Texturas

1 conto em capítulo único.


Texturas



Existe uma realidade onde as paredes têm a textura da pele humana, se uma estátua de mármore a toca pressionando, ela afunda na região tocada. Esse lugar tem a forma de cubo, onde mora a estátua, ela sai todos os dias ao nascer do sol e da poucos passos, até que os raios atinjam seu corpo. Como o sol quando atinge o mármore gelado, ela sente um imenso prazer, ficando estática, mobilizada pelo acariciar dos raios solares. Permanece assim o dia todo, e quando o astro incandescente deixa de atingi-la ao cair da tarde, ela o persegue, até que não possa mais alcançá-lo. Ela então volta para casa, e nota que escorre líquido pelas paredes, o sol as desidrata, uma gota grossa se forma na superfície do teto, caindo sobre seu olho, escorrendo pelo lado do nariz.

O frio da noite começava desde o primeiro momento em que o sol deixara de abençoar o planeta, a estátua sem o tempero do sol, é gélida, ela não se suporta, sofre a noite toda, qualquer lembrança é insuficiente tendo em vista o desprazer do largo agora, o dia dura pouco. Ela encosta seu corpo de frente na parede, a textura se arrepia formando diminutos e redondos relevos em sua superfície, a estatua tenta absorver o pouco que resta do seu calor.

Em meio ao desespero, finalmente ela vê o céu ficar púrpura e caminha na noite atrás do primeiro raio de sol. Quando o encontra, para imediatamente absorvida pelo toque dos raios, que vão se tornando cada vez mais intensos.

Um portal se abriu e surgiu no planeta um viajante dos planos, vindo de um planeta chamado por ele de terra. Era meio dia e ele viu à certa distância a casa da estátua. Apertava os olhos, tentando discernir o objeto que via, mas, cada vez que se aproximava, menos ainda discernia. Até se aproximar o suficiente para se horrorizar com uma textura que era idêntica a sua pele e suava como ela, gotas de líquido escorriam pela bizarra parede. Ele ficou febril e suava como os insanos soam quando estão delirando. Saiu dali correndo,tentando esquecer o que agora estava impresso em seus sentidos.

Quando parou de correr e olhou para frente, estava a poucos metros de uma estátua, com o rosto virado na direção do sol, tinha um nariz protuberante, fino e reto, uma boca pequena, de lábios grossos cuja parte de cima afundava nos cantos, formando um leve biquinho. Foi esculpida para parecer sustentar o peso de um lado da coluna, o que deixava reta sua perna direita, enquanto dobrava levemente a esquerda. Um corpo de contornos muscular bem evidente, nada exageradamente musculoso, apenas definido, com veias que saltavam das mãos soltas e levemente encostadas na coxa. Era a forma mais bela que o terráqueo já vira, imaginava como seriam os cachos do cabelo se esvoaçassem maciamente ao vento. Lembrou novamente da estranha parede suada e procurou esquecer; permaneceria o tempo que fosse prostrado frente a essa estátua, até que seus sentidos finalmente estivessem livres da horrenda visão.

O sol foi baixando de pouco a pouco e o terráqueo encharcado de suor observava maravilhado aquela escultura imóvel, tão perfeita, de traços tão vivos, como se fosse virar o rosto em sua direção a qualquer momento, encarando quem lhe encarava. Ele se aproximou da estátua, queria senti-la, mas tinha receio de que a textura rígida do mármore lhe quebrasse o encanto. Encostou seu corpo suado na figura morna de mármore e um leve frescor o percorreu. Ocorreu-lhe que aquela figura tão rígida eternizava algo em sua forma. Eternizava na rocha sem vida uma forma destinada a atração, afinal isso é tudo que os terráqueos querem, atrair e usar. E com sorte, se entre duas pessoas, uma encontrar na outra o que quer, elas se satisfarão mutuamente, se usarão e chamarão isso de amor.

A estátua demorou muitos segundos para perceber que alguma coisa lhe tampava o acariciar dos raios solares, o transe do contato com o sol da tarde já baixo fora lentamente interrompido por algo que lhe parecia ser as paredes de sua casa. Chateada ela olhou para baixo e viu algo indiscernível grudado ao seu corpo, rapidamente empurrou para longe, sentindo imediatamente a estranheza de parecer tocar nas paredes de sua casa. Viu caído ao chão em sua frente uma estranha criatura. Era feita da mesma coisa da qual era composta uma parede, mas tinha um rosto, agora com os olhos arregalados e a boca frouxa, tinha um peitoral definido assim como o dela própria, porém cinzelado naquela estranha textura. A criatura estava toda suada, assim como uma parede ao sol do meio dia. Levantou-se com os olhos iluminados e um leve sorriso no rosto, estendeu as mãos, vinha com elas em direção ao seu rosto, ela pensava no que poderia querer aquela estranha criatura. O terráqueo encostou seus lábios nos da estátua, cada movimento dele era uma incógnita para ela, que facilmente jogou para o lado aquela forma cinzelada em material tão frágil, para que pudesse gozar do sol que já se enfraquecia no escoar da tarde.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.