The Anatomy of the Heart
1 Prólogo
Notas iniciais
Musica do capítulo - 7 years, Lukas Graham.
https://www.youtube.com/watch?v=LHCob76kigA
"Eu juro, por Apolo médico, por Esculápio, Hígia e Panacea, e tomo por testemunhas todos os deuses e todas as deusas, cumprir, segundo meu poder e minha razão, a promessa que se segue”:
Os primeiros raios de sol invadiram preguicosamente a janela do pequeno apartamento de um quarto, refletindo sobre as cortinas antigas de renda, indo de encontro ao assoalho de madeira. Conseguir um apartamento adequado e acessível em Nova York nunca havia sido uma tarefa simples, então eu deveria me considerar extremamente grata por ter conseguido, mesmo que a antiga moradora tenha pouco ou nenhum senso de decoração, combinando em um mesmo ambiente um papel de parede florido com tons de amarelo e cortinas brancas de renda, que mais pareciam ter saído de um filme de época, ou talvez o fato de morar tão próximo da estação de trem, tornando possível ouvir o seu soar ao longe e que às vezes o seu passar fizesse as janelas tremerem um pouco. Não, eu não poderia reclamar, ele era ideal, num bairro extremamente confortável e de certa forma até mesmo seguro, considerando os padrões nova-iorquinos e a apenas 50 minutos do meu mais novo local de emprego.
Revirei-me preguiçosamente, tateando os lençóis de maneira delicada, abraçando o travesseiro como se ele fosse à última pessoa que eu quisesse deixar naquela manhã. Por mais incrível que possa parecer eu consegui acordar primeiro que o despertador, talvez fosse porque eu mal havia conseguido pregar o olho, pois noite passada os meus mais novos vizinhos, um grupo de universitários, tenha realmente achado viável fazer uma festa, tocando música caribenha até o amanhecer, ou simplesmente por estar nervosa para o meu primeiro dia. Não importava quantos livros eu lesse, quantos casos decorasse ou quantos professores me dissessem que eu realmente estava pronta para aquele momento, eu simplesmente não conseguia me sentir capacitada. Uma interna, a partir de agora eu era uma interna e havia conseguido uma vaga para a residência de medicina intensiva em um dos mais renomados hospitais dos Estados Unidos, o New York General Hospital.
O som irritante do despertador me trouxe de volta para a realidade. Busquei no criado mudo de mogno o celular tentando acabar com aquele barulho irritante o mais rápido possível. Assim que peguei o aparelho consegui vislumbrar, no protetor de tela, o rosto sorridente de uma garotinha com seus 6 ou 7 anos, usando o cabelo preso em duas tranças que pendiam e tocavam as suas bochechas rosadas. Ela segurava um urso de pelúcia em uma das mãos, enquanto a outra passava pelo pescoço de uma moça mais velha, com cabelos acobreados e covinhas evidentes.
—É por você mãe. – minha voz saiu baixa e fraca. – Sempre vai ser por você.
“Estimar, tanto quanto a meus pais, aquele que me ensinou esta arte; fazer vida comum e, se necessário for, com ele partilhar meus bens; ter seus filhos por meus próprios irmãos; ensinar-lhes esta arte, se eles tiverem necessidade de aprendê-la, sem remuneração e nem compromisso escrito; fazer participar dos preceitos, das lições e de todo o resto do ensino, meus filhos, os de meu mestre e os discípulos inscritos segundo os regulamentos da profissão, porém, só a estes".
Levantei devagar, ignorando todos os protestos do meu corpo, que ansiava desesperado por mais algumas horas de sono e toquei meus cabelos tentando em vão organizar os fios revoltos. Sai da cama e caminhei devagar em direção ao banheiro, desviando da bagunça que eram aquelas roupas e livros espalhados pelo chão. Entrei no banheiro e quase que de imediato senti o frio dos azulejos brancos percorrer meu corpo, fazendo com que me arrepiasse. Incrível como aquela pessoa refletida no espelho não se parecia em nada com a garotinha sorridente da foto. Os cachos castanhos que costumavam pender como cascatas por minhas costas, agora estavam sem vida, meu corpo magro, resultado de uma dieta nada saudável baseada em estresse e muito café, demonstravam o quanto aqueles últimos anos haviam me consumido.
Entrei no chuveiro e deixei a água quente invadir o meu corpo, passando por minha pele clara e levando consigo todos os medos e inseguranças que eu havia acumulado até aquele momento. O cheiro forte de lavanda, proveniente do shampoo, logo tomou conta do pequeno cômodo, assim como o vapor que agora se fixava nas vidraças.
“Aplicarei os regimes para o bem do doente segundo o meu poder e entendimento, nunca para causar dano ou mal a alguém.”
“A ninguém darei por comprazer, nem remédio mortal nem um conselho que induza a perda. Do mesmo modo não darei a nenhuma mulher uma substância abortiva.”
Envolvi meu corpo com a toalha e saí em busca da roupa mais adequada para o meu primeiro dia, jeans e um suéter creme, acompanhado por uma sapatilha clara e sem salto, era uma combinação perfeita, não tinha como dar errado. Nada poderia dar errado, não hoje. Coloquei desajeitado o pijama cirúrgico em uma mochila, assim como o jaleco, sapatos confortáveis, estetoscópio e aquele cartão horrível de identificação, em que eu não consegui esboçar mais do que um sorriso amarelado e um olhar cansado e de ressaca por conta de toda a tequila da noite anterior, afinal eu havia recebido uma das melhores notícias da minha vida, a aprovação na residência, tinha que comemorar de alguma maneira.
—Está pronta Dra Ella James, médica residente? – cochichei sorrindo, tentando abafar o nervosismo aparente – Não me decepcione.
“Não praticarei a talha, mesmo sobre um calculoso confirmado; deixarei essa operação aos práticos que disso cuidam.”
“Conservarei imaculada minha vida e minha arte”.
Com uma das mãos peguei o copo de café quente para a viagem recém tirado da cafeteira e com a outra busquei minha agenda, colocando dentro dela a cópia do artigo completamente marcado que eu usei para me distrair na noite anterior, o nome do autor logo abaixo do título não poderia ser outro, Ethan Sayer, com duas especializações: medicina interna e imunologia, o Dr. Sayer foi um dos motivos para ter escolhido o NY General.
“Em toda casa, aí entrarei para o bem dos doentes, mantendo-me longe de todo o dano voluntário e de toda a sedução, sobretudo dos prazeres do amor, com as mulheres ou com os homens livres ou escravizados.”
“Àquilo que no exercício ou fora do exercício da profissão e no convívio da sociedade, eu tiver visto ou ouvido, que não seja preciso divulgar, eu conservarei inteiramente secreto.”
Desci as escadas pulando alguns degraus e aproveitando um pouco meu café da manhã, coloquei os fones e permiti que meu corpo recebesse o frio do início do inverno, colocando o agasalho preto de botões logo em seguida. Passei por pessoas distraídas por quase todo o caminho até o metrô, um típico “homem de negócios” com um terno barato, celular em uma das orelhas e uma pasta de couro a tira colo, uma senhora de cabelos brancos levando seu cachorro para passear e uma mãe segurando a mão de sua filha enquanto esta trajava um clássico uniforme escolar.
—Vai ficar tudo bem. – A ouvi sussurrar para a menininha enquanto colocava uma das mechas de seu cabelo para trás da orelha. – Você vai conseguir fazer as pazes com ela, afinal vocês duas são melhores amigas. – Suas palavras pareciam aquecer meu coração. Mãe... Que saudade.
Peguei o metrô em direção a Washington Heights e me sentei próximo à janela, encostando a cabeça no vidro frio. Foi preciso apenas uns 5 minutos de caminhada até vislumbrar a fachada imponente do hospital. Apertei com força a alça da bolsa e respirei fundo, tentando regular as batidas do meu coração.
—Você consegue Ella... Está pronta pra isso. Afinal, você é uma médica agora.
“Se eu cumprir este juramento com fidelidade, que me seja dado gozar felizmente da vida e da minha profissão, honrado para sempre entre os homens; se eu dele me afastar ou infringir, o contrário aconteça."
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