The Anchor
24 A discussão, a âncora, um plano, o tornozelo e o desejo.
Notas iniciais
Capítulo 23.
Merda. Eu fiquei estática ali, encarando-o sem expressão. Pronto. Era aquilo. Victor tinha ouvido o que gritei no banheiro. Mas por que estava tão... daquele jeito?! Eu achei que ele não fosse se importar, já que não se importava com nada! Mas aparentemente eu estava enganada.
Senti meu coração inexplicavelmente acelerar ao vê-lo me dirigir um último olhar frio e se afastar, indo até a cama, saindo do meu campo de visão. Eu não estava entendendo muito bem, não sabia o porquê de ele estar daquele jeito. Tão... afetado. Mas eu sabia que era culpa minha, e aquilo me fez sentir uma pontada no peito. Era raro quando as pessoas ficavam com raiva de mim, porque eu sempre tentei fazer o máximo pra ser legal com todo mundo. Quem quase sempre ficava com raiva era eu. E com Victor não era diferente, mas ali a situação se inverteu.
— Você ouviu. — foi o que consegui soltar, de costas para ele, ainda um pouco em choque.
Eu não queria ter soado tão óbvia, mas foi impossível. Uma risada meio amargurada e irônica preencheu o quarto, vindo de Victor, o que me fez descongelar e olhá-lo, virando-me. Foi muito estúpido dizer aquilo, eu sabia que era o óbvio, mas simplesmente não sabia o que dizer. Ou o que fazer. E vê-lo rir daquele jeito me fez sentir mais uma pontada no peito. O que estava acontecendo comigo?!
— É, Geovana. Ótima observação. — Geovana.
Eu odiava quando as pessoas me chamavam por meu nome todo, mas aprendi a não me importar quando Victor o fazia. Pois ele parecia acariciar meu nome, soltando-o de uma forma que tornava impossível odiar ouvir. Mesmo quando estava sendo irônico, era agradável ouvir. Mas ali ele conseguiu me fazer odiar. Victor pronunciou meu nome com sarcasmo e um pouco de... repulsa, talvez. Olhei para o chão, então me aproximei dele. Ele me olhou daquele jeito que me machucava, mas não demonstrei. Eu não conseguia demonstrar nada naquele momento.
— Victor... eu não... você entendeu errado! Não é isso! — comecei a me desesperar. O que eu diria a ele?! Eu não pensava muito bem quando estava sendo pressionada, e naquele momento eu estava. Eu mesma estava me pressionando, fazendo minha cabeça girar um pouco e dizer a coisa mais estúpida que eu poderia falar: — Eu não estava falando de você!
Parabéns pra mim. Eu automaticamente me arrependi quando soltei aquilo, porque foi simplesmente ridículo. Eu sabia o que dizer. A verdade! Eu queria dizer que só falei aquilo no banheiro porque era o que Lori queria ouvir, e se eu não deixasse claro o quanto eu o “odiava” (entre aspas porque não era verdade), ela não me deixaria em paz. Mas por que eu não conseguia simplesmente dizer?! Meu coração doía de tanto bater com força e minhas mãos estavam suando, eu sabia que aquilo não acabaria bem. E eu não estava melhorando nada.
Victor gargalhou, e mesmo que aquela risada fosse bem real, eu sabia que ele não estava achando graça. Mas, querendo ou não, ele estava rindo do que falei. Estava rindo de mim. Várias pessoas — um número bem considerável — já riram de mim daquele modo, eu definitivamente não queria ter que acrescentá-lo à lista. Quando o vi pressionar a barriga e me encarar como se eu fosse completamente estúpida, senti vontade de chorar. Mas engoli aquilo, eu não iria chorar ali. Eu só não queria que ele me olhasse daquele jeito por mais tempo, porque aquilo estava começando a me machucar de verdade por dentro.
Pare de ser idiota! Pare de ser fraca desse jeito.
— Ah, sério?! — ele soltou, se recuperando do ataque de riso e estalando um pouco a língua. — Por que tem outro Victor Stonem aqui, não é? Onde será que ele esta? Hum... escondido no armário? — fingiu pensar, negando com a cabeça algumas vezes e rindo um pouco da minha cara. Engoli em seco, fitando-o — Ou será que ele está no banheiro?!
Eu queria que ele parasse. Ele precisava parar de falar daquele jeito comigo, mesmo eu sabendo que era a errada da história. Olhei para baixo rapidamente, abraçando meu corpo e engolindo em seco mais uma vez. Ergui o olhar e o encarei.
— Victor. Para. — falei de modo firme, mas era possível notar a mágoa na minha voz. — Você... você está sendo idiota! — a ultima parte eu murmurei.
E, mais uma vez, ele gargalhou. Mas daquela vez pareceu realmente achar graça, olhando ao redor com incredulidade. Até mesmo sua risada parecia ácida. Por que diabos eu tinha que fazer aquelas coisas?! Tudo antes estava, de certa forma, bem. Mas então gritei aquela merda no celular e tudo desabou. Naquele momento eu quis nunca ter feito aquela maldita ligação.
Ele parou de rir subitamente e me encarou sério, aproximando-se de mim de modo ameaçador. Eu olhava fixamente para frente, mas fitei seus olhos.
— Você acha que eu te trouxe aqui para transar com você, Geovana? — Geovana novamente. — Eu te trouxe aqui porque estava preocupado com você! E agora vejo que cometi um erro.
Então eu me desesperei de verdade. Ele poderia achar que eu estava sendo ridícula, e talvez eu estivesse, mas eu precisava fazê-lo entender. Fazê-lo ver que tinha entendido errado. Eu não sabia quem era mais cabeça dura, eu ou ele.
— Você entendeu errado! — disparei, fazendo-o cerrar os olhos. Ignorei aquilo, tentando dar um sorriso fraco pra ele, provavelmente pareceu mais uma careta. Ele tinha que acreditar em mim! Ele precisava me ouvir. Algo dentro de mim quis dizer que eu estava exagerando, que toda aquela raiva de Victor desapareceria depois. Mas eu sabia que não era daquele jeito. — Por favor, me escuta. Eu... não... — e naquele momento eu não consegui dizer nada. Não diante daquele olhar. Foi como se meu coração estivesse diminuindo no meu peito. Na medida em que seu olhar se tornava mais firme, as palavras simplesmente não saiam da minha boca. — Por favor...
Ele nem quis ouvir. Victor bufou, afastando-se e passando uma mão nos cabelos de modo um pouco nervoso. Ele estava com raiva de mim, provavelmente muita, e eu sabia daquilo. Por mais que eu soubesse que ele tinha ouvido a conversa, ainda não sabia o porquê de ele estar com tanta raiva! Ele sabia o que as pessoas no colégio pensavam dele, então por que estava agindo daquela forma? Não era possível ele estar daquele jeito porque se importava com o que eu pensava dele. Eu não era especial para Victor.
— Sim, Geovana. Você é atraente. Demais. — naquele momento eu congelei, olhando para o chão e sentindo meu rosto esquentar completamente. — Mas, por mais incrível que pareça, não planejei te agarrar ou qualquer coisa. Eu só não queria te deixar sozinha naquele lugar ontem.
Você é atraente...
Você é atraente...
Demais.
Aquelas palavras estavam na minha cabeça, impedindo-me de pensar em qualquer outra coisa. Então ele me achava atraente de verdade. Era idiotice ter aquele tipo de pensamento naquele momento, mas eu não consegui evitar. Nenhum garoto que eu gostava tinha dito algo daquele tipo pra mim, não diretamente. Ou mandavam os amigos dizerem, ou não diziam, ou simplesmente não achavam que eu era digna de um elogio.
— Você... me acha atraente. — murmurei, pensando alto, e no mesmo momento me arrependi.
Não foi minha intenção falar. Era para aquilo ficar apenas na minha cabeça. Que inferno! Eu não tinha controle das minhas próprias palavras?! Naquele momento senti raiva. Não dele, mas de mim. Mesmo com vergonha, ergui o rosto e o vi bufar.
— Você é inacreditável. — declarou, erguendo as mãos em sinal de rendição e indo em direção a porta.
— Espera! — meu coração estava quase saindo pela boca e eu sentia minhas pernas um pouco fracas. Por que eu não conseguia dizer nada que prestasse naquele momento?! Por que estava tão nervosa?! Mas Victor não me ouviu, fazendo-me ir até ele e tocar em seu braço. — Victor, espera. — pedi baixo, vendo-o parar e me olhar.
Eu não sabia o que ia dizer, mas precisava dizer algo que o impedisse de sair. Infelizmente, não tive tempo de falar nada. Porque ele falou primeiro.
— Sinceramente, que tipo de pessoa você acha que eu sou?! — a pergunta me pegou de surpresa.
Eu sabia que iria me arrepender da resposta que estava pedindo para sair, mas eu não tinha outra. Eu simplesmente não sabia o que dizer.
— Você não passa a melhor imagem... — murmurei, ainda tocando em seu braço.
E era verdade. Ele estando com raiva ou não, era a verdade. Eu sabia que tinha errado feio, mas ele também não deveria estar daquele jeito! Certo?!
Victor puxou o braço sem muita força, e nem era preciso. Facilmente meus dedos pararam de sentir aquela pele macia, o que me fez morder meu lábio inferior com força.
— Obrigado. Era o que eu precisava ouvir. — murmurou com ódio.
— Por favor... Victor... me ouve. Caramba! Você entendeu errado. Eu não...
Victor fechou as mãos em punhos, e olhando rapidamente para elas pude ver a força que ele estava usando. Olhei para seu rosto, vendo seu maxilar trincado e aparentemente uma veia pulsando em sua testa.
— EU NÃO ENTENDI ERRADO! — gritou, fazendo-me encolher e arregalar os olhos. Ele explodiu comigo, e aquilo nunca tinha acontecido. Victor me encarava um pouco ofegante, o rosto um pouco vermelho. Em questão de segundos pareceu se acalmar minimamente. — Se você não fosse uma garota... — murmurou, quase rosnando e deixando a frase no ar.
Arregalei mais os olhos, surpresa por sua frase, vendo-o olhar para o lado, virando o rosto e evitando me encarar. Se eu não fosse uma garota...?! Eu sabia que se eu não fosse uma garota, ele faria comigo o que fez com aquele cara na corrida, e com Robert — um dos fotógrafos do desfile. Agradeci mentalmente por Victor não ser o tipo de homem que seria capaz de bater em uma mulher.
Mesmo ele estando completamente puto, eu simplesmente me aproximei mais dele e toquei em sua mão, que estava fechada com força. Eu sabia que todas as pessoas possuíam um limite, e eu poderia estar ultrapassando o dele, mas ele estava daquele jeito por minha causa. Eu não iria ficar quieta. Imediatamente ele pareceu relaxar diante do meu toque, virando o rosto em minha direção meio relutante. Victor abaixou um pouco a cabeça, respirando fundo e olhando diretamente para minha mão, que estava em cima da sua. Quebrando ainda mais a distância entre nós, dei um passo em sua direção, levando minha outra mão delicadamente para seu queixo, fazendo-o erguer o rosto e me fitar de extremamente perto. Recolhi minha mão que estava em seu rosto, sorrindo um pouco fraco.
Prendi o ar por alguns segundos ao ver o quanto ele estava próximo. Apertei um pouco sua mão, olhando diretamente para seus olhos. Ele relaxou a mão, deixando-me entrelaçar nossos dedos, fazendo-me sentir um leve choque ao fazê-lo. Sinceramente, eu não sabia o que estava fazendo, mas nunca o vi daquele jeito. Tão... vulnerável. Olhando para ele tão próximo, vendo sua testa franzida de modo um pouco perdido, seus lábios comprimidos e sua respiração fraca, acabei percebendo algo. Victor estava passando por uma espécie de conflito interno. Inexplicavelmente, senti uma intensa vontade de chorar.
— Me desculpe. — sussurrei tão baixo que mal consegui ouvir.
Victor cerrou um pouco os olhos, fitando-me intensamente. Eu queria saber o que ele estava pensando. Seus olhos desceram e pararam diretamente em minha boca, então ele suspirou profundamente e se afastou de mim, soltando minha mão da sua e virando de costas.
Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele levou uma mão para o bolso da calça jeans que usava, tirando de lá uma corrente prateada. Eu vi também um pingente, mas não sabia o que era. Victor se virou, mas não se aproximou de mim. Não pude ver o pingente, pois Victor simplesmente jogou em cima da cama.
— Eu... lembrei de você quando o vi. Comprei ontem, sem você ver. — falou baixo.
Eu nem sabia o que era aquilo, mas ouvi-lo pronunciar aquilo com tanta dor me fez abraçar meu próprio corpo e sentir meus olhos marejados. Eu não queria chorar na frente dele, mas eu não tinha mais controle. Ele tinha comprado um colar... pra mim?! Sim, ele tinha feito aquilo. E naquele momento não importava se ele estava com raiva de algo bobo ou não, eu simplesmente me senti um monstro. Era culpa minha. Meu Deus, ele tinha comprado um colar pra mim!
— Não vai... — murmurei baixinho, vendo-o virar o rosto. Ele sabia que eu estava prestes a chorar, e por algum motivo não quis ver. — Me deixa explicar...
— Não. É isso que você pensa de mim, eu não deveria me importar, não é?! — riu um pouco amargurado, olhando rapidamente para baixo e finalmente me encarando. — Eu sinceramente não sei o motivo que me faz... me importar. — murmurou aquela parte, fazendo meu estômago embrulhar. Ele parecia o garoto frio que antes evitou me olhar, mas também o garoto confuso e magoado que me deixou tocar sua mão. O que estava acabando comigo era saber que ele estava daquele jeito por minha causa. — Eu estou apenas cometendo um erro e sendo idiota, que obviamente é apenas o que eu sou pra você.
— Victor... — eu praticamente solucei o nome dele, mas eu sabia que ele não ia me ouvir.
Eu não tinha mais forças pra tentar, simplesmente já tinha me entregado as lágrimas e sentia duas ou três escorrerem por minhas bochechas.
— Apenas vamos descer, comer qualquer coisa. Depois eu te deixo em casa e acabamos logo com isso. — foi o que disse por último, abrindo a porta, saindo sem esperar mais nada e fechando-a com força.
E naquele momento eu não consegui me segurar. Eu sabia que estava com vontade de chorar de verdade, já que algumas lágrimas tinham escapado, mas não sabia que a necessidade era extrema. Mas, bem, era.
Todo meu corpo tremeu violentamente, e no momento seguinte eu me joguei na cama. Minha mente girava, eu não sabia o que estava sentindo ou o que estava acontecendo, mas meu coração estava tão apertado que chegava a doer. Abracei um travesseiro qualquer que estava ali, encolhendo-me um pouco na cama e ficando de barriga para baixo, apertando meus olhos com força e sentindo as lágrimas salgadas molharem meu rosto.
Era aquela sensação. A sensação de dor escorrendo pelo rosto, que às vezes nos dava até um alívio, mas que na verdade não ia embora de verdade.
Eu já estava acostumada. Apenas eu mesma sabia o quanto havia chorado quando perdi Cam, e chorado até mesmo por saudades do meu pai e dos meus amigos do Brasil. Mas ali eu não estava chorando por sentir falta de alguém que tinha partido, ou de amigos que eu não via há meses. Eu estava chorando porque eu senti que perdi algo. Perdi algo que nunca tive a real chance de ter. E eu não sabia como aqueles sentimentos e emoções podiam ser tão turbulentas, mas eram. E doía. Queimava. Machucava.
Eu não queria fazer tanto alarde ao chorar daquele jeito, mas eu precisava colocar pra fora. Eu sabia que sentia algo por Victor, e já tinha percebido que era algo intenso, mas naquele momento eu percebi que passava de algo simplesmente intenso. E eu estava assustada, mas acima de tudo eu me sentia culpada. Apertei meus olhos com força extrema, minhas unhas se cravando no travesseiro. Eu só queria chorar, mas sabia que não poderia ficar ali por muito tempo. Ele estava me esperando.
E eu tive vontade de gritar. Eu poderia estar sendo dramática, mas era a merda que eu estava sentindo! E eu não desejaria que ninguém sentisse aquilo.
Eu era completamente estúpida. Os motivos que faziam Victor ficar com raiva de mim talvez não fossem os mais maduros ou sensatos, mas a culpa era minha. Eu que comecei com aquilo. E ao me lembrar de tal coisa, percebi que havia algo naquela cama que eu já deveria ter visto.
Não me importei de afastar as lágrimas do meu rosto ou passar a mão na minha boca para tirar o gosto salgado das mesmas que estavam ali. Soltei o travesseiro, olhando então para o lado e vendo aquele colar. O peguei delicadamente, sentando-me na cama com rapidez e olhando-o.
Ali, em meus dedos, estava um pingente que fez meu coração dar um solavanco. Uma âncora. Como as âncoras do meu caderno. Como o símbolo que eu admirava. Eu mal podia acreditar que Victor tinha comprado aquilo. Mas ele tinha. Ele tinha comprado pra mim! Lembrei que ele estava com raiva de mim, lembrei do modo como me olhou e de seu tom frio. Funguei algumas vezes, limpando meu rosto com força.
Ele não iria ficar com raiva de mim. Eu iria mudar aquela situação. Eu não me importava se ele não passava a melhor imagem, fato que fazia minha atitude no banheiro não poder ser considerada tão ruim. Ele era um babaca na maioria das vezes, mas aquele garoto tinha me salvado de um cara com intenções nada puras. Tinha também deixado o próprio irmão, me jogado no seu carro e me tirado de uma festa onde quase fui agarrada por outro. Ele tinha devolvido meu caderno sem nem me dizer. Ele me fazia rir sem precisar de esforço. Ele me ouviu quando contei sobre Cam, e mudou o próprio visual apenas para não se parecer com ele. Entre outras coisas que eu estava atormentada demais para lembrar, mas eu apenas tinha certeza que precisava me redimir.
Olhei novamente para o colar, apertando os olhos um pouco e deixando umas lágrimas descerem. As últimas. Abri os olhos rapidamente, suspirando e prestando atenção em todos os detalhes do pingente. Era uma âncora prata, simples e pequena. Uma pequena pedra azul estava no topo da âncora. O pingente era delicado e simples, mas eu o achei simplesmente lindo. A corrente também era prata e brilhava um pouco.
Levantei-me fungando um pouco, e rapidamente caminhei até o banheiro. Empurrei a porta e entrei, virando-me e encarando meu reflexo no espelho. Suspirei um pouco, demorando alguns segundos para colocar o colar, já que era delicado e o feixe era pequeno. Encarei meu reflexo, mordendo meu lábio inferior. Minha boca estava cheia de pequenas marcas. Caramba, eu precisava parar de mordê-la tanto!
Não molhei meu rosto, apenas esfreguei um pouco meus olhos avermelhados e suspirei profundamente, passando os dedos por meu rosto e limpando os rastros que as lágrimas deixaram. Eu nunca fui uma pessoa que sabia criar planos facilmente ou tinha um rápido raciocínio, mas ali eu tinha algo planejado. Victor não ficaria com raiva de mim. Eu não deixaria aquilo acontecer. Eu tinha um plano.
Empurrei a porta de vidro do motel, finalmente saindo daquele lugar e respirando fundo. A mochila pesava em meus ombros, principalmente graças ao lençol que eu tinha colocado ali. Mas eu precisava dele para o plano funcionar.
Suspirei um pouco, andando até o grande carro preto. Victor já me esperava dentro dele, e eu sabia que quando entrasse naquele veículo o silêncio predominaria. Assim como aconteceu quando desci do quarto e o encontrei conversando com o recepcionista — que ficou me olhando um pouco malicioso, como se estivesse pensando no quanto eu e Victor nos divertimos. O recepcionista não poderia estar se iludindo mais.
Abri a porta do carro e pulei para dentro, fechando-a em seguida. Não me importei em colocar o cinto, porque se meu plano desse certo nós não ficaríamos muito tempo naquele carro. Coloquei a mochila perto dos meus pés, sentindo o alívio de não ter mais aquele peso em minhas costas. Então olhei para Victor.
Como previ, ele não me olhava. Victor encarava o nada, olhando pra frente e ligando o carro. Percebi que ele estava com o cinto de segurança. Eu queria puxar assunto, me sentia um pouco desesperada para ouvir sua voz, mas eu sabia que não podia. E preferia não conversar com ele a vê-lo sendo frio comigo.
Olhei para o vidro, vendo nada em especial do lado de fora do carro. Em questão de longos minutos nós já estávamos longe do motel. Eu não sabia bem para onde Victor estava me levando, mas sabia que não nos encontrávamos mais no meio do nada, pois comecei a ver coisas que fui reconhecendo aos poucos. Alguns prédios, casas, parques e outras coisas. Estávamos perto de Blanchaster. Hora de colocar o plano em ação.
Pigarreei um pouco sem jeito, e olhei para Victor. Ele estava usando óculos escuros, que eu sabia que antes estavam no carro. Sua expressão era calma, por mais que eu visse que ele estava meio fechado. Claro, ele estava com raiva de mim. Suspirei um pouco com o pensamento, mas me senti mais determinada. Victor mordeu um pouco o lábio inferior, parecendo estar pensando em algo. Prendi a respiração por alguns segundos com aquele gesto, sentindo uma vontade surreal de encostar meus lábios nos seus. Eu olhava para seu rosto, mas não conseguia ver para onde ele estava olhando. Seu rosto estava virado para frente, mas eu sabia que tinha a mania de olhar para os lados sem precisar virar o rosto. O vidro ao seu lado estava aberto, diferente do meu, e o vento batia com força em seus cabelos. Nossa, ele estava tão lindo.
Senti um arrepio na espinha, e naquele momento percebi que ele olhava para mim. Eu não tinha certeza, mas era o que estava parecendo. Rapidamente virei o rosto, olhando para o lado e torcendo nervosamente meus dedos. Será que ele já tinha percebido que eu estava usando o colar? Se sim, estava mais bravo comigo ou menos? Ele ao menos tinha me olhado? Argh, eu não sabia e não tinha como saber.
— Victor. — chamei baixo, finalmente criando coragem. Não esperei ele me responder, na realidade eu tinha medo que ele não o fizesse e eu fosse ignorada — Para onde estamos indo?
Victor ficou uns segundos em silêncio, o que me fez ficar completamente nervosa. Eu estava com medo de ser ignorada por ele. Poderia parecer besteira, talvez fosse, mas naquele momento eu precisava ouvir a voz dele.
— Comer. — ele finalmente respondeu.
Um pequeno sorriso brotou em meus lábios, enquanto eu fingia prestar atenção naquela paisagem. Por mais que ele tivesse dito apenas uma palavra, seu tom foi calmo. Obviamente ele ainda estava com raiva de mim, mas fiquei feliz em ouvir sua voz sem ser naquele jeito... frio. Aquele jeito que me machucou no quarto, e que, se fosse preciso, eu rezaria todos os dias para nunca mais ouvir.
Aquele era o momento real em que eu precisava colocar o plano em ação. Eu não sabia se daria certo, mas precisava dar. Eu queria ficar de bem com ele, por mais que aquele bem fosse brigando. Ao menos nossas brigas não duravam muito e quase nunca eram para ser levadas a sério.
— Pode me levar a um lugar antes? — pedi baixo, colocando o plano em prática.
Olhei para ele de lado, vendo-o parar um pouco. Mas no segundo seguinte ele voltou ao normal, suspirando profundamente.
— Eu tenho cara de motorista?
Revirei os olhos, cruzando os braços e me encostando no banco. Eu sabia que não seria fácil, mas não iria desistir tão cedo. Eu queria que ele voltasse ao normal comigo, mas minha língua estava coçando para dar uma resposta típica minha. Com raiva ou não, ele era o mesmo idiota de sempre.
— Quer uma resposta sincera? — provoquei, vendo-o sorrir pela primeira vez desde que entrei naquele carro.
Não foi um sorriso sincero, doce ou feliz. Foi um daqueles irônicos que ele sempre dava. Mas não me importei, apenas por vê-lo sorrir já me senti um pouco melhor e determinada em continuar com aquilo. No segundo seguinte ele fechou a expressão, como se tivesse lembrado que estava com raiva de mim e não podia sorrir. Como uma verdadeira criança. Tive vontade de rir.
— Eu mereço isso. — resmungou, e quase pude vê-lo revirar os olhos. — Que lugar?
— Você vai ver. — respondi, propositalmente misteriosa. Olhei para o lado de fora do carro, vendo algo que me fez sorrir largamente. O carro estava se aproximando de um mercado, ou o que parecia um. O local era pequeno, mas eu sabia que serviria. — Para aqui! — gritei de repente.
Victor parou rapidamente, surpreso. Por pouco não bati a testa no vidro do carro. É, eu deveria ter colocado o cinto de segurança. Victor bufou, olhando para mim e esperando uma explicação. Mas eu não expliquei nada, apenas olhei rapidamente para fora do carro e depois para ele.
— Me empresta um dinheiro. — pedi na maior cara de pau.
Ele me olhou como se eu estivesse louca. Sua expressão estava incrédula, enquanto eu sabia que ainda esperava uma explicação.
— Emprestar?
— Na realidade eu quero que você me dê, porque eu não vou devolver. — dei de ombros normalmente, vendo soltar uma risada incrédula e irritada, mas não me abalei.
— Isso só pode ser brincadeira. — murmurou, claramente irritado. Ergueu-se um pouco, levando a mão ao bolso e tirando uma carteira de couro. Observei enquanto ele abria e passava as diversas notas, parecendo procurar algo. Não fiquei surpresa ao ver tanto dinheiro ali, eu sabia que Victor o possuía. Ele pegou um pequeno pacote plastificado que estava na carteira, fechando-a e jogando-a no meu colo. Olhei com a testa franzida para seus dedos, vendo o que reconheci como um preservativo. Antes que eu pudesse questionar, ele soltou: — Só pra você não se assustar.
Suspirei um pouco, olhando rapidamente para baixo, não sem antes ver o sorriso afetado dele. Era um fato comprovado, ele ainda estava com raiva de mim. Em sua voz senti ainda um pouco de mágoa, mas provavelmente foi coisa da minha cabeça.
Peguei logo a carteira, abrindo-a e tirando cinquenta dólares. Victor continuou com o carro ligado, mas não me importei. Joguei a carteira em seu colo e abri a porta do carro, pulando para fora e entrando no mercado.
— Seu troco. — suspirei profundamente, feliz por tudo estar dando certo.
Larguei dez dólares na mão de Victor, vendo-o erguer uma sobrancelha. Olhou para o banco de trás enquanto ligava o carro, como se quisesse ter certeza de algo. Voltou a olhar para frente e jogou o troco em um espaço que estava perto da marcha do carro. Eu sabia que todos os carros possuíam aquele espaço, mas não sabia o nome dele.
— Me deixa ver se entendi. Você gastou quarenta dólares em comida de mercado?! — questionou de modo incrédulo, apontando com a mão livre para as sacolas que estavam no banco de trás.
Assenti orgulhosamente, quase vendo uma interrogação desenhada em seu rosto. Às vezes até eu mesma ficava incrédula com a minha falta de vergonha na cara.
— Isso aí!
— Mas a gente estava indo comer! — exclamou, olhando-me enquanto já dirigia.
— E estamos. — sorri de lado, tentando disfarçar uma expressão travessa.
Se ele desconfiasse do que eu iria fazer, o plano iria por água abaixo.
Victor suspirou profundamente, como se procurasse se acalmar. Pude o ouvir soltar um "você é maluca e eu sou um idiota por ainda estar aqui", mas continuei sorrindo, alternando entre olhar para ele e para fora. Nem eu sabia como ele tinha tanta paciência comigo.
Então ficamos em silêncio. Mais de vinte minutos se passaram, e eu conseguia ouvir minha própria barriga roncar. Victor não disse durante aqueles minutos, e eu não sabia o que dizer. Preferi ficar em silêncio mesmo. Então percebi que precisava explicar a ele onde era nosso destino, já que ele não sabia e eu tinha certeza que não perguntaria. Provavelmente ele achou que eu tinha esquecido e estava indo para algum lugar que ele queria.
— Sabe onde é a Kendal's Juice? — perguntei, tocando em meu mais novo colar. Não esperei que Victor respondesse, era óbvio que ele sabia. Fala sério, todo mundo sabia onde era. Era uma lanchonete que todos os jovens sociáveis iam. — Então, umas três ruas depois têm um campo vazio. Acho que você já viu. Enfim, hum... — eu sabia que ele me olhava. — Atrás do campo tem outro campo, mais escondido, que tem uma fonte e essas coisas. É só você parar lá.
Victor ficou uns segundos em silêncio, como se pensasse em algo.
— Aquele lugar é praticamente abandonado. — falou calmamente.
Assenti um pouco, finalmente olhando-o. Sorri de leve, sabendo que ele não retribuiria, mas simplesmente tive vontade de sorrir.
— Eu sei.
— Pronto. Chegamos ao campo atrás do campo que é perto da KJ. — eu podia sentir a clara ironia em sua voz — E agora? Posso te deixar aqui e ir embora? — ele bufou meio impaciente e irritado.
Certo, a culpa não foi minha se ele quase atropelou um cachorro no caminho! Quem mandou não prestar atenção?! No momento do ocorrido eu tive vontade de gargalhar, porque Victor ficou extremamente puto e ofendeu todos os animais do planeta, mas eu me segurei. Então durante todo o resto do caminho ele ficou com uma carranca. Qual é, ele me culpava por quase ter atropelado o animal?!
— Vamos descer. — sorri largamente, abrindo a porta do carro e pulando para fora.
Eu já tinha passado por aquele lugar algumas vezes, mas nunca tinha realmente me aproximado. Era magnífico! Victor estava certo, o lugar era praticamente deserto. As árvores eram grandes e bonitas, deixando vários lugares na sombra, protegendo-os do sol que não estava lá muito quente, não a ponto de incomodar. A grama era bem cortada e de um verde vivo, eu sabia que era de verdade, mas não parecia. No centro do campo estava uma fonte meio antiga. Eu pisquei algumas vezes ao ver de longe a água escorregar pela fonte de modo gracioso. Era o tipo de lugar que eu via nos filmes. O tipo que os atletas iam passear com seus cachorros, as crianças iam brincar e correr, os casais deitavam na grama e observavam o céu. Mas o lugar realmente estava abandonado, por mais que fosse extremamente bem cuidado.
— Não, não, não! Não! — Victor negou várias vezes, fazendo-me revirar os olhos discretamente, sendo forçada a parar de admirar o lugar e sentir a energia positiva que ele emanava, assim como tranquilidade. Aquele lugar era bonito demais, nem Victor conseguiria me irritar e tirar a minha paz. Naquele momento eu percebi como amava a natureza. Fechei a porta do carro e fui andando lentamente até uma das enormes árvores, mas parei quando Victor disse alto: — Eu já disse não?!
Virei-me. Eu não estava muito longe, então podia vê-lo claramente irritado, passando uma das mãos no cabelo.
— Fala sério! — resmunguei. Eu iria convencê-lo a sair daquele carro. — Vem logo.
— Eu não vou! — gritou em resposta. — Volta pro carro!
Tudo bem. Calma. Sem desespero. Eu sabia que não seria fácil convencer Victor, então eu tinha uma carta na manga. Eu iria apelar.
Dei de ombros e comecei a correr pelo campo. Soltei uma alta e feliz risada, que me lembrou aquelas que eu dava quando era uma criancinha e corria para os braços do meu pai. Sorri com o pensamento, correndo e dando alguns pulos, rindo alto e sentindo aquela liberdade. Meu Deus, aquilo era incrível.
Eu me sentia em um comercial de absorvente, em que a garota em questão corria e sentia que estava livre apenas por estar usando o absorvente da marca que fez o comercial. Tive vontade de gargalhar com o pensamento, e o fiz. Soltei um gritinho, correndo mais e sorrindo mais. Um sorriso que era maior que a minha cara. Depois de tanto tempo, eu finalmente senti meu coração leve de verdade. Aquele lugar parecia ter um grande efeito sobre mim, e era bom.
Meus amigos sempre diziam que eu era uma boa atriz, e aquele era o momento de ver se eles estavam certos ou não. Respirei fundo antes de fazer algo que nem eu mesma acreditei que estava fazendo, ou que um dia precisaria fazer. Fingi tropeçar, e eu mesma vi em câmera lenta meus pés vacilando e eu caindo de cara no chão. Ou melhor, na grama. Eu nem precisei atuar naquele momento, pois o grito que soltei foi completamente espontâneo e real, praticamente beijando o chão. Eu odiava cair. E cair de propósito não era muito melhor.
Gemi propositalmente alto, respirando fundo e rolando na grama, ficando de barriga para cima. Meu corpo estava doendo um pouco, mas graças a Deus aquela grama era realmente macia. Agradeci mentalmente quando ergui um pouco a cabeça e vi que nenhuma parte do meu corpo estava sangrando. Deitei novamente a cabeça na grama, suspirando e me perguntando se eu era muito esperta ou muito estúpida. Bancar a donzela indefesa quase sempre dava certo — minha experiência era baseada em filmes e livros, mas deveria servir de algo —, mas Victor não era nenhum cavalheiro, então eu não sabia se o plano funcionaria. Tudo ao meu redor pareceu girar um pouco e senti meu corpo meio dormente, uma sensação que não era nem de longe agradável. Eu não fazia idéia se estava arrependida de ter feito aquilo ou não, e não tinha certeza se funcionaria, mas já era tarde demais para arrependimentos.
Respirei fundo algumas vezes, ficando completamente imóvel e sentindo uma tontura desconfortável, mas ela não durou muito. Eu não estava sentindo nada muito doloroso, então olhei para o lado e vi que em questão de segundos eu não estaria mais sozinha. Minha queda provavelmente tinha sido a coisa mais ridícula do mundo, mas agradeci mentalmente por ter sido convincente.
Victor vinha correndo em minha direção, eu não podia ver muita coisa graças a minha miopia, mas sabia que ele não estava muito feliz. Eu realmente não esperei que ele viesse tão rápido — ou que ele ao menos viesse de verdade, já que era um pouco arriscado me jogar no chão e fingir estar machucada, levando em conta que Victor era bem imprevisível —, mas ele estava se aproximando. Ao perceber que ele estava bem próximo, me desesperei. Eu precisava fingir estar machucada, mas onde eu supostamente estaria machucada?!
Olhei para baixo, analisando meu próprio corpo e em questão de segundos decidi onde estaria machucada. Deitei a cabeça no gramado novamente, automaticamente uma expressão de dor assumindo meu rosto quando ele se sentou ao meu lado. E mesmo estando irritado comigo e provavelmente naquele momento mais ainda, eu agradeci mentalmente por ele estar ali. Mesmo eu não sabendo se ele estava se importando comigo ou com o fato de não querer ter que cuidar de mim depois, caso fosse sério. Ele não estava mais com os óculos escuros no rosto, eles estavam presos na gola de sua camisa.
— Você é retardada ou o quê?! Será que não consegue ficar quieta? Que merda! — esbravejou completamente irritado, olhando para os lados como se procurasse algo.
Então ele finalmente olhou para meu rosto e sua expressão suavizou um pouco quando me viu aparentemente sentindo dor. Ao ver sua expressão percebi que estava indo bem, tudo estava funcionando. Aproveitei aquele momento para deixar todo o teatro mais convincente e fazê-lo pensar que eu estava sentindo muita dor. Eu não queria mentir para ele daquele jeito, mas era melhor que tê-lo com raiva de mim.
— Me ajuda... — soltei baixinho, mordendo meu lábio inferior com certa força, como se tentasse reprimir a dor.
Victor se aproximou mais de mim, levando as mãos para meus braços, mas quando as aproximou foi no exato momento em que mordi o lábio, então ele não me tocou. Ele parecia com medo de me tocar, e naquele momento percebi que estando irritado ou não, ele estava se importando. Ele estava preocupado. Recolheu as mãos rapidamente, decidindo não me tocar, já que não sabia onde eu estava machucada e eu estava imóvel.
— Eu não falei pra voltar pro carro?! Pelo amor de Deus, o que você estava pensando? Porra, garota! — então ele mordeu o lábio um pouco, apreensivo, mas acabou tocando em meus braços e me ajudando a sentar. Minhas pernas ainda estavam esticadas. Em seu toque pude perceber sua irritação, mas também senti que ele estava tenso e tomava cuidado ao me tocar, como se tivesse cuidado de me machucar ainda mais. Por um momento pareceu que ele não sabia o que fazer. — Você ‘tá’ bem?
Sua voz soou um pouco mais suave. Neguei duas vezes com a cabeça, olhando-o um pouco aflita. Não estava sendo tão difícil como pensei que seria. Ao ver aqueles olhos demonstrando preocupação, minha garganta trancou um pouco e senti novamente a culpa. Mas eu não podia fazer nada, precisava continuar.
Eu mostraria a ele que não tinha pé machucado nenhum, só estava esperando a oportunidade. Eu sabia que ele provavelmente explodiria comigo. Ao vê-lo daquele jeito percebi como ter feito aquilo foi idiota, mas foi uma idéia de última hora. Não estava nos meus planos. Quando ele descobrisse que eu estava fingindo, provavelmente iria embora e me deixaria ali. Mas eu precisava insistir, afinal, as sacolas ainda estavam esperando dentro do carro e o lençol roubado na minha mochila também.
Fingi que estava machucada apenas para fazê-lo sair do carro, eu não sabia que ele iria se preocupar daquele jeito comigo. A idéia era apenas cair, fazê-lo sair do carro, mostrar que não estava machucada e colocar o real plano em prática. Parecia que ia dar certo, até porque não pensei que ele iria demonstrar alguma real preocupação, ou que eu pediria por uma. Sinceramente nem eu sabia mais o que estava fazendo, mas uma parte de mim gostou de vê-lo preocupado daquele jeito, e queria mais daquele tratamento. Infelizmente era uma parte bem grande de mim.
— Não... — soltei, respirando fundo e olhando-o de modo um pouco suplicante. — Meu pé... está doendo. — falei pausadamente para deixar claro que eu estava sentindo dor, mesmo que não fosse real — Por favor...
Não precisei continuar, ele sabia que eu estava precisando de sua ajuda. Victor coçou a nuca um pouco, olhando-me como se eu fosse uma criancinha que não tomava jeito.
— Quem mandou ser tão teimosa?! — soltou, mas depois pareceu repreender a si mesmo por soar tão duro. Suspirou profundamente, de modo meio derrotado, então assentiu lentamente. — Tudo bem. — murmurou de modo bem mais suave. Sorri um pouco, vacilante. — Deixe-me ver isso. Diga-me onde dói.
Assenti um pouco, lembrando que não havia dito a ele qual pé estava machucado — até porque nem eu sabia qual era —, mas decidi que seria o primeiro que ele tocasse. Continuei sentada, com meus dois antebraços direcionados para frente e minhas mãos na grama, deixando meu corpo erguido. Victor se afastou um pouco e foi até meus pés, sem se importar com o pouco de grama que estava em sua calça jeans.
Ajoelhou-se na frente de meus pés e suspirou um pouco, tocando na sandália do meu pé direito. Ou seria o esquerdo?! Eu não sabia. Nunca fui muito boa em diferenciar direita de esquerda. Não que eu fosse burra, mas coisas bobas como aquela às vezes me deixavam confusa. Era como quando eu estava fazendo contas de matemática e simplesmente acabava confundindo adição, subtração, divisão e multiplicação. Ou estava escrevendo uma redação e do nada parava tudo que estava fazendo para questionar se alguma palavra — que sempre era uma extremamente fácil e que eu soletraria em questão de milésimos — estava escrita de modo certo, ou se ao menos existia. Era confuso.
— Seu pé parece normal... — murmurou.
Victor delicadamente retirou a sandália do meu pé, colocando-a de lado. Surpreendi-me com a leveza de suas mãos, que era algo diferente a o que eu estava acostumada. Franzi a testa, sem conseguir esconder a surpresa por vê-lo agindo de modo tão delicado e cuidadoso. Fiquei por uns segundos olhando-o. Ele olhava para baixo, fitando meu pé, parecendo pensar em que parte tocar primeiro. Seus cabelos estavam bem bagunçados, daquele jeito que eu adorava. Eu não conseguia ver seus olhos, mas sabia que seus lábios estavam contraídos. Sorri um pouco.
Agradeci mentalmente por meu pé estar limpo. Eu abri a boca para dizer a ele qualquer coisa que fosse, só sentia que precisava falar, mas não pude porque seus dedos tocaram em meu tornozelo e eu percebi que ainda precisava continuar fingindo. Como estava tão distraída antes, soltei um gemido que acabou atropelando as palavras incertas que antes eu ia dizer, presas na minha garganta. Sabendo o quanto aquilo foi estranho, gemi novamente. Mas também não foi como planejei.
O segundo gemido pareceu convincente, mas... diferente. Não foi exatamente um gemido apenas de dor. Eu não sabia se era coisa da minha cabeça, mas o modo como gemi rouco e baixo, mordendo a língua um pouco depois para reprimir, pareceu extremamente sensual. Eu nunca tinha feito algo como aquilo antes, nunca nem tinha precisado gemer daquele jeito em situação alguma, mas simplesmente saiu sem que eu nem percebesse. Com certeza era coisa da minha cabeça. Eu provavelmente estava ficando louca e mais safada que o normal. Estava vendo coisas.
Mas Victor ergueu o olhar e fixou-o em meu rosto exatamente no momento em que gemi, parando de tocar em meu pé e cerrando os olhos. E naquele momento eu percebi que, não, eu não estava ficando louca. Mesmo de modo inconsciente, eu tinha feito aquilo, e com certeza tinha chamado sua atenção. Senti meu rosto completamente quente quando vi que ele não me olhava como antes, eu não conseguia ver mais preocupação em seus olhos. Eu via algo mais, algo que me fez ofegar um pouco, fitando-o de volta de modo incerto.
— Meu pé está doendo... — falei baixo, procurando disfarçar a vergonha que estava sentindo.
Eu tinha quase certeza que ele estava me despindo com os olhos. E aquilo foi o suficiente para me fazer querer cavar um buraco e me jogar nele. Ao mesmo tempo em que olhava para meu rosto, parecia olhar também meu corpo, inclusive o decote nada discreto daquela blusa.
— Muito? — perguntou ele, a voz rouca e baixa.
Senti um pouco de malícia em sua voz. Ele parecia em uma espécie de transe, e pareceu que nem estava piscando os olhos. Olhava-me atentamente, como se eu pudesse sumir se ele desviasse o olhar.
— Muito. — respondi inconsciente.
Eu não estava mais respirando, e sentia que Victor também não. Mesmo com tantas provocações e brincadeiras, ele nunca tinha me olhado daquele jeito. Era intenso, um pouco assustador, mas fez todo meu corpo se arrepiar várias vezes. Seu olhar quase conseguia penetrar minha alma, e naquele momento entendi o que as pessoas queriam dizer com “comer com os olhos”. Ele estava visivelmente me desejando, e eu com certeza não sabia o que fazer. Estava me sentindo nua, por mais estranho que pudesse parecer. Só conseguia ficar calada, olhando-o de modo questionador e cauteloso. Esperando o que aconteceria em seguida.
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