Texto #1
1 Único.
Na mocidade se endividou e no auge da vida esqueceu se do amanhã que o futuro voltaria a lhe cobrar. Com papéis e canetas invisíveis escrevia letras invisíveis de um futuro certo. Queria saber apenas da parte boa e rapidamente esquecia de suas responsabilidades. Aos 20, viva na boêmia. Aos 30, juntava algum para beber e esquecer da semana pesada. Aos 40, vivia embriagado para aguentar a mulher e alguns problemas. Quando fez cinquenta percebeu o tempo que havia perdido. Corações que havia partido. Partira o próprio ao casar se por obrigação e o de sua esposa que aprendeu a amar esse homem. Para esquecer a dor subiu no ponto mais alto do prédio mais alto da parte alta da cidade e olhou para a descida feita de janelas quadradas e cinzas. Sentiu um aperto no peito e só viu a dor aumentar. Seus problemas não herdariam muito, o pouco que podiam ganhar havia se perdido nas quintas de jogo. De seus problemas teve apenas dois netos enquanto ainda estava vivo. "É a hora" falou para si mesmo. Ou para qualquer ser que habitasse sua mente. E falou alto para que todos eles ouvissem e fizessem um minuto de silêncio. O seu ego se preocupou com o que iriam pensar desse gesto injusto com a família. A inveja queria os anos de vida boa dos colegas que se deram bem na vida. A descrença mandou todos se calarem para ver se o homem ia ter mesmo coragem. A felicidade já tinha dado lugar ao medo há muito tempo na cabeça daquele homem, e esse se escondeu para não ver o fim. A compaixão lamentou o fim. Mas não se pronunciou. Só restou a coragem que ia e vinha.
O vento batia às nove horas da manhã fria que fazia. O velho apenas sentou no parapeito e acendeu um cigarro, dois cigarros, três cigarros e uma carteira inteira. Se perguntava como e por que o vício não havia lhe poupado daquela situação. E chorou. E o medo voltou. A descrença deu lugar a certeza e correndo desceu do parapeito. Prometeu largar os vícios e procurar a felicidade. Ligou para os problemas e declarou seu amor aos quatros. E ligou para a mulher e disse que lamentava ter sido ruim, que mudaria, que a amava pela primeira vez em anos. Pegou o elevador e foi correndo para o carro antigo e sentiu dor nas costas. Caiu no chão sem entender o que a vida tinha feito com ele. Que injustiça. QUE INJUSTIÇA. Viu sua vida diante dos olhos e cuspiu sangue na cara dos clichés. Viu dois homens em uma moto. Puxaram sua carteira vazia, a chave do carro, sua dignidade e única chance de mudar o que tinha vivido. E sentiu o beijo quente de sua esposa. Sentiu o abraço de cada filho, arrependido de não tido mais chances. Sentiu o gosto do conhaque que tomava todo dia e quis sentir se sóbrio. Fechou os olhos para o público que nunca viu. E dormiu como um bebê acalentado pela mãe. Para sempre.
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