The Archer

1 Capítulo único


Eu vou me encontrar novamente, eu prometo. E alguém balançando em uma antiga cadeira de vime diz que eu não deveria procurar as respostas em quem eu costumava ser. Eu vou encontrar exatamente quem eu devo me tornar. E alguém amarrando as mesmas botas surradas de sempre diz que eu deveria me acalmar até as coisas voltarem à sua trajetória usual.

Eu vou ser gentil com a alma mais impiedosa que passar por mim, porque eu sei que existe uma chance de esse coração se tornar genuíno novamente. E alguém arrumando a alça da bolsa à espera do próximo trem me diz que estou sendo ingênua demais, porque nem todos os corações são dignos de redenção como eu quis acreditar. Então eu vou montar minhas defesas e eu vou preparar minhas armas. E alguém pergunta, após pendurar a toalha de mesa sobre o batente da veneziana: “ó, céus... como vai enxergar a paisagem lá fora se construir muros ao seu redor?”

…Eu vou correr para o mais longe que meus pulmões aguentarem. E alguém preparando caçarolas para o jantar diz que eu não deveria exigir tanto de meus órgãos internos, afinal existem melhores razões para fôlegos desenfreados. Alguém poderia ficar? E há silêncio pela primeira vez em algum tempo.

Ninguém sabe disfarçar o olhar sobre uma garota caindo aos pedaços; mas ninguém se arriscaria em tentar salvá-la quando ela insiste andar sobre a areia movediça. “Seu coração era frágil demais para um desastre natural daqueles”, alguém comenta baixinho, diante dos meus passos. “Não seja tola, esse coração já causou catástrofes por onde passou”.

E eu pergunto quem recolheu os pedaços que eu abandonei pelos campos de batalha que meus pés traçaram, e eu pergunto se alguém estará aqui para recolher os meus quando eu acordar na manhã seguinte e não houver nada além de um corpo que passou pela guerra. Aonde estão os meus melhores homens? Por que sou eu quem tem que ficar na linha de frente? Eu pergunto se há algo para me agarrar, porque todos os meus heróis morreram sozinhos em tumultuosos combates internos.

E então eu lembro de seu rosto límpido e sereno antes do furacão, antes das estruturas serem levadas, antes das persianas saírem voando. Eu lembro da voz mais calma, e de como as mais violentas tempestades não passavam de ventanias irrelevantes toda vez que o abraço era a única casa que soava certo correr em direção. Quando os mesmos olhos quietos e os mesmos lábios hesitantes tornaram-se a razão pela qual coleciono tantos vasos quebrados e rachaduras de tantos tamanhos diferentes foi quando eu pensei ter entendido: todo o caos veio das calmarias pras quais abri a porta.

Alguém poderia ficar?, eu insisto, porque as linhas das fantasias que me consumiam prometiam mais do que um coração despedaço e o chão pegando fogo, porque deveria haver algo além do receio de caminhar dentro da fumaça.

Alguém poderia segurar meu pulso no meio da noite e tocar a ponta dos meus dedos e me aconchegar em um leito seguro enquanto todos os meus demônios batem nas janelas e pisam nas roseiras recém cuidadas?

E todos ainda encaram em silêncio porque eles veem através de mim, sem consenso se a garota estatelando-se no chão foi a presa ou o predador, se ela é uma caçadora astuciosa ou apenas mais um reflexo que não entra em acordo com suas limitações.

Eles veem através de mim e eu vejo através de mim e ele viu através de mim, e com meus joelhos prestes a encontrar o concreto e os olhos levantados para o mais alto que o céu permite ser observado eu pergunto por que todos me deixaram… E suplico por alguém que queira ficar.

Notas finais
Espero que tenham gostado! :)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!