The Anchor
26 Sendo um pouco castigada da melhor forma possível.
Notas iniciais
Capítulo 25.
“Algumas pessoas dizem que se você fugir muito de alguma coisa, é quase certeza que essa coisa irá se aproximar mais de você, mesmo que você relute. Ou seja, quanto mais você tentar fugir, mais as chances de aproximação aumentam, te deixando num real beco sem saída. Elas também dizem que quando você faz algo de ruim com alguém, essa coisa acaba voltando indiretamente pra você.”
E eu acreditava naquilo. Eu acreditava que quando as pessoas faziam coisas ruins, o mundo daria um jeito de fazê-las pagar, e que quando uma coisa é pra acontecer, ela vai acontecer. Você querendo ou não.
Mas eu não tinha feito algo contra alguém. Não algo sério o bastante para que o mundo precisasse me fazer pagar. E eu acreditava que o mundo era severo quando precisava julgar as atitudes de alguém. Então, não. Eu nunca tinha feito algo sério contra ninguém, e se, um dia, eu precisasse fazer, seria com uma pessoa que realmente merecesse.
Então por que aquilo estava acontecendo? Era por que eu tinha tentado fugir, mas meu interior desejava o contrário, então acabei facilitando tudo ou até mesmo me aproximando? Eu não sabia, mas sabia que se, talvez, eu tivesse me esforçado mais e conseguindo convencer a mim mesma que precisava me afastar dele, eu não estaria naquela situação. Naquele campo abandonado. Naquela tarde. A sós. Com ele.
Ou era por que, seguindo a primeira teoria, quanto mais você foge de algo, mais esse algo se aproxima de você? Eu não sabia.
Não que aquilo fosse algo ruim, o problema era que era o contrário. Eu sabia que, pra mim, era algo maravilhoso. Completamente maravilhoso. Eu não estava buscando respostas mentais para a resposta da questão “por que isso está acontecendo entre Victor Stonem e eu?” porque eu odiava a situação, e sim porque eu a amava. Aquele era o problema. E porque eu precisava de respostas. Durante toda minha vida, sempre precisei de respostas para tudo, principalmente coisas que me deixavam mais confusa e frustrada que o normal.
Eu sempre precisei ter o controle de tudo.
Mas Victor não me dava respostas, e talvez ele nunca fosse me dar uma. Ele simplesmente ia lá e agia, sem se importar em dar uma explicação ou qualquer outra coisa. Ele tinha tudo calculado em sua cabeça, mas gostava de ver as pessoas confusas. Ele adorava ser imprevisível. Era definitivamente o tipo de pessoa que eu sempre procurei manter distância. Não porque eu queria ter uma vida perfeita e longe de problemas, mas sim por medo do tipo de coisas novas e extraordinárias que aquele tipo de pessoa poderia me mostrar.
Eu tinha medo de viciar naquelas coisas. Não coisas como drogas ou bebidas. Coisas como viver intensamente, agir sem pensar nas consequências (irônico, porque eu me considerava a rainha do impulso) e não ter medo. Eu tinha medo de viciar numa pessoa daquele tipo. Eu tinha medo de ver o que a vida tinha a me oferecer. Eu tinha medo.
Eu não queria abrir mão do controle. O problema era que, com Victor, eu abria, e não podia fazer nada. Controle era tudo que tinha, desde sempre, e com ele eu simplesmente não tinha mais. Na realidade, parecia se tornar algo que nunca possuí de verdade. Eu nunca estive pronta para abrir mão do controle, mas Victor não se importava. Ele simplesmente não se importava.
Eu ainda me perguntava mentalmente o motivo daquilo estar acontecendo. Se eu nunca tinha feito nada contra alguém e não tinha realmente tentado me afastar, por que seria? Existia uma opção número três?
A resposta era sim. Existia. E eu percebi segundos depois de me perguntar aquilo mentalmente, apenas não sabia se era a opção correta ou não.
Será que aquilo era para acontecer?
A partir do momento em que percebi que sentia algo por Victor, eu soube que o principal motivo de relutar, de não me entregar, de resistir, era porque eu tinha medo. Eu tinha medo de me envolver.
O problema era que eu era cega demais para perceber que eu já estava envolvida.
E foi com aquele último pensamento assustador, que sai da minha própria cabeça e voltei ao mundo real. Aquilo ainda estava acontecendo, o que não me deixou surpresa. Eu costumava conseguir pensar em muitas coisas em questão de segundos.
Então, finalmente sendo afetada pelo choque da situação, eu arregalei os olhos. Victor estava com os olhos fechados e os lábios pressionados com firmeza contra os meus. Apesar de usar um pouco de força, seus lábios eram tão macios e receptivos como eu me lembrava da última vez que nos beijamos. Mas no carro eu tinha retribuído, mesmo estando igualmente chocada, e ali eu não sabia como agir.
Metade de mim queria arranjar forças para me afastar e brigar com ele, dizer que aquilo não aconteceria nunca mais e simplesmente pedir para ir pra casa, jurando que nunca mais olharia na cara dele.
Mas a outra metade queria retribuir e finalmente poder senti-lo novamente, mesmo que fosse acabar sendo só um selinho, como da última vez. E eu sabia que não conseguiria ficar sem olhar para Victor, e não era apenas porque estudávamos no mesmo colégio.
Meu subconsciente sabia que se eu não fizesse algo logo, ele acabaria se afastando por si próprio. Eu só precisava decidir se deixaria ou não ele fazer aquilo.
Eu não tinha mais o controle. Eu estava com medo, sim, mas eu queria. Meu corpo queria, minha alma queria, eu o queria por inteira de uma forma inexplicável. Eu não sabia o que aconteceria depois, eu não tinha a mínima noção de como agiríamos um com o outro, mas naquele momento eu tomei uma decisão.
Não resista. Aproveite. Não pense. Nem que seja só por uma vez. Depois você pode voltar a mentir para si mesma. Simplesmente faça, Geovana. Faça.
E, com aquilo em mente, eu fechei os olhos lentamente, desfiz a postura rígida e entreabri meus lábios, acomodando melhor os dele.
Poderia ser impressão ou coisa da minha cabeça, mas por um segundo senti que ele sorriu de leve. Ele sabia que eu tinha abaixado as armas, quebrado os muros e finalmente me rendido.
Meio hesitante e tentando não tremer, minhas mãos subiram lentamente e tocaram seu rosto com delicadeza. Eu estava nervosa, claro que sim, por alguns motivos.
1- Eu não tinha beijado muitos garotos durante toda minha vida — mesmo que Victor estivesse apenas me dando um selinho (havia a chance dele transformar aquilo num beijo de verdade) —, e o último definitivamente não era recente.
2- Obviamente eu tinha sentimentos por ele.
3- Ele era bem mais experiente que eu.
4- Eu estava ansiosa, além de saber que tinha esperado muito tempo por aquilo.
5- Ele era um cara bonito. Ah, por favor, ele era lindo.
Deslizei meus dedos com a mesma delicadeza de antes por seu maxilar bem definido, sentindo-o relaxado, diferente de mim. Eu não sabia como, mas senti-lo naquele momento me deixou surpreendentemente mais calma e normalizou as batidas descompassadas do meu coração. Como se ele fosse um remédio capaz de curar qualquer doença. Levei os dedos para sua nuca, finalmente afundando os dedos em seus cabelos, como sempre quis fazer. Macios, e muito sedosos.
Tive vontade de soltar um suspiro relaxado, mas não o fiz. Apenas fiquei ali, parada, mas sem parecer uma estátua. Não estava frígida, estava esperando. Apenas esperando.
Eu não sabia o que aconteceria, na realidade. Não sabia se ele simplesmente se afastaria e me daria apenas um selinho, como da última vez — se ele fizesse, eu provavelmente o mataria, porque eu precisava beijá-lo.
Ou se ele transformaria aquilo num beijo de verdade, que era o que eu queria que fizesse. Eu estava curiosa para saber o sabor do beijo dele e ansiosa para finalmente beijá-lo. Não seria justo se ele me beijasse e simplesmente se afastasse. Mesmo prestes a ter um infarto por dentro, meu corpo não parecia demonstrar que eu estava daquela forma. Minha respiração estava normal, meu coração também, meus olhos estavam fechados calmamente e eu não estava tremendo. Era como se estar tão perto de Victor fosse como um real calmante pra mim, algo do tipo.
Mas que ele tinha um efeito maior que o normal em mim, ele tinha. O que não era novidade.
E então aconteceu. Eu estava pronta para pensar e supor mais alguma coisa ou atitude que ele poderia ter, ou até mesmo ter mais um dos meus momentos “pensar em mil coisas em questão de segundos”, mas fui interrompida porque, sim, ele teve uma atitude.
E fez o que eu mais desejava que fizesse.
Os dedos de uma mão que pressionavam meu rosto desceram até minha cintura, imprensando-a um pouco de encontro ao corpo dele, como se quisesse se certificar que eu não me afastaria. Por Deus, eu definitivamente não faria aquilo. A outra mão de Victor deslizou para minha nuca, e eu senti quando ele virou um pouco a cabeça e afastou minimamente os lábios dos meus, apenas para colá-los novamente com um beijo de verdade.
Nem em mil anos eu conseguiria descrever a sensação, definitivamente. Eu poderia tentar, tentar e tentar, mas nunca conseguiria colocar em palavras o que senti naquele momento. Foi completamente inexplicável. Sempre achei que nunca conseguiria sentir aquilo em um beijo com qualquer cara, sempre acreditei que era coisa de livros de romance e que na vida real não era possível se sentir tão bem apenas com um beijo. Mas eu estava errada. Miseravelmente errada. Não era apenas um beijo, estava longe de ser. Era como se todos os meus sentimentos por Victor fossem ampliados e estivessem sendo passados naquele simples toque de lábios, mesmo eu não tendo a mínima noção de como e quais eram. Eu sentia que ele estava sendo retribuindo meus sentimentos, o que com certeza era coisa da minha cabeça, mas não importava, porque era simplesmente incrível me sentir daquele modo.
Quando nossas línguas se encontraram em um toque tão delicado que me surpreendeu, eu senti que mil velas apagadas foram acesas dentro de mim, todas ao mesmo tempo. Era como se antes eu estivesse no completo escuro, mas quando ele me beijou, todas as lâmpadas do mundo se acenderam. Parecia que eu estava caindo de um abismo, então ele simplesmente apareceu e me puxou de volta.
Algo em meu interior se revirou, mas não de forma ruim, e sim de modo absolutamente agradável.
Não vi fogos de artifício ou ouvi sinos, mas senti um frio intenso na barriga, seguido de um calor que me fez sentir completa e se espalhou por todo meu corpo, fazendo-me finalmente soltar o suspiro que estava preso desde o momento em que nossos lábios se encostaram. Eu sinceramente não sabia o que ele tinha achado daquilo, mas percebi que gostou quando sorriu contra meus lábios e me beijou novamente.
No começo eu estava um pouco receosa, mesmo que soubesse que era uma das coisas mais incríveis que eu já tinha sentido na vida. Mas depois de poucos segundos, depois de sentir suas mãos firmes apertando minha cintura e minha nuca, eu simplesmente me entreguei. Eu estava me sentindo acesa, como as velas e lâmpadas dentro de mim. Resgatada, sendo salva do meu próprio abismo. Era como se estivesse flutuando, realmente nas nuvens, mas eu tinha noção de que estava ali. E aquilo era maravilhoso. Era absolutamente maravilhoso.
O beijo de Victor definitivamente era melhor do que eu tinha imaginado que era — graças ao meu sonho com ele e até os momentos em que passei acordada refletindo como seria beijá-lo até ficar sem fôlego. Era melhor porque era completamente real, era presente, era intenso. Ele me beijava como se eu fosse a única garota no planeta, como se nada tivesse feito sentido até aquele momento, como se precisasse me mostrar que valia a pena e que eu não me arrependeria.
Se era o que ele queria me fazer sentir, estava conseguindo.
Não se tratava apenas de sentimentos. Claro que eles estavam envolvidos, e talvez eles que fizessem aquele momento parecer a coisa mais mágica do mundo pra mim, mas era físico também. Eu nunca pensei que cada célula do meu corpo poderia implorar por mais de algo, em uma perfeita explosão de desejo e realização.
Eu não conseguia definir o gosto dos seus lábios, ou assemelhar com alguma coisa naquele momento, mas eram como um tipo de droga. Era estranho comparar com aquilo, mas muito fiel. A cada segundo que passava e nós continuávamos nos beijando, eu sentia que precisava de mais e poderia beijá-lo por horas seguidas, sem parar, sem cansar ou reclamar. Seus lábios eram extremamente receptivos, como se o lugar da minha boca fosse colada na sua.
Nossos lábios se encaixavam perfeitamente, mesmo que os meus fossem mais cheios que os dele. Tratava-se de uma química perfeita, e não parecia a primeira vez que fazíamos aquilo.
Ele percorria cada centímetro da minha boca com habilidade, e eu não sabia definir quando um garoto beijava bem ou não, mas Victor Stonem definitivamente beijava maravilhosamente bem.
Ele me fazia querer mais, mais do seu toque, mais das suas mãos no meu corpo, mais do seu cheiro, mais da sua boca, mais da sua língua, mais da sua pele, mais do seu beijo e mais da sua respiração quente acariciando meu rosto.
Eu nunca gostei muito de falar de beijos em si ou imaginá-los com muitos detalhes, porque pra mim aquela coisa de língua com língua, “trocando saliva” (como Dan definia beijos, de brincadeira) e etc, era mais agradável apenas no momento a dois, e minha experiência com beijos nunca foi muito boa — o que fez com que eu me sentisse um pouco insegura enquanto Victor me beijava numa terceira vez, porque eu não sabia se beijava bem, já que nunca tinha perguntado a alguém que beijei.
Mas, bem, se ele tinha se afastado e naquele momento estava me beijando uma terceira vez, não era porque estava sendo forçado. Nossos beijos não estavam sendo nojentos ou estranhos de imaginar. Não eram “línguas travando uma batalha sem vencedor” ou algo do tipo. Não era uma bagunça, e apesar dele ser mais experiente que eu, nós estávamos tendo uma sintonia que me fez dar graças a Deus por existir. Nossos beijos eram algo que para mim era tudo, menos ruim. De sentir, de descrever e de imaginar. Era algo natural, sem explicação. Aquele tipo de coisa que você só entende quando sente.
Era mais como uma dança. Uma dança lenta, que era tão boa que parecia ter sido ensaiada por horas, apenas para ser executada com perfeição. Ele era como meu professor, me ensinando os passos que deveriam ser seguidos, me mostrando os movimentos certos, ao mesmo tempo que me dava liberdade para improvisar.
Uma dança. A nossa dança. Que não seria apresentada a ninguém, em nenhum palco, porque era algo íntimo e exclusivo de nós dois.
Aos poucos a dança, o beijo, ou o que quer que fosse, foi se tornando sensual, o que foi uma atitude da parte de Victor, mas me esforcei para segui-lo. Eu tentava imitá-lo e beijá-lo com a intensidade que ele me beijava, explorando cada parte de sua boca e querendo fazê-lo sentir ao menos um pouco do que eu estava sentindo.
Comecei a esquentar gradativamente, e um arrepio percorreu minha espinha. Sem conseguir me controlar, puxei um pouco os cabelos negros dele e colei ainda mais nossos corpos (como se fosse possível). Meu corpo estava agindo por si próprio, eu não tinha mais o controle dele, e eu sabia o que estava acontecendo. Eu estava excitada, demais, até. O frio na minha barriga, os pelos do meu corpo eriçados e o calor que parecia vir principalmente do espaço entre as minhas coxas indicavam aquilo.
Na medida em que a intensidade do quarto ou quinto beijo foi aumentando, meu corpo já não pedia por mais, ele exigia. O toque de Victor em minha cintura passou a ser mais forte, mais intenso (e ele até me deu algumas mordidas leves no lábio inferior), e me surpreendi quando ele mesmo puxou os cabelos da minha nuca, quebrando o beijo e me fazendo jogar a cabeça para trás, deixando todo meu pescoço exposto.
Não abri os olhos, e estava tão envolvida que só percebi que precisava respirar quando ele tomou a iniciativa de se afastar. Minha boca se abriu um pouco, o que fiz para poder sugar o ar, o que deixou claro o quanto eu estava ofegante. Meus pulmões queimavam, e eu não fazia ideia de como tinha conseguido ignorar os protestos deles. Durante as curtas pausas nos beijos, que Victor tinha feito apenas para ele mesmo respirar um pouco antes de me beijar, eu puxava ar para os pulmões por poucos segundos, e realmente acreditei ser o suficiente. Não era.
Ele aproximou os lábios do meu maxilar, e eu pude sentir sua respiração tão forte quanto a minha, o que fez com que eu me arrepiasse dos pés à cabeça. Permaneci quieta, tentando normalizar minha respiração e querendo ao máximo aproveitar aquilo. Era muito excitante estar de olhos fechados, porque eu simplesmente sentia, além de não saber o que ele pretendia fazer comigo, porque via apenas a escuridão. Eu sabia que Victor provavelmente estava sorrindo, gostando de me ver daquele modo, porque eu indiretamente estava o deixando no controle. Mas tudo bem, eu estava adorando.
Ele deu um beijo no meu maxilar, distribuindo então mais selinhos úmidos com os lábios entreabertos, indo na direção do meu pescoço, como se traçasse uma linha invisível. A cada movimento eu sentia que minha sanidade e meu autocontrole estavam se esvaindo, assim como sentia claramente sua respiração quente contra minha pele — que parecia estar em chamas.
Victor afastou meu cabelo lentamente, fazendo-o cair como uma cascata violeta por minhas costas. Quando ele chegou ao local desejado, deu um selinho quente e demorado, sem nenhuma pressa, me surpreendendo e me deixando arrepiada. O que com certeza ele notou. Suas mãos pareciam famintas, mas ele parecia estar se controlando, como se estivesse tentando me fazer aproveitar o máximo possível. Mordi meu lábio inferior, adorando a sensação de ter seus lábios tocando naquela parte sensível do meu corpo. Não, eu nunca tinha imaginado que seria tão bom ter alguém beijando meu pescoço e que era uma parte realmente sensível, porque sempre achei que coisas como chupões eram consideradas excitantes apenas pelo calor do momento. E talvez fosse culpa do calor do momento, mas eu estava sentindo mais calor que o próprio momento.
Então Victor capturou minha pele entre os dentes com destreza, pressionando as pontas gélidas dos dedos na outra parte do meu pescoço, por fim me dando um forte chupão.
Eu não sabia muito bem a expressão que eu tinha feito, até porque eu não podia me ver, mas minha boca se abriu num perfeito “o”. Nenhum som escapou dela, na realidade o que pareceu sair dali foi todo o ar do universo, e eu sabia que estava estampado na minha cara o quanto eu tinha gostado. Arfei. Eu só não sabia que um chupão poderia fazer aquilo com uma pessoa. Senti todo meu corpo se contorcer, mas não foi de dor, e sim de prazer. Ele não esperou mais nada, simplesmente se afastou e fez novamente. E novamente, até que eu pressionei meus dedos na sua camisa, agarrando-a e chamando sua atenção, fazendo-o parar antes que fizesse uma quarta vez.
Com certeza ele estava deixando marcas, o que eu não devia ter deixado acontecer. Simplesmente porque minha irmã era pior que o FBI, e se ela visse que eu estava com chupões no pescoço, não descansaria até achar o culpado. E quando ela descobrisse que era Victor Stonem? Uma palavra. Fodeu. Jennifer nunca acreditaria na desculpa do “eu caí”, na realidade nem minha mãe acreditaria.
— Não... — murmurei, reunindo forças sabe-se lá de onde. Abri os olhos, soltando um pouco sua camisa e voltando minha cabeça para a posição inicial, olhando-o de muito perto. Os lábios de Victor estavam adoravelmente vermelhos, e eu sabia que eu não estava muito diferente. Deus, eu queria beijá-lo de novo. — Não posso ficar com marcas.
Ele aproximou os lábios da minha orelha, do outro lado do pescoço. Trocou a mão de lado também, fazendo pressão na parte marcada enquanto beijava a área entre meu pescoço e meu ouvido. Soltei um suspiro baixo, revirando um pouco os olhos e fazendo pressão em seu pescoço com meus dedos, tentando lutar contra a vontade de esquecer o que estava dizendo, fechar os olhos e aproveitar. Eu estava me sentindo uma boneca, e meu corpo estava tão mole e entregue que eu realmente parecia uma.
— Por quê? — sua voz estava tão baixa e rouca que se tornou o sinônimo de sexy pra mim. Estava ficando cada vez mais difícil me manter sã, e claro que ele estava fazendo de propósito. — Você está se segurando para não gemer, farm girl, porque você sabe que é o que eu quero que faça... — mordeu o lóbulo da minha orelha, fazendo minha pele se arrepiar instantaneamente. Mordi o lábio. — Deus, como você é sensível. — soltou uma risada arrastada, adorando aquela situação.
Ele estava certo sobre as duas coisas. A primeira, sim, eu estava me segurando para não gemer. Porque mesmo sabendo que eu já estava entregue demais para voltar atrás, eu não queria que ele soubesse. Não queria dar aquele gostinho de vitória a ele, ao menos não ainda. Porque eu sabia que se ele continuasse naquele ritmo, eu não conseguiria me segurar por muito tempo.
A segunda, eu realmente era muito sensível. Não sabia se era porque eu nunca tinha sido tocada daquele jeito por alguém, então era tudo muito novo pra mim, ou se era porque eu estava muito envolvida com a situação e o momento.
Jennifer. Pense na Jennifer... pense na Jennifer...
— Prometa que não vai mais me dar nenhum. — tentei soar firme, referindo-me aos chupões. Ignorei tudo que ele disse anteriormente de propósito. O empurrei um pouco no peito, fazendo-o afastar os lábios da minha pele e me olhar. — Prometa. — insisti.
Eu estava orgulhosa de mim por ter conseguido afastá-lo e fazê-lo me ouvir.
— Eu não faço promessas. — falou, olhando-me atentamente.
Não me abalei, sustentando o olhar dele. Se ele achava que eu iria recuar, estava muito enganado. Claro que eu queria continuar com os beijos, mas precisava fazê-lo prometer. Ele poderia prometer e não cumprir — não prometer não era uma opção —, mas talvez, só talvez, ele tivesse alguma honra.
— Você também não faz piqueniques. — lembrei, provocando-o com um sorriso meio debochado. — Mas aqui estamos. Não é, Stonem?
Victor cerrou os olhos, mas um sorriso provocativo brotou em seus lábios, enquanto os dedos de uma mão acariciavam minha cintura e os da outra passeavam livremente por minha clavícula exposta. Eu não sabia se ele tinha a intenção de ser discreto ou não, mas percebi que quando olhou para os dedos que estavam na minha clavícula, deu uma boa olhada no meu decote, antes de voltar a olhar para meu rosto. Alargou o sorriso.
— Se todo piquenique acabasse assim, se tornaria um hábito meu.
Senti meu rosto esquentar. Merda. Desviei o olhar de seu rosto, e naquele momento uma folha ao lado do meu corpo se tornou extremamente interessante. Não voltei a fitá-lo, apenas pigarreei e voltei ao assunto:
— Prometa.
Ele suspirou profundamente, e quase pude vê-lo revirando os olhos. Com certeza não gostava de ter alguém controlando o que podia ou não fazer. Esperei que ele soltasse um “ou o quê?”, mas não foi o que fez.
— Tudo bem, eu prometo. Feliz? — ironizou a última parte. Prendi o riso e por impulso o olhei, adorando vê-lo meio irritado. Eu estava pronta para responder com um “demais”, mas ele me interrompeu antes mesmo que eu começasse: — Agora cala essa boca e use-a pra outra coisa.
Não tive tempo de entender direito o que ele disse, respondê-lo ou simplesmente ficar surpresa com como seu tom de voz mudou de irritado para feroz e autoritário, pois no segundo seguinte Victor me empurrou, fazendo minhas costas baterem na grama, deixando-me deitada naquela imensidão verde. Antes que eu pudesse ao menos piscar, ele se colocou em cima de mim e colou nossos lábios de modo meio desesperado.
Arregalei os olhos pela terceira vez (ao todo) após ele me beijar, mas daquela vez eu não estava tensa ou chocada, apenas surpresa. Genuinamente surpresa.
Rapidamente os fechei, retribuindo ao beijo e ficando mais surpresa ainda quando percebi que ele não era o único sedento. Subi as mãos pelos braços de Victor, passando por suas costas e parando em sua nuca, puxando seus cabelos sem muita força. Aquele não era um beijo delicado ou carinhoso, na realidade estava longe de ser. Eu podia claramente sentir o desejo que emanava de nós dois, a necessidade e a vontade.
Não demorou para que eu sentisse todo meu corpo aceso novamente, quente, esperando para ser tocado por aquelas mãos firmes que conseguiam me fazer suspirar sem esforço.
Ele estava com o corpo colado ao meu, mas apoiado nos cotovelos, como se não quisesse depositar seu peso sobre mim. Colocou um braço acima da minha cabeça, apoiando-se ali, deixando a outra mão livre. Sua mão desceu lentamente, parando na barra da minha blusa. Victor prendeu meu lábio inferior entre os dentes, puxando-o com força e então sugando-o, voltando a me beijar. Fui pega desprevenida e prendi um gemido de dor e prazer, sem saber muito bem qual estava predominando, ou como era possível sentir as duas coisas ao mesmo tempo. Por impulso, puxei seu cabelo com força, mas ele não reclamou, apenas continuou me beijando como se me quisesse só para ele.
Eu sabia que provavelmente ele tinha feito de propósito. A mordida em si doeu, mas o prazer também fez parte por causa do momento, e porque estávamos nos beijando, além de que a língua dele acariciou o local segundos depois, me fazendo esquecer qualquer dor existente.
Ele estava sendo muito feroz, e aquilo não estava me incomodando, porque era muito excitante. Era um pouco assustador pra mim me sentir daquele jeito com atitudes tão brutas, mas eu sabia que estava adorando, e não tinha como esconder. Eu não poderia esperar outra coisa dele, afinal. Quanto mais ele fazia, mais eu queria. Era um desejo gritante. Era como se Victor quisesse arrancar minhas roupas ali mesmo.
Ele colocou a mão por dentro da minha blusa, me fazendo tremer quando senti seus dedos frios diretamente na minha barriga, apertando minha pele. Não reclamei ou tirei sua mão dali, eu queria que ele me tocasse.
Ficamos daquele jeito por longos minutos, e eu não sabia como seu corpo não estava doendo por ficar tanto naquela posição.
Talvez estivesse, mas ele não mudou.
Quebramos e retomamos nossos beijos várias vezes, pela necessidade de respirar, e a cada segundo eu sentia que poderia e iria explodir. Eu estava esperando meus lábios ficarem dormentes. Puxei seus cabelos tantas vezes que perdi a conta, mas sabia que provavelmente estava doendo e uma hora ou outra eu arrancaria muitos fios, mas Victor não reclamava. Ele parecia gostar, na realidade.
Sem nenhum aviso prévio, sua mão que estava por baixo da minha blusa desceu, e afastou minhas pernas com ferocidade, abrindo-as sem esperar qualquer atitude minha. Ele ficou entre elas, passando uma delas por seu quadril e colando seu quadril ao meu. Minha reação automática foi passar minha outra perna também, abraçando seu corpo com elas, mas fui obrigada a quebrar nosso beijo para gemer.
Sim, eu gemi. Eu sabia que ele provavelmente estava comemorando internamente, e eu também sabia que não deveria ter feito, mas simplesmente escapou da minha garganta da forma mais rouca possível. Eu gemi porque, quando Victor colou seu quadril ao meu e ficou entre minhas pernas, eu pude sentir claramente sua ereção contra a área entre minhas coxas. Outra coisa que eu não sabia era que era tão delicioso senti-lo daquela forma, mesmo por cima de tantos panos. Se eu já estava excitada antes, naquele momento eu estava à beira de um colapso, ainda mais porque saber que ele estava tão excitado quanto eu, e por minha causa, era magnífico.
Permaneci de olhos fechados, com as mãos segurando o rosto dele, sentindo meu corpo queimar, como meus pulmões.
Dei-lhe um beijo, que foi rápido, porque realmente precisávamos de ar. Victor levou a mão livre para minha coxa, apertando-a com força, arrastando a mão por ali. Usou-a como impulso para fazer mais pressão com seu quadril contra a área mais sensível do meu corpo. Daquela vez eu não gemi, mas ofeguei e arranhei um pouco seus braços, afastando uma mão de seu rosto para aquilo. Eu sentia que ele estava de olhos abertos, atento as minhas expressões e reações, mas não abri os meus.
— Você gosta disso? — perguntou baixo, dando uma mordiscada no meu queixo, provocando. — Gosta de me sentir assim, e saber que é por sua causa?
Sabendo que não tinha mais como fingir ou esconder, eu simplesmente assenti duas ou três vezes, mordendo meu próprio lábio inferior, apenas para senti-lo passar a língua de leve ali, mordendo com força, como se quisesse me mostrar que também podia morder quando quisesse. Cretino.
Gemi, sentindo-o apertar mais a mão na minha coxa. Num gesto que foi automático, apertei mais minhas pernas ao redor dele, sentindo sua excitação contra a minha mais uma vez. Aquilo era definitivamente maravilhoso.
Victor soltou uma risada ao ver que eu estava desesperada para senti-lo mais — eu não sabia o que “mais” significava na cabeça dele, na realidade eu não sabia nem na minha naquele momento.
Nós já não estávamos tão ofegantes, então ele colou nossos lábios, me dando um beijo de tirar o pouco fôlego que tínhamos. Mordeu minha boca uma, duas, três, quatro vezes. Eu sentia meu lábio inferior latejando de dor, provavelmente (com certeza) inchado.
— Minha boca está doendo. — resmunguei, quando nos afastamos minimamente.
Ele riu, rouco. Recolheu a mão que estava na minha coxa, subindo-a. De modo atrevido, fez questão de apertar um dos meus seios, me fazendo morder o lábio — mesmo estando dolorido. Outra coisa que eu não sabia que era provocava uma sensação tão boa. Mas Victor não focou nos meus seios, ele tocou meu rosto e pressionou o polegar contra meu lábio inferior, depois o superior.
— Está bem vermelha... — comentou, mas eu sentia que estava sorrindo maliciosamente, orgulhoso de si mesmo. Seu polegar passou por todo meu lábio inferior novamente, contornando-o, deslizando para dentro da minha boca. Aquilo me pareceu um pedido, então sem nem saber o que diabos eu estava fazendo, o chupei lentamente. — Olha pra mim, garota. — pediu baixo, mas firme e decidido, afastando o dedo dos meus lábios.
Naquele momento percebi que quando ele falava baixo, ou com a voz rouca, seu pouco sotaque se sobressaia. Talvez eu já tivesse notado antes, mas era algo bom de ouvir o suficiente para ser comentado mais de uma vez.
Abri os olhos sem pressa, encarando-o. Eu não sabia como minha boca estava, mas novamente a dele se encontrava vermelha. Mas o que mais me chamou atenção não foi sua boca, e sim o brilho em seus olhos. Chama. Desejo. Puro desejo. Eu nunca tinha visto aquilo nos olhos de alguém antes, apenas nos dele. Todo meu corpo se arrepiou ao fitar aqueles olhos que estavam mais escuros que o normal. Ele apenas tinha me olhado daquele jeito quando gemi sem querer, no momento em que fingi ter torcido o tornozelo.
Parecia estar me despindo com o olhar. Mas não fiquei envergonhada, eu estava excitada com tudo aquilo e fascinada demais com ele para ficar.
Seu polegar novamente tocou em meus lábios entreabertos, pedindo passagem, ao mesmo tempo em que parecia acariciar minha boca. Os abri mais, deixando que Victor fizesse o que queria, por mais que eu não soubesse exatamente o que ele queria. Mais uma vez, seu dedo deslizou entre meus lábios, roçou em meus dentes e entrou na minha boca de modo delicado e lento. Eu estava hipnotizada, olhando para os olhos dele. Não conseguia desviar, e não conseguiria nem se quisesse.
Ele me enviou uma mensagem clara e silenciosa com o olhar.
Obedecendo-o, fiz o mesmo de antes. Chupei sem pressa seu polegar, mas, diferente da outra vez, eu estava olhando diretamente para seus olhos. Eu estava lhe dizendo muitas coisas, mesmo estando em silêncio. E ele respondia. Conversávamos apenas com os olhos.
Ele desceu os olhos e parou na minha boca, observando-a fazendo o trabalho, até o momento em que acabei. Segurou meu rosto firmemente com aquela mesma mão, umedecendo os lábios com a língua, voltando sua atenção para meus olhos e parecendo ver minha alma através deles.
Eu sempre tive receio de que ele realmente conseguisse ver. Ficamos daquele modo por longos segundos, que pareceram minutos. O tempo estava passando em câmera lenta.
Talvez muitas pessoas achassem estranho ou esquisito o que tinha acabado de acontecer entre nós, e talvez não entendessem, mas aquele foi o momento mais erótico da minha vida. Foi um toque sutil, que me rendeu muitos pensamentos nada puros, como provavelmente também rendeu para Victor.
Foi sexy, simples, significativo, íntimo. Foi adulto.
— Eu fiz totalmente de propósito. — contou. Franzi a testa, confusa, e percebendo aquilo, ele explicou: — Morder tanto seu lábio. Foi proposital, e tem um motivo.
Ergui as sobrancelhas, mas não consegui ficar surpresa. Talvez eu estivesse me acostumando com ele e seus enigmas, mesmo que eu não entendesse ou conseguisse decifrar.
— Qual? — perguntei, sentindo seus dedos rodeando e brincando com o pingente de âncora do meu colar, olhando para ele.
— Você mereceu ser um pouco castigada.
— Por quê?
— Simples. — ergueu o olhar, prendendo um sorriso maldoso nos lábios. — Fora a história dos chupões, você me fez esperar demais por isso. E eu não gosto de esperar.
Parei. Eu definitivamente não estava esperando aquilo. A primeira parte sim, porque eu sabia que Victor não gostava de ser controlado, então obviamente não gostou quando eu disse que ele não podia deixar marcas na minha pele, e até o fiz prometer. Mas a segunda parte, não. Ele tinha esperado por aquilo? Claro que ele vivia me provocando, mas eu nunca sabia se era por brincadeira, pelo prazer de fazer aquilo ou por realmente querer ficar comigo.
Disfarçando (ou tentando) minha surpresa e tentando agir como se aquela frase não tivesse me deixado meio desnorteada, dei um sorriso bem parecido com os que ele me dava quase sempre, e estava dando naquele exato momento.
— Então, o Sr. Stonem não gosta de esperar? — debochei.
Ele negou com a cabeça, olhando por um tempo para minha boca, para então voltar a olhar nos meus olhos.
— Nem um pouco. — respondeu, estalando um pouco a língua.
Com um atrevimento e atitude que eu nem sabia que possuía, segurei a gola de sua camiseta, torcendo um pouco o tecido em meus dedos e puxando-o de leve, fazendo com que ele se aproximasse ainda mais. Naquele momento, nossos lábios estavam quase se tocando. Mas ainda estávamos de olhos abertos, e sorríamos um para o outro daquele jeito provocador.
— É uma pena. — fiz um beicinho, falsamente decepcionada. — Porque eu não costumo ser muito pontual.
Uma risada agradável e meio irônica escapou da sua boca, arrancando de mim um sorriso mais largo. Ele roçou os lábios nos meus, mas sem se atrever a me beijar. Provocando, como sempre. Eu só não sabia se ele estava fazendo aquilo porque queria que eu o agarrasse de uma vez, ou porque queria testar meu autocontrole e minha paciência, de bônus conhecendo meus limites também.
— Você ficar melhor calada, farm girl. — foi o que disse, diminuindo a pouca distância entre nós e colando nossos lábios por si só.
Daquela vez, não fiquei surpresa ou esperei qualquer outra coisa. Simplesmente fechei os olhos na mesma hora que ele e me deixei levar, dando total permissão para ele me beijar de verdade, o que fez sem hesitar.
Senti sua mão acariciando minha bochecha, e eu fazia o mesmo com sua nuca. Era um beijo lento, mas ao mesmo tempo muito sensual e envolvente, além de fazer meu corpo esquentar mais uma vez.
Um beijo recheado de segundas, terceiras, quartas intenções, o que eu sabia que não partia apenas de Victor. Eu estava contribuindo, mesmo que inconscientemente. Minhas mãos não ficaram apenas no rosto e na sua nuca, elas foram subindo e descendo, acariciando e tocando em todos lugares que estavam ao meu alcance.
Como previ, ele também não esperou muito para circular com sua mão pelo meu corpo, e percebi que gostava das minhas coxas quando pousou a mão ali mais uma vez, apertando com vontade várias vezes. Ficamos daquele modo por um tempo, apenas sentindo o sabor um do outro, nos conhecendo daquele jeito íntimo como se fosse a primeira vez. Quebrávamos os beijos quando precisávamos de ar, mas Victor me dava diversos selinhos, como se não quisesse parar de me beijar de modo algum, então esquecíamos que precisávamos respirar e voltávamos a nos beijar.
Era muito bom senti-lo daquela forma, explorar cada parte de sua boca, sentir a carícia de sua língua na minha, a aproximação dos nossos corpos, sua mão tocando no meu corpo. A partir do segundo beijo, ele voltou a morder meu lábio inferior, mas eu não sentia mais dor, porque o jeito que ele sugava minha pele e me beijava novamente me fazia esquecer qualquer outra coisa. Mesmo que o ritmo fosse lento, seus beijos eram intensos e tiravam meu fôlego sem precisar de muito esforço ou tempo.
Vez ou outra, ele roçava o quadril no meu propositalmente, arrancado gemidos roucos meus e sorrisos maliciosos dele, quando ambos sentíamos a excitação um do outro. Depois de fazer aquilo três vezes, ele subiu a mão que estava por tanto tempo na minha coxa e parou em meu seio, acariciando. Não reclamei ou o afastei, era muito bom. Não pela sensação de ter seus dedos tocando naquela parte — porque eu não sentia exatamente, já que estava de sutiã e blusa —, mas sim pelo modo que ele me apertava. Era meio bruto, em contraste com a forma que ele me beijava, e de bônus ainda me mostrava que mesmo eu estando extremamente excitada, ainda podia ficar mais.
Na realidade, ele me mostrava aquilo a cada segundo.
Minhas roupas pareciam pesar no meu corpo, e eu queria me livrar delas assim como queria arrancar as dele, mas sabia que não deveria e nem faria aquilo. Estávamos dando um amasso, ficaríamos apenas daquele jeito. Sem ultrapassar meus limites, mesmo que Victor ainda não os conhecesse.
Sua mão — do braço que descansava acima da minha cabeça, servindo de apoio para que ele não ficasse totalmente em cima de mim — tocou a parte que alcançava dos meus cabelos, fazendo-me prender um leve sorriso, retribuindo com uma carícia nos seus cabelos. A outra mão dele desceu mais, largando meu busto e passando por minha barriga. Achei que ela ia entrar sorrateiramente por baixo da minha blusa e tocar diretamente em minha pele, como tinha feito antes, mas não foi o que aconteceu.
Victor parou no botão do meu short, e antes que eu pudesse entender o que estava acontecendo, ele o abriu. Eu congelei, parando de beijá-lo imediatamente e impedindo-o de descer o zíper, segurando seu pulso. Sem força, apenas para alertá-lo. Não.
Limites. Meu limite.
Eu não sabia o que ele estava pretendendo, mas o parei do mesmo jeito. Se eu possuía sentimentos por ele? Sim, eu possuía e mais intensos do que eu achei que fossem. Meu corpo queria ir além, mas eu sabia que não era certo, porque eu não estava preparada. Longe de estar, na realidade. O que acabaria fazendo com que eu me arrependesse. Era apenas o calor do momento, era a excitação e o tesão, e eu sabia que iria me arrepender.
Era tentador, sim, era, mas eu não podia e nem iria.
Não naquele momento. Não naquele lugar. Não com alguém que não me amava. Mesmo que ele fizesse quase toda minha sanidade ir embora, uma partezinha dela ainda estava presente, e foi graças a ela que abri os olhos e fitei os dele, confusos por eu ter feito-o parar.
Bem, desculpe decepcioná-lo, e eu realmente não queria agora, mas vamos parar por aqui.
Porque o clima em questão de segundos se tornaria tenso, porque eu precisava ir pra casa, porque provavelmente Victor não iria querer ficar apenas nos beijos e toques mais superficiais.
Era muito bom estar nos braços dele, porque eu esquecia de todo o resto ao meu redor, de todo o mundo, de todas as pessoas que me cercavam no dia a dia. Mas naquele momento voltei à realidade, a realidade em que a garota não iria perder a virgindade num campo abandonado com o bad boy do colégio e provavelmente levaria uma super bronca da mãe furiosa segurando um ferro de passar roupa. Que maravilha.
— O que foi agora? — questionou, afastando o rosto do meu para me olhar melhor, erguendo uma sobrancelha.
Não parecia aborrecido, apenas confuso e curioso. Eu sabia que ele não esperava que eu o parasse, porque ele gostava de comandar, ditar e guiar todos os momentos — principalmente os de pausas —, além de que eu tinha demonstrado que gostei de tudo que veio antes.
— Acho melhor pararmos por aqui. — respondi com sinceridade, e por mais que a situação fosse constrangedora, eu estava o olhando nos olhos.
Ele franziu o cenho, abrindo e fechando a boca algumas vezes, mas não disse nada. Eu não queria que ficássemos naquele clima estranho, mas era inevitável. Ele ainda me olhava, como se estivesse esperando que eu dissesse algo como “brincadeirinha, otário!”, mas eu continuei sustentando seu olhar. Sem desviar, quase sem piscar. Esperei que ele se irritasse, insistisse para continuarmos ou algo do tipo, mas simplesmente suspirou um pouco.
— Como quiser, farm girl. — respeitou minha decisão, saindo daquela posição rapidamente, sentando-se na grama.
Meu corpo automaticamente sentiu falta do calor do dele, além da pressão agradável que fazia por estar em cima de mim, mas eu não podia voltar atrás — por mais que boa parte de mim quisesse. Aproveitei aquele momento rápido para colocar de volta o botão do meu short, arrumando também minha blusa.
Olhei ao redor, procurando minha mochila, pegando-a quando achei, precisando apenas me inclinar um pouco para tê-la em meus braços. Eu não tinha nada de especial para pegar nela, ou até mesmo guardar, mas precisava fingir porque não queria ter que encarar Victor. Eu não sabia se ele se sentia do mesmo modo. Enquanto abria a mochila e fingia procurar algo — o bom de estarmos naquele clima era que eu tinha quase certeza que ele não perguntaria o que eu estava procurando —, não o olhei em nenhum momento. Era melhor daquele jeito, até porque eu sabia que ele ainda estava excitado, então eu acabaria olhando para o volume entre suas pernas, mesmo que fosse sem querer. Mente pervertida? Curiosidade? Simplesmente não saber para onde olhar? Vai saber.
— Vou... ali. — anunciou de repente, levantando e puxando a camiseta mais para baixo, tentando disfarçar... aquilo.
Apenas uma olhada rápida para Victor — que dei quando ele falou comigo, no momento em que vi que ele estava tentando disfarçar a ereção — foi o suficiente para me fazer querer enfiar meu rosto na mochila e ainda sentir minhas bochechas esquentarem. Que constrangedor.
Eu não sabia onde era “ali”, ou o que ele iria fazer lá, mas provavelmente tentaria se acalmar e voltar ao normal.
— Uhum. — respondi bem baixinho, e ele não esperou mais nada para sair em passos apressados, afastando-se de mim e aproximando-se do próprio carro.
Suspirei profundamente, em seguida soltando o ar com força, como se tivesse o prendido por muito tempo. E talvez aquilo tivesse acontecido mesmo, sem eu nem perceber.
Parei de revirar minha mochila, colocando-a de lado e mordendo um pouco minha língua distraidamente. Aproveitando que estava sozinha, passei as mãos por meus cabelos, tentando domá-los e tirar toda a possível grama que estava neles.
Naquele momento, a ficha pareceu cair. Eu tinha ficado com Victor. Não foi um sonho ou uma ilusão qualquer, realmente tinha acontecido. E foi muito gostoso.
O tipo de coisa que eu me arrependia de não ter feito com nenhum outro cara antes dele, se bem que talvez não fosse ser a mesma coisa ou tão bom quanto. Eu sabia que provavelmente tinha sido perfeito — até chegar na parte final, que foi trágica —, ou o mais próximo daquilo, porque foi com ele. Ponto.
Ah, caramba. As mãos dele... a boca... o cheiro... a voz... o pouco sotaque... o corpo... o cabelo... a língua... o... Geovana, para. Controle-se.
Eu estava quase suspirando e fechando os olhos quando caí na realidade e me repreendi mentalmente, sacudindo a cabeça algumas vezes, tentando afastar aqueles pensamentos e memórias que começaram a surgir na minha cabeça.
Aquele não era o momento.
Porque ele seria quando eu estivesse sozinha, no meu quarto, de pijama, pulando na cama e gritando de felicidade. Sim. A rainha da maturidade.
Sem pensar duas vezes, levantei e bati algumas vezes de leve nas minhas roupas, varrendo o máximo que vi de grama para longe delas.
Olhei ao redor, procurando Victor com o olhar. Com ou sem clima estranho, eu precisava ir pra casa, porque era quase certeza que minha mãe tinha ido atrás até do Sherlock Holmes para me procurar, mesmo com a desculpa de Juliet — lembrando que ela não mentia muito bem, então tudo apontava para um fim em que eu estaria ferrada.
Lá estava ele, na frente do carro, mais precisamente perto da parte do motorista, parado e de pé. O que ele estava fazendo? Observando a paisagem?
Resolvi me aproximar. Ou aquela era uma tática dele para voltar ao normal (eu não sabia muito bem como funcionava toda aquela coisa de excitação para os garotos), ou ele estava brisando.
Meus passos eram abafados pela grama macia, e quanto mais eu me aproximava, mas a cena ficava mais difícil de interpretar — olá lerdeza — e ver — olá miopia.
Dei a volta no carro, sem Victor perceber, e quando eu estava pronta para aparecer, percebi qual era a resposta para tudo. Ele estava ligando para alguém. E eu, a anta míope, não tinha percebido.
Sem saber muito bem o que eu estava fazendo, me abaixei um pouco, recuando alguns passos. Ele apenas me veria se fosse para a lateral do carro, mas se fizesse aquilo, eu poderia sair correndo e dar a volta.
Ou simplesmente sair correndo.
Era ridículo estar parada ali, escondida e o espionando, mas minha curiosidade falava mais alto. E era meio estranho ele estar ligando para alguém depois do que aconteceu conosco. No mínimo suspeito.
Silêncio. Completo silêncio. Eu estava a ponto de sair do meu esconderijo, mas então Victor suspirou profundamente, como se procurasse paciência. Muita paciência. Eu ainda me sentia meio psicopata observando-o escondida (claro que sim, minha última observação tinha sido há uns três minutos, e nada que me fizesse mudar de ideia aconteceu naquele curto tempo), mas queria — e sentia que precisava, por mais que talvez fosse apenas meu subconsciente tentando me fazer parecer menos quase-psicopata — ouvir a conversa. Com quem quer que fosse.
— Booker, eu não 'tô' ouvindo nada. — disse, claramente cortando algo que a outra pessoa dizia no celular. Opa. Booker. Ao menos eu sabia quem era, e de onde eu estava dava pra ouvir bem o que Victor dizia. — Tem uma música tocando alto pra caralho aí. Desliga essa merda. Sim, foda-se que é Pink Floyd! — minha miopia não permitia que eu visse os detalhes do rosto de Victor, mas sabia que ele provavelmente estava revirando os olhos.
Era engraçado vê-lo andando de um lado para o outro nervosamente — ele estava nervoso?! —, falando baixo para eu não ouvir, já que o assunto da conversa era eu. Ele nem desconfiava que eu estava escondida, ouvindo tudo. Naquele momento percebi como Victor era parecido comigo naqueles momentos de — talvez — nervosismo. Eu também andava de um lado para o outro e mexia no cabelo (eu sabia que ele acabaria fazendo aquilo uma hora ou outra, era uma mania — bonitinha — sua que eu já tinha percebido). Só que eu mexia nas minhas unhas também, e aquilo ele não fazia.
— Depois você volta a ser emo, gótico, ou sei lá o que você é. — fez uma breve pausa, quase pude vê-lo (ou senti-lo) revirar os olhos novamente. — Okay, okay, que seja. Agora me deixa falar. — respirou fundo, passando uma das mãos pelos cabelos — como previ. Ele pareceu tentar encontrar as palavras certas, para dizer o que eu já esperava. Claro que ele ia contar. Meninos não eram muito diferentes de meninas, afinal. Percebi que ele não estava exatamente nervoso, mas sim meio atordoado. Confuso, talvez. Então soltou o ar com certo peso pelo nariz, parando de andar. Pude sentir a tensão no ar. — Eu acabei de dar fodidamente uns pegas na Geovana Rocha. — okay, ele definiu como "dar uns pegas". Eu definiria como "amasso", mas devia ser a mesma coisa. — Sim, a líder de torcida. Para de gritar, meu Deus, você parece uma garota histérica. Sim, a que me acusou de quebrar o vaso da sua mãe. — parou. — Eu não quebrei aquela merda! Enfim, é, ela mesma. Hum, 'tá'. Fala.
Novamente, um silêncio se seguiu. Diferente do anterior, porque ali Booker estava falando alguma coisa que eu queria muito ouvir, mas era impossível. Então eu só podia esperar para Victor responder, e rezar para ele ser claro no que fosse falar.
— Claro que foi bom. — ele pareceu interromper o amigo, colocando uma das mãos no bolso. — Não precisei de muito esforço pra fazê-la ceder, na realidade. Não, não estou dizendo que ela é fácil! Ela tem até esse jeitinho de durona, mas eu gosto. — estalou um pouco a língua. Era uma das coisas que ele fazia muito. — Tipo... ela não provoca, sabe? A Geovana é meio bobinha nesse ramo, às vezes parece fugir, eu percebi que tenho um efeito nela, beeeeem grande. — riu maliciosamente. Merda. Ele já tinha percebido. Merda! — Ela não sabe esconder, eu gosto de ver o que posso fazer com ela, ela me deixa ficar no comando. E acho que nem percebe. Eu senti nela uma espécie de... inocência. Nos toques dela e até no próprio beijo. Difícil explicar. — eu queria gritar "É PORQUE VOCÊ É O PRIMEIRO CARA QUE PEGUEI DE VERDADE!", mas mordi minha língua e continuei em silêncio. — É, eu sei, mas hoje, antes disso tudo, ela me provocou. Dude, ela quase me beijou e depois saiu como se nada tivesse acontecido. Nem reconheci aquela garota! — foi impossível eu conseguir prender um sorriso orgulhoso. — Não! Quê? Tá louco?! Eu só... argh, eu vou desligar. Não. E você parece uma menina. Otário. — riu, coçando a nuca com a mão que antes estava no bolso. — Valeu. — afastou o celular do ouvido, movendo os dedos algumas vezes e então guardando-o no bolso.
Eu queria continuar ali, porque eu precisava pensar e absorver tudo que tinha ouvido. Precisava muito, mas talvez o melhor lugar fosse no meu quarto. Sozinha. Sem grama no cabelo, sem estar escondida (com grandes chances de ser descoberta, se não fizesse alguma coisa naquele momento).
Mas eu definitivamente não podia, porque também era minha hora de sair, ou fingir que estava chegando.
Afastei-me do carro, respirando fundo e fazendo a melhor expressão inocente que consegui. Dei a volta no veículo e me aproximei de Victor, que estava de costas pra mim — graças a Deus. Provavelmente ele sentiu uma presença ou um olhar em suas costas, pois se virou, ficando de frente pra mim.
— Hey, você está vivo. — dei um sorriso divertido, brincando com a demora dele. Que atriz maravilhosa. Um oscar aqui, por favor. — Vamos?
— Ah, sim. Vamos sim. — respondeu, coçando um pouco a nuca, para então passar a mão nos cabelos, bagunçando-os mais.
— Vai me deixar em casa?
— Sou oficialmente seu motorista agora, não? — brincou, dando uma piscadela.
Ri um pouco de sua resposta, seguindo-o em direção ao nosso piquenique improvisado. Parecia que o clima estava bem melhor, o que era ótimo. Não queria que as coisas ficassem estranhas entre nós. Victor estava mais relaxado por ter conversado com Booker. E eu, bem, por ter ouvido a conversa.
— O que vamos fazer com a comida que sobrou? — franzi a testa, abaixando-me e ficando de joelhos no lençol branco.
— Só não vamos deixar aqui. Me ajuda a juntar tudo, depois resolvo o que fazer. — deu de ombros, começando a pegar as coisas, colocando tudo no centro do lençol.
— Por que não damos aos moradores de rua? — dei uma sugestão, enquanto o ajudava com a tarefa.
Eu nunca tinha feito algo do tipo — na realidade sim, mas eram coisas como dar uns trocados ou pagar um salgado, porque meus pais nunca me deram muito dinheiro, quem recebia mais era Jennifer. Eles me achavam irresponsável com aquelas coisas, e provavelmente não gostariam de saber e teriam a quem culpar quando "sem querer" o dinheiro deles fosse parar na mão de mendigos —, mas sempre tive vontade.
Minha avó dizia que quando nós tinhamos muito, precisávamos ajudar os que tinham pouco. Já minha bisavó dizia que quando tínhamos muito ou pouco, precisávamos ajudar todos que precisavam.
— Vou arranjar alguém para fazer isso. — ele resolveu, depois de ponderar um pouco.
Franzi a testa, olhando-o. Ele não me olhava, continuava arrumando a comida no centro do lençol, até que começou a puxar as pontas.
— Por que você mesmo não faz? Ou melhor, nós? — dei uma ênfase na última palavra, dando também um leve sorriso, deixando claro que (se ele quisesse) faríamos juntos.
— Tenho preguiça e não tenho tempo para boas ações, muito menos para tentar mudar o mundo ou melhorar vida dos outros. — respondeu simplesmente, sem muita emoção, mas com uma pitada de sarcasmo.
Eu sabia que ele estudava, era quarterback do time de futebol e tinha uma banda (eu ainda queria e precisava saber mais sobre a tal banda), talvez aquilo tomasse todo seu tempo — fora as corridas ilegais, que eu nem sabia se ele ainda praticava.
Algo dentro de mim dizia que não, porque 1- ele brigou com aquele cara que me agarrou e 2- ele e Aidan não se gostavam. Ou ele não tinha tempo mesmo, ou simplesmente não queria. Eu sabia que não era obrigação ser uma boa pessoa, mas meu espírito de salvadora-da-pátria não era maior fã do fato de que pessoas como Victor tinham muito, mas não ajudavam os outros. Se bem que ele estava disposto a ajudar. Indiretamente.
Então por que diabos eu estava reclamando?! Provavelmente era porque eu queria fazer algo legal. Com ele. E ele não aceitou. Argh.
Eu mereço o prêmio de maior otária do mundo. Não por ter feito a pergunta, mas por ter esses pensamentos idiotas.
— Por quê? — ergui as sobrancelhas, pegando uma das pontas do lençol e juntando com as dele, mas olhando-o atentamente.
Ele não me olhava. Talvez porque estava ocupado demais, ou porque simplesmente não queria me olhar.
Okay, por que eu estou implicando até com isso?! Ele me olha se ele quiser!
— Porque eu estou satisfeito com a minha vida, farm girl. — ergueu o olhar, como se tivesse lido meus pensamentos, parando de recolher a comida. — Não preciso ajudar os outros. Simplesmente isso.
— Você sabe que dando a comida a alguém, para essa pessoa dar aos mendigos, é uma boa ação e você já está ajudando, certo? — resolvi dizer o que estava pensando.
Ele estava ajudando sim, por mais que não quisesse admitir. Victor riu pelo nariz, e era impressão minha, ou ele estava tentando não sorrir?
— Não conta pra ninguém. — deu uma piscadela.
Eu provavelmente era sim uma esfomeada — como Victor tinha feito o favor de ressaltar minutos antes —, porque mesmo tendo comido horrores naquela tarde, eu ainda queria um milk-shake. Mas a culpa não era minha se o Kendal's Juice era meio que o paraíso dos obesos e dos que possuíam espírito de obesos.
Mas meu querido motorista não quis parar o carro e comprar um milk-shake de morango pra mim. Eu sabia que estava abusando, mas aceitaria até um simples sorvete, porque era gostoso e eu até que gostava da cereja que colocavam no topo dele. Eu odiava cereja, mas era bonitinha e deixava o sorvete também bonitinho — eu tinha até certa pena de comer. Ou tomar. Que seja.
— Para de encher o saco. — ele resmungou, revirando os olhos e prestando atenção na estrada. — Já faz tempo que passamos do KJ. Você realmente acha que eu vou voltar?
Desviei o olhar da janela (eu estava fingindo olhar algo lá fora, apenas para fazer birra) e o olhei, apertando meus lábios e mantendo os braços cruzados.
— É culpa sua! — acusei. — Eu pedi o milk-shake quando estávamos passando. Mas você fingiu que não estava ouvindo.
— Não era interessante o suficiente para me fazer prestar atenção em você e comentar. — deu de ombros, fazendo-me revirar os olhos.
— Chato. — dei a língua, voltando a olhar a paisagem que combinava com o pôr-do-sol.
Árvores. E árvores. Mais e mais árvores. Viva as árvores. O sol já estava indo embora, e eu ainda não tinha chegado em casa. Era por aquele motivo que eu queria o maldito milk-shake (além de ser gostoso, mas enfim): demorar para chegar em casa. Porque eu sabia que era quase certeza que estava ferrada, então preferia atrasar o encontro com a (possível fera) minha mãe.
E seria melhor encarar aquilo tomando um milk-shake, também. Fazia sentido. Mas, claro, Victor não entendia. Eu não tinha falado sobre a minha mãe ou o que me aguardava em casa, mas provavelmente ele já sabia.
— Muito maduro, Geovana. — resmungou, olhando-me rapidamente. Não falei nada. Ele continuou: — Engraçado você insistir no milk-shake, sendo que já comeu pra caramba. Onde foi parar aquela chatice de ajudar as pessoas que precisam e blá blá blá?
— Eu sou uma pessoa que precisa! — o olhei, cruzando os braços mais firmemente.
— Não, não é. — respondeu normalmente. Era quase certeza que ele estava odiando me ter pegando no seu pé, mas estava adorando me ver daquele jeito. Eu não estava com raiva de verdade, claro que não, só estava surtando por dentro porque estava indo na direção da minha possível morte. E eu também queria enchê-lo por não ter estacionado no maldito Kendal's Juice. — Repetindo, você comeu pra caramba.
— Argh!
— Grande salvadora da pátria, ein.
— Cala a boca.
Riu.
— Como quiser. — ele realmente estava se deliciando com aquilo tudo. — Mas você não está com fome, só quer gastar meu dinheiro.
Naquele momento eu sorri, olhando-o. Sem saber muito bem o porquê, percebi que ele não estava de óculos escuros — eles balançavam na gola de sua camisa a todo momento, junto com o carro, quando o mesmo balançava primeiro.
— Tenho que aproveitar as chances, Stonem. — dei uma piscadela, fazendo-o negar de modo incrédulo com a cabeça e rir.
— Além de esfomeada, é mercenária. Tsc. — estalou a língua, me provocando.
Cerrei os olhos, descruzando os braços.
— Eu. Não. Sou. Nenhum. Dos. Dois. — falei pausadamente, como se ele fosse uma criancinha que era lenta para entender as coisas. — E estou em fase de crescimento. — empinei o nariz.
Era o que eu dizia para minha mãe, sempre que ela dizia o mesmo que Victor. O que era frequente, porque ela sempre me via comendo. Ele ergueu uma das mãos em sinal de rendição, enquanto dirigia com a outra.
— A culpa não é minha se você quer colocar na boca tudo que vê. — sua frase estava carregada de malícia, assim como o sorriso nos seus lábios.
Cerrei mais os olhos, olhando-o do modo mais ameaçador que consegui. Eu sabia que havia uma chance muito grande de dar certo — porque sempre que eu olhava para meus primos daquele jeito, eles saíam correndo.
Bem, na época que fiz pela última vez eles tinham uns nove anos, mas não devia ser tão diferente com Victor, certo?
— Victor Stonem. — chamei sua atenção, e quando ele me olhou, ergueu uma sobrancelha diante do meu olhar que era para ser amendrotador. — Cala a boca.
Mesmo não ficando com medo ou assustado (aparentemente), ele assentiu, prendendo uma risada.
— Apenas brincando. — se defendeu, quando achei que não diria mais nada. — Você tem que parar de levar tudo tão a sério, darling.
Ele estava errado. Eu não levava tudo a sério, na realidade eu sempre brincava com meus amigos sobre quase tudo. O problema era que com ele era diferente. Parecia que eu estava pisando num campo minado, e nunca sabia quando ele estava brincando ou não. Eu não conseguia acompanhá-lo direito.
— Você me tira do sério. — respondi simplesmente, como se aquela fosse a resposta para tudo.
Um sorriso convencido e debochado nasceu em seus lábios, me fazendo erguer as sobrancelhas.
— Eu tiro, é?
— Calado.
Pareceu ponderar.
— Eu poderia mandar você me calar, mas estou dirigindo. — deu de ombros. — Não queremos um acidente. — piscou.
Eu não sabia muito bem como ele esperava que eu o calasse, — com um tapa ou outra coisa, mas, julgando por seu sorriso maldoso, definitivamente não era com um tapa — então simplesmente não falei mais nada, desviando o olhar do seu rosto e me distraindo enquanto contava as árvores do lado de fora.
Cerca de vinte minutos se passaram, e quando eu estava quase ligando o rádio para ouvir alguma coisa, ouvi o curto som que meu celular produzia quando recebia uma nova mensagem, o que foi o suficiente para me fazer abrir a mochila que estava nos meus pés, procurando o aparelho.
Ela estava bem mais leve e vazia, já que Victor tirou as coisas dele e jogou no banco de trás quando entramos no carro, resolvendo que a mochila ficaria comigo.
Ele permaneceu em silêncio, mas eu senti seu olhar em mim, dividindo a atenção entre a estrada e eu.
Achei meu celular no menor bolso da mochila, pegando-o e desbloqueando a tela rapidamente, para ver quem tinha me enviado uma mensagem.
Achei que poderia ser minha mãe — por mais que enviar mensagens não combinasse com ela, já que sempre me ligava —, Jennifer — pouco provável também, porque ela não gostava de gastar créditos comigo (um amor de irmã) —, alguém do Brasil — Angie, (porque Leo e Dan não me mandavam muitos sms) ou até mesmo meu pai — ou, por fim, Mish.
E a última opção era a certa. Eu poderia ler a mensagem e responder em casa, mas estava no tédio e por algum motivo Victor e eu não estávamos conversando. Eu não estava fazendo nada de mais, mas ele provavelmente estava ocupado pensando e dirigindo, então eu não queria interromper e nem provocar um acidente de carro.
Levando em conta tudo aquilo, li a mensagem, e automaticamente sorri.
Foi mal ter sumido esse final de semana, mas senti sua falta. Onde ce tá? :3
Nós dois sumimos, na realidade. Mas claro que ele não sabia que eu tinha passado meu final de semana com Victor, provavelmente ele estava achando que passei dois dias em casa sem fazer nada. Como quase sempre, na realidade. Ele não sabia sobre Victor. Nada. Nadinha.
Eu queria muito contá-lo, porque Mish era meu melhor amigo ali e talvez pudesse me ajudar em alguma coisa, mas sentia que não devia. Não sabia se era porque ele também não era o maior fã de Victor (como 80% dos meus amigos, aliás), ou por algum outro motivo. Então eu simplesmente fingia que nada estava rolando na minha vida, e quando ele insinuava ou dizia algo envolvendo eu e Stonem, eu desmentia na hora.
Se eu era hipócrita? Com certeza. Porque eu me incomodava com as desculpas de Mish para todos seus sumiços (se bem que ele já tinha prometido que me contaria no baile o que estava acontecendo em sua vida, então eu estava levando numa boa), mas estava escondendo aquilo dele. Afastando aqueles pensamentos, respondi uma mentira:
Relaxa. To indo pra casa, tava fazendo um lance com a Jenn. Também senti sua falta!!! :3
Ainda usávamos ":3" no fim das frases, o que eu gostava. A mentira da frase estava apenas na desculpa que dei, porque eu senti a falta dele sim. Esperei uns cinco minutos, mas Mish não me respondeu, então guardei o celular novamente no bolso. Olhei para o lado de fora do vidro e percebi que estávamos perto da minha casa. Na realidade, uma rua antes.
Olhei para meu reflexo no retrovisor do carro. Eu não estava tão ruim, mas minha boca estava avermelhada e meio inchada — ainda. Com certeza minha mãe perceberia que eu tinha beijado alguém, mesmo que levasse em conta a desculpa que Juliet deu (que eu não sabia qual era direito). Eu poderia inventar uma desculpa também e começar a ensaiar logo no carro, mas 1- sempre que eu planejava algo, nunca dava certo. E 2- eu não sabia como agir quando estava sendo pressionada, ainda mais se precisasse mentir.
Abri a mochila, procurando algo que pudesse me ajudar a disfarçar a vermelhidão e o inchaço — graças às mordidas de Victor.
Por que ele teve que morder tanto essa merda? pensei, indignada.
O pior era que eu continuava com aquela mania de morder o lábio inferior, mesmo sem perceber, o que piorava tudo. Peguei do bolso maior a pequena bolsa que eu estava usando na noite do desfile. Eu nem lembrava o que estava dentro dela, fora meu celular — que tinha mudado de lugar na noite passada.
Quando a abri por pura curiosidade, vi um dos meus batons vermelhos favoritos. Lembrei de quando o coloquei ali. Eu estava com Jennifer, no meu quarto, minutos antes de sair de casa e ir ao desfile de Juliet.
Eu nem lembrava que ele estava ali — até porque, se eu lembrasse, não teria passado o dia inteiro sem nada na cara —, mas era perfeito para me ajudar.
Victor estava olhando pra frente, mas me viu pegando o batom. Aparentemente entendeu o que eu queria fazer, pois curiosamente colocou a mão sobre a minha, impedindo-me. Olhei para ele, completamente confusa com aquela atitude. O que diabos ele estava fazendo? Tinha algo contra batom vermelho ou o quê?
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!O carro foi estacionado, e quando eu estava prestes a perguntar por que paramos, percebi que tínhamos chegado. Olhei rapidamente para o lado de fora, sentindo um alívio imenso quando não vi ninguém na entrada da minha casa.
Olhando novamente para ele, achei ter visto a sombra de um sorriso em seus lábios, mas resolvi que era coisa da minha cabeça, pois um segundo depois ele estava normal. Sem sorriso nenhum. Soltou o próprio cinto de segurança, inclinou-se um pouco e ergueu a mão, levando-a para meu queixo delicadamente, depois subindo e tocando meu lábio inferior com o polegar. Como fez antes, no campo, no momento em que demos uma pausa nos beijos.
Mesmo não sendo o que eu planejava fazer, acabei tremendo um pouco, esforçando-me para não fechar os olhos — o que eu queria fazer para aproveitar melhor seu toque.
O que ele estava fazendo? Nós estávamos na porta da minha casa! E por que era tão difícil afastá-lo? Na realidade, parecia se tornar mais difícil a cada vez que ele resovia fazer algo comigo.
Ele imprensou um pouco meu lábio inferior, apertando-o de forma quase bruta, naquele misto de gentil e forte que quase sempre estava presente em seus toques. O olhei de modo firme, querendo repreendê-lo. Mas eu estava com certo desejo escondido nos olhos, que eu não sabia se ele tinha notado ou não.
— Não precisa passar isso. — finalmente falou, e pude ver que, sim, ele percebeu o brilho diferente em meus olhos e estava se deliciando com ele, assim como a reação que conseguia provocar em mim apenas com um toque. — Você fica igualmente bonita sem.
Fiquei um tempo calada, olhando-o atentamente. Não era um silêncio exatamente desconfortável, na realidade parecia... necessário. Eu fiquei agradecida com aquele elogio, mas não senti minhas bochechas esquentando — graças a Deus! —, talvez porque eu já estava quente o suficiente.
Por mais que eu quisesse agradecer, não o fiz. Algo dentro de mim sabia que eu não precisava dizer nada. Resolvi não falar, mas o olhei de modo agradecido. Ele desceu os dedos com delicadeza, tocando meu queixo mais uma vez.
— É a minha mãe. — expliquei, sem desviar os olhos de seu rosto. — Vai exigir explicações se vir minha boca desse jeito.
— E a culpa é minha. — completou, sorrindo de lado, mas não parecia lamentar nem um pouco aquele fato.
Assenti, me livrando do toque dele quando virei o rosto, olhando-me no retrovisor. Tirei a tampa do batom e contornei meus lábios com ele, pintando-os. Minha mãe não estranharia eu estar de batom, porque eu sempre estava. Quando acabei, passei um lábio no outro, para enfim guardá-lo de volta na bolsa e enfiá-la na mochila, fechando e finalizando tudo.
Quando olhei para Victor, percebi que ele estava me olhando com atenção e interesse.
— Assim. — inclinou-se novamente, pegando uma parte do meu cabelo e colocando por cima do meu pescoço. Entendi o que ele queria fazer, e agradeci mentalmente por ele ter lembrado de esconder os chupões, porque eu tinha esquecido completamente. — Agora não dá pra ver. E você não precisa dar explicações a sua mamãe. — sorriu, debochado.
Na realidade, eu ainda precisava dar algumas explicações a ela. Como, por exemplo, de quem era as roupas que eu estava usando. Mas, qualquer coisa, era só eu dizer que era de Juliet ou de alguma amiga dela — dependendo da mentira que minha querida prima tinha contado.
— Obrigada. — sorri de leve, soltando o cinto de segurança e pronta para abrir a porta do carro. — Você sabe, por tudo.
— Disponha. — respondeu, ainda sem se afastar de mim. Seus dedos roçaram na minha bochecha, passando por meu maxilar lentamente e indo na direção da minha nuca, deixando um rastro de fogo. Sua outra mão foi parar na parte interna de uma das minhas coxas, fazendo todo meu corpo formigar, e eu sabia o que ele estava planejando fazer. — Sempre que você precisar... — olhou para minha boca, antes de voltar a dirigir aquele olhar penetrante a mim.
Cerrou os olhos, quase fechando-os e aproximando nossos lábios sem pressa. Meu coração estava palpitando com força, meu corpo estava sendo consumido pela ansiedade e minhas pernas provavelmente já tinham virado geléia. Mas...
Não.
No último segundo, eu virei o rosto e os lábios de Victor encontraram minha bochecha. Apertei meus olhos com força, como se estivesse sentindo dor, simplesmente porque eu queria muito beijá-lo, mas fui obrigada a recusar. Por três motivos óbvios.
1- Seria muito difícil parar depois que começássemos, mesmo que começasse com um simples beijo.
2- Ele borraria todo o batom, então eu teria que passar de novo e, como era vermelho, lugar para tirar as manchas.
3- Estávamos na frente da minha casa, com certeza alguém veria.
Quando o senti se afastando, finalmente abri os olhos e o olhei. Estava com uma sobrancelha erguida, olhando-me com pura confusão. Claro que ele não esperava que eu recusasse. Nem eu esperava.
Ainda com o coração acelerado, abri a porta do carro com certo desespero. Na tentativa de pular para fora, quase cai no asfalto, graças ao fato de que até eu estava meio desconcertada. Virei-me, me apoiando na porta aberta, olhando-o e claramente pedindo desculpas com o olhar.
— Até amanhã, Vic.
Bati a porta sem força, correndo na direção do portão. Suspirei profundamente algumas vezes, abrindo-o depois de encostar a cabeça no ferro, não sem antes olhar para trás e ver o carro indo embora.
E meu coração se apertou.
Porque eu queria ter agradecido direito.
Porque eu não queria ter que esperar até o dia seguinte para vê-lo.
Porque eu queria ter ouvido sua resposta.
Porque eu queria ter ido com ele.
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