Thauke - A Carta de Luke
1 Capítulo Único
A guerra havia acabado. Ela finalmente havia acabado. Com exceção a um ou outro semi-deus que chorava por um querido caído na luta, o clima no acampamento era de festa. Todos celebravam por finalmente estarem livres. Eles haviam conseguido. Vencido a guerra. E agora ninguém mais morreria pela guerra.
–Nós conseguimos. — Thalia murmurou para si mesma, cheia de amargura na voz. — Eba.
Ela estava sentada em uma grande rocha, na praia do acampamento. A rocha ficava a sombra das arvores e outras rochas maiores, e no horizonte o sol se punha, fazendo a praia ter uma linda iluminação avermelhada. Ela pensou se deveria apreciar como ele era bonito. Ela segurava o próprio arco nas mãos com muita força, como se estivesse prestes a rompe-lo. A perna, anda engessada, esticada a sua frente, e a muleta jogada de lado.
Ela sabia que deveria estar feliz. Mas não conseguia. Ela queria gritar, chutar, invadir o Mundo Inferior para trazer Luke de volta. Queria socar a face de cada um que festejava naquele momento.
Luke estava morto. E Thalia estava destruída.
Seus pensamentos foram interrompidos pelo barulho de paços se aproximando. Ela não se deu o trabalho de olhar. Continuou olhando para o horizonte, lutando para não deixar lágrimas subirem aos olhos, apertando o arco.
–Thalia? — Ela demorou alguns segundos para reconhecer a voz de Nico DiAngelo.
–Sim? — Ela respondeu.
O garoto pensou em recuar ao ouvir a voz rude e com uma amargura profunda.
–Eu preciso falar com você.
–Então fale. — Seu tom de voz não mudara.
–Eu estava no Mundo Inferior.
Ele fez uma pausa. Ela não respondeu ou deu sinal de se importar.
–Eu vi o julgamento de Luke. — Ele fez outra pausa, dessa vez mais curta, para observar cautelosamente a reação da garota.
Ela não se virara para ele. Seus olhos se pareceram se tornar mais profundo. Uma rachadura se formou no arco, e, com um sonoro crack, parte da madeira se quebrou.
–Ele... Pediu para eu entregar isso.
Com outro crack o que restara se quebrou e o arco partiu em dois. Mas ela não deu importância a ele enquanto se virara para Nico, os olhos levemente arregalados.
Repousando as mãos de Nico, estava uma carta.
Tentando tomar uma postura desconfiada, ela estreitou os olhos e se esticou na pedra para agarrar a carta. Esperou que o garoto não pude-se perceber como o coração dela parecia prestes a saltar de seu peito.
Ela segurou a carta se sentou novamente. E continuou a segurando. Mal vira Nico se afastar, murmurando um de nada. A garota não tirara os olhos da carta. Não conseguira abri-la. Não poderia. Sabia que aquilo iria derrubar as barreiras que havia criado para si mesma que a impediam de gritar, espernear, chorar e esbofetear aos outros.
Ela soltou um suspiro. Ela cedera. Ele sempre vencia. Então desdobrou o papel cheio de marcas, abrindo-o. E começou a o ler.
“Querida Thalia,
Eu.. Eu realmente preciso escrever essa carta. Eu realmente preciso que você a leia. Eu preciso urgentemente pedir perdão. Mas eu não sei como e nem o que falar. E se eu falasse que estou arrependido? Que eu fiz tudo por você? Eu fiz. Eu queria te vingar. Queria vingar tudo o que os deuses fizeram. Tudo o que fizeram com você. Queria fazer os velhos tempos voltarem.
Lembra quando a gente se encontrou pela primeira vez? Você era pequena, mas tinha uma expressão forte, e eu senti que eu precisava de você. Eu necessitava da sua presença. Eu necessitava da sua companhia, dos seus sorrisos tímidos e difíceis. Eu queria te ter por perto. Queria sentir você perto de mim, suas mãos perto das minhas. Mesmo que fosse pra me bater, ou implicar comigo. Eu me tornei dependente de você tão rápido.
Ah Thalia, eu não sei se você me perdoará, porque, independente do que acontecer, nada vai ser como era antes. Eu não posso ficar a eternidade sem saber se você me perdoa. Não posso. Eu vou te explicar tudo. Eu queria você de novo. Queria poder ver tua risada, o jeito que seu cabelo balançava e até seus olhos azul, que tantas vezes me deram medo. Medo, alegria. Me tiraram preocupações tantas vezes. Me passaram segurança. Eu me lembro, quando olhava pra você sem vontade alguma de seguir em frente e você me abraçava. “Vai ficar tudo bem, Luke. Não vamos morrer, não vai acontecer nada de ruim. A gente vai conseguir. A gente vai ser feliz” Mas não fomos.
Meu mundo desmoronou quando eu te vi naquele estado. Toda desfalecida. Te ver semimorta, com os olhos quase apagados foi a pior coisa do mundo. Ah deuses, como é difícil viver sem você garota, como foi difícil viver cinco anos com o peso da sua ausência nas minhas costas. Sabe o que vinha na minha mente? Que eu fui um inútil, pois não consegui te proteger. Não conseguir poupar a pessoa que eu mais amava no mundo. Me perdoa, Thalia Grace? Perdoa as minhas burradas? Meu jeito horrível de pensar que acabou te tirando de mim, outra vez? Porque eu me lembro de tudo. De tudo. Tudo. Lembra naquele natal? Quando a gente parou em uma floresta e ascendemos uma fogueira? Lembra o colar que eu te dei? Lembra aquela foto com aquela máquina furtada? Ser filho de Hermes tinha lá suas vantagens. Lembra daquele beijo? Aquele, no mesmo natal. Você se assustou e ficou olhando pra minha cara como se fosse um absurdo. Afrodite sabe como foi bom aquilo. O quanto foi bom ter você nos meus braços naquele dia, nem que fosse apenas proteção.
Ah garota, como eu queria poder te proteger outra vez. Como eu queria poder te falar que ia ficar tudo bem, como eu queria falar pra você que nunca iria deixar nada acontecer contigo… Queria olhar nos teus olhos elétricos e mútuos pra poder desvendar seus pensamentos, suas vontades. Eu queria poder ouvir você dizendo “Luke, não dá. Eu não consigo. É muito alto” . Lembra disso? Você chorava, e eu fiquei lá do seu lado, e não deixei você cair. Eu queria que isso voltasse.
Se eu soubesse que meus atos faria tanta coisa acontecer, eu teria pensado antes de cometê-los. Mas tente me entender: eu fiz tudo por você. Tudo. Eu fiz pensando em você. Lembra quando eu fui te pedir ajuda? Você me ignorou, falou que não me reconhecia. Que eu estava fora de mim. Aquilo machucou. Meu mundo virou de ponta cabeça. Eu perdi tudo que eu conquistei. Você. Depois daquilo, eu percebi uma coisa: Não tinha mais razão pra continuar. O que viesse agora, era bom, comparado ao que acontecera. Ao que eu fiz você passar. Eu não tinha mais um motivo pra lutar, então me entreguei.
Se eu voltei? Não, não foi possível. Ainda. Mas Thalia, eu vou voltar. E não ligo pra sua virgindade eterna ou seus votos. A gente vai retomar os velhos tempos. Vamos ser eu e você de novo. Sabe o monstro que eu me transformei? Não existe mais. Se eu voltar, será por você. Porque apenas você importa. Apenas você. Eu sinto muito te decepcionar, eu sinto muito. Eu não queria que isso acontecesse, mas eu sou inseguro. Sou totalmente dependente de você, e não consegui viver em paz sem sua presença.
Eternamente seu, Luke.”
A garota já tinha dois rios rolando pelo rosto. Não conseguia conter os soluços. Apertou a carta com força contra seu peito, aos prantos. Junto com o colar que ainda estava bem preso ao seu pescoço, aquele era seu último pedaço de Luke. Ela sabia que o coração que batia descompassado em seu peito pertenceria eternamente a ele.
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