Terra do Nunca.
2 Chegada.
Notas iniciais
— Ai... – resmunguei, tateando o solo ao meu redor.
— Ah meu Deus, Wendy! – Peter levantou-se correu até mim e estendeu sua mão para ajudar-me a ficar de pé. — Você está bem?
“Com certeza, estou ótima.”— pensei, sarcástica.
O ambiente onde aterrissamos – se é que podemos chamar isso de “aterrissagem” – tratava-se de uma praia, com uma areia pura e macia. Olhando para o oceano, percebi que não conseguia avistar o horizonte, pois água era uma imensidão azul, como se todos os sete mares estivessem presentes ali. O clima era agradável, havia uma brisa noturna, algo bem calmo e modesto. O odor era típico de uma praia, cheirinho de maresia.
— Bem, chegamos. – ele falou.
— O que viemos fazer na praia? – perguntei. — É noite.
— Te trouxe ao mar da Terra do Nunca. Ele é especial, há quem diga que são águas mágicas, e são mesmo... – pronunciou, observando o cenário que lhe rodeava.
— Águas mágicas? — indaguei, curiosíssima. — E o que fazem?
— Há tempos atrás, antes mesmo desse lugar ser habitado por pessoas comuns como eu e você, uma bruxa jogou um feitiço nesse mar, onde poderíamos ver memórias passadas, nadando nele.
— Impossível, Peter! – falei, incrédula. — Isso é apenas uma desculpa para me fazer entrar no pélago.
— Claro que não, vamos, venha comigo e verás que não conto-lhe calúnias. – pediu.
Praticamente arrastou-me até o mar, graças à minha falta de vontade de encharcar minha camisola. E para minha surpresa, alguma coisa realmente aconteceu quando nós entramos naquele enorme mar azul.
Primeiro, houve um brilho e eu pude ouvir conversas antigas, que eu nem lembrava-me de ter tido. Aos poucos, foram sendo mostradas lembranças que eu criei nessa terra, com Peter e os meninos perdidos – que também moram aqui – e eu me recordei de tudo.
— Peter, me desculpe! – gritei, imediatamente. — Eu disse que não os esqueceria, mas não sei o que aconteceu comigo.
— Tudo bem, Wendy. — ele sorriu. — Não é culpa sua.
— Várias características mudaram por aqui desde que eu parti. — comentei. — Você é uma delas.
— É exatamente por isso que eu te trouxe até aqui. O tempo está correndo neste lugar, e isso definitivamente não deveria estar ocorrendo, aqui é a Terra do Nunca. Nunca deveríamos crescer. – o loiro explicou, um tanto desesperado.
— É válido. Mas, no que eu poderia ajudar? – suspirei, diante de tantos problemas.
— Não sei ao certo, mas juntos somos mais fortes, não? – pensou positivo, por um momento. — Quanto mais pessoas ajudarem, mais rápido conseguiremos um meio de parar com esse ocorrido.
Após mais algumas informações úteis, nós dois caminhamos até a casa da árvore. Durante o trajeto, eu podia perceber que muita coisa realmente mudou, não parece mais a mesma ilha... Mas, eu também não sou a mesma pessoa.
— Ei, Peter... – sussurrei. — Você... Sabe que eu tenho uma vida agora, não é?
— Uma vida? — ele arqueou uma das sobrancelhas. — Você chama aquilo de vida, Wendy? Eles te abandonaram.
— Sim, mas... – retruquei, cabisbaixa. — Isso não apaga todas as ações boas que já proporcionaram para mim. E se eles se arrependerem?
— Onde você quer chegar? – uma expressão séria formou-se em seu rosto.
— Quero fazer um trato com você. – propus.
— Faça.
— Quando tudo isso acabar, promete que me levará para casa?
Ele pensou um pouco e sorriu no final, diante de sua própria escolha:
— Se desejares.
A promessa foi lançada nos ares e que conforme queira o destino, que seja feita assim, a vossa vontade. E continuamos nossa trilha até um dos lugares mais vivos desse lugar: a casa na árvore. Lá tudo acontece, é incrivelmente mágico e divertido.... Agora lembro-me bem de todas as coisas que passei por aqui e estou bem ansiosa para reviver e ver tudo novamente.
Enquanto chegávamos perto da nossa base secreta eu conseguia ouvir sons passos amassando a grama fresca e recentemente molhada.
Haviam dezenas de garotos formando três filas indianas, marchando. Pareciam estar preparando-se para alguma situação importante e obviamente era aquele transtorno com o tempo...
— Garotos perdidos! – pronunciei em alto e bom som, a fim de que todos eles viessem a me escutar.
— Ei... – eles pararam de fazer suas tarefas, confusos. Me observaram severamente, como se não estivessem me reconhecendo. — Wendy?
— É... Sou eu! – gargalhei.
Recebi incontáveis sorrisos e esforcei-me para retribuir a todos com gentileza. Fui abraçada por todos os garotos ao mesmo instante, uma sensação reconfortável – era realmente o que eu precisava, carinho.
Eles pararam de treinar, como a minha presença ali fosse mais importante do que esse problemão – sentia-me especial, depois de tanto tempo, “valorizar-se” já não estava mais tão adentro de meu vocabulário...
E assim, todos nós passamos o restante daquela tarde recordando as memórias – que eram incríveis de se relembrar. Determinado tempo depois, os garotos foram para seus aposentos e na sala, permanecemos apenas Peter e eu.
Nós nos entreolhávamos de uma maneira tímida – acredito que estamos sem assunto, pois ficamos um tempo demasiadamente grande sem se ver – e sem saber ao certo o que fazer.
— Peter? – sussurrei, desajeitada.
— Fale. – pediu, ajeitando-se em meio as almofadas.
— Nós.... Vamos dormir?
— Ah, claro. Poderia ter me dito logo, estava me deixando nervoso. – riu. — Siga-me.
Antes de andarmos até seu quarto, Peter me explicou que eu não poderia contar sua localização para ninguém, porque era nesse ambiente onde guardava seus tesouros.
— Há um banheiro através daquela porta. – apontou para uma porta de madeira, no canto direito do cômodo.
Agradeci e caminhei até o mesmo, durante o curto trajeto peguei uma das camisetas de Peter. Ao chegar ao meu destino, despi-me rapidamente, evitando o toque gélido do vento sobre a minha pele – o que não adiantou muito, afinal a água estava fria. Não demorei muito na banheira devido esse fato, dando continuidade eu retornei ao quarto, vestindo a camiseta cinza que pegara emprestada.
— Boa noite e durma bem! – falei e deite-me em um pequeno sofá que era bem-colocado próximo à cama.
— Você não vem deitar na cama? – ele perguntou, sem realmente olhar para mim, continuando a ler seu livro favorito.
— Claro que não, lembre-se que eu ainda sou uma moça de família. – eu me aconcheguei no divã e tudo ficou silencioso, silencioso demais...
Até que de repente, consegui sentir um par de braços levantando-me do assento e me levando para a cama.
— Peter! – nós estávamos rindo muito. — Ei, eu não sou mais uma criança!
Ele me colocou delicadamente na cama, cobriu-me e depositou um beijo em minha testa.
— Boa noite, princesa. – sorriu e finalmente, apagou a vela, deitando-se ao meu lado.
— Boa noite... – sussurrei para mim mesma.
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