Teste
2 A Voz dos Espíritos
Não ouvia vozes, nem sequer algum latido do cão que eles cuidavam há mais de dois anos, nem mesmo ratos ou então quaisquer insetos que por ali voavam estalando suas asas. Primeiro Anorle foi ao quarto, tinha a esperança de encontrar Anchel dentro do armário, ou então poderia ainda estar dormindo e nem tivesse reparado na névoa. Depois foi à cozinha onde Sanza passava a maior parte do tempo, mas nada havia a não ser os copos sujo e restos de biscoitos. Anorle ficou sentado na poltrona onde seu pai um dia sentara e se afeiçoara do ascento.
Perdera a mãe e o irmão? Os únicos que restaram de sua família? Viveria sozinho então em Drohat e teria uma vida difícil e a todo momento retomaria com sua dor no coração? Mas Anorle não chorava talvez aquilo significasse uma salvação, talvez seu interior estivesse dizendo não seja tolo, eles não morreram. Mas para o elfo era difícil e naquele instante ele se lembrou do pai, mas não quando ele vivia brincando com Anorle e sim quando o homem estava sendo soterrado por uma terra vermelha que lembrava sangue, ao lado de seus outros cinco familiares que morreram na Batalha de Icy.
– Maldição! – Praguejou e quando se deu por conta Anorle havia arremessado a leve poltrona na parede do casebre e ali jazia outra lembrança do pai. – Não precisa ir, você foi um tolo... um tolo!
Culpar o pai por algo ordenado pelos espíritos era besteira, o que era dito deveria ser cumprido e talvez não fosse pelo pai e os outros tantos guerreiros, Drohat estaria destruída e Anorle estaria morto há tempos sem uma única cruz acima dele. Mas seu pai foi diferente, um guerreiro que mostrou honra e lealdade para com Drohat e sua população. Teve um enterro dos melhores e até hoje é lembrado por tantas pessoas que se sentiram gratas por Gárgon e não conseguiram dizer um simples obrigado pessoalmente.
Anorle subiu para o quarto e despiu a túnica e vestiu uma roupa mais leve. Olhou ao redor e daria tudo para ver Anchel quase acordando para o almoço que deveria ser servido em breve. Então o elfo saiu da casa sentindo o frio percorrer seu corpo, fazendo os pelos dos braços e eriçarem e por fim deixar suas pegadas na neve.
Não tivera tempo suficiente para olhar o desastre causado, só próximo à sua casa contou quinze pessoas caídas ao chão com a pele borbulhando, queimando e exalando um cheiro fétido. Era assustador para ele, nunca tinha visto corpos em tão péssimo estado. As mães corriam para vendar os olhos de seus filhos com as mãos, forçando-os a entrar para suas casas e por lá ficar até que tudo fosse removido. Em algumas partes a neve deixara de ser branca e se tornara vermelha de sangue.
Anorle caminhou pensativo, sua emoção estava quase o estrangulando, ânsia de vômito subia-lhe até a garganta e voltava ao ver os corpos, já eram vinte. Reconheceu dentre eles um amigo que teve na fase dos dez anos, uma mulher que entregava leite para Sanza e também um idoso que muitas vezes ia à sua casa, quando Gárgon ainda estava vivo.
– Anorle! – Gritou ao longe uma voz conhecida, mas infelizmente não era Sanza nem Anchel e Anorle pensou que nunca mais os ouviriam. – Venha cá me ajudar.
– Acho que não estou com forças neste momento, acredito que Sanza e Anchel se foram. – O elfo sentia seu coração palpitar quando dizia aqueles dois nomes, ou melhor, três contando com o do pai.
Quem o chamou era outro velho amigo do pai, Anorle e Anchel iam com freqüência na casa dele quando criança acompanhados pelo pai, apenas para brincar com suas duas filhas. Estas, humanas, assim como o pai, Purker.
– Não seja tolo, os corpos simplesmente não somem ao entrar na névoa. – Disse alto esperando ainda a ajuda do elfo para carregar o corpo de uma mulher para outro monte de corpos. – Se a sua mãe morreu teríamos achado seu corpo, estou trabalhando nisso há uma hora e até então não a vi.
Anorle sentiu uma fúria subir-lhe pela garganta e logo depois descer e proporcionar um frio em sua barriga.
– Está bem... – Disse ele e foi de encontro à Purker do outro lado da ruela.
O rosto deformado lhe causou uma sensação e arrepio nos pelos da nuca, o sangue estava vermelho escuro e a pele ainda derretia vagarosamente.
– Quem é? – Quis saber o elfo quando a colocaram no monte.
– E eu vou saber? Olhe a situação desse rosto, garoto! – Purker mastigava algo na boca e só então, pelo cheiro, Anorle distinguiu o cheiro de mel. – Pegue um pouco. – E ofereceu um pedaço recém tirado de uma colméia qualquer.
– Preciso ir andando, senhor Purker, se não se importa. – E agradeceu pelo mel, organizou seu louro cabelo e continuou a andar ruas e mais ruas até chegar à Torre Choro.
Os sinos haviam parado de badalar a vários minutos e na base da construção havia curandeiros, panos, roupas e todo tipo de medicamentos para os feridos. Alguns tinham a perna queimada, outros o rosto ou braços, mas nem todos tinham o corpo queimado completamente. Anorle julgou que eles estivessem escapados por pouco da monstruosidade da névoa.
Um frio o abalou ao ver quase na entrada da torre uma mulher de cabelos louros, muito parecida com Anorle, e ao seu lado um garoto se comportava obedientemente tentando misturar água em ervas.
– Mãe! – Anorle não acreditava, seria uma ilusão? Não, Sanza realmente estava ali e olhando ele feliz da vida.
Os dois foram de encontro, a mãe parecia abalada e talvez pensasse que o filho estava morto. Depois Anorle abraçou o irmão e todos os três ficaram abraçados um ao outro por mais de três minutos.
– Senhora Sanza, precisamos de você. – Disse calmamente um oficial da cidade que Anorle não conhecia, mas sabia dos conhecimentos de Sanza a respeito da medicina.
– Sim, sim. – Disse ela se encerrando dos abraços e olhou Anorle nos olhos. – Pensei que estava morto.
– Igualmente. – E foi apenas isso que Anorle fez e ficou a tarde inteira ajudando-a com os feridos.
Às seis horas foi servido pão, ervas e vinho fresco para todos os curandeiros e ajudantes. E foi nesse momento que quatro homens carregavam dois corpos quase não deformados, mas mortos, e a escuridão os sugou quando as portas se fecharam.
– Quem eram eles? – Perguntou Anorle bebendo um pouco do vinho.
– Alguns heróis que sobreviveram à Batalha de Icy terão um enterro digno. – E Sanza pensou no marido, morto nas águas de sangue do rio. – E sou a favor completamente.
– Papai não teve um enterro digno, teve? – Anorle ficou furioso, pois o pai sequer foi lembrado pelo povo da cidade. – Drohat é uma cidade de vermes que só pensam em descansar e ver os heróis morrendo nas batalhas.
– Esqueça o assunto, traga-me aqueles dois frascos. – Pediu Sanza, nervosa.
Anorle bufou e fez o que lhe foi pedido, depois se sentou próximo à Anchel.
– Você está bem? – Perguntou Anorle.
Anchel demonstrava preocupação e aquilo desagradava Anorle, já que este cuidara do irmão e ainda cuida com garras e dentes. Poderia ser três anos mais velhos que o irmão, mas Anchel já tinha corpo de homem.
– Penso em Gyo. – Foi a única coisa que disse, ele estava recordando os bons momentos que teve com o cachorro.
A família o encontrou perdido pelas ruas de Drohat, abandonado e tinha no corpo apenas osso, depois que Sanza cuidou adequadamente dele o pequeno Anchel não desapegava dele por nada. E já era de se esperar, depois da recuperação Gyo se tornou um brincalhão e alegre cão que todos tanto o amavam.
– Depois da névoa o encontramos borbulhando e mamãe já não poderia fazer nada. – Enfim Anchel disse mais alguma coisa. – Foi triste vê-lo daquela maneira, pensei em chorar, mas eu seria tolo demais e deveria me preocupar consigo mesmo e com você.
– Não correrei nenhum mal. – Disse-lhe Anorle.
Os minutos prosseguiram e mais corpos de heróis eram levados para a torre fechada, onde os curandeiros ainda faziam de tudo para salvar vidas ali perto, o local se tornou uma área movimentada. Não se esquecera da Lei dos Sinos, em que quando estes badalassem todo o povo da cidade deveria se encontrar na Torre Choro às nove horas da noite.
– Gyo será o primeiro dos outros tantos cães que você terá. – Tentou ajudar o irmão.
– E então os demais me trarão felicidade e partirão um dia, como Gyo.
A noite chegara rápida e a lua já estava ao alto em meio às nuvens negras. A neve ainda estava alta e nem todos os moradores sequer retiraram parte delas nas ruas e nos próprios quintais. A cidade ainda estava em luto, o frio se tornara bem mai gélido e todos agora usavam agasalhos.
Sanza foi a primeira a sair pela porta, depois Anchel e então Anorle trancou a casa e ambos partiram para a Torre Choro, faltando quinze minutos. Estavam usando as melhores roupas de couro, cachecóis de seda confortáveis e calçaram luva das que mais protegiam. Vários grupos de pessoas começavam a sair de suas casas e pegavam o rumo da torre.
– Está ouvindo isso? – Perguntou Anorle ao irmão.
– Sim, são...
– Lobos. – Interrompeu Anchel. – Um dia conseguirei um filhote de lobo para você. Dizem que para lá do Rio Icy os lobos são de fáceis adestramentos e não machucam as pessoas, só quando se sentem ameaçados.
– Legal. – Anchel não estava feliz com a notícia, sabia que o irmão nunca se atreveria sair sequer das muralhas da cidade. – E quando você trouxer um para mim, aproveita e traga alguns dragões também.
Anorle sorriu e Sanza soltou um risinho, Anchel sequer mexeu a boca.
A Torre Choro já era visível e dentre de cinco minutos eles chegaram a ela. Nos calçados haviam entrado neve, a roupa deles estavam com neve, aliás, tudo estava em neve, tudo era frio, tudo era cruel.
Havia um grande tráfego de pessoas dentro do recinto, que na verdade era enorme. Primeiro Anorle viu a grande fonte no centro do local, depois os quatro tronos dourados adornado com todos os tipos de pedras preciosas. No teto tinha um enorme lustre de cristal e mais acima era notável o teto abobado em formato circular. Nas paredes possuíam janelinhas para entrar ventilação e todo o chão era soalho de madeira, das mais resistentes.
– Eles não chegaram. – Atreveu a dizer Anchel para Anorle, num sussurro.
– Talvez estejam no banheiro, sei lá. – E soltou um risinho abafado.
Todas as pessoas ali trajavam suas melhores roupas para visitar um lugar tão belo, as senhoras usavam penas de ganso na cabeça, outras pequenas tiaras preciosas e brilhantes ou então, para o espanto de muitos, algumas tinham cobras que se enrolavam vagarosamente no pescoço de algumas.
Quando o sino lá em cima da torre badalou, imediatamente quatro pessoas entraram e eram os espíritos que então governavam a cidade. A última vez que Sanza, Anorle, Anchel e os demais moradores os viram foram cinco anos atrás.
Os espíritos tomam os corpos das pessoas que falecem, e aqueles não eram diferentes. Os olhos e os cabelos eram puramente brancos, vestiam roupas de seda de cores diferentes e naquele instante sentavam-se nos quatro tronos esbeltos.
– São tão feios... –Anchel disse.
– São tão sem vidas. –Anorle disse e soltou mais um sorrisinho, tentando convencer ao irmão de que seu trocadilho foi quase uma piada.
E então todas as conversas cessaram quando a mão de Dery foi ao alto, pedindo silêncio. O espírito aperfeiçoara-se de um corpo de duende, então tinha a metade do tamanho dos outros três parceiros.
– É com grande pesar que lhes digo o quão cruel foi o ataque ocorrido nesta manhã e isso vocês já perceberam. Infelizmente tivemos setenta e oito moradores mortos e esse índice é altíssimo desde a Batalha de Icy. – E cessou.
– As informações obtidas foram que tudo isso não passou de um plano muito bem armado, ocorrido no interior de Drohat e que esse descuido jamais ocorrerá. Visando a proteção de todos vocês, decidimos que haverá o toque de recolher todas as noites e que assim permanecerão em casa e nada além dela a partir da dez horas da noite. – Disse Nelga, uma espírita que se abrigara no corpo de uma humana.
– Quatro de nossos próprios moradores tiveram participação nesse ataque, e infelizmente digo-lhes que eles são magos das trevas. Não obtivemos informações de quem são ou onde moram, então a partir deste minuto o ser que trouxer eles até nós terá uma recompensa generosa. – Afirmou Tyfon no corpo de um elfo.
– Recebemos há três horas a notícia de que o Vale das Plumas foi totalmente destruído por forças dos Sem Alma. E que tal exército, comandado por um anônimo poderoso, deseja tomar posse dos cinco reinos, e no meio deles... – Disse Jek, que tomou conta do corpo de um bárbaro. — ... Drohat.
O pânico se instalou geral e pessoas começavam a se lastimar. Algumas já sussurravam em partir da cidade e outras quase iam saindo da Torre Choro. Quando Jek ergueu a mão a porta do edifício se fechou num estrondo e o silêncio tomou conta novamente.
– Assim vocês nos chamam, seus nobres governantes, de tolos. – Advertiu o espírito. –E fracos. Tolos serão vocês se ultrapassarem as muralhas da cidade e logo após Icy verão o quão cruel é nosso mundo. Seus antepassados tiveram enorme sucesso em fundar a cidade em uma área tão protegida das horrendas criaturas que vivem lá fora. Seremos suficientemente fortes de nos proteger, mas é claro que a ajuda sempre é bem vinda.
– Estaremos organizando uma expedição para lá das muralhas, para lá de Icy, para até mesmo para lá das montanhas que nos cercam. O exército chegara aqui daqui alguns meses e o tempo é pouco para organizarmos nossa defesa e também nossos ataques. Amanha os expedicionários sairão e noutro dia começaremos nossa preparação. – Disse Nelga quase aos gritos.
– Queremos que fiquem atentos aos avisos mais importantes. – Continuou Jek. – Todos os garotos de doze a dezessete anos terão de participar dos treinamentos de arquearia e guerrearia. As garotas, com as mesmas idades ditas antes, terão treinamentos diários para artesanato, fabricação de utensílios para a guerra e também domesticação de criaturas. As mulheres com idade entre trinta e sessentas anos estarão dispostas como curandeiras até a vinda do tal exército. – Estava lendo um pergaminho e respirou mais um pouco. – Os rapazes de dezoito a vinte e cinco anos irão na expedição, enquanto os demais homens de idade superiores farão seus treinamentos. Todos, digo novamente, todos lutarão. A expedição deverá chegar duas semanas antes da vinda do exército.
– E como sabem a real velocidade do exército para calcularem o tempo de chegada? –Perguntou um duende entre a multidão.
– Não sei se vocês sabem, mas temos um vidente em nosso território. – Bradou Jek.
– E se temos, porquê não foi impedido o ataque de hoje? – Perguntou o mesmo duende.
– Nosso vidente chegou semana passada e ele apenas prevê o futuro daqui meses. – Suspirou e não queria mais ser perguntado. Jek prosseguiu. – E por fim, não estamos livres de novos ataques, sejam atentos assim como estamos sendo. Um calendário está sendo posto do lado de fora e de dentro da Torre Choro, esta agora estará aberta a todos vocês e servirá de base de treinamento para os curandeiros. Enfim, uma boa noite.
E sem cerimônia os espíritos deixaram seus tronos e desapareceram por uma porta.
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