Terrestre
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Caminhar de manhã faz bem aos pulmões, principalmente se na rua não estiver cheios de carros jogando monóxido de carbono na atmosfera, que bom que não havia os barulhentos motores por ali. Morar em um condomínio tinha lá suas vantagens.
Susana andava tranquilamente pensando em nada e observando as crianças brincarem no parquinho. Lembrou-se de como a vida era quando menor, tão mais simples e as mentiras não a atingiam tanto quanto agora.
Foi surpreendida por um berro quase autoritário de uma voz familiar. Na esquina bem próxima a ela apareceu um gigante dog alemão correndo atrás de um gatinho indefeso e atrás do cachorro um garoto nervoso com a coleira na mão tentava acalmá-lo. Quanto mais gritava para o cachorro parar mais rápido ele corria.
O pequeno gato pulou no colo de Susana, quase não deu tempo de raciocinar que se o gato perseguido pulou no seu colo...
– Para! – gritou para o cachorro e fechou os olhos esperando mais uma queda.
Ela abriu os olhos com receio e ficou chocada ao perceber que permanecia de pé. Já o cão balançava o rabo animadamente com os olhos fixos no gato. Os olhos de Susana passaram do gato para o cachorro, do cachorro para o gato.
Susana deu de ombros e passou a mão na cabeça do cachorro que correspondeu com lambidinhas, ou lambidonas se considerar sua língua.
Lucas chegou um minuto depois colocando as mãos no joelho para respirar. Ao levantar seu rosto estava vermelho e o cabelo despenteado. Ele queria dizer alguma coisa, mas levantou o dedo pedindo um tempo e colocou a mão no peito.
– Precisa me contar seu truque. – Lucas apontava para o cachorro que continuava balançando o rabo muito contente.
Ela quase sorriu.
– Não tem truque nenhum. – respondeu sem olhar para Lucas.
Ele endireitou-se e limpou o suor de sua testa.
– Você aparece magicamente e com uma palavrinha faz o que eu estou tentando fazer há vinte minutos. Com toda a certeza tem um truque, esse ANIMAL não obedece ninguém. – terminou exasperado.
– Cachorros seguem um líder, é só mostrar que é que manda. – disse dando de ombros.
– Quem dera fosse tão fácil assim, é o que dizem os doze treinadores que pediram demissão. – bebeu uma boa quantidade de água.
Susana retirou o gato com as unhas cravadas em suas costas, ela aninhou em seu colo e o acalmou, cão e gato se encaravam, mas não tinham nenhuma reação de ataque.
– Precisa ter um truque. – Lucas riu.
– Não há truque. – insistiu Susana sem perceber.
Ela colocou o gato no chão, rapidamente o felino desapareceu pela moita de uma casa próxima e o cachorro só o observou sem se mexer.
– Bom menino. – retribuiu Susana acariciando o cão.
– Não é não, ele é um menino mau. – o cão rosnou para Lucas que se encolheu. – você viu não é? Eu disse.
– Você provocou. – sugeriu a garota ficando entediada com a conversa.
Ele colocou a coleira no cachorro, com muito protesto por parte do cão e ajeitou o cabelo demasiado grande que grudava e sua testa.
– Posso te chamar de Susi? – perguntou com um falso ar despretensioso.
– Não. – respondeu seria.
– Então posso te...
– Não.
Susana colocou os fones de ouvido e recomeçou a caminhada.
– Mas você não sabe o que eu ia dizer.
– Não. – concordou Susana inclinando um pouco a cabeça.
Lucas correu atrás dela, mas o cachorro entrou no meio dos dois e ficou encarado Lucas enquanto caminhavam.
– Se quiser eu posso te acompanhar até em casa. — insistiu ele.
– Não precisa. – Ela tentou mais uma vez.
– É sempre tão negativa? – Fez uma pergunta capciosa propositalmente.
Susana apenas deu um meio sorriso, se é que aquilo pode se chamar sorriso, e continuou como se não tivesse ninguém ao seu lado deixando-a irritada.
Lucas parou e ficou a observando. Susana continuou andando, ela quase sentia olhos cutucando suas costas. Ela parou e respirou bem fundo, colocou um meio sorriso no rosto e olhou para ele.
– Só até minha porta? – ela perguntou relutante.
Ele deu um grande sorriso, passou a mão no cabelo liso e puxou a coleira do cão. Não sabia se ia arrepender-se disso, mas não custava nada tentar.
Ele andou com ela incrivelmente em silêncio, Susana nunca ia admitir, nem para si mesmo, mas andar com alguém é melhor do que andar sozinha.
– Está entregue. – Lucas colocou a mão nos bolsos quando pararam na porta de Susana.
Ela retribuiu o sorriso e abriu o portão, sua mãe estava parada na entrada da casa com cara de brava e com os braços cruzados. Ao ver Lucas ela mudou.
– Não sabia que tinha saído com Lucas. – falou a mãe com um risinho que insinuava algo.
Susana olhou para ele e voltou-se a mãe.
– Nem eu. – concluiu.
– Eu já vou indo. — ele cochichou para que dona Cecília não ouvisse.
– Acabou de chegar criança, entre, entre, acabei de fazer um bolo. – ela praticamente puxou o garoto para dentro da casa e o obrigou a comer.
Eles se deliciavam em um bolo de chocolate enquanto a mãe fazia suposições. Susana estava tranquila e sem constrangimento negando qualquer coisa que a mãe falava a respeito dos dois, em pouco tempo Lucas juntou-se a ela.
Dona Cecília estava muito animada com Susana finalmente ter um amigo, ela nunca havia trazido ninguém para casa antes. Susana desconfia que se ela pegar uma pessoa estranha na rua e levar para a casa dona Cecília vai abraçar e agradecê-la por fazer de sua filha uma pessoa mais normal.
Ela levou Lucas até a porta.
– Obrigado pelo bolo, estava muito bom. – ele agradeceu desprendendo o cachorro, que se chama Trovão, do portão – Sua mãe é uma pessoa muito animada.
– Ela só está animada por você estar comigo. Ela achava que eu era lésbica. – falou a última parte mais para si mesma.
Isso porque a mãe já havia perguntado diretamente várias vezes para Susana se ela gostava de meninos. Susana não tinha problema com meninos, tinha problemas com todo mundo, não era muito boa com pessoas e por isso que aos 17 anos não havia namorado ainda.
Lucas segurou Trovão e ficou olhando para Susana.
– Não sou lésbica. – ela concluiu lendo seus pensamentos.
Ele sorriu um pouco mais.
– Até amanhã, Susi. – ele virou-se e foi andando.
– Não me chame de Susi. – falou consigo mesma.
Ela sentou-se com um sanduíche de frango e suco de laranja, estava comendo tranquilamente sob o sol da manhã em sua parte isolada do gramado.
A garota materializou-se na frente dela.
– Não fica preocupada de alguém te ver fazendo isso? – Susana mordeu um pedaço do sanduíche para esconder o constrangimento daquela conversa.
– Ninguém vê o que você vê, bobinha. Além disso, ninguém repara. – ela falou apoiando-se em um dos braços. — Falando nisso, deve ter muitas perguntas e respondendo a primeira delas meu nome é Íris. Qual o seu?
– Susana. Você é um fantasma? – perguntou só para ter certeza.
– Pareço um fantasma? – disse colocando a mão no peito e fingindo estar magoada.
– Vamos ver, sua pele é tão branca quanto giz, tem cabelo loiro enrolado e olhos castanhos, não conheço nada de fantasma, mas tenho certeza que eles não sentem dor – Susana beliscou Íris e ela deu um gritinho assustada com a ação inesperada – e você sente dor. Estava observando sua roupa jaqueta jeans e calça de couro, não responde a minha pergunta apenas a deixa mais intrigante, quem é você?
Íris a olhou de soslaio.
– Não está pronta para ouvir, amiga. Esse é um assunto muito parecido com quando os pais dizem que precisam ter aquela conversa. – ela riu da própria piada.
–Não sou sua amiga. – disse Susana enquanto levantava os óculos escuros para encará-la.
– Não contaria com isso. – disse convencida.
– Não vai me dizer quem, ou melhor, o que é você? – perguntou novamente.
– Ainda não. – ela falava com a voz melosa.
Apesar de ter voz de menina falava com muita convicção.
Lucas chegou por trás de Susana e sentou-se ao lado dela.
– Anw, já está fazendo amigos, que gracinha. – Íris apertou o nariz de Lucas que ficou irritado – Preciso dizer que tem um péssimo gosto para amigos.
– Você é amiga dessa ai?
– Ei, garoto, vê como fala comigo! – Íris se irritou.
– Se é sua amiga, ela tem mesmo um péssimo gosto para amigos. — retrucou Lucas.
– É gente, eu concordo, não sei fazer amigos. – Susana levantou a sobrancelha sugestivamente.
Susana voltava para a casa a pé todo dia e hoje não fazia diferente.
– Lucas é muito irritante. – uma voz fininha chegou ao seus ouvidos.
– Se não estuda na escola como fica circulando lá dentro? – perguntou ao ar e logo foi respondida.
– Quando cheguei aqui descobri que precisava de uma coisa chamada... dinheiro. Trabalho lá de vez em quando. – Íris andava ao lado de Susana, ela colocou o braço em volta do pescoço dela.
Susana tirou o braço da garota de seu pescoço, mas é como tentar tirar chiclete do cabelo.
– Você deixa ela te acompanhar, mas a minha companhia tu não quer, né! – berrou Lucas vindo da esquina próxima.
– Cheguei primeiro meu querido. Segue seu rumo que ela não quer falar com você. — Íris segurou nos ombros de Lucas e o virou para o lado oposto, mas ele deu uma volta nela fazendo com que ela virasse ao invés de Lucas.
Íris virou-se para Lucas com a boca aberta, ela levantou o dedo ameaçadoramente.
– Como ousa? – apertou os olhos até quase fechá-lo.
– Ousando. – Respondeu e correu para perto de Susana.
– Susana controle seu amigo. – bravejou Íris batendo o pé no chão.
Susana não ouviu a metade da briga desnecessária. Ela estava de olho em um Porch vermelho parado um pouco longe de onde eles estavam. Ela correu para trás de uma árvore e escondeu-se. Os dois sem entender foram atrás dela e com isso a empurraram para fora da árvore. Susana voltou correndo e os encarou por um longo e intenso segundo.
– O que estamos vigiando? – perguntou Íris olhando para todos os lados.
– Meu irmão. – esclareceu Susana.
Ele estava com dois homens engravatados que não pareciam ser boas pessoas. Conversavam olhando para os lados e novamente Jonathan estava tenso. Seja o que for que estava fazendo não era nada bom. Um tempo depois eles saíram e apertaram a mão de Jonathan e entraram em um carro preto.
– Porque estamos vigiando seu irmão? – Lucas perguntou.
Assim que o Porch partiu Susana saiu de trás da árvore. Ela cruzou os braços e continuou andando.
– Eu não sei ainda, mas eu tenho uma estranha sensação que ele está fazendo algo ilegal. – respondeu Susana pensativa.
– Porque acha isso? – Lucas correu para acompanhá-la.
Íris empurrou Lucas e ficou o meio dos dois.
– Não fale com ela. – ameaçou Íris — Susana porque acha isso?
– Não sei. — concluiu.
Eles seguiram Susana até em casa. Chegaram na hora do almoço, ela entrou e fechou a porta, mas isso não é suficiente para pará-los. Os dois abriram a porta e continuaram discutindo.
Dona Cecília ficou mais contente ainda com a presença dos dois.
– Vão ficar para almoçar? – perguntou a mãe sorrindo de orelha a orelha.
– Não. — Respondeu Susana.
– Claro. – disse Íris.
– Se não tiver problema. – completou Lucas.
– Claro que não crianças, vou servir daqui a cinco minutinhos. – gabou-se a mãe.
Eles almoçaram e comeram gelatina de sobremesa, Lucas e Íris se contiveram e não ficaram discutindo na frente de dona Cecília, mas trocaram farpas toda hora com os olhos. Em um momento alguém chutou a perna de Susana, os dois olharam para os lados como se nada tivesse acontecido.
Logo depois eles foram embora, cada um para um lado. Eles prometeram a ela que a veriam no dia seguinte, ela mal podia esperar para mais horas de discussões.
Susana ia para seu quarto quando passou na frente do quarto de Jonathan, sem querer ela viu a porta aberta. O antigo fax dele estava funcionando ainda e havia um fax sendo recebido naquele momento. Susana continuou andando tentando esquecer que tinha visto aquilo. Então ela girou o calcanhar e entrou no quarto de Jonathan.
Só havia uma frase na folha:
“Plano de contingência liberado.”
E as coisas só ficam mais estranhas.
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