Thank You

1 Capítulo 1


Julieta Bittencourt já estava com a paciência esgotada. Como se não bastassem os problemas com seu filho, Camilo, agora não podia mais pisar no Vale do Café sem sofrer algum tipo de ameaça. Pensara que tudo estaria resolvido ao afastar o delegado cúmplice de Xavier, mas os poucos dias em que permanecera na capital, o inimigo havia elaborado outro plano.

Agora estava na Casa de Chá, tentando recuperar-se de mais um susto, mais um momento de pavor ao ter sua vida ameaçada. E para seu completo desespero, precisava tolerar a presença do filho do Barão de Ouro Verde, Aurélio. Não que o homem fosse insuportável por natureza, era até mesmo muito galante e educado.

O problema habitava na forma como seu corpo reagia à ele. Na lembrança de suas mãos contra sua pele, dos lábios de Aurélio contra os seus. Seu desconforto estava no misto de admiração e incomodo que sentia a cada vez que ele retrucava o que ela dizia, ou que confessava seus sentimentos sem que ela pedisse.

E agora ali estava ele, com os olhos preocupados, mantendo um mínimo de distância por respeito a ela. Mas seu olhar acompanhava todos os movimentos, fazendo Julieta sentir-se consciente demais de si mesma. E não podia evitar fita-lo também, vez ou outra.

A camisa de Aurélio permanecia suja de tomate, em um ataque que sofrera para defende-la. E ela não estava acostumada a ser defendida. Evitava colocar-se em posição de vítima, em posição inferior. Era dona de seu destino e de seus pensamentos, exceto quando o assunto era Aurélio.

Ela ainda pensava nas palavras dele, em como enfrentara o pai minutos antes para apoiá-la. E vira em seus olhos que não havia qualquer interesse oculto. A assustava mais do que tudo a realização de que Aurélio não esperava nada em troca. De que não estava por perto por interesse ou influência.

Ao levantar-se, seus olhos se cruzaram, e logo depois se conectaram. Ele a fitava com interesse, e antes que pudesse perceber, Julieta dera um pequeno sorriso de agradecimento. Os olhos de Aurélio faiscaram com o gesto, e o formigamento nas mãos que Julieta sentiu fez com que lembrasse das pessoas ao seu redor.

Sem trocar nenhuma palavra, Julieta foi embora, rumo à fazenda e seus pensamentos.

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Aurélio ouviu uma batida leve na porta do quarto de hotel. O sol dava seus primeiros sinais, e ele arrumava suas coisas para levar para a casa do Coronel Brandão, que gentilmente cedera espaço para Aurélio. Apressou-se em atender ao chamado, pensando ser Ema.

Surpreendeu-se ao dar de cara com a Rainha do Café em sua porta, mais uma vez. Ao contrário da primeira, Julieta não tinha uma expressão assustada dessa vez. Mas era enigmática, incompreensível, como tudo nela.

— Por que ficou ao meu lado contra seu pai e Xavier? – demandou.

— Bom dia para você também, Julieta. – Aurélio sorriu, fazendo-a revirar os olhos. – Em que posso ajuda-la?

— Ora, vamos cortar a ladainha. – a Rainha invadiu os aposentos de Aurélio sem convite. – Eu lhe fiz uma pergunta e exijo uma resposta.

— Você sabe porque, Julieta. Já tivemos essa conversa tantas e tantas vezes. Eu a admiro.

E ela foi pega de surpresa novamente. Não era a resposta que esperava, ainda que devesse prever essa abordagem.

— O senhor não precisa me bajular para recuperar as terras... – iniciou seu discurso.

— Julieta, eu nunca dei a você motivos para duvidar do meu afeto. – Aurélio deu um passo em frente, assustando-a.

— Bobagem. – ela contornou Aurélio, refugiando-se do outro lado do cômodo. – De qualquer forma, eu vim agradecer-lhe.

Aurélio sorriu, incapaz de conter a incredulidade. Surpreendia-se que para uma mulher tão inteligente e bem sucedida, Julieta lidasse tão mal com emoções. Perguntava-se se no fundo Julieta não o procurava justamente para ouvir de sua boca os elogios e sentimentos.

— Eu teria feito o mesmo por qualquer outra pessoa. – ele provocou, e os olhos dela faiscaram.

— Entendo... – ela sorriu irônica. – Agora que já agradeci, seguirei o meu caminho.

Julieta caminhou em direção à porta, porém ao cruzar com Aurélio, sentiu-o segurar firmemente seu braço. Automaticamente virou sua cabeça em direção a ele, sem dimensionar o quanto estavam próximos. Seus narizes quase se tocaram, e Julieta prendeu a respiração com a perspectiva.

— Eu fiz porque gosto de você. – ele disse, em um sussurro, afrouxando a mão que a segurava.

Julieta fechou os olhos.

— Por que insiste? – perguntou, fraca.

Aurélio virou-a com delicadeza para que ficasse de frente para ele. Acariciou o rosto de Julieta, o toque de seus dedos fazendo a pele dela arrepiar-se. Aproximou a testa da dela, tocando seus narizes, dando a ela o tempo de reagir. Mas Julieta não o fez, e então Aurélio tocou de leve seus lábios nos dela.

O contato fez uma onda de choque atravessar seus corpos. Antes que pudesse entender, Julieta levou as mãos ao rosto de Aurélio, e as mãos dele a puxaram para cintura. Seus lábios se abriram calmamente, e foi só quando a língua de Julieta pediu passagem que Aurélio tomou a coragem de aprofundar o beijo.

Sua mão rumou para a nuca de Julieta, enquanto as dela repousaram no peito do homem à sua frente. Sentia-se leve, entregue, quase como se estivesse fora do próprio corpo. O desejo que sentia por ele não era comparado a nada do que vivera antes. E ao dar-se conta disso, seus pensamentos rumaram para lugares que ela preferia esquecer.

Afastou-se abruptamente dele, tentando forçar o ar para dentro dos pulmões. Aurélio tinha os olhos compreensivos, e isso apenas a atordoava mais ainda. Ele já expressara a suspeita de que seu passado escondesse algo, mas não estava pronta para o que Aurélio a fazia sentir.

— Seu petulante. – ela deu um passo para trás.

— Admita, Julieta. – ele pediu, em uma suplica. – Admita que uma pequena parte de você gosta de estar comigo.

— O senhor é muito convencido. – sua postura retornou à Rainha do Café. – Que isso não se repita.

Ela virou as costas, em passos firmes em direção a porta.

— Não adianta fugir. – Aurélio disse, antes que ela fechasse a porta. – Logo vai admitir que também me ama.

Ele sorriu quando ouviu a porta fechando-se, cada vez mais ciente das respostas de Julieta e de que ela aos poucos se abria para o sentimento dos dois. A porta fechada infelizmente impediu que Aurélio visse que Julieta permanecera alguns segundos do outro lado, a mão nos lábios sensíveis pelo beijo.

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