Terras de São Miguel !
2 Reinações !
Notas iniciais
O sol nem havia despontado no horizonte e o grito do aboio dos vaqueiros rompeu por aquelas paragens vindo das poucas sebes de fazendas que por ali dividiam os cercados ao correr do leito do rio que corria torto serpenteando a vasta região de pastos ralos onde a grama verde estava a se tornar seca e vermelha pelo anuncio dos tempos de falta d’água que se anunciava no balançar das folhas das árvores que caiam com a chegada do outono.
Na estradinha principal os carros de boi do Sêo Coroné Toninho Pedroso já se preparavam para sair em busca dos postes de madeira novos que iam trazer em breve para a região o primeiro passo do progresso que havia sido prometido pelo então senhor prefeito da comarca de Conceição de Serro que agora se tornava uma grande cidade; sim senhor, a luz elétrica ia chegar em breve e com ela iam se acabar ao menos para os de maior posse,a sujeira que ficava no nariz para ser tirada todas as manhãs , tudo isto por causa da fumaça fedorenta das lamparinas de óleo ou querosene.
Nem bem os primeiros riscos dourados do sol apontavam entre os montes, ainda com aquela névoa baixinha que embranquecia toda a região e fazia com que as malhas das barbas dos peões se mostrassem como congeladas; e os pequenos peraltas já se encontravam de pé.
Na sebe da fazenda do dr. Toninho, o pequeno Miguel vinha meio sonolento em suas calças ¾ de canela a choramingar porque o abençoado Messias tinha lhe escondido o bico,companheiro das noites frias e que o faziam esquecer um pouco os ubres recheados de leite que agora nhá Marieta lhe negava.
Messias vinha com uma carinha de anjo que nada demonstrava que sabia de alguma coisa e ao passar pelo moleque Quinzinho; filho do rendeiro Mundinho Carrinho, que por ali aportara a bem uns 15 anos fugido das surras de chicote aplicadas pelo pai por causa de sua teimosia em querer ser domador de burro bravo; e lhe segredou em baixa voz que hoje iriam cabular as aulas lá pelas bandas do arraial para por em prática umas novidades que ele tinha acabado de aprender com Zequinha, filho do feitor da fazenda Boa Esperança.
Quando deu a hora de saírem para a escola, uma casinha de madeira velha,quase caindo em cima da cabeça dos pequenos que ali iam aprender o bé-a-bá com a sempre doce Dona Sondes que se desdobrava nos ensinos das letras até terminar o quarto ano e as aulas de catecismo que o padre Davino ia para acompanhar a cada 30 dias no mês; saíram a tropinha de pequenos arteiros em alvoroço já pensando nas poucas e boas que iam aprontar naquele dia.
Na virada da rua da Poeira,perto de onde estavam para construir um cemitério pois estava já ficando difícil levar os mortos para serem enterrados ou em Itabira ou na cidade do Serro; encontraram com os demais meninos que iam em um bando festivo e barulhento pelas ruas.
Dois grupos logo se destacaram e em cada um deles um chefe ditava as ordens. No grupo dos pés vermelhos,como eram chamados os meninos do alto do Pinga-Fogo se destacava o arrogante e treiteiro Jairzinho que com seus quase 15 anos ainda freqüentava os primeiros anos escolares por pura preguiça de deixar de lado a boa merenda oferecida pela escola e se recusava a aprender o suficiente para ao menos passar para o ensino colegial que já estava sendo oferecido pela Escola de Ensino Normal, de onde a alguns anos já haviam saído algumas das jovens professoras que agora estavam espalhadas pelas fazendas das comarcas vizinhas ensinando aos pequenos. Na outra turma,guiados pelo jovem Messias, um rapazote em seus 12 anos cheio de vida e traquinagens que arrepiariam os cabelos das mais beatas senhoras que cuidavam da educação religiosa de todas as casas do arraial.
Quase sempre que as duas turmas se encontravam rolava uma briga mas neste dia em especial estavam todos de acordo para fazerem umas novidades que estavam a tempos planejando e por isso foi uma surpresa para todos os meninos quando os dois chefes de turmas se deram as mãos em um cumprimento e saíram a frente dos grupos discutindo que ações iam tomar.
Virando para a turma que se olhava sem muito entender,separaram uma leva de uns 10 ou 12 pequenos e lhes deram instruções para irem para a escola e se perguntados porque os outros não haviam comparecido, para inventarem boas desculpas que não colocassem todos em castigo.
Depois de se despedirem dos menores, juntaram a elite dos dois bandos e sobraram bem 8 garotos dispostos a fazerem nada que fosse da lei de Deus naquele dia.
Constavam ali juntinhos os 2 chefes, Messias e Jairzinho; e os demais eram: Barrão, Calango e Tião Catarro da turma do Jairzinho; Julio, Marcone e Selma Miquinho (que aliás era a única menina entre as duas turmas) da turma do Messias , saindo estrada abaixo andando pelos costados ali da estrada velha do campo do XV. Ali iria começar a aventura que os chefes tinham planejado para este dia, nas galhas dos pés de jabuticaba do Sêo Salumão como costumavam chamar ao velho senhor que nunca lhes dava as frutinhas e quando pegava alguém em seus domínios sempre esquentava a bunda dos pequenos com uma boa mistura de sal grosso e pimenta em um tiro de sua espingarda polveira.
Já estavam cientes que neste dia o pessoal da casa não ia estar pois havia nascido a sobrinha-neta de dona Idalina e ela insistiu com o marido para que juntos fossem dar umas voltas lá pelas bandas de Cantagalo para conhecer a menina e descansar um pouco do barulho da cidade.
Entraram sem cerimônia arrancando as lascas de bambu da cerca e enquanto alguns trepavam nos pés de jabuticaba para catar as frutas ainda meio verdes; Messias, Jairzinho e Selma se sentaram embaixo de um pé de ingá e começaram atracar os planos para esta tarde e a noite.
— A casa do Tião Galinha está com muita manga caindo do pé e ele não da nada pra ninguém... falava em sua voz matreira o atrevido Jairzinho.
Messias ponderou um pouco e depois de pensar bastante falou:
— Vamos então dar um jeito de entrar lá para roubar um pouco pra todo mundo e dar um bom susto nele. Mas antes vamos cuidar do Tatu.
Tatu era um velho muito simples que passara a vida inteira domando burros nas fazendas da região e depois de levar um coice de uma mula baia que havia vindo das terras de São João tinha ficado com um incomodo nas pernas e hoje em dia era chamado de saco caído. Alvo preferido dos pestinhas da região sempre era atacado pelos mais corajosos e a sua única defesa era dizer que ia pegar algum deles e capar pra dar o exemplo. Depois de ter dado um susto no pequeno Miguel quando o pegou no colo depois de levar um chute na canela, passou as costas do canivete em sua perna e fez o pequeno chorar por uma semana pensando que não ia mais ter seu saquinho; foi então jurado por Messias de que a vingança ia ocorrer quando ele menos esperasse. Foi este fato que fez com que os dois chefes dessem uma trégua em suas briguinhas de gangue e se unissem em um bem comum.
Foi a vez de Selma quebrar o silêncio que se fez entre os três e dizer:
— De noite temos de dar um jeito na bruxa veia da dona Arminda, fiquei sabendo que ta chegando o dia de ela dar mais uma alma de menino pro capiroto e pode ser qualquer um de nós ou de nossos irmãos.
A discussão correu boa parte da manhã entre divertidas piadas contadas e as doces jabuticabas que eram colhidas e comidas ali mesmo em meio a algazarra da garotada.
Depois de discutirem bastante viram que já era hora de ir ao ponto de encontro com os pequenos pois a aula já devia estar acabando naquele momento. Tudo combinado para ser preparado ainda naquela tarde e com a participação dos pequenos para que todos os planos dessem certo.
Saíram desconfiados por baixo da cerca e foram andando calmamente pela estrada com a carinha de anjinhos que acabaram de cair do altar.
Na entrada da rua encontraram a mulher-homem Ivone que ia com suas ferramentas de pedreiro em uma sacola e para colocar um pouco de diversão em seu fim de manhã, cataram um pouco de bosta de boi mole que estava ali pelo chão e jogando nela gritaram com toda a força de seus pulmões:
— Mulhe homi dos infernos... Olha ai a mulhe homi...
Ivone jogou a bolsa no chão e correu atrás dos meninos tentando alcançar algum deles,mas eles foram mais espertos e enquanto alguns corriam para vários lados distraindo-a, Messias e Jairzinho pegaram a bolsa e jogaram as ferramentas para todo lado, saindo depois para se juntar a turma e olhando de longe viam que Ivone entre xingos e maldiçoes para os meninos ia juntando as ferramentas para se dirigir ao seu trabalho.
A tarde transcorreu sem nenhuma outra reinação e quando beiravam as 5 horas da tarde a patota de pestinhas se reuniu em frente a igrejinha das almas para por em prática os planos feitos durante aquela manhã.
Enquanto as bondosas senhoras se reuniam para rezar o terço de todas as tardes,os meninos saíram em um grupo só para aprontarem. Iam primeiro procurar o Tatu para lhe pregar um bom susto, mas ao passarem pela pinguela que levava ao amontoado de casebres onde este morava, encontraram com a velha bruxa que ia para a igreja rezar o terço com as senhoras.
Mudaram imediatamente os planos e se dirigiram para a casa de dona Arminda já pensando em que poderiam fazer para pregar um bom susto na velhota.
Foi de Selma a idéia de uma boa traquinagem quando passaram de frente a casa do macumbeiro Zé do Capeta e ver ali dois pés carregadinhos de mamão verdinho.
— Que tal se nois fizesse uma cavera de mamão pra por lá na cerca dela com uma vela dentro?
A idéia foi aplaudida por todos e logo Jairzinho deu um jeitinho de pular a cerca e roubar dois mamões bem grandes para poder fazer a traquinagem.
Cortaram uma roda no mamão, e tiraram todas as sementes de dentro deixando-o oco e fizeram o desenho de bocas e olhos. Um dos pequenos que estava ali junto só pra mostrar que fazia parte da turma, logo mostrou o seu valor e apareceu com um toco de vela e uma caixa de fósforo que roubou em casa sem a mãe ver; e então se dirigiram para a casa da velha Arminda.
Pulando o portão encontraram nos fundos da casa um pano encardido, que um dia já fora branco, estendido para secar e ai a idéia tomou mais forma. Pegando 2 varas de pau fizeram uma cruz e nela fincaram a cabeça de caveira feita do mamão e dentro dele colocaram a vela acesa e o pano foi colocado como uma roupa. Já escurecia quando a velha Arminda veio estradinha afora em busca do conforto de sua casa e ao chegar deparou com a cena daquela caveira com a boca cheia de fogo e que balançava a roupa no ar, e o seu susto foi tão grande que ela saiu gritando rua abaixo que o capeta estava ali tentando levar a sua alma pro inferno.
Foi uma correria total de todos que puderam acudir mas logo descobriram que era apenas uma travessura dos meninos e não demorou muito para chegarem até os responsáveis por tal traquinagem e todos levaram uma boa surra e umas horas de joelho no milho.
Depois de ficarem alguns dias de castigo até se esqueceram das outras coisas que tinham de fazer e ficaram proibidos de se juntar onde quer que seja para aprontarem das suas.
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