Texchuga chronicles
1 Capítulo 1 — Quatro protagonistas
Capítulo 1 — Quatro protagonistas
A primeira coisa que ele sentiu foi o gosto de terra.
Não terra de jardim. Terra de verdade — grossa, úmida, empurrada entre os dentes como se alguém tivesse socado um punhado dentro da boca dele enquanto dormia. Tentou cuspir. Os lábios não obedeceram direito. Tentou engolir. Pior ainda.
Abriu os olhos.
Escuridão. Total. O tipo de escuro que não melhora quando você pisca, porque não tem nenhuma luz pra entrar. Tentou levantar o braço e sentiu peso — pedra, cascalho, algo prensando o antebraço contra o chão. O ar era ralo, quente, com cheiro de poeira e ferro.
E então viu.
Um retângulo de luz pálida flutuando a trinta centímetros do rosto dele. Semitransparente. Bordas suaves. Letras brancas organizadas como uma interface de jogo.
Ele piscou. O retângulo continuou ali.
"Seja bem-vindo, Vagabundo."
Embaixo, em letras menores:
"Missão: Sobreviva e ajude os três a sair da caverna. Se falhar, morrerá e matará todos os outros. Se conseguir, ganhará uma recompensa."
Ele ficou parado. Leu de novo. Leu uma terceira vez.
Três pensamentos passaram pela cabeça dele em sequência rápida. O primeiro: isso é um sonho. O segundo: isso é um sistema. O terceiro — e esse veio com um arrepio que desceu da nuca até a base da coluna — foi: eu li isso em algum lugar.
Não. Ele leu isso em muitos lugares. Em dezenas de manhwas. Em centenas de novels. O herói acorda num lugar estranho, um painel aparece, uma missão é dada. Ele sabia exatamente o que aquilo significava.
Transmigração.
O coração acelerou. Não de medo — de reconhecimento. Como se o corpo inteiro tivesse entendido antes da mente. Ele tentou mexer os dedos. Funcionou. Tentou o pulso. Funcionou, mas doía. Tentou virar o pescoço e sentiu algo errado — o pescoço era mais grosso que o dele. Os ombros eram mais largos. As mãos, quando conseguiu trazê-las até o rosto, eram ásperas, calejadas, com unhas quebradas e sujeira incrustada.
Não eram as mãos dele.
Engoliu seco. O gosto de terra voltou.
Tudo bem. Tudo bem. Corpo novo. Mundo novo. Sistema. Missão. Ele sabia o roteiro. Tinha lido esse roteiro mil vezes deitado no sofá às três da manhã com o celular a cinco centímetros da cara. A diferença é que agora o sofá não existia, o celular não existia, e ele estava soterrado debaixo de uma tonelada de pedra num corpo que cheirava a suor velho.
Respirou fundo. O ar arranhou a garganta.
Primeiro passo: avaliar a situação. Segundo passo: encontrar os três. Terceiro passo: sair.
Forçou o corpo pro lado. O cascalho cedeu um pouco. Empurrou com o ombro — o ombro novo, mais forte que o antigo — e conseguiu abrir espaço suficiente pra rolar. Sentiu o chão irregular embaixo das costas. Pedra bruta. Vigas de madeira partidas. Isso era uma mina.
Uma mina que desabou.
O painel continuava flutuando, acompanhando o movimento dele como se estivesse preso ao campo de visão. Ele tentou tocar a tela. Os dedos passaram direto. Só leitura, então.
Arrastou-se. Cada centímetro custava esforço — o espaço entre o chão e o teto colapsado era estreito, talvez sessenta centímetros. Rastejou no escuro usando o brilho fraco do painel como lanterna improvisada. A luz não iluminava quase nada, mas era melhor que a escuridão absoluta.
Foi quando ouviu.
Um gemido. Baixo, rouco, vindo de algum lugar à esquerda.
Parou. Escutou.
Outro gemido. Depois uma tosse. Depois uma voz — fraca, confusa, falando palavras que ele não entendeu de imediato. Não porque a língua fosse diferente. Porque a voz estava embargada de pânico.
"Que merda é essa? Que merda é essa? Que merda—"
A voz parou. Silêncio. Depois, num tom completamente diferente — mais baixo, mais controlado, quase reverente:
"...Sistema?"
Ele quase riu. Quase. Porque naquele momento entendeu: não era um NPC. Era outro jogador. Outro nerd que tinha acabado de acordar num corpo estranho, soterrado no escuro, e que ao ver um painel brilhando na frente da cara reconheceu exatamente o que era.
Rastejou na direção da voz.
"Ei," chamou. A voz que saiu não era a dele — era mais grave, mais rouca, com um sotaque que ele não reconhecia. "Ei, você tá vivo?"
Silêncio.
"Você viu o painel?" arriscou.
Mais silêncio. Depois:
"...Você também tem um?"
A pergunta veio carregada de desconfiança. Ele conhecia aquele tom. Era o tom de quem estava calculando se o outro era aliado, inimigo ou armadilha. Era o tom de quem jogou RPG demais e aprendeu a não confiar no primeiro NPC amigável.
"Tenho," respondeu. "Apareceu quando abri os olhos. Missão de sobrevivência. Fala pra ajudar três pessoas."
Pausa longa.
"O meu fala a mesma coisa."
Ele sentiu um sorriso involuntário. Dois transmigrados. Soterrados. Cada um achando que era o protagonista. A situação era absurda o suficiente pra ser cômica, se não fosse pelo fato de que o teto podia ceder a qualquer momento e transformar os dois em pasta.
"Qual sua classe?" perguntou, porque era a pergunta mais natural do mundo pra alguém que cresceu em fóruns de RPG.
"...Ferreiro. E você?"
"Vagabundo."
Silêncio.
"Vagabundo? Que classe é essa?"
"A que não tem profissão."
"Isso é uma classe?"
"Aparentemente."
Outro silêncio. Ele quase podia ouvir o outro processando a informação, tentando encaixar "Vagabundo" em alguma tier list mental de classes de RPG e falhando miseravelmente.
"Tá. Tanto faz. Precisamos achar os outros dois."
Outros dois. Então o Ferreiro também tinha lido a missão direito. Quatro pessoas. Quatro sistemas. Quatro classes. Quatro nerds que liam manhwa demais e agora estavam vivendo dentro de um.
Rastejaram juntos. O Ferreiro era maior — o corpo que ele herdou era pesado, largo, e fazia barulho demais se arrastando pelo cascalho. Cada vez que uma pedra se soltava do teto e caía entre eles, os dois paravam, prendiam a respiração, e esperavam.
Acharam o terceiro a uns dez metros de distância. Estava consciente, quieto, sentado com as costas contra uma viga que segurava um pedaço do teto. O painel dele brilhava na frente do rosto, iluminando feições magras e olhos que se moviam rápido demais — lendo, relendo, analisando.
"Médico," disse o terceiro antes que qualquer um perguntasse. "Classe Médico. Já li a missão. Falta um."
Direto. Sem pânico. Sem perguntas desnecessárias. O tipo de pessoa que pula o tutorial e vai direto pro gameplay.
"Consegue ver alguma coisa com essa classe?" perguntou o Vagabundo.
O Médico olhou pra ele. Depois olhou pro Ferreiro. Os olhos se estreitaram por um segundo — e então ele disse, com uma calma cirúrgica:
"Vocês dois têm três costelas trincadas cada um. O Ferreiro tem o ombro esquerdo deslocado. Você tem um corte na testa que já parou de sangrar, mas vai infeccionar se não limpar."
O Vagabundo levou a mão à testa. Sentiu a crosta de sangue seco. Não tinha percebido.
"Visão de fraqueza," murmurou o Médico, como se estivesse lendo uma tooltip. "Funciona em aliados também, aparentemente."
O Ferreiro mexeu o ombro esquerdo e fez uma careta.
"Você pode curar isso?"
"Posso. Mas vamos achar o quarto primeiro. A missão diz quatro."
Acharam o quarto debaixo de uma pilha de cascalho. Estava inconsciente. O Médico verificou — vivo, respirando, mas preso da cintura pra baixo. Levaram quase dez minutos pra tirar as pedras de cima dele, trabalhando no escuro com as mãos nuas, guiados apenas pelo brilho dos painéis.
Quando o quarto abriu os olhos, a primeira coisa que fez foi olhar pro painel que apareceu na frente dele. Depois olhou pros três rostos sujos e desconhecidos ao redor. Depois olhou pro painel de novo.
"Fazendeiro," disse, com a voz de quem ainda não decidiu se está sonhando ou morrendo. "Minha classe é Fazendeiro."
"Bem-vindo," disse o Vagabundo. "Somos quatro. Estamos soterrados numa mina. Cada um tem um sistema diferente. E se a gente não sair daqui, morremos todos."
O Fazendeiro piscou.
"...Isso é um isekai?"
"Isso é um isekai."
O Fazendeiro olhou ao redor — a escuridão, o cascalho, os corpos sujos, o ar rarefeito — e disse a coisa mais honesta que qualquer um deles tinha dito desde que acordou:
"Nos manhwas que eu lia, o protagonista pelo menos acordava num campo aberto. Ou numa floresta. Talvez numa taverna. Ninguém acorda debaixo de uma montanha de pedra."
"Pois é," disse o Ferreiro. "A gente tirou a pior seed."
O Vagabundo olhou pros três. Três estranhos em corpos que não eram deles, com classes que pareciam piada, soterrados numa mina colapsada num mundo que nenhum deles conhecia. Cada um achando, no fundo, que era o protagonista de verdade e os outros eram o grupo de suporte.
Ele sabia que todos estavam pensando a mesma coisa. Porque ele também estava.
O painel pulsou. A missão continuava ali, paciente, esperando.
"Pra cima, então," disse o Vagabundo.
Ninguém discordou.
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