The Archers
1 Capítulo único
Convidaram-me para um jantar no final de semana. Às 21h tocaria a campainha da casa e seria recebida pelos anfitriões. O casal Archer era nauseante, um par de tontos risonhos e falantes, de mãos grudadas junto a frases completadas ao mesmo tempo. Vamos dizer que não éramos amigos, da minha parte eu os menosprezava. Por outro lado meu namorado os achava hilários, rindo com sinceridade dos ditados de Benjamim Archer. Enquanto isso, eu ouvia a bajulação de Felicity Archer sobre o casamento, a participante do grupo que o casório nunca será uma instituição falida. Eu pensava nas respostas que queria dar a ela, falando que tudo começou por contratos, que essa história de amor era o menos importante, que o que ela dizia adorar a muito afundava e que em breve ela ficaria careca por estresse e solidão. A via em três anos enfrentando o divórcio tenebroso, rolando em escadas enroscada no pescoço da amante do marido, transando com outros homens para se sentir bonita, quebrando os utensílios domésticos comprados no cartão de Benjamim. Eu ria e acenava para tudo o que dizia, disposta a aceitar a sua ilusão em troco dos meus pensamentos premonitórios.
Não queria aceitar o convite, mas meu namorado insistiu, chantageou-me com a liberdade de ganhar algo em troca, qualquer coisa que escolhesse ele daria sem protestos. Parece uma grande vantagem, não é mesmo? Mas me arrependi assim que os abracei na soleira da porta. Por trás das costas de Felicity vi a mesa do jantar pronta e músicas românticas dos anos 80 tocando baixinho. Tinha como dar meia volta? Pelo visto não, porque já era puxada por mãos e colocada como um bebê na cadeira.
Embebedei-me de vinho e os deixei conversar. No silêncio eu os analisei contestando o meu futuro. Meu namorado adoraria estar como eles. Eu gostaria de estar em Paris, transando com um pintor de quadros.
Fui ao banheiro algumas vezes, todas elas para ficar sentada no vaso sanitário, usando a internet do celular. Mexi em seus utensílios em pares, na versão feminina e masculina, lado a lado, tudo organizadinho. Até pintei as minhas unhas dos pés com o esmalte café de Felicity e li os livros de mecânica para Benjamim.
Da última vez que voltei à sala, uma xícara de chá havia sido posta. Meu namorado se gabava do quanto me conhecia, do quanto eu gostava de chá após o jantar. Mas eu pensava no esmalte café e queria tomar um desses bem forte, que deixam um eterno sabor amargo na boca. Tomei três goles e apaguei. Não sei ao certo como, em que posição, se foi em alguma vexatória ou não, mas provavelmente sim. Acordei em um quarto com isolamento acústico, uma luz branca sob a cabeça, o corpo estirado numa mesa retangular de metal, e meu namorado com as pernas cortadas gritando desesperado para um homem de vestimenta alva. A partir daí, eu sabia o que aconteceria, e não era coisa fácil de engolir. Por isso dei os primeiros passos de uma fuga, a tentativa de levantar, se debater e gritar. Levei um soco na cara e quem sabe meu nariz tivesse quebrado. Felicity voltou à cena, e o outro que cortava ao meio o tórax do meu namorado era o monótono Benjamim.
Minha premonição estava errada, aquele casal não ruiria compartilhando um passatempo tão peculiar. Viveriam felizes para sempre, palitando as dentaduras com ossos humanos, se banhando no sangue e rejuvenescendo a pele enrugada. Eu e meu namorado jamais viveríamos para presenciar isso, e, caso vivêssemos, perderíamos alguns membros pelo caminho.
Na tontura e pensamento acelerado mal percebi quando meu braço direito estava sendo arrancado bem rente ao ombro, sem desperdícios. Ele foi posto numa balança metálica, pesado e enrolado num plástico transparente, marcado com pincel para quadro branco e, por último, guardado cuidadosamente num congelador.
Estava prestes a desmaiar, mas toda vez que desejava ou tentava me entregar a esse desejo, Felicity se aproximava de mim para injetar algo no braço em que restava. Imaginei qual a utilidade de me deixar acordada, e fui muito tola em perder tempo discutindo mentalmente sobre o assunto. Óbvio que estavam curtindo a minha desgraça... Talvez odiassem a mim tanto quanto eu os odiava.
Os cortes que eram feitos, no conhecimento leigo que tinha, provavelmente estavam um bocando distante do cirúrgico. Em breve eu, literalmente, seria um monte de nada. Essa sensação sequer me incomodou quando, na verdade, ansiava-a com uma pressa mística. Se eu buscava o estado de calma, tentando aceitar que dali jamais sairia, meu namorado se debatia como um débil, fazendo um barulho irritante, ensurdecedor. Eu só queria mandá-lo calar a boca e quem sabe ditar uma piada sobre “aproveite o momento”, porque era o que nos restava.
Se já teve a infeliz oportunidade de ver um aleijado se debatendo, deve entender que no fundo do humor negro, misturado ao bizarro, há certa graça. O meu namorado era um tantinho de gente chorosa, sem suas pernas e, agora, perdendo o braço como eu havia perdido. Abatidos como dois porcos, em breve seríamos expostos na mesa com alguma receita à base de vinho branco. Foi um momento sinceramente triste... Embora eu entendesse o quão gostosa ficaria minha carne num cozimento bem feito, com as ervas certas e leve sabor ácido do vinho, entristecia-me a possibilidade de ser banqueteada ao som de Bryan Adams. No mínimo merecia um Beethoven no meio de uma festa calorosa com discursos sobre grandes poetas. Eu queria um velório digno de cem convidados e um palestrante, um fulano que declarasse que trabalhava em uma biografia sobre mim, um cicrano que estava compondo um CD todo inspirado nos meus infortúnios, um João da Silva que desse aos anfitriões um quadro com um das minhas pernas divida em duas e a outra completa, o conjunto formando um triângulo.
Fantasiava sobre o mérito da minha morte enquanto fatiavam meus órgãos e os pesavam na balança. Cantarolava a minha canção enquanto analisavam meus pés:
– Magro demais. – dizia Felicity, deixando-o de lado com desgosto.
E eu balançava a cabeça, embalada por palavras mórbidas do luto.
Meu namorado olhou para mim como um fantasma. Estava pálido e fraco, lutando para manter as pálpebras abertas, observando-me com certo carinho. Da minha orelha que acabava de ser arrancada, saía um riozinho calmo de sangue. Quando o vi chorar, suplicante ou pedindo perdão, tão amoroso com seus lábios dizendo “eu te amo”, eu só pude rir das cócegas que recebia da seiva da minha orelha. Tudo aquilo era uma piada, até como meu namorado havia me deixado. Ele perdera o pênis, as pernas, os braços e tiraram segundos depois os olhos dele... Era uma máscara cômica, desse tipo de imagem que aparece no meio de vídeos sobre joguinhos de pontos vermelhos, acompanhada de um grito medonho. Quem era a Regan perto dos restos do meu namorado? Nunca pensei que morreria assistindo um filme de terror de graça.
Perdi sangue o bastante para passar meus últimos minutos apagada. Felicity há muito parara de injetar qualquer dose idiota nas minhas veias. Agora eu estava acordada porque me divertia. Era o máximo que podiam fazer? Empalem-me agora mesmo, seus fracotes! Será possível que até num momento como esses vocês são dois imbecis? Eu continuava a odiá-los por não me proporcionarem um divertimento mais amplo. Se não fosse o meu humor aguçado, eu estaria morrendo – peço perdão pelo uso da palavra numa piada péssima – de tédio! Eu queria que, ao invés de cortarem o meu pé ao todo, arrancassem unha por unha e as triturasse para enfeitar o mousse de chocolate, que meus cabelos fossem amarrados num rolo mecânico que puxasse meu escalpo até expor meu crânio, desejava que meus olhos fossem arrancados com uma colher de sorvete, que minha língua fosse partida dividida ao meio por tesoura cega, que agulhas fizessem um vai-e-vem enfiadas na ponta dos meus dedos. Se eu estava na berlinda, que me dessem o melhor dela!
De fato, quando morri, estava cansada da brincadeirinha. Eles se gabavam do quanto havia sido fácil nos transformar em comida para o resto do mês. Eu os praguejava por terem enchido o meu saco até o último segundo. Se eu tivesse a opção de voltar à vida, com certeza mostraria a eles como se abate um porco.
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