Texturas de Papel
1 Capítulo único
Notas iniciais
Seis meses se passaram, e Margo ainda é um mistério pra mim. Na verdade, ela sempre manda fotos, mensagens e telefona, mas eu gostaria de tê-la perto de mim. É estranho conviver com uma pessoa, e mesmo assim, estar tão longe dela.
— Cara, você não para de olhar pra esse celular — diz Ben. — Só vamos aproveitar este dia lindo e maravilhoso!
Ignoro, checando as últimas mensagens que havia recebido; que são 1) da minha mãe dizendo que eu não volte para casa agora, porque 2) ela está trabalhando pesado para arrumar tudo, já que a empregada não pôde ir; o que 3) eu achei altamente estranho.
Ben abre a janela do quarto dele, apontando com as duas mãos para o lado de fora. Depois vê que aquilo não vai dar em nada, e tira o celular de mim.
— Q, isso é ridículo. Se você veio até aqui pra ficar ignorando tudo que eu falo, então é melhor você sair agora.
— Tá me expulsando? — indago.
— É — balançou a cabeça lentamente —, acho que sim.
Ele devolve o aparelho, e saio de lá, permanecendo em pé, bem em frente a casa dele. Tiro o celular do bolso, ligando para Radar. Ele atende no segundo toque.
— Onde você tá? Acabei de ser expulso da casa do Ben, e pareço ridículo por dizer isso, mas minha mãe tá arrumando a casa e, sabe, eu não quero ajudar ela. Não tô com cabeça pra isso.
— Só um minuto — pede, e em alguns segundos ele continua: — Ah, oi, voltei. Desculpa, cara, mas não vai dar. São oito horas da manhã, e combinei de sair com a Angela.
— O que vocês vão fazer?
— Vamos a uma cafeteria — responde. — Ainda não comi nada, só esperando ela chegar. Vai ser um café da manhã bem...
— Tudo bem — o interrompo. — Tchau.
Entro na minivan, sentindo meu celular vibrar. É uma mensagem! Uma mensagem da Margo!
“não sei o Que sua Mãe inventou, Mas eu Estou na sua casa. isso Parece meio estranho, já Que não avisei nada a ninguém. Não vá a qualquer Lugar que você estava Indo agora, porque eu Não quero Perder tempo”.
Solto uma risada alta. Margo ainda é adepta àquele uso aleatório das letras maiúsculas! O mais engraçado é que eu consegui ouvir, na minha mente, sua voz pronunciando cada palavra.
(...)
Arrumo o cabelo rapidinho, e olho pra baixo, vendo se estou parecendo um garoto normal que não quer nada com uma garota “normal” que veio me visitar. Quando saí cedo para ir à casa de Ben, eu parecia um bêbado que havia acabado de acordar. Espero que ainda não esteja com essa mesma aparência.
Entro, e minha mãe diz:
— Ah querido, a Margo está aqui.
— É. Eu sei. — Tento não parecer tão animado. — Cadê ela?
— No seu quarto.
— Ahn, tudo bem. Vou lá, então.
Respiro fundo, sentindo meu coração bater forte. Giro a maçaneta lentamente, e a primeira coisa que consigo enxergar são seus olhos azuis, olhando diretamente pra mim.
— E aí, Quentin? — ela está sentada na minha cama, e mesmo tendo muito espaço, se afasta um pouco.
Sento ao seu lado. Ainda estou nervoso.
— Meu Deus, eu tenho tantas coisas pra te contar, Margo! Não sei exatamente por onde começar, mas... Sinto sua falta o tempo todo. Nunca vou esquecer aquele nosso momento. Aquele momento de vingança. Foi incrível! Foi tipo... A melhor experiência da minha vida. Estou falando sério!
— Shh. Também foi bem divertido pra mim — diz, pondo as duas mãos envoltas do meu pescoço. Por um momento, acho que vou desmaiar. Vou desmaiar bem aqui, com a garota que eu gosto bem próxima do meu corpo. O que eu menos quero agora é acordar desse sonho. Um sonho real. Espero que não acabe nunca.
Me aproximo dela, e beijo seus lábios. Foi tão bom quanto o nosso último beijo. Nesse finalzinho de verão, eu só gostaria de acompanhá-la para qualquer lugar bom o bastante para ficarmos realmente a sós. Mas já é mágico pra mim estar perto de Margo Roth Spiegelman.
Nos separamos, e ela continua:
— Estamos em uma cidade de papel. Somos feitos de papel.
Balanço a cabeça em concordância.
— Você é tão sortudo por levar uma vida assim. E eu sou tão sortuda por estar aqui, ao lado do Quentin Jacobsen.
Solto uma risada, e ela me acompanha.
— Você é uma grande garota. — ela me encara, confusa. — Quer dizer... Você é tão linda, tão exótica e surpreendente.
— Poxa. Valeu, Q. — ela bagunça meu cabelo e levanta da cama, observando meu quarto. Aí encontra uma antiga fotografia num porta retrato em cima da minha cômoda e mostra pra mim, dizendo: — Aqui você tinha oito ou nove anos, eu acho. Brincávamos juntos naquela época.
— Eu me lembro disso.
— Eutambémlembrodisso — afirma. — Quer sair daqui? Vamos pra algum lugar com mais agitação, ou sei lá.
— Tá — pego as chaves do carro, e coloco-as no bolso da frente. — Bem, o que acha de sair por aí na minivan?
— Radical.
Saímos de casa, e entramos na minivan. Margo aumenta o volume da música. Não consigo reconhecer qual é, mas é agitada. Ela mexe os braços de acordo com o ritmo tocado. Permaneço atento na estrada, mas Margo dá um soquinho de leve no meu ombro, e eu sorrio.
— Vamos lá, Q — diz entre risos.
Balanço a cabeça, tentando dançar. Margo ri ainda mais.
— Ok, você é um péssimo dançarino.
(...)
Antes de ir para casa, Margo me entrega um papel bem dobrado, depois me abraça. Retribuo, e ela me dá um rápido beijo na bochecha.
— Quero que leia isso quando estiver sozinho. É meio pessoal.
E foi isso que eu fiz. Entrei no meu quarto, e li o que havia escrito.
Oi, Quentin. olha, se quer saber, eu Gosto muito de Você. é difícil admitir Isso Porque, depois de Todos esses anos eu Ainda não o conheço de verdade. E Como você Já deve imaginar, eu Viajo daqui a Alguns dias. mas, Q, eu... bem... eu Te amo! Não aguentaria partir Antes de Contar isso. Ainda vamos nos ver Muitas vezes, e Quero muito que você Me acompanhe em algumas Dessas minhas aventuras. Talvez não Agora, mas, Um dia teremos bastante Tempo para fazermos isso à vontade. “Talvez não Agora” porque sei que está na faculdade, e Sei que Não é isso que quer para sua vida agora. Obrigada!!! Agradeço também por Temos Os melhores Amigos que poderiam existir. Ben, Radar, Lacey... E são as Cidades de Papel que nos Formam.
Com muito amor, M.
Da minha janela consigo avistar Margo me olhando. Ela sorri, e eu faço o mesmo.
— Euteamo! — não tem como ouvi-la, mas dá para ler o que seus lábios dizem.
Abro a janela e grito:
— São as cidades de papel que nos formam!
Margo responde:
— Tá seu danadinho, vem cá.
Vou até ela, sorrindo, sentindo que nada pode atrapalhar o nosso momento. Margo fecha os olhos e me abraça. E agora estamos abraçados, confortando um ao outro.
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