The Ari
3 Capitulo II – One
“Memórias”
A palavra ecoava por todos os lados. Além daquele repetido eco, o silencio dominava. A escuridão, a falta de cheiro ou toque, o próprio gosto da saliva já não havia. Nem o próprio dom de pensar ele não detinha. Nada além de...
“Memórias”
Em meio aquela infinita escuridão, um garoto loiro e de olhos negros estava pendurado em duas correntes, correntes que iam para cima, como se não acabassem, presas em seus braços totalmente envergados. Seus olhos estavam abertos, mas não havia vida.
Antes que se percebia talvez o eco ou a própria fonte primária desta voz, a palavras e suas infinitas variantes que se repetiam ao fundo silencioso se tornaram mais rápidos. Tantas vozes, um súbito pensamento nasceu desse acontecimento. Seriam tantas vozes quantas pessoas que há no mundo?
E então o pensamento desapareceu quanto os ecos. E apenas o que parecia ser a fonte primaria prevaleceu. E continuou...
E então parou.
Naquele breu escuro, que não havia nenhum dom dos cinco sentidos e o dom do pensamento ele, de algum modo, estava morto, estava lá parado. Apenas existindo.
Durante todo este tempo ele ficou lá, seu corpo e sua cara mudaram, de um garoto de olhos negros e cabelos loiros, mas não muito claros, um pouco escuros, não chegando a ser castanhos.
Ele estava crescendo, e em toda aquela medíocre existência, seu corpo, pequeno, ganhava forma, suas feições de criança se transformaram em um belo rapaz.
***
Ele se lembrou, ou forçado pela própria voz a se lembrar de uma escassa memoria.
Era quatro de maio. Ele estava caminhando na rua, o céu escurecia lentamente, a noite estava chegando.
Duas figuras estavam ao lado dele, ele segurava as mãos de uma das figuras e caminhava através da rua, estava feliz – não sabia –––por que, só estava feliz – e caminhava através das casas e casarões sem formas pela noite que acabara de adentrar. Luz de lampiões se difundia pela distancia e pelos mosquitos que as rodeavam. Até que ele reparou que cavaleiros conduziam as pessoas para algum lugar. Havia crianças chorando. Pessoas gritando, mas elas eram forçadas a ser levadas. E o estranho era que elas teriam que ir sem nada, apenas com suas roupas do corpo e as armas deles próprios.
A criança e as duas pessoas viraram a esquina, e fugiram furtivamente sem os soldados perceberem.
***
A escuridão dominou novamente
Durante muito tempo, ele estava lá, numa inércia. Cortes e fraturas, e sangue apareciam e desapareciam quase sempre.
Outro lapso de memória voltou dessa vez apenas sons saíram de lá, o resto continuou ao inanimado.
-Não! Não-Era uma voz feminina, talvez não muito velha, mas nem de longe era nova - Precisamos ficar aqui, você não entende, mas antes de irem embora, levem o meu garoto.
O som acabou, e passou-se muito tempo naquela inércia, tanto tempo que passava a lógica humana, uma eternidade. Talvez. A escuridão era a sensação mais enlouquecedora.
***
Outro lapso. Mas desta vez, ele estava lá como a primeira.
-Vá dormir, amanhã será um dia importante — Era a mesma voz, que ganhava forma aos olhos do garoto. Olhos castanhos grandes e atenciosos, um cabelo ruivo e uma cara que na juventude teria sido angelical, mas agora tinha alguma coisa diferente, a preocupação tirava toda aquela beleza, olheiras marcavam o rosto daquela mulher. Mas houve um cheiro que talvez marcasse mais que qualquer outro som ou olhar, era um cheiro que ele conhecera há muito tempo, o cheiro de rosas, talvez um perfume ou coisa parecida, e lentamente as visões iriam se estreitando, o som que antes era atento a cada brisa, cada barulho, iria desaparecendo. Apenas o cheiro continuou igual.
-Sim mãe- disse o rapaz, e assim o cheiro desapareceu.
Voltou a aquela escuridão. O tempo passara e passara, as formas e os ferimentos continuavam a aparecer e desaparecer.
Outro lapso.
O rapaz estava brincando com uma espada de madeira, as brisas fizeram os pinheiros balançarem. O sol iluminava o rosto branco do rapaz, a luz ofuscava de longe a camisa branca, mas simples do rapaz, e uma bermuda de algodão tingida de preta junto num par de chinelos pretos desgastados simples.
Enquanto ele brincava de cavaleiro sozinho, acertando e errando as folhas coloridas do outono, o tempo se passara. O sol já estava passado do meio sol, quando de leve a luz esvaneceu. Olhou para o sol, pensando ser uma nuvem ou alguma coisa que ele pudesse ver, um astro apareceu, e lentamente o sol foi.
Outro lapso
Desta vez ele estava na cidade onde estava noite anterior, chamas e gritos apareceram e desapareceram.
Outro lapso
Desta vez as chamas o cercaram, um soldado lutava com, alguma coisa que ele não podia ver, a chama limitava a sua visão. O soldado do outro lado das chamas lutava bravamente com um som, talvez a fonte do som que ele estivera lutando, e num piscar de olhos, o braço da espada foi arrancado dele, caindo, mas antes que pudesse chegar ao chão, à cabeça fora arrancada.
Outro lapso
Homens chegaram a cavalo, talvez de um distante lugar. Homens da cidade apareciam para pedir ajuda ao homem que comandava a guarnição, uma guarnição vinda diretamente de Rashidase, seu objetivo era tão claro quanto às armaduras e elmos brancos que eles portavam.
O comandante viu o garoto. E antes que se possa perceber, a espada do comandante estava no pescoço do homem que pedira ajuda.
Os outros guardas saíram e começaram a atacar o resto do povo. O garoto loiro começou a correr, e não olhou para trás.
O tempo parou, mas a vida não, ele estava congelado, e aquele som agudo que uma espada faz ao cortar uma carne, estava lá. O cheiro de sangue e o gosto de dor também.
“Memórias”
As palavras voltaram, mas dessa vez não havia nenhuma voz primaria que ele desconhecia, era a sua própria voz. E mais alto e mais rápido a voz começou a tomar conta do rapaz. E a escuridão voltou ao seu mundo.
E então ele começou a enxergar, estava em um bar rústico, pessoas o rodeavam, elas estavam falando. E ele não as escutava, ele estava no chão, sua cara encostada no chão, mas ele não sentia.
Ele podia ver que havia sangue em sua cara, rodeada pela sua boca, mas não sentia o gosto ou o cheiro do sangue.
O garoto apenas estava enxergando, não tirou uma conclusão própria disso, na verdade não conseguia ouvir a voz dele em sua cabeça. Nem a tentativa estava tentando.
Uma súbita memória veio em mente. Estava chorando e as trevas o aproximavam, estava tentando fugir, mas não conseguia.
O sol não estava lá, cheiro de carne queimada pairava no ar.
O gosto de dor, de medo não conseguia sair de sua boca.
Ouvia risos, risos não humanos por toda a parte. E tudo isso ia desaparecendo, o cheiro, o gosto, os risos, as figuras. Tudo. Até que se deu conta.
Ele estava naquela escuridão havia oito anos.
Notas finais
Até a próxima semana!
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