Teus Olhos Meus
3 II — Não Há Pior Tortura A Que O Pensamento.
Notas iniciais
Confesso que fiquei muito aliviado de ter recebido este e-mail. O fato de ele ter me procurado confirma que ele não está com raiva de mim.
Há algo de muito especial naquele rapaz, parece ser um aluno dedicado e tudo mais.
Passei o dia preocupado com ele. Cheguei até enviar uma mensagem pra Alice, minha melhor amiga que é Médica, pra ver se havia algum problema de um trauma aparecer depois de algumas horas, mas ela me tranquilizou. Pelo menos por hora.
Graças aos Orixás, hoje tenho uma vida muito estável. Tive que ralar muito pra chegar aonde eu cheguei. Nunca passei dificuldades financeiras na vida, mas só o fato de ser negro fechou muitas portas pra mim. O fato de ser negro e gay fechou mais portas ainda.
Atualmente sou dono de uma mineradora ganhadora de vários prêmios nacionais e internacionais por ajudar no desenvolvimento da sociedade, além de reconhecimento de qualidade e preocupação com o meio ambiente.
Minha empresa já fez tanto sucesso que se eu quisesse fechá-la e parar de trabalhar, ainda teria dinheiro para pagar a faculdade na Suíça de um possível futuro bisneto.
Trabalho como professor por gosto.
Passei muito tempo da minha vida sendo uma pessoa fechada, apática, inescrutável e extremamente introvertida.
Me cansei disso.
Hoje em dia, apesar de ainda não ter muita paciência pra humanidade, eu preciso ver luzes e pessoas e essa profissão magnifica me exige que eu faça isso.
Levo uma vida tranquila. Uma vez ou outra viajo para ver meus amigos que moram longe, visito uma ONG de apoio aos (as) transexuais que me convidaram pra ser padrinho, vou para regiões pobres de várias partes do mundo para ensinar inglês. Isso tudo para fugir de relacionamentos e problemas familiares, é claro.
A madrugada havia adentrado e eu ainda não tinha ido dormir.
Pelo contrário, uma enorme xícara de chá mate gelado com limão me refrescava naquele momento.
Dormir ou não dormir? Eis a questão.
Se eu for dormir vou acordar de mau-humor por ter dormido tão pouco. Senão, ficarei com mais mau-humor ainda por não ter dormido.
Ninguém é obrigado a lidar com mau-humor alheio.
Estava decidido. Eu iria dormir pelo menos por duas horas e meia.
Acomodei-me na minha cama super king que tive que encomendar em outra cidade. A cama tinha o tamanho ideal para mim e para Ametista, minha gata american shorthair de cabeça ovalada, orelhas ligeiramente arredondas, olhos verdes grandes e abertos e um corpo cinza, forte e musculoso.
Antes que eu pudesse perceber que havia adormecido, fui despertado com o alarme do celular.
O dia hoje literalmente amanheceu querendo terminar.
A manhã estava completamente cinza e uma chuva intensa caía lá fora. Só acreditei naquela chuva de verão quando coloquei meus óculos e olhei pela janela do meu apartamento e continuei a ver toda aquela neblina e tive a confirmação que ela não era causada pelo meu astigmatismo.
Depois de tomar um banho extremante quente, me vesti com um tênis branco, um jeans claro rasgado nos dois joelhos e uma camiseta branca de algodão e desci para cozinha. Dona Vitória havia preparado meu café da manhã.
Neste campeonato da vida, minha governanta e única funcionária doméstica era como uma segunda mãe pra mim.
— Bom dia monamu. — Ela disse sorrindo em minha direção.
— Bom dia! — Respondi bocejando. — Passou bem de ontem?
— Pela graça de Deus sim, e você, teve uma boa noite de sono?
— Se dormir menos de três horas, ter sonhado com um amor que não possuo e estar com dor de cabeça por ter dormido pouco é ter tido uma boa noite, tive a melhor da minha vida.
— Todos esses anos de convivência e ainda não acostumei com esse seu drama.
— Meu drama é um dom.
— Sei! — Ela riu.
A governanta fora resolver outras tarefas e me deixou a comer sozinho. Ao fundo tocava Crystalised da banda The XX. Ótima forma de começar o dia.
Não demorou muito e eu havia tomado meu caminho para meu segundo dia naquele semestre. Como não estava atrasado, resolvi ir de metrô. Tomar aquele transporte público me lembrava a minha adolescência. Ia e voltava todos os dias da escola o utilizando com a companhia de amigos que hoje são apenas alguém que eu cheguei a conhecer. Apesar das memórias, eu fico feliz em ver em como as tecnologias haviam se modernizado e se tornado cada vez mais sustentáveis.
Agora que o Brasil se tornou um país de segundo mundo, a maioria dos problemas com transporte públicos foram resolvidos.
Ao descer na estação, vi algumas pessoas me cumprimentarem, mas como estava sem meus óculos não pude reconhecer a maioria. De toda forma, abri um sorriso amarelo para todos.
Assim que adentrei o campus da UFMG, me deparei com Caio, o primo de Marcos. Ele me cumprimentou com um aceno da mesma forma que fizera com o primo no primeiro dia de aula e no mesmo instante lembrei-me de que havia avisado a Marcos que estaria disponível no intervalo para tirar eventuais dúvidas.
Aquele dia estava inane de qualquer intempérie. O que achei bem estranho para ser sincero. É de costume a primeira semana ser inteiramente cheia de trotes, porém seguia como mais um dia normal.
Faltando alguns minutos para o intervalo, eu estava feliz por não ter nenhum aluno com o olhar enfado — nada me chateava mais a que ver que minha aula havia sido entediante -.
O sinal bateu e antes que o primeiro aluno passasse pela porta, me pronunciei.
— Gente, estou planejando uma visita técnica a um museu de Mineralogia, para que vocês possam se habituar com a diferença entre rocha, mineral e minério, ok? — Disse encarando cada um presente no momento. — Quem quiser ir, me mande um e-mail até às 23h59 de sexta pois preciso organizar tudo e passar pra escola e no próximo final de semana iremos.
— E é franca, digo, a entrada? — Me perguntaram.
— Pra vocês que estão cursando Eng. De Minas sim, mas caso queiram voltar lá com família, amigos ou namorado a taxa para entrar é bem acessível graças aos programas de incentivo a cultura. — Respondi enquanto juntava as minhas coisas. — Mais alguma pergunta?
A sala se manteve em silêncio.
— Estão liberados! Vejo vocês na sexta já que não temos aula nem amanhã nem na terça. — Os liberei, afinal, era de direito deles aproveitar o intervalo.
Pela velocidade que Marcos saiu da sala, pensei que tivesse ido lanchar com o Caio ou que estivesse com dor de barriga. Como não tinha certeza, juntei minhas coisas e segui para biblioteca. Talvez ele estivesse me esperando lá.
Adentrei a biblioteca. Estava apreensivo, não sabia se Marcos estaria lá. Olhei cautelosamente por cada corredor. Meu coração por algum motivo se apertava cada vez mais ao perceber que eu não conseguia acha-lo.
Me dirigi até a última seção de livros rezando em silêncio para que o encontrasse.
Fora em vão.
Tomei o caminho de volta e, para minha surpresa, lá estava ele.
Foi impossível não reconhecer aqueles cabelos loiros jogados para o lado fazendo todo um charme com seu par de olhos verde mel.
Ele era o único aluno sentado nas mesas de quatro lugares que ficava em um canto do cômodo para os alunos estudarem – e matarem aula -.
A me ver, ele acenou com a cabeça e abriu um belo sorriso.
Quando estava próximo o suficiente de sua mesa ouvi uma voz conhecida chamar por meu nome.
— Professor Antônio! — Disse a voz nem muito grave nem muito aguda, mas com um sotaque mineiro extremamente forte.
Ao identificar, fechei os olhos e respirei fundo.
— Me de só um segundo. — Me expliquei para Marcos.
Virei-me e dei cara com Ana Paula, a Reitora que tive a infelicidade de conhecer no dia anterior.
Abri um sorriso amarelo enquanto caminhava em sua direção.
Ela passou um dos braços sobre o meu pescoço. Senti uma enorme vontade de me afastar, mas queria ver até onde aquilo iria.
— Você está tão cheiroso hoje. — Ela me disse dando um sorriso efêmero.
— Obrigado. Como sempre. — Respondi amarfanhando o cenho tentando não entrar em seu jogo.
— O que acha de almoçar comigo hoje? — Ela disse com a boca bem perto dos meus lábios. Pude sentir seu hálito quente.
A afastei com o máximo de delicadeza que pude e rezei para que Marcos não estivesse presenciando aquela situação constrangedora.
— Olha... — respirei fundo. — Está na cara que você está dando em cima de mim. — Disse aos sussurros. Eu realmente não queria que meu aluno me ouvisse. — Mas não vai rolar nada.
— Olha pro meu corpo querido, quando é que você terá uma oportunidade igual. — Ela disse balançando a cabeça incrédula. — É porque eu sou uma baita de uma transexual? Seu preconceituoso de merda.
— Cara Reitora, em primeiro lugar quem está sendo preconceituosa é a senhora em achar que só porque veste uma calça 36 é melhor a que alguém. — Mordi os lábios pensando se deveria continuar falando. — E olha, eu sou negro, fui gordo a maior parte da minha vida e não sou hétero. Não venha dizer pra mim que sou preconceituoso porque se tem uma coisa que eu entendo bem é fazer parte de minorias. — Ri em bom tom. — Eu não dou a mínima para sua identidade de gênero, Reitora.
— Então qual é o motivo? — Ela fixou o olhar no meu.
— Você é tão chata que broxa minha panssexualidade. — Disse em um tom grave, mas baixo o suficiente para que Marcos a aquela distancia escutasse.
A Reitora cerrou os olhos e gesticulou com a boca como se fosse dizer “não acredito que você disse isso”. Com uma expressão lanzuda, ela tentou não parecer esmorecida e tomou seu rumo para longe daquele ambiente.
Agradeci aos céus por ter conseguido feito ela ir.
Só tinha medo do que ela seria capaz de fazer comigo daqui pra frente.
Ignorei aquele pensamento no momento e fui dar atenção a Marcos.
Antes mesmo que me sentasse ele mudou a expressão fácil como se analisasse se eu estava falando a verdade.
— O que está acontecendo?
— Nada.
— Desculpa perguntar! Não é da minha conta.
— Está tudo bem.
Suspirei enquanto tirava meu notebook da bolsa e ele logo foi direto ao assunto.
Ficamos ali juntos o resto do intervalo. Havíamos perdido completamente a noção do tempo.
Enquanto explicava algumas coisas sobre a escala de Mohs, Caio adentrou a biblioteca e nos encarou confuso.
Ele seguiu até nós com uma expressão que me deixara assustado, mas logo ela mudou e ele colocou um sorriso descontraído no rosto.
— Não sabia que estava dando monitoria. — Ele disse interrompendo minha explicação.
— E não estou. — Respondi, por educação.
— Ele só está tirando umas dúvidas. — Marcos disse encarando o primo.
— Por que não tira suas dúvidas durante a aula? — Caio desdenhou.
— Porque eu estaria interrompendo a aula e nem todas minhas dúvidas são sobre a matéria dele. — Marcos estava começando a ficar com o rosto corado.
— E vocês tem coragem de me dizer que isso não é uma monitoria?
— Mesmo que fosse, você está atrapalhando a explicação.
— Ok! Tudo bem, já entendi. — Ele se levantou rindo. — Não sou bem vindo aqui.
Quis comentar “demorou a perceber, hein?”, mas sabia que isso me atrairia problemas. Não existe coisa mais chata a que aluno de marcação com você;
Seguimos com o estudo.
Não demorou muito e o sinal tocou.
Me senti extremamente feliz, pois não tinha mais aulas naquele dia e poderia ir para casa mais cedo.
— Antônio, digo, Professor Antônio, não sei como te agradecer.
Eu sei muito bem como.
— Pode me chamar de Toni. — Dei um sorriso amarelo. — Ah, não se preocupe em relação a isso, quem ofereceu ajuda fui eu.
Estendi a mão para despedir e para meu espanto ele me puxou para um abraço.
Respirei fundo lentamente sentindo seu cheiro.
Seu cheiro citrino adocicado fez emergirem em meus pensamentos coisas que se eu não tomasse cuidado logo teria uma ereção.
— Até sexta! — Ele disse esboçando um sorriso.
— Até! — Eu disse tentando me livrar daqueles pensamentos, mas fora impossível. Tudo que eu podia fazer naquele momento era observar o movimento que suas nádegas faziam enquanto ele caminhava.
Puta merda!
Não posso continuar tendo esses pensamentos, infelizmente, Marcos é meu aluno.
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