Teto de Vidro
1 Capítulo 1
Amanhecia. As ruas tomavam forma enquanto o forte nevoeiro dissipava-se ao redor da cidade. Charles levantou com uma daquelas enxaquecas que costumava ter quando dormia pouco. Dormir pouco é um eufemismo, pois duas horas de sono foi o máximo que conseguiu tirar daquela fria e tempestuosa noite de inverno.
Precisava ir para o trabalho. Seu pequeno e detestável inferno diário, que o consumia de tédio e retirava sua vontade de viver. Tudo bem, pode ser um exagero, mas Charles REALMENTE odiava seu trabalho. Era necessário arrumar dinheiro porque sua mãe estava desempregada há 1 mês e um estágio na prefeitura foi sua única forma de fazer isso.
– Caralho, eu não posso viver assim! — Pensava enquanto caminhava em direção ao ponto de ônibus, percorrendo um longo caminho sujo e maltratado pela falta de amparo. Vivia em um bairro pobre e violento. Era demasiado ambicioso e mesquinho para desprezá-lo e desejar, o quanto antes, dar o fora dali. – Pobre não deveria ter o direito de pôr um filho na Terra se for para sofrer.
Respirava aquele ar atmosférico frio e sentia o vento cortante bater em seu corpo. Desejava que o tempo corresse o mais rápido possível. Não lhe agradava a ideia de passar 6h com pessoas detestáveis e muito irritantes para seu gosto.
Chegando à Rua 13, encontrou Fancy. Sorria com um olhar provocante possuidora de lindos olhos verdes que não pareciam provocar nenhuma reação a Charles. Nem ele próprio conseguia entender como passava imune a esses estímulos. Atribuía essa proeza a personalidade infantil e fútil de Fancy.
– Você deveria ter chegado há 15 minutos atrás – disparou ainda sorrindo jovialmente, velando sua leve censura.
– O ônibus atrasou um pouco – disse rápido e taciturnamente. – A verdade é que eu realmente não queria vir – completou se obrigando a mostrar um breve sorriso no rosto.
– Sua vontade de viver é admirável – Fancy soltou uma curta gargalhada e Charles pensou como alguém poderia relacionar trabalho a maneira de viver e ficou mais irritado do que gostaria de admitir. Fancy sempre se utilizava de piadinhas e sorrisos bobos para aumentar a aproximação entre eles, mas deixava um ar de hipocrisia em cada palavra dita.
Logo que adentrou a porta reparou em um rosto desconhecido. Naquele dia o lugar estava com um movimento frenético de pessoas circulando pelo saguão principal, correndo atrás de seus documentos e papeis importantes. Entrar ali o deixava enjoado. Nunca gostou de ficar rodeado de pessoas. Se sentia paranoico e depressivo em observar o modo de vida que todos levavam quase como uma doença hereditária da sociedade moderna.
O nome dele era Sam. Descobriu por acaso quando passou e ouviu Fancy o chamar. Ele tinha o rosto mais bonito que Charles já viu e poderia ver. Era estranho. Charles se sentia atraído, como se Sam possuísse um sistema magnético a sua volta e o nervosismo que tomava conta de seu cérebro não poderia ser considerado algo natural. Havia algum tempo que a ideia de ser gay assombrava-o. As garotas que namorou mal cabiam em uma mão e sua percepção ‘diferenciada’ em relação a garotos lhe provocavam sensações indesejadas. E o que sentiu quando Sam sorriu em sua direção logo apontando para o computador e questionando-o sobre a separação dos arquivos poderia ser interpretada como um dos poucos momentos de satisfação de Charles. Na verdade satisfação é uma palavra pequena para descrever o que Charles realmente sentia.
– Então, se ficar desse jeito não tem problema? – disse Sam, retirando Charles de seu pequeno devaneio.
– Ah, sim, desse jeito tá bom. – Charles não conseguia parar de olhar para a boca do outro. Nunca imaginou que ficaria ‘bobo’ por alguém. Não sabia como reagir e isso o deixava irritado.
Estava se sentindo um inútil. Era incrível a sua capacidade de se torturar por coisas insignificantes. O problema era que Sam não era algo insignificante. As horas passaram-se com tamanha velocidade que Charles até se surpreendeu, afinal essas eram uma de suas preces diárias atendidas com êxito. Definitivamente não era um dia normal.
Caminhou porta afora do longo edifico envernizado, sofisticado de mais para ficar numa cidade como aquela. Sentia frio e a chuva que caia só deixava seu humor mais melancólico.
Se contorceu para virar-se para trás após ouvir o seu nome sendo chamado. Era Sam. Isso o deixou feliz e estressado ao mesmo tempo e ainda estava tentando entender como isso era possível.
– Cara, não sabia que você vinha pelo mesmo caminho que o meu – Sam disparou, ofegante depois de fazer uma curta caminhada apressada até ali.
– Eu também não. – E que eu saiba ainda não sou adivinha, pensou sarcasticamente preferindo não se expressar em voz alta, pois não achava que o garoto loiro pudesse compreender seus momentos de velho ranzinza. E também não merecia isso.
Caminharam até o ponto de ônibus no momento em que se instalava uma tensão silenciosa ao redor. Sam não sabia se deveria puxar assunto, mas simplesmente queria ficar próximo ao outro. Estava interessado demais para poder parar agora.
– Eu tava pensando... vi que tem um filme bacana nos cinemas e eu vou com um grupo de amigos e tava pensando se você não queria ir junto, sabe... pra socializar.
Charles sabia que não teria amigos. Sabia que era uma tentativa falha de velar o seu gritante interesse em uma relação entre eles. Se viu tentado a aceitar, mas o modo como as coisas aconteciam não lhe agradavam. Nunca tinha saída com um garoto e a imagem de ser percebido como alguém gay a ponto de ser convidado para sair causou um grande alvoroço em seu pequeno coração pútrido.
– Não é como se eu estivesse a fim de sair esse fim de semana — disse, um pouco relutante. Queria sair, queria conhecê-lo, mas sentia que não era a hora. Sua indecisão sempre causou mal-estar. Virou-se para Sam encarando seus olhos verdes. Viu a euforia do outro desmanchar e pareceu ficar culpado.
– Humm... mas nós ainda podemos combinar alguma coisa em outro dia... fica como você quiser — Sam estava envergonhado. Pelos olhares trocados e o nervosismo aparente de Charles estava confiante em uma possível saída. Charles parecia o tipo de cara que não liga para nada e que era muito sensível. Sam gostava disso, gostava de como seu cabelo ficava por trás das orelhas um pouco embaraçado. Devia ser proposital. Pegou sua mochila e começou a conversar sobre o dia no trabalho.
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