The Apocalypse
18 Vulnerable
Notas iniciais
18
— Essa garota já te venceu umas três, Ron. É melhor desistir. – falou Mickey, uns segundos depois de eu ter acertado mais uma bola na caçapa. Estávamos na casa do Mickey, logo depois de termos andado um pouco de skate. Seu pai tinha uma enorme mesa de sinuca e tinha amarrado a camisa xadrez na minha cintura para poder jogar melhor.
— Eu concordo com o Mickey. Você não deveria me deixar ganhar. – falei, mirando outra bola na caçapa, um pouco curvada para poder acertar. Ele tentou fazer o mesmo, mas errou miseravelmente, quase deixando a bola branca entrar. – É pra jogar que nem uma moça, não é pra jogar que nem Ron.
Ron andou até meu lado e se curvou também, olhando para mim fixamente. Arqueei uma sombrancelha.
— Você disse para eu não te deixar ganhar. – falou ele, sorrindo levemente e mostrando seus dentes brancos. Sorri sem graça e errei ao tentar acertar outra bola.
— Eu vou vomitar o meu almoço e deixar os pombinhos a sós. – falou Mickey, indo em direção ao banheiro.
Ron ficou vermelho novamente e continuamos jogando em silêncio.
— Então, qual a sua história ? – perguntou Ron, se apoiando em seu taco.
— Como assim ?
— Sua história. O que você passou, o que você gosta… — falou ele.
— Bom, eu não tenho muita coisa interessante para contar.
— Todo mundo tem algo para contar. Essa cicatriz não fala o contrário. – falou Ron, tocando levemente o meu ombro, exibindo a cicatriz que ganhei ao cair em um caco de vidro na prisão. Ele se sentou no sofá de Mickey e deu leves batidas ao seu lado, indicando onde me sentar. Bufei e me sentei a seu lado.
— Eu sempre morei, desde pequena, em uma cidadezinha em Indiana. Meus pais, Henry e Teresa, se conheceram no último ano da faculdade. Ela estava estudando música e meu pai, estratégias militares. Eles me tiveram dois anos depois e se mudaram para uma casa juntos. – eu tentava segurar as lágrimas, mas elas se apressavam a rolar antes que me desse conta de que estava chorando.
Ron percebeu minha tristeza.
— Ei, se não quiser falar, ok. – falou ele. Ficamos um tempo quietos e ele levemente tocou minha mão, que logo se transformou em um aperto de mão no silêncio.
Ron silenciosamente começou a aproximar – se de mim. A ponta de seu nariz estava quase roçando no meu, causando uma sensação estranha. Era diferente da de quando via Carl, não era tão intensa mas ainda estava lá, fazendo meus órgãos estremecerem. Conseguia ver as leves sardas em seu nariz e os pontinhos verde – claros em seus olhos cor de pinheiro.
Me afastei dele subitamente, levantando do sofá e me virando de costas. Respirei fundo.
— Ahn, eu preciso ir. Deanna já deve estar me procurando. – falei, abrindo a porta da casa de Mickey e sai correndo.
Os raios de sol estavam colorindo o céu e o sol estava começando a desaparecer. Eu corria, sem me importar com as pessoas que provavelmente estavam me olhando. Um grupo de mulheres mais velhas segurando cestos de roupas e escarolas. Elas me olharam, surpresas por estar correndo, mas depois continuaram sua conversa sobre sei lá o quê.
Tinha que parar de correr, mas não conseguia. Eu estava sufocando com a rotina normal e totalmente vulnerável desse lugar.
Meus pés começaram a ceder e o ar já não estava entrando em meus pulmões. Apoiei minhas mãos em meus joelhos, enquanto ainda estava de pé, e respirei com dificuldade, tentando fazer a minha circulação de oxigênio voltar ao normal.
— Você tá bem ? – ouvi uma voz fina dizer. Olhei para cima e vi um garotinho de mais ou menos dez anos segurando uma coleira de couro, a qual um cachorro estava amarrado e ofegante. Ele tinha cabelos ruivos despenteados e sardas salpicadas em todo o seu rosto, o fazendo ficar adorável e com um olhar curioso. Eu ainda não tinha respondido sua pergunta.
— Sim, obrigada. Eu só estava… correndo. – terminei minha frase.
Ele assentiu e continuou caminhando. Fiz o mesmo, mas em uma velocidade menor. Não queria ser tachada de louca no meu primeiro dia aqui.
‘Pessoas adoráveis deveriam sobreviver a isso tudo.’ foi a primeira coisa que pensei. Mas não sei se queria que esse garotinho crescesse nesse lugar que nós chamamos de mundo. Ele pertencia aos mortos agora.
Abri a porta da casa de Deanna, aparentemente vazia naquele momento. Fui para a cozinha, decidida a fazer algo para comer. Não tinha muita coisa, a não ser algumas garrafas d’água e umas frutas. Fechei a geladeira novamente e andei pela casa, explorando.
Vi a ponta de algo que parecia uma mesa preta e andei até a sala, que era quase totalmente ocupada por um piano de cauda lindo. A frente dele, um banquinho de veludo vermelho praticamente me convidava a tocar uma música.
Me sentei e pousei meus dedos longos nas teclas, sentindo uma comichão na barriga pelo toque frio, mas familiar, do piano.
‘Seria clichê eu tocar algo agora ?’ perguntei a mim mesma, sabendo que tocaria de qualquer jeito.
Acabei tocando uma música antiga, que aprendi assistindo minha mãe tocar, ensinando uma turma mais velha. Lembro das tardes que passei quando era menor, dedilhando as teclas até minhas mãos doerem e da cara que minha mãe fez quando viu o esforço e o tempo que tinha usado para aprender uma singela música. Acho que ela gostou de ter alguém para quem ensinar o que sabia.
Meus dedos se moviam e se alinhavam rapidamente nas notas certas, nota atrás de nota atrás de pausa atrás de nota. Eu poderia tocar aquela música até de olhos fechados. Um sentimento totalmente novo se revelava em meu peito : mostrar minhas emoções através da música. Naquele momento senti que podia transformar uma música triste em algo feliz, com minhas próprias mãos.
Depois que terminei de tocar a música, meus dedos ardiam, junto com o sentimento de leveza em meu corpo.
— Você toca muito bem. – ouvi uma voz grossa dizer. Me virei de costas e vi Reg, encostado no batente.
— Eu não queria incomodar. – murmurei.
— Eu toco há muito tempo e sei um pouco sobre música. Você gostaria de aprender ? Sei que estar segura atrás de muros é legal, mas não tem muito o que fazer.
Sorri, concordando. Passei um tempo falando com Reg e combinamos dele me ensinar todas as tardes que ele estivesse livre. Fizemos uma sopa enquanto conversávamos e comemos logo depois que Deanna chegou, Aidan e Spencer iriam beber e obviamente, Deanna não gostava disso nem um pouco.
Depois de comermos, Deanna foi me apresentar o andar de cima da casa. Era igualmente bonito e tinha cinco quartos enormes. Ela me mostrou a porta e entramos em um dos quartos, que ela disse agora ser meu.
As paredes totalmente brancas e o piso era de madeira clara. No centro de uma das paredes, estava uma cama de casal com lençóis azuis escuros e uma muda de roupa em cima. O quarto também tinha uma escrivaninha de madeira polida com alguns livros e discos de vinis, um banquinho e um armário de portas abertas, sem nenhuma roupa.
— Bom, aqui vai ser seu novo quarto.
Passei a mão pela madeira polida até chegar na lombada de um dos livros. Olhei a capa, me surpreendendo com a capa vermelha e uma arvóre com tronco marrom e folhas de um verde tão claro que confundia com branco. O Sol é para Todos. Coloquei ele de volta na estante, paraolhar os vinis. A trilha sonora do Homem de Ferro 2, um albúm do Led Zeppelin, o albúm ‘1’ dos Beatles ( que fiquei de queixo caído quando vi) e o A Night at Opera do Queen. Eram álbuns incríveis, nunca achei que ia encontrar algum desses em toda minha vida. Minha mãe sempre dizia que hoje em dia vinis famosos e em bom estado eram quase impossíveis de encontrar.
— Spencer e Aidan acharam numa loja de discos. Conseguiram também duas vitrolas e um monte de cds. A maioria ficou com Ron e o amigo dele, Mickey, mas uma das vitrolas ficou aqui. Você vai querer ?
Assenti com a cabeça enquanto lia as músicas de ordem alfabética do disco. A Hard Day’s Night. All You Need Is Love. Can’t Buy Me Love. Come Together. Day Tripper. Eight Days a Week. Eleanor Rigby. From Me To You. Get Back
— Bom, vou deixar você sozinha. – falou Deanna, saindo do quarto.
Me joguei na cama, pensando o que tudo isso queria dizer. Roupas limpas, uma casa segura, comida quente. Deveria ter algo a mais em tudo isso. Aqui não parecia ser como o Terminus, mas tinha certeza de que as pessoas não podiam ser totalmente inocentes nesse mundo. O que será que eu teria deixado passar ?
Pensei nisso enquanto me vestia. Vesti a calça de moletom preta que Deanna deixou para mim e uma regata cinza. Me enrolei nas cobertas quentes e pensei por horas no que deveria fazer amanhã. Com certeza precisaria sair desse lugar, explorar e saber onde estava, talvez fazer um plano e arrumar armas e mantimentos caso algo desse errado.
Mas eu só tinha certeza de uma coisa : eu não poderia ficar vulnerável.
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