Teste

1 Capítulo 1


ANTES


Eu posso ser muitas coisas, rude, carinhosa, divertida, mas não diga que sou normal, normalidade nunca combinou comigo. Desde pequena me diferenciava das outras garotas da minha idade, minha própria aparência definia isso, meus cabelos vermelhos cor de fogo e meus olhos negros me davam uma beleza rara e me distinguiam das outras pessoas, era alta também e muito fácil de ser reconhecida. Meu temperamento nunca combinou com o das garotas populares que estavam sempre felizes e sorridentes, mas quando envelheci um pouco, pude perceber que nem todas as garotas populares são felizes, pude perceber que as pessoas escondem suas tristezas, seus sofrimentos, suas dores, pude ver pessoas chorando no escuro, perdidas na vida, pessoas com a esperança de que alguém as encontre e a tire das chamas das dores, essas chamas são fracas quando estamos acompanhados, mas no momento que estamos sozinhos, elas se intensificam, elas nos queimam e não apagam, e infelizmente, essas chamas me atingiram.
Pode-se dizer que sou bem inteligente. Quando pequena fazia muitos cursos avançados, robótica, física, química, astronomia, meus pais sempre os bancavam. Mas estava cansada daquela vida solitária, afinal você começava a ser excluído quando não podia comparecer em nenhuma festa, então parei. Abandonei todos os cursos em busca de uma vida normal, mas como já disse, normalidade não combina comigo.
Aos doze anos, fiquei meio amarga por causa dos conflitos em minha casa, meus pais estavam quase se separando e meu irmão quase sendo expulso de casa. Eu tinha apenas duas amigas, Alicia e Mariah, eu vivia acompanhada delas. Alicia era uma garota morena de olhos e cabelos escuros, era uma garota sonhadora, e Mariah era a cola que mantinha eu e Alicia sempre unidas, pois apesar de nós sermos melhores amigas, nós sempre brigávamos. Alicia era uma garota espontânea, não ligava para o pensamentos dos outros, pelo menos ela fingia isso, pois apenas eu conseguia ver seus olhos inchados e vermelhos toda manhã.
Talvez eu tenha a má sorte de meus amigos serem sempre solitários tristes e sofridos, mas eu te digo algo: as pessoas mais solitárias são as mais amáveis, as mais tristes tem o sorriso mais bonito, as mais sofridas são as mais sabias, tudo porque elas não desejam que outras pessoas sofram tanto quanto elas sofreram, Alicia me disse isso uma vez, foram suas ultimas palavras, e eu as presenciei.
Eu Mariah e Alicia fomos muito amigas de Lauren mas todo mundo a chama de Lolo, uma garota alta e bonita, mas ela se afastou de mim e de Mariah quando se tornou mais amiga das pessoas populares.
Alicia não teve uma vida longa, ela nunca foi predestinada a ter, afinal, chamas fortes não são feitas para durar, e sim para apenas queimar. Eu amava ela, não como uma lésbica, mas ela foi a primeira pessoa que eu me sentia a vontade, pra ela eu contava meus segredos, meus medos, sem temer ser criticada. Alicia foi minha primeira verdadeira amiga, a primeira pessoa que eu pensei passar a vida inteira mantendo a mesma amizade. Estávamos numa churrascaria na última vez que vi ela, naquela época, eu era uma garota sombria me escondendo sobre camadas de roupas pretas, posso afirmar que continuo assim atualmente.
-Sabe, Você não tem motivo para ser sombria e grossa como é, isso não tem necessidade!-ela me acusou
Muitas pessoas pensavam isso, o que me tornava uma pessoa muito criticada, eu fingia não me importar, mas sofria por cada palavra de acusação.
-Você que pensa, você não sabe como é vier em um campo minado!-eu me defendi
-Você fica sempre na defensiva! Isso cansa sabia! Ninguém gosta disso- ela já estava praticamente gritando, Alicia sempre demonstrou bem suas emoções
-Me desculpe, mas não vivo para agradar os outros!- eu menti, por mais que usasse sempre essa desculpa, eu me importava, me importava se meu cabelo estava arrumado ou se eu estava gorda, eu me incomodava quando me xingavam, e sempre queria saber o que estavam pensando sobre mim, mas sempre escondo minha sensibilidade.
-Você acha que eu gosto quando eu saio com outras meninas sem você???Pois saiba que eu odeio ver minha melhor amiga ser xingada-ela disse chorando
Eu abracei seu pequeno corpo, o cheiro de seu perfume de baunilha que estava usando naquele dia me faz chorar até hoje...
No dia seguinte, não encontrei Alicia na sala de aula, e pelo horário ela já deveria ter chego, fui ver Lauren para ter certeza de que ela não estava na escola. Corri até a quadra onde Lauren costumava ficar, mas ela estava sozinha conversando com um garoto mais velho, de cabelos loiros, esperei ela se afastar do garoto e fui até ela
-Você viu Alicia hoje??
-Não, por que você quer saber??-disse Lolo
Eu não respondi, e voltei pra minha sala, estava com um mau pressentimento naquele dia, e com razão. Esperei até o fim da segunda aula para ter certeza de que ela não viria, mas quando estava andando perto do banheiro com Lauren ouvi um gemido, eu e ala trocamos um sorriso malicioso e entramos no banheiro com a intenção de acabar com a putaria no colégio. mas quando entramos, só vimos respingos de sangue no chão, lâminas caídas e um corpo pequeno e moreno caído no chão, ainda gemendo. Eu fiquei paralisada quando reconheci o corpo. Alicia estava gemendo e nos viu, ela sorriu, aquele sorriso me fez pensar que ela estava bem, que aquilo era somente um pesadelo, afinal ninguém sorri nos seus últimos momentos de vida. Quando ela se mexeu pude ver o enorme corte em seu pulso, e a enorme quantidade de sangue. "Ela vai morrer! Faça algo!" eu pensava, mas meus músculos não me obedeciam, Lauren estava no mesmo estado. Só pude ouvir as ultimas palavras de Alicia antes de começar a chorar
-Antes que me perguntem, sim, eu me matei, estou cansada desse sofrimento, e agora estou fugindo dele, então vivam que um dia nos encontraremos novamente.
Fui tentar interrompe-la, mas palavras não saiam da minha boca
-Acho essa frase tão bonita-Alicia continuou-As pessoas mais solitárias são as mais amáveis, as mais tristes tem o sorriso mais bonito, as mais sofridas são as mais sabias, tudo porque elas não desejam que outras pessoas sofram tanto quanto elas sofreram, nunca a esqueçam, por favor -e seus olhos fecharam, para nunca mais abrir
Para mim, presenciar a morte de Alicia foi traumatizante, ver a vida se esvaziando de uma pessoa, seus olhos fechando e a pele empalidecendo, o fato dela ter se matado é pior, pois a forma que ela estava disposta a desistir me impressiona, essa morte me abala até hoje, apesar de eu já ter presenciado outras, os detalhes apenas eu e Lauren sabemos, e guardamos para nós suas ultimas palavras, seus últimos instantes de vida, nos aproximamos muito mias por causa desse "segredo", nós nos ajudamos a superar a morte, mas sem muito sucesso, apenas 2 anos depois pude sentir uma mudança.
No enterro de Alicia, estávamos apenas eu e Lauren, não ousamos abrir a boca para trocar palavras e nem choramos, estávamos vazias, eu e ela apenas, dividindo as mesmas emoções, os mesmos pensamentos, apenas foi traumatizante ver o corpo pequenino de minha amiga pálido, o corpo que já esteve comigo rindo, chorando, ver a pessoa em que eu mais confiava morta, prestes a ser enterrada para nunca mais ser vista me traz pesadelos, a única coisa que fiz durante o enterro foi abraçar Lauren, a garota que dividia comigo, os momentos da morte de Alicia, seu corpo maior que o meu me deu a sensação de segurança, algo que há muito tempo não sentia, a parir daquele momento eu soube, que não seria fácil me separar de Lauren a partir daquele dia, assim no futuro, nos tornaríamos inseparáveis
Com 14 anos, após a morte de Alicia e minha total recuperação emocional sobre isso, os problemas em continuaram, porém eram todos desnecessários.
-Você está se tornando muito irresponsável — dizia sempre minha mãe — É melhor se afastar de Lauren, aquela garota está te influenciando
Eu quase sempre ignorava esses comentários. Lauren, minha melhor amiga desde os 12 anos foi a única pessoa, durante todos esses anos, que nunca me desapontou.
Eu estava em uma crise na minha vida, mas apareceu uma mão se estendendo para mim quando mais precisava, James não sabia pelo que estava passando, mas estava sempre comigo e me apoiando, pelo menos fez isso tempo suficiente para eu poder me apaixonar por ele, e depois disso, ele simplesmente me largou no mesmo lugar que me achou, num lugar sombrio e triste que eu sempre vivi. Mas a minha paixão por ele não desapareceu, eu apenas dei importância para outras coisas além dele, acho que foi uma das melhores coisas que fiz.
Quando comecei a reparar em outras coisas, descobri um dos maiores segredos de Lauren, que apenas eu, Jennifer, Kate, Liz e Mariah sabemos, mas os detalhes desse segredo foram reservados a mim apenas. Num dia de calor, Estávamos tendo aula quando ela levantou as mangas da blusa que ela nunca tirava, e eu entendi o porque de ela sempre estar de camisetas de mangas longas. Quando ela tirou a blusa eu pude ver marcas eternas, pude ver os cortes que ela fazia quando estava sozinha, e pela primeira vez, eu não a vi como uma pessoa que estava sempre rindo, que fazia os outros sorrirem, eu vi alguém que esconde seus próprios sofrimentos. Mas ao contrário das outras garotas, eu não fiquei desesperada e horrorizada, eu me lembrei das cenas da morte de Alicia, e vi tudo se repetindo novamente, eu queria saber o motivo para evitar o mesmo destino. Antes de ver os pulsos de Lauren, ficava horrorizada ao ver sague saindo das marcas dos pulsos de garotas na internet, ainda mais pela morte de Alicia no passado, mas a partir do momento que vi a mesma coisa nos pulsos de minha amiga, só consegui sentir pena, curiosidade e vontade de acabar com seu sofrimento, pois minha própria experiência dizia que as pessoas não conseguem se reerguer sozinhas.
Nós nos aproximamos muito mais do que já éramos amigas depois disso, e não via mais os cortes como algo sem sentido, agora o via como uma válvula de escape, uma forma de tornar o sofrimento suportável, de transferi-lo para o estado físico
Com o passar do tempo, Lauren se apaixonou, Luke era um garoto baixo e loiro de olhos negros, não era muito amigável comigo, nem com ninguém, além de Lauren. Os dois namoravam e terminavam no dia seguinte, ficavam e logo depois brigavam, mas pelos olhos brilhantes e o rubor em suas bochechas era perceptível que eles estavam apaixonados. Lauren era mais alta que Luke e seu corpo encantava todos os garotos, o que sempre o fazia ficar com ciúmes, eu adorava o relacionamento dos dois, mas Luke sempre me irritava com sua brutalidade comigo, mas isso mudou com o tempo.
Com todos os meus problemas escondidos, fazia o que uma garota de 15 anos faz, eu apenas ficava com garotos em festas e para mim, era foda-se o mundo. Era bonita, mas não atraia garotos para um namoro, meu humor não permitia isso, eu comecei a me tornar uma pessoa amarga e melancólica por causa do sofrimento, eu tinha apenas Lauren para desabafar, mas ela também já tinha seu próprio sofrimento, ela já se cortava havia praticamente um ano, nunca dizendo para ninguém o motivo de suas marcas. Eu já tinha tentado faze-la parar, mas a cada vez que ela me prometia que não tocaria mais em uma lâmina, uma semana depois ela estava com o pulso enfaixado com a desculpa de ter caído, mas é claro que eu sabia a verdade, sob as faixas de tecido estavam os cortes, ainda abertos, pulsando o sangue vermelho escarlate de suas veias. Isso me abalava, mas fui me acostumando.
Com toda minha dor e sofrimento, entrei numa vida negra, e cansada de toda minha dor interna, resolvi transformá-la em física, queria parar de me sentir vazia, é eu comecei a sangrar apenas para saber que estava viva. Meu secreto e não correspondido amor por James só piorava a situação, ele me fazia me sentir um lixo, me fazia sentir que ninguém nunca me amaria, muitas vezes, só queria ouvir uma palavra sua para voltar a me sentir segura novamente, como eu me sentia no passado, quando ele falava comigo...

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.