"Thank you".
1 "Thank you".
Já havia sido vaidosa e cuidadosa como tal, mas agora, Sakura só se preocupava em viver seus dias tranquilamente.
Há alguns anos atrás, havia adquirido um hábito que pouco lhe era comum: calçava o mesmo par de sapatos velhos, agarrava-se com força à sua bandana e, de uma forma desritmada, caminhava pelas ruas de Konoha como uma assombração. Todas as noites, às onze em ponto, qualquer cidadão poderia testemunhar sua caminhada rumo a canto algum, perdendo-se na noite como quem se perde em seus próprios devaneios.
Seu primeiro argumento fora o de que precisava se exercitar para ficar mais forte e deixar de ser uma completa inútil.
Mas logo ele se perdeu, da mesma forma que ela se perdia pelas ruas escuras.
Sakura sempre fora, de alguma forma, acorrentada à rótulos. Era a testuda, era a boboca, era a inútil. Em diferentes fases de sua vida, cada um desses títulos pareceram pesar-lhe mais – era a testuda que competia com Ino, era a boboca apaixonada por Sasuke, era a inútil que não se atrevia a ir para a linha de frente. O último, sendo o que mais lhe pesava agora, era exatamente aquele com o qual ela duelava diariamente. Cresceu sendo a inútil protegida por Naruto e Sasuke, cresceu dependendo do primeiro e buscando afoitamente pelo último.
Inútil. Pura e simplesmente.
E era por isso que, quando voltava àquela noite, as palavras dele lhe feriam.
“Sakura...
Obrigado.”
Ele lhe havia agradecido sem um motivo. Ou, talvez, fosse ela que não conseguisse ver. Sempre se escondera atrás de Naruto e Sasuke, nunca lhe fizera nada além de importunar e perseguir, e ele lhe apedrejava com aquele seco obrigado que até hoje não lhe saía da mente. “Obrigado”, ele disse. Mas nunca justificou o porquê de agradecê-la.
Os anos que se sucederam serviram para que paradigmas se estilhaçassem e se perdessem na brisa. Não fora diferente para Sakura. Ela sempre fora a testuda, a boboca, a inútil, mas ele lhe havia agradecido e ela precisava ser digna daquele agradecimento. E seria, ah, e seria. Aquele obrigado lhe transcedera; ela, que sempre fora a inútil, agora ocupava o lugar de renascente. Havia se tornado forte e útil, havia abandonado os rótulos nos quais se acorrentara tão firmemente. Se ele lhe agradecera, então precisava ser digna do agradecimento. Mudara para ser merecedora daquela palavra tão pesada e tão libertadora que ele proferira em uma noite escura como todas as outras.
Mas ainda não era capaz de trazê-lo de volta.
Sua caminhada pausou. Devido à escuridão – da rua, das casas, dos pensamentos – ela não reconhecia o entorno. Não precisava, contudo. Havia se fortalecido o suficiente para não correr riscos na noite de Konoha, mas se sentia frágil, frágil. Se ele a visse agora, saberia que ela mereceria aquele obrigado. Mas ele não a via, mas ele não sabia.
Porque ele sequer havia voltado.
Não havia motivos para vaidade e cuidados.
Porque ele sequer havia voltado.
Não havia motivos para tornar-se mais forte.
Porque ele sequer havia voltado.
“Obrigado”, ele disse uma vez.
E se perdeu nas brumas de suas memórias.
Sakura reconhecia aquele lugar. Que curioso. Havia se libertado se seus rótulos e se tornado mais forte para voltar exatamente ao ponto de partida; ah, pernas traiçoeiras que sempre lhe carregavam para o mesmo ponto! Ou seria seu coração, que guiado pelas lembranças dele, lhe arrastava à força para o mesmo local da despedida de anos atrás?
E ela parou ali, fitando o vazio da noite escura, perdida em conclusões que nunca pareciam concluir nada. E esperou.
E esperou.
E nada.
Há alguns anos atrás, havia adquirdo um hábito que pouco lhe era comum: calçava o mesmo par de lembranças velhas, agarrava-se com força àquela sua esperança meio fajuta e, de uma forma desritmada, fugia pelas ruas de Konoha como quem foge de si mesma. Parava no mesmo lugar onde tudo havia começado – ou terminado, ou continuado – e esperava, e esperava. Já faz tempo, Sasuke-kun. Se eu não fui capaz de te trazer de volta, você poderia voltar. Somos o time sete e as coisas não tem sido as mesmas sem você, mesmo que o tempo tenha passado e eu não seja mais tão inútil.
“Sakura.” Alguém lhe chamou. Ela não se atreveu a virar.
Porque quando voltava àquela noite, as palavras dele lhe feriam.
“Sakura.” Chamou novamente. E ela se virou.
E ela viu. Finalmente.
Seus olhos estavam tão escuros quanto sempre foram, mesmo que a fisionomia estivesse mais rígida e as marcas do tempo lhe desenhassem em finos traços. O tempo, constatou, agiria com ou sem consentimento, sendo ela uma inútil ou não. Ela pensou ter visto um sorriso no rosto dele, mas tão rápido quanto surgiu, ele desapareceu. E ela viu, finalmente. Apesar da vontade de correr, abraçá-lo e chorar como fazia na maioria das vezes, suas pernas lhe prenderam ao chão, lhe prenderam à realidade. Sakura, que agora era forte, sorriu seu primeiro sorriso verdadeiro em alguns bons anos, e não se importou com o gosto salgado de suas próprias lágrimas. Esticou o braço para oferecer-lhe a bandana, e ele, meio hesitante, pousou a mão sobre a mesma – e sobre a mão dela. Por Kami-sama, as mãos dele eram quentes, tão quentes quanto as de seus sonhos.
“Sakura...” Sasuke chamou uma terceira vez.
“Obrigado.”
Finalmente.
Não há de quê, Sasuke-kun.
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