That's Dorcas Meadowes
8 You deserve love
Notas iniciais
Dorcas batia repetidamente na porta da casa da família Lupin no vilarejo de Ottery St. Catchpole. Estava muito preocupada porque Remus não respondia suas correspondências e qualquer sinal de falta de comunicação a deixava alarmada desde que perdera a mãe.
A guerra já estava instaurada e ela temia muito o que os aguardavam quando terminassem a escola no final daquele ano. Os atentados de grupos puristas deixaram de ser esporádicos, e Remus era mestiço e licantropo, Dorcas não conseguia parar de pensar no pior.
Estavam de férias e só voltariam a Hogwarts em setembro, ela estava vivendo com Mary e sua família trouxa, ainda não conseguia ficar sozinha na casa dela depois da morte da mãe. Remus vivia com o pai, em uma vila bruxa afastada de Londres, mas Dorcas não conseguiu ficar sem notícias, não aguentaria perder mais ninguém.
Só quando um homem alto e com a barba por fazer abre a porta, com a expressão de quem havia acabado de acordar, mas com a varinha em riste, que a menina percebe que já estava muito tarde.
— Oh, peço perdão...Estou procurando pelo Remus.
O homem, com os mesmos cabelos claros e rosto angular do amigo, abre mais a porta para que ela pudesse entrar.
— Sabe que horas são? É perigoso estar andando sozinha tão tarde, menina.
Ela não tem tempo de responder ou reparar como era o interior da casa, pois ouve uma tosse meio fraca vindo de um dos cômodos que tinha a porta entreaberta. Automaticamente, sem se importar com a boa educação que recebeu, ela anda depressa pelo corredor e abre a porta do quarto, tendo a visão de Remus enrolado em, pelo menos, duas cobertas na cama.
Aflita ela leva a mão a testa do garoto, arfando ao nota-lo pelando em febre. Remus abre os olhos e assume uma expressão confusa:
— Dorcas? O que...o que faz aqui?
— Shiu, levanta. Você precisa de um banho -ela puxa as cobertas, o ajudando a se levantar. O garoto tinha o corpo pesado, tendo um pouco de dificuldades para andar até o banheiro.
Ao chegaram lá Dorcas o deixa sentado no vaso com a tampa fechada e puxa sua camisa para cima de seus braços, o ajudando a retirar a calça também. O garoto fica um pouco constrangido devido o modo que estava, na frente da amiga, mas não conseguia relutar, se sentia realmente mal. A menina não pensava direito na situação em que estavam, se fosse qualquer outro momento, ficaria desconcertada em ver Remus com tão pouca roupa. Mas naquele instante, tudo o que pensava era nos arranhões e feridas que ainda estavam espalhados pelo peitoral, ombros e costas dele. Havia sido Lua cheia na noite interior, ela se lembrava bem.
— Consegue tomar banho? -ela diz, acariciando os cabelos dele, o olhando com atenção e uma seriedade dificilmente vista nela. O loiro apenas assente, recebendo um beijo no topo da cabeça antes de Dorcas sair do banheiro e fechar a porta.
O homem que atendera a porta estava agora sentado na sala, com o queixo apoiado na mão a observando no corredor. Ela queria gritar com ele, perguntar por que não havia ajudado o filho, mas prefere evitar, tomando a liberdade para ir até a cozinha, observando algumas panelas dispostas no fogão trouxa.
— Tem sopa na grande.
Pai de Remus diz, da porta do cômodo, assustando a menina. Ela estava divagando sobre o que poderia fazer que sequer o ouviu chegar ali. Dorcas assente e liga o fogo baixo para esquentar a panela indicada, Remus precisaria se alimentar. Ao se virar para o homem novamente, ele apenas desvia o olhar e entra em um outro quarto no corredor. Ela sentia coisas conflituosas a respeito dele, mas preferiu apenas agradecer mentalmente por já ter algo pronto. Por fim, voltou até o quarto do Maroto e esperou sentada em sua cama até que ele voltasse.
Quando Remus entrou no cômodo, tudo ao redor dele cheirava a lavanda e shampoo. Dorcas sorriu quando ele se sentou na cama, deixando um suspiro cansado escapar.
— Como veio parar aqui, huh?
— Não tive notícias, fiquei com medo. E o que aconteceu com você?
A cacheada pergunta ficando de pé e tirando um pote com uma pomada cicatrizante da bolsa que levara consigo, parando de frente para ele e indicando para que tirasse a camisa. Um pouco a contra gosto, Remus puxa a peça pela cabeça e foca o olhar para além da menina, estava envergonhado demais por seu estado para conseguir encara-la.
— Peguei chuva nos últimos dias, arrumando o terreno. Acho que fiquei gripado e a transformação acabou com o que havia sobrado da minha imunidade -ele fala depois de fungar, deixando que ela passasse o creme em um ferimento no ombro dele.
— Puxa vida, Remus...
O tom sofrido que ela usa fez o rapaz afastar o braço, abaixando o olhar para o chão. A licantropia despertava muitas coisas nas pessoas e depois do desprezo, a que Remus menos gostava era pena. Dorcas desde que havia descoberto o tratara exatamente igual, mas naquele momento em que estava tão vulnerável, ve-la agir como se ele fosse frágil demais, machucou seu orgulho em níveis que nem ele esperava.
— Não sou um fraco, Doe...-murmura baixo, tentando não soar rude, ele saiba que a menina estava apenas querendo ser gentil.
Ele observa a morena deixar o pote no chão e se ajoelhar a frente dele, para poder olhar seu rosto. Quando entra no campo de visão do loiro, ela tinha um feição séria, com o cenho franzido.
— E por acaso eu disse que era? Alguém que mesmo passando por isso todo mês, ainda consegue ser gentil com todos, não se torna ranzinza nem amargurado, com certeza não é alguém fraco -a menina falava como se tivesse sido insultada por ter que explicar aquilo- Não é vergonha precisar de ajuda, Remus. E não faço isso porque tenho pena...faço porque...gosto de você. Muito.
Mesmo hesitante, ela sabia que precisava falar logo, tinha que aproveitar o momento de coragem impulsionada pela raiva do loiro supor que estava ali por pena. Piscando algumas vezes ao escutar suas palavras, Remus atende ao único impulso que tem e inclina o rosto pra frente, colando os lábios nos dela, que apesar da surpresa retribui de imediato. O beijo foi exigente e intenso, ele leva as mãos ao rosto da cacheada e a puxa para cima, em alguns segundos ela estava sentada em seu colo, sem terem desgrudado os lábios ainda. Tinha um misto de muita vontade reprimida e certa melancolia.
Quando Dorcas passa as mãos pelos ombros dele e toca em um machucado, sente o garoto ficar rígido e respirar pesado, no mesmo momento ela arfa e se afasta.
— Desculpa....
— Não tem problema -o loiro diz baixo, ignorando o fato de que podia sentir com precisão suas coxas ao redor do quadril dele, leva uma das mãos ao rosto dela e acaricia sua bocheca, com o olhar divagando pelos traços de Dorcas- Você é incrível...
A menina nega com a cabeça e segura o rosto de Remus entre as mãos, cuidadosamente, evitando encostar na ferida que ia de sua tempora ao queixo. Ela encara os olhos dele, desejando que ele pudesse enxergar ali o que ela queria dizer.
— Não sou alguém excepcional por isso, se apaixonar por você é algo muito mais fácil do que pensa. Você merece alguém que cuide de você, que te ame -seu tom é quase em uma súplica- Não é alguém fraco ou ruim, pare de pensar tão pouco de si e me deixe passar esse creme com cheiro horroroso nos seus machucados de uma vez.
Ela havia tocado em pontos muito difíceis para o rapaz, suas inseguranças haviam sido expostas e saber que ela via além delas foi assustador. Remus ficou muito tocado com as palavras positivas da menina, porém não conseguia afastar o pensamento de que estaria condenado Dorcas se a aceitasse na vida dele dessa forma. Entretanto, enquanto o licantropo observava a menina passar a pomada delicadamente em todos seus machucados, uma outra parte de seu cérebro conflituoso gritava que queria sim ser amado, que Dorcas podia ser a chance de uma vida feliz, que Remus nunca esperou para si. E mesmo assim, ali estava ela.
— Antes de negar, adianto que não é um pedido -ela fala séria, mas com um tom carinhoso, estendendo as mãos para ajuda-lo a se levantar- Vamos jantar.
Com um sorriso mínimo, Remus se deixa ser levado a pequena cozinha, que estava tomada por um cheiro gostoso e um calor confortável. Ele se senta na cadeira perto do fogão e olha Dorcas ir até a panela, desligar o fogo e encher de sopa uma tigela que estava limpa na pia.
— Quando foi que teve tempo de fazer comida? -pergunta realmente curioso, sentindo o estômago roncar. Não havia notado que estava com fome até encarar o prato em sua frente.
— Não fui eu quem fiz -diz enchendo mais duas tigelas iguais, colocando uma colher em cada e posiciona em dois lugares vagos à mesa. Ela se senta ao lado dele, assoprando uma colherada antes de comer, indicando com a cabeça para que ele fizesse o mesmo.
Antes que Remus pudesse levar a primeira colher cheia a boca, seu pai para no corredor e percorre toda a cena com o olhar. Ele sente seu corpo ser analisado, cada ferida coberta com o creme verde e depois os olhos do pai param no lugar posto vago, antes de se fixarem em Dorcas, que comia a sopa assoprando calmamente cada colherada.
O maroto se surpreendeu muito quando o homem não virou as costas e saiu do cômodo, mas caminhou até a mesa e sentou em silêncio. Eles não fazia refeições juntos havia algum tempo. Desde que Hope se foi, a relação deles ficou muito difícil. Apenas o som das respirações e os talheres batendo na louça preenchiam o lugar, mas de alguma forma, aquele momento pareceu tão reconfortante ao loiro, que teve que fazer um grande esforço para ignorar a queimação nos olhos.
Ele encara a cacheada ao lado dele, que percebe e retribui o olhar, lhe direcionando um sorriso, antes de voltar a atenção para comida. Era inacreditável que ela....apenas combinasse tão bem com o lugar. Dorcas, que vinha de uma família com dinheiro e nome no mundo bruxo, que tinha uniformes novos todo ano, sapatos sempre envernizados...estava ali naquela minúscula cozinha, comendo sopa com legumes colhidos do quintal e parecendo não se importar. Parecendo se encaixar.
Não, na verdade, ele a conhecia bem demais para saber que ia além da aparência. Remus sabia que Dorcas, de fato, não se importava. Ela tinha tudo para ser alguém diferente, puro sangue, filha única crescida em uma família influente, tão bonita que era surpresa não ter um casamento marcado, mas mesmo assim, nada disso a afetava. Ela era muito mais que todos os determinantes que a cercavam. E isso era só uma entre todas as coisas que o encantava a respeito da menina.
E talvez por isso, ou porque Remus estivesse muito desejoso de viver outros momentos daquele, que ele apoia a mão sobre a dela. Com apenas uma troca de olhares carinhosos um pensamento do loiro silenciava todos os outros: talvez ele merecesse mesmo ser amado.
Fale com o autor