The Bastard Heir
26 Capítulo 22 - As Senhoras Vestem o Vestido Antes do Baile
Notas iniciais
Capítulo 22 – As Senhoras Vestem o Vestido Antes do Baile
Sinceramente, suas cartas traçadas por sua própria [mão] tanto me deliciaram e deixaram tão animado e alegre, que imaginei contemplar sua alteza e conversar com a minha adorável esposa e abraçá-la – Artur Tudor, Príncipe de Gales, à sua noiva, Catarina de Aragão.
Bocejou, enquanto esticava os braços. Descia as escadas, com leveza e lentidão. Os olhos pesavam, parecia que não havia dormido nada. Pois seus pensamentos só conseguiam voltar para uma coisa: o fato de ter visto as senhoritas Wanda e Edith banhando-se na cachoeira, logo abaixo do castelo. Era um passeio comum, caminhando com seus outros amigos da Espanha, arcos, flechas e gaviões de caça, quando escutaram risos e vozes de meninas.Viram também vestidos pendurados nos galhos mais baixos de um carvalho e foi impossível continuar caminhando sem o sorriso brotar nos lábios. A neve cobria todo o chão, porém a cachoeira continuava a cair.
– ...medrosa! – ouviu o grito, em alto e bom som.
Entre os arbustos, sete rapazes com idades entre 12 e 22 anos esticavam seus pescoços para admirar as obras feitas pela natureza, boas curvas, fios dourados e negros. No centro do rio, a dama de companhia de Hannelore agitava os braços, jogando respingos de água em sua companheira, a outra dama de companhia, que se encolhia de frio a margem do rio. Eduardo jamais espiaria garotas nobres banhando-se no inverno. Mas já estava ali, então que mal faria? Era um presente de Deus.
E agora a cabeça pendia para todos os lados e mal conseguia olhar para frente ou distinguir as cores do mármore, enquanto a mente voltava para aquela cachoeira. Ao chegar no último degrau da escada, colocou ambas as mãos na testa e pressionou as têmporas com os dedos.
– EDUARDO! – seu nome foi chamado. Olhou para frente, nas portas de entrada do castelo, baús eram empilhados por servos negros, duques, barões e condes que nunca vira na vida se aglomeravam e entre eles, de cabelos ruivos como inconfundivelmente seria emoldurando o rosto rechonchudo, Catarina correu com todas forças que as pernas sustentando o vestido e os sapatos enormes conseguiam fazer. Eduardo abriu os braços, esperando a irmã mais velha alcançá-lo. Caíram nos braços um do outro, sentindo o coração acelerado e a alegria começar a transbordar. – Dú!
– Cat – Eduardo tocou as bochechas coradas da moça e apertou-as. Catarina fez uma careta, mas não reprimiu um sorriso. Ela ergueu a cabeça e girou nos tornozelos, exalando juventude, alegria e paixão, como sempre fora. Esta era a sua Cat, a irmã mais velha. Ela era alguns centímetros mais alta e usava os vestidos típicos ingleses.
– Henry – ela acenou por cima da cabeça, porém corou instantaneamente – Digo, senhor meu esposo, por favor, dê-nos a graça de sua presença.
– Quanta frescura – Eduardo sussurrou para ela, e Catarina sorriu, concordando com a cabeça. Henrique Tudor, rei da Inglaterra, veio caminho com calma, como se o mundo pudesse esperar por Vossa Alteza. Pesado, ele parou ao lado de sua esposa, colocando um dos braços ao redor de sua cintura e puxando-a mais para perto, como se dissesse É minha. Catarina reprimiu uma risada.
– Senhor meu esposo, este é meu irmão mais novo, segundo na linha de sucessão ao trono da Espanha. Eduardo de Aragão e Castela.
A expressão no rosto de Henrique suavizou.
– Ah, claro. Os olhos, são mesmo parecidos. – e então acenou a cabeça, em um cumprimento inglês – Sou Henrique de Tudor, rei da Inglaterra.
– Prazer em conhecê-lo, cunhado. – Eduardo esticou a mão. Henrique olhou para ela, engoliu em seco e apertou-a com fraqueza. Os ingleses odeiam contato físico. Eduardo pensou e sorriu. Soltou a mão de Henrique e tocou-o no ombro com um tapa leve, que assustou o monarca – Que isso, somos da família, dê-me um abraço, Tudor!
Henrique empalideceu, porém Catarina disse para ir em frente, com um sorriso travesso brincando os lábios. Henrique suspirou, abriu os braços e envolveu Eduardo, mantendo um bom espaço entre eles. Quando, enfim, soltou-o, Henrique estava mais enfurecido que realmente feliz em conhecer o irmão de sua esposa.
– Tenho de cumprimentar o Von Strauber. – disse Henrique, duramente, e partiu sem perguntar se sua esposa permitia que fosse. Catarina olhou-o e então voltou-se para o irmão.
– Henrique não se refere aos outros reis por seu título, ele prefere chamá-los pelo sobrenome, pois os considera seus irmãos em Cristo. Foram escolhidos por Deus para serem Reis. E fariam de tudo para permanecer neste patamar. Definitivamente doentio. – Catarina deu de ombros.
– Por outro lado, conheço certas rainhas que mentiriam veementemente em frente ao Papa para conseguir o que é melhor para seu país. Ou para dizimar alguns franceses. – Eduardo piscou, provocador. Catarina cerrou os punhos, mas manteve a compostura com decência.
– Os franceses são imundos, são devoradores! Quantos pecados aquela família já cometeu? Achas que estão sob a graça do Pai? Pois eu digo o que todos já sabem: os franceses caíram na ira do Senhor. – e então transformou seu rosto em um misto de orgulho e crueldade que Eduardo costumava reconhecer quando ela puxava-lhe os cabelos.
– Vejo que já passou tempo o suficiente com os ingleses para se tornar como um. – Eduardo comentou, dando de ombros. – Por sorte, eles só chegarão amanhã.
– Não acredito que conseguiram convencer Henrique a vir a um baile onde os Valois estarão. – Catarina arregalou os olhos, impressionada. – Mas deixando este assunto deplorável de lado... Onde está a princesa? Fiquei muito animada para conhecê-la quando me disse que ela havia lhe acertado uma bofetada. – Catarina segurou a risada.
Eduardo tocou a bochecha onde havia sido estapeado, abrindo um sorriso leve.
– Ela me lembrou de casa.
– Ora, nós não batíamos em você.
– Puxavam minhas calças em frente ao Príncipe Consorte de Oldemburgo!
– Ele deveria se sentir honrado em ver as roupas de baixo do príncipe da Espanha. – Catarina deu de ombros, olhando ao redor. – Diga-me, como é?
– Como é o quê?
– Ora, a princesa. É bonita? Educada? Talvez tenha vindo de um convento, seja uma aspirante a freira.
– Ela é bonita, sim. E tem a mesma educação que um fazendeiro francês. – Eduardo revirou os olhos – Mas, por outro lado, é teimosa com uma mula e tão burra quanto...
Os olhos de Catarina o avaliavam de cima a baixo. De repente eles adquiriram uma cor mais intensa de azul. Sua irmã ficou vermelha e começou a dar saltinhos que não seriam educados para uma rainha casada.
– Você gosta dela!
– E-Eu não gosto de ninguém! – Eduardo corou, sentindo as bochechas quentes.
– Gosta sim! – Catarina sorriu – Gosta e gosta muito.
Eduardo revirou os olhos, como se dissesse Mas será possível?, sua irmã apenas gargalhou e segurou as mangas de seu vestido. Arrumou os cabelos ruivos em uma coroa muito enfeitada com pedras brancas e moveu os pés, com impaciência. Catarina não gostava de ficar entediada. Caso algo perdesse o interesse, ela logo partia para outro caso. Eduardo olhou para ela, esperando que fosse abandoná-lo assim que notasse que não iria mais entretê-la, porém o rosto de Catarina tornou-se uma revolução completa assim que ela emitiu um grito exprimido na goela. Atirou-se escadas acima, sem se importar com os vestidos que enrolavam nos pés. Eduardo olhou para cima, para o primeiro degrau das escadas, lá de onde viera ele antes, sonhando acordado com algumas curvas femininas. Dominique cambaleava degrau por degrau, tão sonolenta quanto ele poderia ter estado há minutos atrás. Catarina alcançou-a e a agarrou com força. A menina, que conhecia desde bebê, apenas deixou os membros penderem duros ao lado do corpo, enquanto Catarina a espremia com força.
– Nique! – Catarina apertou as bochechas de sua amiga de infância. Porém a mesma apenas a encarava, calmamente, com a boca cerrada em uma linha branca e as pálpebras se fechando lentamente. – Dominique!
– Oi, oi, estou aqui. – ela piscou rapidamente, bocejando. – Cat?
– Sim! – Catarina a envolveu novamente, porém Dominique apenas apertou de leve sua cintura. Catarina conhecia ela, sabia que pela manhã Dominique era lenta e boba, embora isso fosse todo o dia. Piorava de manhã. Riu-se com o pensamento e deslocou o peso dos pés para o degrau, subindo. – Vamos para o seu quarto lavar o rosto, você precisa acordar.
– Mas estou acordada. – ela questionou, porém se deixou levar pelo braço de Catarina. Juntas, caminhavam pelo corredor, onde Dominique apontou qual era seu quarto. – Henrique veio também?
– Claro que veio, é o senhor meu esposo, o rei convidado para o baile. Não teria como não vir. – E os seus pretendentes? – Catarina piscou – Já encontrou alguém em que se amarrar, senhorita?
– Diz sobre Nikolaus? Ah, ele é legal.
– Quem? – Catarina parou, virando-se – Isso é... sério, Dominique?
– Sério como?
– Que está noiva, ora. – a rainha suspirou – É triste, pois trouxe um arquiduque muito interessado na duquesa de Medici.
– Noiva? – Dominique bocejou – Você não perguntou sobre amarrar alguém, ou algo assim?
– Sim, eu acho.
– Eu já fiz o Laus comer penas de ganso. Mas não amarrei ele. – e então tropeçou no próprio vestido. Graças a Catarina, ela não caiu.
– Que encantador este seu relacionamento com o Senhor Nikolaus. Ele é... Duque?
– Acho que sim.
– Achas? – Catarina ergueu uma sobrancelha – Um arquiduque não seria melhor? Ele é um dos melhores amigos de Henrique, poderíamos viver juntas.
– Ah, isso seria bom. – Dominique sentou-se sobre a cama. – Não acha?
– É claro que acho – Catarina sorriu – Então está tudo bem? Ele se chama Antony Poe e possui boas terras próximas da Escócia. É um pouco longe do castelo, mas você poderá me visitar com mais frequência.
– Visitar... Ah, mas eu não quero ir embora. Gosto daqui. – ela disse, simplória. – E não gosto da Inglaterra. Os castelos lá são frios. Eu gosto daqui, é quentinho e tem bastante gente por todo lado. E a Lory é muito divertida. E tem a Dith, a Nanda, a Cora...
– Eu sei, eu sei. – Catarina sorriu, dócil. – Mas você deveria começar a pensar no futuro, como uma dama. Está na idade de se casar. Eu me casei com dezesseis, você logo terá essa idade. Eu entendo que aqui possa ser mais divertido, mas as terras na Inglaterra valem mais que as de Overath, principalmente as terras de um Arquiduque do Rei, no Norte do reino. Este seu duque não deve nem mesmo possuir burgos, o senhor Poe possui grandes artistas em seus burgos, ele financia principalmente as peças teatrais. Diz que a cultura do Norte é simplesmente encantadora. Trouxe ao castelo uma trupe, uma vez, e realmente eram divinos.
Dominique a observou por algum tempo e então deitou-se na cama, de conchinha.
– Você mudou, Cat. E eu também. Então pare de me tratar como se eu fosse a mesma garotinha boba e burra que te seguia para todos os lugares e fazia o que você mandava. Eu não quero ir para a Inglaterra e não quero me casar com um arquiduque inglês.
Catarina digeriu aquelas palavras, suas bochechas se tornando vermelhas.
– Você está louca, Dominique! – gritou, de repente – Essa ingenuidade ainda a levará para o mau caminho! Você nunca encontrará outra pessoa melhor que o arquiduque Poe para se casar, então aceite a proposta! Um dia irá se arrepender, verá que eu estava tentando ser sua amiga e você me deu as costas, como todo mundo!
– E você acha que eu quero alguma dessas coisas? Acha que será melhor para mim se me casar com um homem ridículo com o dobro de minha idade, enquanto você sorri e vive sua vida feliz ao lado do seu esposo rei inglês? Você nunca se importou comigo! Nunca pensou em mim! Só pensa em si mesma, no seu bem-estar. Quer que todos façamos o que você manda, quer que sejamos seus servos! Mas eu sou uma de Medici, e eu digo para você, Catarina de Aragão, que no dia em que um de Medici se assentar no trono a Inglaterra chorará!
Catarina ofegava, o peito subindo e descendo no decote apertado. Virou-se e partiu a passos duros do quarto de Dominique. Nunca se viu a rainha da Inglaterra tão enraivecida como quando abandonou os aposentos de sua amiga de infância. Dominique, por outro lado, estava deitada de bruços na cama, o rosto enfiado no travesseiro. Ficou sem respirar por vinte segundos, até não aguentar e sugar tudo o que conseguia com a boca. Olhou para a parede ao seu lado. Ela nascera em um período difícil em Florença, quando a família foi expulsa da cidade e se dispersou pela Itália e os demais países. Graças a Aragão, hoje tinha uma posição de prestígio na Corte de Overath, podia ser chamada de duquesa, condessa e dama. Tinha mais títulos que quase todos os seus irmãos.
– Ouvi de alguns passarinhos que houve uma tremenda guerra entre a Inglaterra e a Itália neste quarto e parece que ambos saíram tremendamente machucados.
– A Itália venceu! – Dominique gritou para a porta, e ele assentiu.
– Como quiser, Itália.
Nikolaus bateu na porta, educadamente, porém como Dominique não deu sinal de lhe dar permissão para entrar, permaneceu de pé. Fazia quase uma semana que ela o arrastava pela biblioteca, pela torre, pela floresta. Por todos os lugares possíveis, mostrando locais escondidos que ninguém conhecia. Havia um buraco de coelhos do tamanho de um anão por onde poderiam engatinhar até alcançar os canais do poço inutilizado do castelo. Os dutos do lugares levavam diretamente para o rio. Era como cortar toda a montanha de pedra atravessando-a. E o mais impressionante era que o ar parecia sempre puro e fresco.
– O baile é amanhã, não é costume as moças se prepararem com antecedência?
– Não vou a baile nenhum! – ela gritou.
Nikolaus sorriu, caminhando pelo quarto, talvez ousado demais. Mas nada comparado ao que fez quando parou ao lado da cama. Sentou-se nela. Mas Dominique não se importou, continuou abraçada ao travesseiro.
– A Princesa Hannelore estará lá. Ela não conhece as pessoas, seria maldade deixá-la sozinha.
– Ela pode muito bem se virar com Wanda ou Edith!
– Deixe de frescura e se levante desta cama logo! Ou nós não iremos até a cidade hoje, como prometeu?
Houve um segundo de silêncio, até que ela enfim bufasse e se levantasse, caminhando até o baú, retirando de lá uma capa grossa e colocando-a sobre os ombros, partisse em direção a porta.
– Então vamos logo!
º º º
Dafne correu com os pés ligeiros até a cozinha, desesperada. Os bolsos do avental estavam cheios de papeis. Começou a distribuir as tarefas que Genova passara a ela a cada um dos servos. A lista do café da manhã para os cozinheiros, as cortinas que os criados deveriam pendurar nas janelas, as velas que deveriam ser trocadas, as flores de inverno podadas e cortadas para enfeitar o interior do castelo, afinal apenas em Overath as flores cresciam durante o inverno e era algo a mostrar aos convidados. Enviar uma criada fluente em inglês até os aposentos da Rainha da Inglaterra, preparar o banho da Princesa Hannelore, colocar escravos para levar os baús das Princesas da Grécia até seus aposentos, mais e mais tarefas. Tinha de memorizar a quem deveria dar cada bilhete, e eram milhares! E por azar, não via Bernadh ou Alix nos lugares padrões, por isso não podia pedir ajuda a eles.
– ...mingau e aveia, senhor Hans. Adelaide, leve água quente até a torre. José, as flores, eu já disse! – gritava as ordens, como se fosse a verdadeira dona da cozinha. Genevieve, a chefe das criadas, adentrou a cozinha com passos firmes. Ela bateu palmas, chamando a atenção de todos.
– O baile será amanhã O trono será levado até o salão de festas, os preparativos têm de ser concluídos até o pôr do Sol. Não quero vê-los de folga hoje. Façam o que ordenam, não se distraiam. Dafne.
– Sim, senhora. – Dafne sentiu a coluna ereta. Era a única criança nas cozinhas, e Genevieve a deixava nervosa quando estava série. A mulher olhou-a de cima a baixo e por fim moveu a mão em direção ao corredor.
– Não precisaremos de sua ajuda hoje. Vá até o jardim e espere a chegada da carruagem com a Família Real Grega. Há duas meninas com idades próximas a sua. Seu dever é entretê-las.
– M-Mas, senhorita Genevieve! Hoje é o dia mais atarefado, é claro que precisam de mim!
– Uma criança só nos atrapalharia agora. Eu entendo que você quer ajudar, Dafne, mas este não é o momento. Tire o dia para relaxar. Brinque com as outras crianças.
– Eu nem ao menos sei falar grego.
– Mas sabe falar latim e as princesas gregas sabem latim.
Dafne sentiu as bochechas coradas. É claro que sabia latim! Todas as horas que passara espionando as aulas das duquesas Mariellena e Antonietta lhe serviram de algo, além dos livros da Biblioteca. Que por sinal andava bem mais agitada que de costume, o que lhe custou boas horas lendo os livros. Desde que Hannelore chegara ao castelo, tudo mudou. Tudo mudou para pior. Detestava Hannelore e toda a mudança.
– Vá. – ordenou Genevieve. E não teve o que dizer. Saiu, caminhado com dignidade e cabeça erguida. Tudo bem. A cozinha não precisava dela. A criadagem não precisava de ajuda. E daí? Dafne não queria ser babá de duas princesas esnobes e idiotas. Não queria passar seu precioso dia longe das obrigações ou dos livros. Poderia fugir para a Biblioteca e permanecer lá. Ninguém notaria e as princesas gregas também não se importariam com isto.
Decidiu. Iria fugir para a Biblioteca e passaria o dia lendo. Todas as damas do castelo estavam se preparando para o baile e ninguém de boa fé iria para a Biblioteca nas vésperas do evento. Suspirou, subindo as escadas do segundo andar, até encontrar as portas que se abriam para as dezenas de prateleiras e livros empoeirados. Enfim, de volta ao lar.
Por outro lado, contornando o jardim e estacionando em frente às escadas do castelo, o coche da Grécia vinha em dupla. Os cocheiros saltaram dos bancos e abriram as portas, revelando em cada uma das caravanas duas figuras reais. O Rei e a Rainha na primeira, as Princesas na segunda.
Sophia, a mais velha, tinha quatorze anos. Os cabelos louro-queimado caiam sobre os ombros e o vestido branco cobria-a até a garganta, algo que a estava sufocando desde a última parada na Áustria. Sua pele rosada refletia ao Sol que brilhava no céu branco. Os sapatos afundavam na neve. Abaixou-se e tocou a brancura. Parecia espuma. Há anos não via neve. Sua irmã, Melina, nunca vira. A pequena, com seus seis anos, atirou-se ao chão, caindo num montinho de gelo e espirrando neve para todos os lados começou a se debater. Sophia colocou os braços em frente ao corpo, protegendo-se.
– Pare com isto! – exigiu, firmemente. Mas Mel prosseguiu, agitando braços e pernas, até que a Rainha viesse buscar sua filha. Tirou-a dentre a neve e levantou-a pelos braços. Desceu três firmes e fortes palmadas nas pernas da garotinha.
Mel abriu a boca em um berro, gritando e chorando, o rosto já rosado se tornando vermelho sangue. A Rainha tentava conter sua filha, que, freneticamente, esperneava chutando-a com os joelhos. Até que, enfim, conseguiu sua liberdade para correr escadas acima e desaparecer castelo adentro. A Rainha reprimiu uma blasfêmia enquanto arrumava o vestido. Sophia apenas sorriu, sarcástica.
– Belo espetáculo, mãe.
– Quieta. – a Rainha ralhou – E comporte-se. Ao menos você.
– Tanto faz. – rebateu a jovem, subindo as escadas saltitando.
– Sophia, volte aqui eu...
– Tchau, mãe! – acenou e desapareceu castelo adentro.
A Rainha segurou sua segunda chuva de ofensas. O Rei apenas colocou a mão em sua grande barriga e gargalhou. Ele era assim. Ria da rebeldia de suas meninas. Achava-as geniosas e muito corajosas, apoiava todas as suas decisões e não se importava com os maus modos de ambas. Aquilo estava irritando a Rainha de tal modo que ela só conseguiu continuar ao lado do marido por puro decoro, afinal não podia abandoná-lo assim como as filhas fizeram. Deste modo, esperou os coches serem descarregados e, junto dos escravos, subiram as escadas, até a recepção calorosa de Overath.
– Talía, que prazer revê-la. – Genova beijou a Rainha em ambas as bochechas.
– É um prazer, Genova. – Talía moveu-se para o lado. – E você também, Hartwig.
– Igualmente, Rainha Talía. – o primeiro ministro não se importou com o modo como seu nome foi dito com um carregado sotaque grego, e apenas sorriu, beijando a mão da Rainha. – Vossa Alteza – ele se curvou diante do Rei. – Espero que a estrada tenha sido boa.
– De fato, sem salteadores. — concordou o monarca. – Minha senhora – ele beijou a mão de Genova e piscou ligeiramente para ela, que ignorou.
– Suas meninas não vieram? – perguntou Genova, com uma sobrancelha erguida.
– Vieram, sim. Mas parece que o castelo é mais interessante que a família. Correram para ele assim que saíram do coche.
– Ah, imagino. Quem não ficaria animado com as histórias dos fantasmas de Overath! Venha, querida amiga, preparei o chá que sei de que gosta.
– É um grande privilégio.
– Imagine. Venha, venha. Vossa Graça, o Senhor pode acompanhar o primeiro ministro. Ele o levará até seus aposentos e, caso queira, até a princesa.
– E o rei? – o monarca grego perguntou. – Há eras não vejo Will!
– Lamento. Ele se encontra frágil esta manhã. Terá de esperá-lo até o baile. Todavia, é possível passear por todo o castelo, e caso queira, temos fontes termais para nossos convidados.

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