Teu Lugar
7 Capítulo 7
Notas iniciais
Capítulo sete
Ino não conseguia entender o que estava acontecendo, ou melhor, não queria aceitar que aquilo estava acontecendo. As últimas três semanas foram, definitivamente, as piores de sua vida e quando pensava que tudo não podia piorar, piorava. Não conseguia tirar a sensação de que todas as coisas ruins só aconteciam com ela.
Seus planos era ter uma noite normal, em outras palavras, ser uma adolescente normal. Assistir algum filme meloso enquanto pensava em seus ‘peguetes’, comer pipoca e um misto quente engordurado, quem sabe até mesmo chocolate para a sobremesa; acariciar seu cachorro com o pé e chorar com o final daquelas baboseiras românticas. Só queria esquecer que a maldita tentativa de sequestro havia acontecido; tirar totalmente de sua cabeça a expressão desesperada do pai e que um exército de guarda-costas estava a monitorando por inúmeras câmeras espalhadas pela casa. Céus! Será que nem um pouco de privacidade ela podia ter?
Seus planos foram por água abaixo quando a campainha tocou. Estava comendo um pote de pipoca – tinha que confessar: não conseguia sentir o mínimo de remorso por furar a dieta – e bebendo um copo imenso de refrigerante, quando decidiu que definitivamente não iria atender. Primeiro: estava de pijama; segundo: aquele era um momento importantíssimo.
Na segunda vez em que a campainha tocou, sentiu um pouco de raiva pela insistência da pessoa e, mais do que isso, curiosidade. Já era tarde da noite para se receber visitas, mas apenas deu de ombros. Provavelmente era Naruto querendo pegar algo que tinha esquecido. Ele tinha a visitado há algumas horas apenas para conversar um pouco. Sorriu. O primo sabia ser um bosta quando queria só que ao mesmo tempo valorizava a própria família de uma forma inexplicável. Admirava isso nele.
Andou calmamente até a porta e, ao abri-la, seu queixo quase foi parar no chão. Lá estava quem ela menos esperava: Sasuke Uchiha, parado em frente a casa e com a mesma postura arrogante de sempre. Belo, obviamente; podia negar o tanto que fosse para as pessoas, mas a verdade seja dita: ele era apenas o cara mais sensacional que já havia visto em toda sua vida. Os olhos negros e profundos como um abismo, a pele alva e aparentemente macia e um corpo espetacular. A única coisa que estava diferente nele e que Ino não pôde deixar de reparar era a expressão facial. Não carregava um semblante indiferente ou carranca, pelo contrário, parecia nervoso.
Certo, ver Sasuke Uchiha nervoso era novidade.
— O que você está fazendo aqui? – as palavras saíram um pouco atrapalhadas, mas saíram. Estava confusa e surpresa.
Pensou que talvez fosse apenas uma simples intuição, mas teve a sensação de que ele ficou... decepcionado? Não. Tirou isso da cabeça quando ele abriu um sorriso.
— Boa noite pra você também, Ino.
Ok, aquilo era demais para uma única pessoa.
Sua primeira reação foi bater a porta, mas ele foi bem mais rápido. Conseguiu segurar antes que ela fechasse. Certo, estava começando a ficar apavorada. Empurrou a porta e, pra piorar, fechou com tudo na mão do Uchiha. Não sabia como, mas conseguiu ficar ainda mais assustada do que já estava. Começou a sentir que iria ter um surto ali naquele exato momento. A respiração estava saindo descompassada e o coração batia a mil.
— É sério isso, Ino? Você vai me evitar? – ele fez mais força e dessa vez a loira não resistiu, um pouco transtornada com os acontecimentos. Por fim, resolveu tirar todo o peso que fazia contra a porta e permitiu com que ela fosse aberta. Sasuke estava ofegando por causa do ocorrido e balançando a mão direita, dormente. Ino, aterrorizada, encarava sua mão com os olhos arregalados e a boca em um formato de ‘o’. – O que foi? – perguntou, mas ela continuou encarando sem dizer nada. Foi ai que dirigiu os olhos negros até a própria mão e a sentiu latejar. Estava roxa e sangrando um pouco. – Merda. – murmurou, sentindo a dor subir pelo braço.
Nesse momento, Ino explodiu em fúria.
— Mas que merda, Sasuke. Droga. – praticamente gritou. Estava totalmente alterada por conta da surpresa e do nervosismo. A mão do moreno não estava colaborando em nada com o seu humor. – O que você estava pensando em vir aqui, assim, sem mais nem menos? – ele abriu a boca para responder, mas a Namikaze o fuzilou com o olhar. Por conta disso continuou em silencio apenas recebendo o sermão. Ela passou os dedos pelos fios loiros e levemente embaraçados numa tentativa inútil de se acalmar. – Certo. – respirou fundo. – Vamos dar um jeito nisso. – alternou o olhar entre ele e a mão, dessa vez mais calma. – Me acompanhe.
Os dois foram até o lavabo que não ficava muito longe da entrada. Ino abriu uma gaveta de um pequeno armário que ficava em um canto, retirou um quite de primeiros socorros e mandou Sasuke abrir a torneira e deixar a água correr pelo machucado. Depois disso, passou uma pomada não mão do moreno e começou a enrolar uma gaze.
— Não precisa. – ele parecia bem sem graça por toda aquela situação. – Eu sei fazer.
Os orbes azulados praticamente o perfurou. Parecia pronta para atacar caso fizesse ou dissesse qualquer coisa. O moreno engoliu o seco, se esforçando para manter o contato visual com ela.
— Apenas cale a boca, ok?
E assim ele fez. Não queria piorar ainda mais a situação, então só permaneceu observando todo o trabalho que a loira fazia. Ela estava com raiva, mas mesmo assim, trabalhava com tanta delicadeza que sequer sentia dor com os leves toques dela e os apertos fracos ao fazer o nó na gaze.
— Pronto. – olhou com orgulho para a mão do Uchiha, mas logo sua expressão mudou para séria. – Agora pode começar a se explicar.
O moreno olhou ao redor.
— Acho que aqui não é o melhor lugar. Assim, é um assunto sério e, bem, estamos sozinhos em um banheiro.
Ino corou. Levantou-se rapidamente e, com movimentos exagerados e envergonhados, fez sinal para que ele a acompanhasse até a sala. Chegando lá ambos sentaram em uma poltrona de frente pra outra, separadas por uma mesinha de centro de madeira branca. A televisão, um pouco mais distante, estava pregada na parede em frente a um sofá enorme e caro. Um filme estava em pause e o Uchiha pôde perceber que no tapete tinha um pote imenso de pipoca e três copos vazios de refrigerante. Segurou uma risada.
— Qual é a graça? – perguntou com a voz raivosa. Vendo que ele não iria responder, apenas ignorou. – Certo, vamos ser mais objetivos aqui. O que você quer?
Ele pareceu pensativo por uns instantes, como se escolhesse as palavras certas. A loira sempre soube que ele era cauteloso demais com suas palavras e com o efeito que elas poderiam causar. Ele continuou por alguns segundos assim até que voltou os olhos negros para os dela e simplesmente soltou:
— Eu queria te ver.
Ok, iria enfartar ali mesmo na sala de sua própria casa. Era um bom final, no fim de tudo. A televisão pausada em um filme extremamente triste, comida espalhada pela casa. Dramático. Um desfecho que seria bem sua cara.
Sasuke a olhava com indiferença, mas a verdade é que sentia uma estranha expectativa sobre o que ela diria. Mas o que veio a seguir foi realmente chocante. Ela começou a bater palmas, sem expressão alguma e, como se não bastasse, disse:
— Muito engraçado, Uchiha. Não sabia que você era comediante.
Mas ele continuou a olhando sério sem alterar em nada seu semblante e, naquele momento, Ino desejou realmente que tudo aquilo fosse uma piada de muito mau gosto. Queria, com todas as suas forças, que ele soltasse uma risada seguida de algo como: E ai? Gostou? Preparei essa piada só pra te fazer de trouxa que nem antigamente. Mas isso não aconteceu. Ele estava falando a verdade e aquilo lhe causou um arrepio esquisito. Não sabia se era um mau ou um bom pressentimento. Não conseguia dizer o que sentia e aquilo estava a matando.
Vendo que ela continuaria em silêncio e totalmente perplexa com aquela situação vergonhosa, apenas continuou a falar.
— Eu fiquei preocupado. – afundou as costas um pouco mais na poltrona sem retirar os olhos de cima da loira.
Ela arqueou uma das sobrancelhas.
— Preocupado? – ainda não havia entendido muito bem.
— Sim. Sabe, com tudo o que aconteceu.
Ah, sim. O quase sequestro. Ótima coisa para se lembrar em um momento tão ruim quanto aquele. Segurou o choro ao relembrar o motivo de ter dado tanta merda naquela boate. E claro, o primeiro deles foi Sakura. Se não tivesse se descontrolado tanto ou segurado seus sentimentos por tanto tempo quanto havia feito, teria sido mais esperta e provavelmente Neji não estaria em uma cama de hospital. Teria corrido como qualquer pessoa normal faria em uma situação daquelas. Mas não, estava bêbada por causa da própria estupidez.
E novamente não conseguiu se controlar. As lagrimas começaram a cair soltas e o Uchiha arregalou os olhos, tentando descobrir o que havia feito de tão errado ao ponto de fazê-la chorar. Ino, por outro lado, começou a se remoer e sentiu ódio da antiga amiga. Sentiu ódio por Sasuke ter escolhido Sakura e não ela. Sentiu ódio por ele estar ali em sua frente, dizendo coisas sem sentido e que só a feria cada vez mais. Seu coração começou a se despedaçar novamente. Estava exausta por ser sempre a segunda opção dele, como se não valesse nada. Certamente Sasuke tinha se cansado de Sakura e ido atrás dela, em busca de uma diversão de uma noite, como fazia com as outras garotas.
Em um impulso, se levantou, pegou uma almofada vermelha que estava jogada ali perto e atirou no rosto do moreno, que ficou aterrorizado com a atitude repentina da moça. Antes que a almofada atingisse seu rosto com tudo, ele foi mais rápido e a pegou. Também foi rápido o suficiente para se levantar e a segurar pelas mãos antes que atirasse, sei lá, um vaso em sua cabeça.
— Que merda é essa, Ino? Você está louca?
Ela começou a se debater, tentando se livrar das mãos dele.
— Você é quem está louco, Uchiha. Aparece assim na minha casa e me fala coisas estúpidas como “estou preocupado”. Será que você não percebe o quão mal me faz? – desistiu de se debater, entregando-se ao cansaço. O moreno sentiu o corpo dela trêmulo. – Eu estou tentando te esquecer, droga. Eu estou tentando e, quando finalmente penso que consegui, você aparece e ferra com tudo. Que droga. – o queixo feminino tremia muito e ela o olhava nos olhos, suplicante. Mesmo que Sasuke tivesse um coração de pedra, naquele momento simplesmente não conseguiu não sentir nada. O peito pesou e uma dor tomou conta de seu coração ao ponto de o deixar sem ar. Vê-la daquela forma o desequilibrou por completo. A única vontade que teve foi de abraçá-la e pedir-lhe perdão. – Você não tem ideia de como fiquei quando você decidiu escolher a Sakura. Acho que foi o pior sentimento da minha vida, sabe, perder uma amiga e meu primeiro amor. E, por mais que eu tentasse ou que eu tente, não consigo te odiar.
Mais lágrimas rolaram pelo rosto bonito. Pela primeira vez na vida, Sasuke se considerou um verdadeiro idiota. Estava arrependido. Sabia que a tinha machucado, mas sequer imaginara que o estrago tinha sido tanto.
Ino, vendo que já tava despejando todos seus sentimentos em cima dele, resolveu continuar:
— Eu to cansada, sabe. Eu não aguento mais sair com caras que eu não gosto só pra tentar te esquecer. É chato, é cansativo. E ver Sakura lá, esfregando a felicidade dela na minha cara, acaba comigo. Ela era minha amiga, a melhor. Eu desisti de você por causa dela, o mínimo que eu esperava era que ela fizesse o mesmo. – se soltou do moreno, limpando as bochechas com a parte traseira da mão. – É injusto sabe, você aparecer assim e falar essas coisas pra mim. É injusto comigo e com o que eu sinto.
Ela esperava qualquer coisa, talvez um consolo com algumas palavras, ou até mesmo nada. Silencio absoluto. Mas o que veio a seguir a pasmou. Sasuke a puxou para um abraço apertado, talvez um pouco apertado demais, mas foi o suficiente para que fizesse com que as pernas dela ficassem bambas. Novamente chorou e ele a apertou ainda mais.
— Me perdoe, Ino. – a apertou mais contra o peito. O cheiro de rosas invadiu suas narinas e trouxe doces memórias de quando estavam ‘juntos’, em um quase relacionamento. – Eu sou um idiota. Por favor, me perdoe por tudo o que eu fiz. – a loira agarrou a jaqueta dele com força, molhando o ombro esquerdo com lágrimas. — Eu vim aqui por que, quando eu soube o que quase fizeram com você, eu fiquei desesperado. Mesmo eu estando com a Sakura, mesmo depois de tanto tempo longe de você, a ideia de te perder me deixou louco. Eu só precisava te ver, saber que estava tudo bem. – afrouxou o abraço, agora olhando para os olhos vermelhos e inchados por conta do choro. – Querendo ou não, você ainda meche comigo de uma forma que nem eu consigo explicar.
Ele fez o contorno do rosto feminino com os dedos e, inebriada por aquele toque tão íntimo e delicado, a única coisa que a loira conseguiu fazer foi fechar os olhos e se entregar ao momento. O toque começou a descer pelo pescoço, como ele sempre fazia quando estavam juntos. O dela peito explodiu em saudades daquele tempo, antes de Sakura surgir com a notícia de que possuía sentimentos pelo Uchiha.
Ele aproximou suas faces e iniciou um beijo calmo e terno, apenas de lábios. As mãos foram até a cintura coberta apenas por uma blusa tão fina que o permitia sentir o calor da pele alva da Namikaze. Puxou-a para mais perto, acariciando as costas, descendo para o bumbum e subindo novamente. Ino soltou um suspiro de êxtase.
Ficaram um bom tempo nessas carícias, até que do nada aconteceu. Sasuke pediu passagem com a língua para que Ino abrisse mais a boca e, nesse momento, por algum motivo, a loira se tocou da merda que estava acontecendo ali. Foi como levar um banho de água fria. Sentiu a coluna enrijecer e os olhos arregalaram.
Aquilo não estava certo. Sasuke escolheu Sakura, e não ela. Era com Sakura que ele deveria estar. Se ele quisesse algo, que terminasse com a Haruno por conta própria também. Não seria a outra da história. Sabia que não era a melhor pessoa do mundo, mas também tinha plena consciência de que era alguém bem melhor que aquilo.
Com esses pensamentos, se afastou do moreno, ainda tentando se recuperar do beijo intenso.
Por outro lado, Sasuke estava bem incomodado. Nunca havia dito tanto – e em tão poucas palavras – sobre seus sentimentos para alguém. Foi um choque quando ela se separou tão abruptamente dele, como se ele fosse algum tipo de bárbaro. Fazia tempo que não sentia o gosto amargo da rejeição. Pensou, por alguns instantes, que provavelmente estava pagando por todos os seus pecados. Olhou para Ino, ainda descontente e triste.
Ela não conseguia o olhar diretamente nos olhos. Lógico que queria ter continuado com o beijo, mas seu orgulho a impedia disso. Tinha levado um fora e fora trocada por sua melhor amiga. Então que assim seja. Já possuía problemas o suficiente para uma simples adolescente. Beijar Sasuke só lhe traria mais dor de cabeça. Foco, pensou consigo mesma, respirando fundo. Não o olharia por uma questão de orgulho. Conhecia-se bem o suficiente para saber que, caso simplesmente o olhasse, apenas se atiraria nos braços dele sem pensar duas vezes no que estava fazendo.
— Acho melhor você ir. – disse ofegante, encarando um quadro colorido que se destacava na parede branca. – Eu te acompanho até a porta.
Ele coçou a cabeleira escura, sentindo-se sem graça e totalmente descontente.
— Não precisa. Eu sei o caminho. – se virou e, antes de partir, deu uma olhada intensa da Namikaze. – Nos vemos no colégio.
Depois que ele sumiu de suas vistas, se jogou na poltrona e encarou o teto. Pensou, pensou e pensou. Por fim concluiu que Sasuke era um perigo pra sua vida já conturbada. Por isso, faria o possível e o impossível pra se manter longe dele.
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