jardim, não sabia por que, apenas sabia que precisava ir lá. Como se algo o arrastasse até aquele lugar grande e florido, porém por algum motivo, com fama de mal assombrado.
O estrondo da porta a bater após a saída do rei assustou um pouco Genova.
— Pelo visto ainda somos muito ligados, meu rei — disso o espirito, ela sorriu amorosamente e sumiu em uma luz branca.
— Devia estar com pressa, geralmente Will não suporta fazer barulho e muito menos ouvir muito barulho — comentou Genova.
— Ele está meio estranho essa noite, talvez seja apenas cansaço... — Hartwig olhou para trás e esperou alguns segundos antes de olhar de novo para a duquesa. — Genova, responda-me algo.
— Se for do meu alcance — deu com os ombros.
— Por que será que o Willian não conta logo para Hannelore quem é a verdadeira mãe dela?
— O que eu desejo saber agora, é o porquê dessa pergunta?
— Ora essa senhora. Por Cristo — proferiu erguendo-se do chão bruscamente.
— Talvez não seja o desejo do rei, além disso, Hannelore até agora tem se mostrado tão desinteressada em saber sobre sua mãe.
— Talvez, minha amiga, o motivo esteja relacionado ao fato de que a princesa Hannelore sequer saiba o que é ter uma mãe. Não duvido de que jamais tenha dito essa palavra um dia.
— Oh, entendo... — ficou de pé em frente ao amigo. — Eu não sei, mas agora que tocastes nesse assunto lembrei-me de algo. Quando fui aos aposentos da princesa, para saber se havia gostado do quarto. Que por sinal teve sua decoração comandada por mim — disse orgulhosa, mas logo se conteve. — Hannelore pediu que houvesse mais bonecas no quarto. Ela disse que nunca pode ter uma...
— Nunca? Mas todas as meninas tem isso.
— Pelo visto a princesa não. Disse que apenas Gisele poderia ter.
Os dois, principalmente Genova, calaram-se e ficaram tomados por um repentino sentimento de culpa.
— Naquele dia, eu convenci Willian a mandar Hannelore para ser criada com a família de minha irmã, Angelika. Ela sempre foi tão boa e carinhosa, não poderia imaginar que havia ficado amargurada e não dando qualquer tipo de cuidado para Hannelore. Oh céus, deveríamos ter mandado a menina para ser criada em um convento mesmo — lamentou-se. Hartwig cedeu passagem para a duquesa ir até a varanda.
— Maldito Belshoff, conheço pessoas inferiores que tiveram melhor tratamento! — afirmou o ministro.
— O que me deixa admirada é o fato de Hannelore não reclamar de nada. Ou ela é orgulhosa demais, ou apenas...
— Prefere esconder o sofrimento... Que nem o Willian. Orgulho, ou ela é uma fortaleza — completou Hart. — Orgulho e teimosia! Sem dúvida. Todos os Von Strauber sustentam essa pinta de querer sempre parecer o mais forte.
Genova sorriu, pois de fato era verdade. Pensou um pouco, resolveu se colocar no lugar de Willian e assim ficou durante vários minutos. A esta altura, a chama da lareira já estava se apagando, pois tinha ficado acessa durante horas.
— Hartwig, meu caro, pense bem. Hannelore é filha de nada mais, nada menos, que Cristina Von Kopper. A falecida Princesa de Hessen e irmã caçula do atual rei Maximiliano.
— Eu sei. Também espero que apenas nós tenhamos conhecimento disso.
— Enfim, diga-me. Quantos filhos possui o rei Max?
— Cinco filhos. Eadric, Josephine, Marthe, Philippe e ainda tem uma menina que não lembro o nome.
— Estou falando dos legítimos — corrigiu risonha e depois olhou para o teto, como se estivesse olhando para o céu. — Wagner Beckhard, é bom nunca ter me dado este desgosto!
— Ah claro! Desculpa. Nesse caso então, os três primeiros que mencionei.
— Exato. Mas todos nós conhecemos a história de que o príncipe Eadric supostamente fora raptado do seio da agitada e festiva corte Von Kopper em suas três primaveras. Quem levou a culpa desse rapto?
— Nós — respondeu tristemente.
— Anos mais tarde com a morte de Grethel, nossos conflitos com Hessen voltaram com toda a força. O sumiço do principe Eadric foi o incentivo e o assassinato de Grethel foi o que marcou o inicio. O rei Maximiliano mandou matar a própria sobrinha... seu próprio sangue — Genova ficara tristemente emocionada, pois lembrou-se de sua pequena afilhadinha.
— Isso foi o suficiente para tomarmos Henstaufen de volta para nosso território. O dia em que Otto ficou consagrado como “o grande herói de Overath” — o ministro articulou ironicamente.
— O que importa é que esse sumiço de Eadric fez com que Josephine ficasse como herdeira do trono de Hessen. Hartwig, filhos ilegítimos não podem assumir o trono, ou seja, Philippe, o bastardo do rei Max, e essa outra menina estão fora da linha sucessória. Conhecendo o soberano de Hessen como conhecemos, ele pouco se importa com os outros filhos. Isso se tiver apenas esses dois, pois não duvido nada de que tenha outros.
— A princesa Josephine é a herdeira e a princesa Marthe, a segunda na linha sucessória.
— Quem é a terceira na linha sucessória hesseniana, meu caro amigo? — Genova perguntou, mas obviamente ela já sabia a resposta.
— Os herdeiros Von Kopper eram formados por Maximiliano, Magno, Regina e Cristina. Magno morreu na infância, aproximando Regina ainda mais do trono de Hessen. Se Conrad e Grethel estivessem vivos, entrariam na linha de sucessão hesseniana, atrás apenas da mãe e dos primos legítimos, filhos do rei Max. Cristina era a irmã mais nova, porém era princesa legitima de Hessen. Caso alguma coisa acontecesse com os filhos de Maximiliano e Regina, os herdeiros de Cristina teriam forte reivindicação sobre Hessen. Isso faz... — Hartwig pôs a mão na testa e seu rosto manifestou uma notável preocupação.
— Isso meu ministro, Hannelore é legitimada pelo Papa. Herdeira do trono de Overath e terceira herdeira do Reino de Hessen. Caso algo acontecesse com a princesa Josephine e a princesa Marthe, Hannelore seria a herdeira de Hessen. Já pensou, rainha de dois países? Por isso Willian não conta nada, pois não quer colocar a princesa em perigo eminente. Nós já somos acusados de estarmos envolvidos no sumiço do herdeiro Eadric. Imagine se todos soubessem que Hannelore é filha da Princesa Cristina e de repente alguém matasse Josephine e Marthe? Acusariam-nos de conspiração para colocar Hannelore no trono e a vida da princesa estaria em risco.
— Não apenas isso, minha cara amiga. Além deste rapto do herdeiro de Hessen, eles nos culpam pela morte da Princesa Cristina, pois a mesma estava instalada em nosso país em seus últimos meses de vida e durante a gravidez ficou isolada naquele mosteiro em Linesburg até a Hannelore nascer. Até hoje ninguém teve coragem de avisar isso a corte hesseniana. Ou ele pensa que sua irmã esta viva e que o traiu vivendo aqui em Overath, ao invés de voltar para seu reino natal e ficar ao lado deles durante a guerra...
— Ou também pensa que nós demos um jeito nela... Oh céus que discordia — sussurrou a última parte.
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“A liberdade é a possibilidade do isolamento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo”. — Fernando Pessoa
Quem encontrasse o rei pelo jardim, como ele estava, imaginaria que o soberano simplesmente estava passeando durante aquela noite. Ninguém imaginaria que ele estivesse procurando algo. Algo que nem ele sabia. Atravessando a área mais verde, repleta de arbustos e grandes árvores, o rei sentia que alguém precisava dele. Não sabia exatamente quem, porém Willian sempre foi sensível nesse quesito de sentimentos e emoções, mesmo que detestasse demonstrar ou admitir. Um rei demonstrar emoções de maneira tão explicita é considerado um ridículo sinal de fraqueza. De alguma forma, ele sentia que alguma energia o trazia para aquela área primaveril. Com Cristina funcionava da mesma forma, em quase todos os seus encontros, ela nunca precisou chama-lo. Bastava à princesa o esperar na fonte dos anjos, que em poucos minutos ele aparecia, como se um elo mágico os ligasse de maneira incomum.
Oh céus, fazia tanto tempo que não andava por aquelas áreas. Realmente Hartwig estava correto, ele estava passando tempo demais isolado e esquecendo que havia algo mais bonito além das paredes de mármore do castelo. Willian até tinha se esquecido do poço, que por sinal ainda continuava ficar bem escondido naquela área. Claro que quase todos sabiam de sua existência, mas poucos sabiam sua real utilidade. Apenas os membros mais importantes da família real.
Não sentia mais aquela energia que o trouxera para cá, todavia sua audição continuava perfeita e ouvira alguns murmúrios. Olhou para todos os lados e não viu nada, os guardas que cuidavam da área estavam longe. Talvez fosse algum animal. Não, impossível, o bosque ficava além do castelo.
— Vai ficar tudo bem.
Era claramente uma voz feminina, doce e ao mesmo tempo firme. Willian chegou a duas conclusões: um casal apaixonado se encontrava por ali ou ele estava maluco e precisava se confessar para parar definitivamente de ouvir vozes do além.
Hannelore e o mestre de campo continuavam presos. A princesa já estava conformada em passar a noite naquele local sombrio, porém estava esperançosa de que pessoas fossem patrulhar o castelo pela manhã. Algo que há deixava um pouco tranquila, era o fato do corpo de Dunkelheit estar menos dolorido. Claro que suas costas ficaram cobertas por algumas cicatrizes e um forte hematoma, mas nada que bons tônicos pudessem resolver. Felizmente, a batida não havia sido algo de grande gravidade.
— Obrigada — agradeceu à donzela, sua voz gentil estava muito fraca. Ela havia gritado muito e certamente estava morrendo de fome.
Dunkel, que estava sentado mais a frente, deitou seus olhos escuros sobre ela e ficou um pouco constrangido. Desde criança seu sonho era ser um grande soldado, fora treinado para ser uma arma de combate e acima de tudo, ser leal e proteger a família real. Entretanto, não podia ajudar sua princesa. Inaceitável.
— Minha senhora, eu não fiz nada. Se nos acharem pela manhã, poderão espalhar boatos indignos de Sua Alteza, a bem da verdade, eu ficaria agradecido se punirem por não ter salvado sua vida.
— Psiu — pôs o dedo em seus lábios. — Estou viva, não estou? Pare de se colocar tão abaixo, oficial Falk. Eu é quem merecia estar nesta sua condição. Não sei se teria coragem de descer até aqui para salvar uma pessoa — lamentou-se. — É por minha culpa que o senhor ficou tão debilitado, eu peço perdão.
Dunkelheit ficou sem palavras. Virou-se para frente, pois não teve coragem de encarar a princesa. Perdão. Dificilmente algum membro da realeza proferia esta palavra tão pequena e de grande significado, ora essa, Hannelore é uma Princesa Herdeira. Se Deus lhe permitisse vida longa, ela seria sua futura Rainha. Alguém tão superior não precisava abaixar sua cabeça para um simples oficial. Mesmo que Dunkie tivesse raízes nobres, sua realeza baixa não podia se comparar com a grande estirpe de Hannelore. Ainda por cima, ele também era quase um bastardo. Seus pais eram pessoas importantes e membros da igreja, que quebraram os votos de castidade, graças a isto, o mesmo tivera que ser criado por sua tia baronesa. Dunkel sabia bem de sua posição e naquele instante, o mestre de campo tomara uma decisão. Ele ficaria muito contente em morrer pela Princesa Hannelore, ou melhor, honrado.
— Ouça isto — sussurrou Hannelore. — Tem alguém aqui. Será que nos acharam? — levantou-se bruscamente.
A voz ficara mais clara para Willian. Era Hannelore. Mais que diabos a menina fazia em um poço? Estava escuro e as tochas não iam até aquela parte do jardim.
— Tem alguém aí? — gritou a princesa novamente.
— Hannelore é você?
Poderia ser apenas alguma voz feminina parecida com a da princesa. Willian por pouco não pergunta o que a menina estava fazendo ali dentro, mas se conteve. Considerou que seria uma pergunta idiota.
— Majestade é o senhor? — Hannelore olhou para Dunkie e por pouco não deu um salto de alegria.
— Sou eu sim — respondeu atônito. — Hannelore tem mais alguém aí com você?
Dunkel queria morrer naquele instante. Poderia aparecer algum animal feroz ali dentro e o estraçalhar. Seria menos doloroso do que mais tarde ficar de cara a cara com seu verdadeiro líder — acima do próprio comandante — e dizer o que estava fazendo com a filha dele em um poço as escuras.
— O senhor Falk, mestre de campo das tropas do sul. Um dos oficiais do país, Majestade.
O rei por um instante preferiu acreditar que Hannelore estava insana e falando sozinha a pouco, mas para sua desilusão e decepção havia com homem com ela. Era algo desagradável haver um homem às escuras com uma moça em tenra idade, virgem e ainda por cima uma Princesa.
— Eu não tenho nada em mãos para ajudar vocês, mas posso orientar — o rei olhou para trás, para garantir de que não tinha ninguém por perto e logo continuou. — Esse poço possui vastos caminhos pelos subterrâneos do castelo e até do reino. Se caminharem direto durante quinze minutos, acharão três passagens, entrem na passagem da direta. Ouviram? Direita. Não demorando muito, acharão uma escada de madeira, ela provavelmente esta muito velha, por isso tomem cuidado. Subam e estarão livres. A escadaria irá leva-los até a sala das lareiras, é uma saída secreta que nós temos em posse, caso o castelo venha a ser invadido.
— Não é mais fácil chamar os guardas? — indagou Hannelore, já imaginando a longa e cansativa jornada.
— Se quiserem chamar a atenção do castelo inteiro, eu posso chamar. A escolha é de vocês.
Mesmo com as costas doloridas, Dunkel ergueu-se. Preferia enfrentar os riscos do poço a justificar o porquê de estar com a princesa naquele local. Era humilhante demais para um militar como ele.
— Está muito escuro, eu nem consigo enxergar o senhor.
— Hannelore, se o Sr. Falk conseguiu o titulo de Mestre de Campo, ele deve saber muito bem o que fazer.
— Alteza — o oficial chamou a princesa, baixo, pois estava com um pouco de vergonha do rei ouvir sua voz. — Eu sei o que fazer. O rei está certo, minha senhora, já fiquei três dias em uma floresta enevoada com apenas uma faca. Essas provas de resistência fazem parte do treinamento do exercito overatiano desde sempre.
— Esta bem, confio no senhor.
— Hannelore.
— Sim, Majestade — respondeu a princesa.
Ele considerava aquela pergunta idiota. Mas não resistiu em fazê-la e temia muito pela resposta, no fundo sentia que já sabia.
— Como você foi parar aí dentro?
Vários segundo de silencia perduraram, até que a princesa o quebrou.
— Estava com o tio Otto...
Willian saiu imediatamente do poço, deixando Hannelore falando sozinha.
Otto encontrava-se com ela, com Cora. No momento, bebiam apenas uma taça de vinho e riam, comemorando o sucesso do plano.
— O cavaleiro galante foi salvar a princesa — dizia Cora de maneira dramática.
— Uma pena que essa história não conseguiu ter um final feliz — respondeu o duque, como estivesse realmente triste, o que Cora sabia se tratar de mais uma das suas boas intepretações.
— Quem vai vigiar a nossa porta agora? — perguntou risonha, em seguida tomou mais um gole do vinho.
— Não se preocupe, minha rainha— ele aproximou-se dela e sussurrou em seu ouvido. — Eu sei trancar a porta.
Ela sorriu maliciosamente ao encarar os olhos do amante, por um instante deixou-se deileitar naquele oceano gélido. Quando Cora menos esperava já estava presa nos braços de Otto.
Ele a beijou ardentemente. Otto deitou-se por cima da amante que apenas se deliciava com os toques do general e seus murmúrios e gemidos apenas pareciam incentiva-lo.
— Vou vesti-la com as melhores roupas — mordicou seu lóbulo. — Usará a mais rica das coroas quando for minha rainha...
Por pouco Cora não conseguia resistir a aquela tentação, mas sentia que no momento, o amante terno não estava ali. Ele não estava fazendo nada relacionado ao amor e sim ao desejo. O desejo instintivo de um homem que buscava só prazer. Apesar de tudo, Cora queria deixar claro que também queria amor. Resistindo a aqueles toques, a mesma empurrou o homem e sentou-se.
— O que aconteceu? — perguntou aparentemente irritado.
— Estou cansada, apenas isto — respondeu simplesmente.
Ela levantou-se da cama e subiu ajeitou as mangas de seu vestido. Otto ficara zangado e jogou-se novamente na cama, pelo visto aquela noite seria sem graça. Cora fora até o closet de homem procurar alguma de suas camisolas, as vezes ela sempre esquecia ali quando o mesmo não era necessário quando fosse deitar com Otto...
Um susto tremendo lhe fora pregado quando a porta foi aberta a força. Estava trancada, mas não era forte o bastante para um chute de Willian.
— Levante-se daí agora! — vociferou.
Cora reconheceu imediatamente a voz do rei e por um instante ficara completamente desorientada, escondeu-se por fim atrás da porta.
— Meu irmão, acalme-se — sorriu para tentar consola-lo.
— Cale-se agora! — ordenou. Há tempos não ficava tão zangado assim e Otto resolveu obedecer à primeira ordem dada e ficou de pé. — Eu não sou idiota, pare de agir como inocente, pois isso foi algo que você nunca foi!
— Qual o motivo dessa raiva repentina? — perguntou como se não soubesse realmente de nada.
— Se é este o respeito que você mostra por todas as chances que lhe dei nesta vida, pegue suas coisas agora e vá embora! Até eu descobrir o que esta por trás da tentativa de assassinato a Hannelore. Não apenas o envenenamento, como também sua queda naquele poço perigoso. Otto Von Strauber, eu proíbo sua presença neste castelo durante um mês! Estarás proibido de se comunicar através de cartas com qualquer pessoa desta morada.
— Willian, o que está dizendo, eu não tenho...
— Eu já mandei calar! — proferiu apontando para o rosto do irmão. — Não me interrompa, não questione! Já pedi que preparassem sua carruagem, voltará hoje mesmo.
— Não pode fazer isso comigo! Vai me impedir até de ver minha própria filha? — indagou, com todas as suas forças tentou demonstrar um falso sofrimento.
— Não seja sínico, você pouco ou nada se importa com sua filha desde o dia em que ela nasceu — disse friamente.
— E você se importa? — Otto agora falava quase no mesmo tom de raiva do irmão mais velho. — Abandonou uma menina recém-nascida. Todos pensam que é um rei bondoso ou justo, mas não passas de um homem que ao invés de ter ficado feliz com a princesa virgem que recebeste, preferiu se contentar com uma princesa adultera que se deitava com dois... — antes que pudesse continuar o punho de Willian desceu violentamente sobre a face dele.
Cora pôs a mão na boca para abafar um grito, mesmo que estivesse há alguns metros e escondida da cena, conseguiu ouvir perfeitamente o barulho da pancada e do corpo de Otto se encontrando com o chão de mármore.
O nariz do homem sangrava violentamente. Olhou para o irmão. Não com medo, mas com ódio.
— Dei-lhe o meu recado. Você pode ser o general comandante, um duque poderoso e príncipe de nascença, mas jamais se esqueça de algo — e aproximando-se mais disse alto e claro. — Eu sou o Rei.

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