Notas iniciais
O terror nem sempre vem de algo grandioso ou macabro como um homem imortal que anda com um facão ou um ser que anda pelos seus sonhos tentando te matar, algumas vezes vem de algo simples.

Começo essa historia com os nervos já em frangalhos, pois em sã consciência, jamais escreveria sobre uma fresta na porta do meu quarto.

Tudo começou depois de um pesadelo com um gato; esse gato, em meu pesadelo, arranhou-me verticalmente com suas unhas negras e afiadas, abrindo-me o tórax, de onde começou a “entrar angustia”.

Nesse pesadelo, me senti como se estivesse me afogando e o desespero de olhar para a morte e não poder me livrar dela foi a sensação mais angustiante de toda a minha vida. Após esse pesadelo, acordei ofegante, como se estivesse acabado de me salvar daquela sensação de afogamento, como se estivesse acabado de encarar a morte e sobrevivido.

Mas logo após acordar, vi uma fresta no meio da minha porta, uma fresta que não estava lá quando fui dormir e como moro sozinha, não haveria explicações para aquilo estar lá. Era de madrugada, então resolvi me levantar e verificar o que havia acontecido. O mais provável era que algum móvel tenha caído no meio da noite e acertado a porta ou que alguém tenha invadido minha casa e que tenha feito aquilo.

Pus-me a sentar na cama e dei uma breve olhada mais demorada na fresta, mas no mesmo momento percebi que o escuro que a fresta revelava era mais escuro que o escuro do meu quarto em que a única luz visível era a luz dos postes passando por pequenas brechas na janela. O escuro da fresta era denso. Encarando um pouco mais (que deveria ter sido segundos), pareceu-me que a fresta tinha emitido uma grande onda de terror e angustia, atingindo-me, deixando-me com temor, com horror, como se algo indescritível estivesse naquela fresta. Deitei-me rapidamente e cobri meus olhos com o cobertor tentando dormir e esquecer daquilo, o que se revelou algo inalcançável.

Depois de passar as piores horas da minha vida, ouço o despertador tocar e percebo que já é de manhã. Tento não olhar para a fresta na porta e ponho uma toalha na porta para cobri-la. Arrumo-me para ir trabalhar com grande pressa e logo saiu de casa.

Após passar o dia cansada e com grande temor, volto para casa com a intenção de observar a fresta. Quando chego em casa, a primeira coisa que observo é a tolha na porta; fecho a entrada da minha casa e logo vou retirar a tolha.

Quando retiro a toalha da porta, solto um grito muito alto e estridente, caiu no chão e meu coração bate tão forte e rápido que pareço estar tomando socos no peito. A fresta estava lá, me encarando. Para vocês talvez não faça sentido me assustar com uma fresta que estava do mesmo jeito que estava antes de sair de casa, mas a fresta estava me encarando. Como um rosto de um ser mitológico criado por H. P. Lovecraft, a fresta me passou uma sensação indescritível, não tendo como explicar a alguém o porquê de ter ficado tão horrorizada. Acabei deitada em frente à porta do quarto com a tolha cobrindo meu rosto a noite inteira, sem conseguir dormir.

Quando o despertador tocou, arrumei-me rapidamente e antes de sair, deixei todas as luzes de casa acesas. Quando voltei, tentei não encarar a fresta e como já havia jantado antes de chegar em casa, tudo o que eu queria era repara as duas noites anteriores e pus-me a deitar e consegui dormir, mas por pouco tempo.

Na mesma noite, tenho um pesadelo do qual não me recordo e quando acordo, vejo a porta do meu quarto fechada (que não estava quando fui dormir), mas como a luz do meu quarto estava acesa assim como as do corredor, não me preocupei tanto. Isso até encarar a fresta. Percebi que dava pra ver parte do meu corredor pela fresta já que as luzes estavam acesas, mas de repente fui engolfada por uma angustia e temor que fez meu corpo tremer e vergonhosamente, urinar-me toda, como se meu corpo estivesse tentando me abandonar por não agüentar mais aquilo. Foi nessa hora que desmaiei.

No dia seguinte antes de ir trabalhar, pedi a um vizinho que era marceneiro que trocasse minha porta enquanto estivesse ausente e isso ele fez. Na mesma noite, entro em casa e vejo uma porta nova no meu quarto, de outra cor até, mas com a mesma fresta. Não me contive e sai de lá gritando e me urinando.

Após passar a noite na rua, fui à casa do tal marceneiro e pedi explicações. Ele me disse que quando saiu de minha casa não havia fresta alguma na porta e foi até minha casa olhar o problema. Após olhar a porta, ele me disse que parecia ter sido feita com algum tipo de serra que não deixaria nada desnivelado, que era impossível ter sido feito com força brusca.

Pedi a ele que levasse aquela porta e que não me trouxesse outra e fui trabalhar. Quando chego em casa, estava mais tranqüila, nada mais me perturbava. Fui dormir e acordei no meio da noite com uma sensação pesada no corpo; olhei para o espaço que deveria estar a porta e vi uma fresta na parede do corredor.