Terra, desligando
5 O Rei das Flores - dia 12
Ayumi e George acabaram parando em uma cidade chamada Amorphallus. Hospedaram-se em uma pensão e passaram alguns dias lá, pensando como dar o próximo passo, já que não tinham dinheiro.
– Você não é bióloga? Pensei que biólogos ganhassem muito bem – disse George.
– Ganho, mas sai de casa somente com as chaves e os que estavam nos bolsos: identidade e algum dinheiro.
– Que irresponsabilidade.
– Ah me poupe George.
Era isso, estavam presos em Amophallus, que era uma cidade completamente isolada. Seguir andando demoraria muito tempo, e talvez fossem ultrapassar o tempo limite de vida da Terra. Atreveram-se a pedir carona, mas também não funcionou. Algo tinha que ser feito, e rápido.
Andavam pelas ruas no terceiro dia de hospedagem em Amophallus. Ayumi queria ver o pouco da cultura da cidade, seguindo sua teoria de explorar e aproveitar cada canto da Terra. Já George como sempre a seguiu contrariado, mas agora com seus cabelos e barba aparados, e suas roupas normais, não recebia olhares mortais de outros civis. Descobriram que no dia seguinte seria aniversário da cidade. Cartazes e placas estavam espalhados por todos os lugares com o logo de uma flor. Algumas lojas colocaram arcos de flores na entrada, e a pequena população parecia animada com tudo. Visitaram o pequeno jardim botânico nos fins da cidade, onde viram plantas e também entenderam o motivo de todos enfeitarem tudo com flores e também de a cidade chamar-se Amophallus: era o nome erroneamente abreviado de um gênero de uma gigantesca flor que era abundante na pequena e subdesenvolvida cidade desde muitos anos atrás. Em frente ao jardim botânico havia uma grande lanchonete, e ao lado da entrada, uma placa anunciando “O Rei das Flores”. Era uma competição de quem comia mais cachorro quente que no aniversário de Amophallus. Dizia que a competição atraía muitas pessoas, pois além de ser muito famoso, o lanche tinha um molho secreto em que o ingrediente principal era alguma flor também nativa da cidade. Os três primeiros colocados ganhariam valores consideráveis como prêmio.
– Olha – disse Ayumi. – Se você ganhar nós teremos dinheiro para sair da cidade.
– Eu? Por que eu? – questionou George.
– Você é um homem de quase dois metros que está quase sempre com fome. Vai ganhar o prêmio para a gente.
– Não nego que seria bom comer o quanto puder, mas olha, tem que pagar para participar.
– Hm... Espere aqui, vou tentar dar um jeito.
Ayumi atravessou a rua e sumiu lanchonete adentro. George sentou-se em um banco de pedra embaixo de uma árvore e esperou. Duas moças passaram e sorriram e trocaram comentários ao ver George. Ambas olharam para trás, riram mais uma vez e acenaram de uma forma charmosa. O mendigo ficou chocado em como uma simples mudança de visual atraiu a atenção de algumas pessoas, mas mal sabiam elas que George ainda era um morador de rua, sem um centavo no bolso. Perguntou-se porque muitas coisas era preciso boa aparência. Perguntou-se se fosse assim, bem cuidado e boa aparência, se teria conseguido ser um homem de sucesso e ter voltado para Carrietta para salvar a mãe Ursula do pai Joshua.
– Ei – exclamou Ayumi que havia voltado e George sequer notou. – Tudo bem?
– Sim – respondeu. – Só estava pensando em algumas coisas.
– Bom, toma aqui – e entregou a ele um cachorro quente. – Faça durar porque é só isso que vai comer até amanhã.
– O que? Por quê? – indignou-se George.
– Porque você está na competição. Serei uma garçonete amanhã, e em troca do trabalho eles deixarão você participar.
– A vida toda eu fui um poço de decepções, então não aposte muito sua fé em mim.
– Faça o melhor que puder que ficarei feliz, e acima de tudo, divirta-se!
Esfregou sua mão no ombro de George para incentivá-lo. Passaram o restante do dia vagando pela cidade, observando as decorações sendo montadas. De vez em quando ambos eram parados, mas por motivos diferentes. Ayumi ganhando alguns cumprimentos, pois evidenciava que era uma moça da cidade grande. Suas roupas, seu sorriso, sua forma de andar... Tudo a denunciava, e a pequena cidade parecia idolatrá-la como se fosse uma rainha que saiu de seu castelo para visitar a pequena cidade. George, alto feito um poste e com traços rústicos, de vez em quando prestava serviços, como posicionar uma enorme escada para um senhor roliço subir, ou uma senhora chamá-lo para entrar em sua loja e pedir para ele pegar algum item em uma prateleira enorme. Voltaram para a pensão já de noite. Ayumi passou a noite acordada, nervosa em ser pela primeira vez na vida uma garçonete. Sempre foi muito estudiosa e os pais a bancavam. Ganhou prêmios em concursos de matemática e português. Na faculdade conseguiu bolsa e tudo que a faculdade disponibilizava com suas boas notas. No segundo ano de seu curso começou a trabalhar em um laboratório que estudava genes de plantas, e um ano depois, seus pais faleceram por velhice, então abandonou o que fazia para trabalhar no projeto Nascente. Nunca fora uma garçonete na vida, mas iria se esforçar ao máximo como fez a vida toda para se sair bem. Já George desmaiou em sua cama. Odiou sua infância e adolescência no orfanato. Era um orfanato católico, por isso era muito rigoroso. George havia puxado o lado mais rebelde de seu pai, por isso odiava o local, queria ser mais livre. Ao ser liberado do orfanato com dezoito anos, George cheio de esperanças e planos, tentou de tudo. Trabalhou como garçom, mecânico, atendente, administrador de uma pequena loja, vendedor... Nada lhe dava muito futuro. Era prendado como a mãe, mas o lado inconsequente do pai também agia. Ingressou em várias faculdades, mas abandonou todas com problemas financeiros. O auge de sua vida foi quando cursou direito, querendo ser um advogado. Chegou a exercer casos simples, mas acabou apaixonando por beber. Logo preferiu pagar bebidas ae seu apartamento ou as contas. A agência de advocacia o demitiu, a faculdade foi abandonada, e George passou a morar nas calçadas. Dormir em uma cama era algo que não fazia há tempos, então iria aproveitar ao máximo.
George acordou de manhã, mas viu que Ayumi não estava na cama ao lado. Levantou-se, coçando a barba cerrada e os cabelos e foi até o banheiro. Encontrou um bilhete da oriental avisando que seu turno de garçonete começava às seis da manhã. Aproveitou que não tinha ninguém para importuná-lo, segui-lo ou humilhá-lo. Tomou café da manhã e depois foi andar pela cidade, mesmo já tenho visto tudo no dia anterior. Acabou indo parar no jardim botânico. Era um lugar praticamente vazio e isolado. George sentia-se bem ali, diferente de quando estava rodeado de pessoas e sentia-se desconfortável. Quando chegou o horário da competição, apenas saiu do jardim. Deparou-se com muitos carros, pessoas e gritaria. Atravessou toda a bagunça e entrou na lanchonete. Subitamente agarram em sua mão.
– Por onde você esteve? Fiquei com medo de que não fosse vir!
Era Ayumi. Toda a beleza escondida atrás do uniforme e touca. Começou a conduzi-lo entre todo o alvoroço de pessoas.
– As coisas aqui não param nunca! Estou trabalhando sem parar desde que cheguei. E nem consegui dormir, estava tão nervosa!
Ayumi puxou uma mulher com a outra mão, apontou para George e disse alguma coisa. Ela sorriu para ele, em seguida enroscou uma flor em sua camiseta, indicando que ele era um dos competidores.
– Estou meio nervoso – comentou o mendigo.
– Por quê? – exclamou Ayumi. Um casal a puxou pela manga para fazer um pedido, ela anotou rapidamente sem esquecer-se de dar atenção a George.
– Não sei. Não achei que as coisas fossem ser tão sérias assim. E se eu não ganhar?
– Se divirta e faça o melhor que puder. Você não ganhar pelo menos vai poder dizer que valeu a pena.
George deu um leve sorriso. Ayumi emocionou-se por dentro. Aquele homem que a tratava com certa grosseria havia retribuído algo que ela fazia pela primeira vez. Deu um enorme sorriso e o abraço.
– Certo, certo... Não gosto muito de contato físico.
– Desculpe – disse a oriental, e sorriu.
– Farei o melhor que puder – disse George.
– Esse é um dos segredos da vida, fazer o melhor. Agora vou indo, tenho vários pedidos para levar para a cozinha! Boa sorte!
George sentia-se bem, e no fim, saberia que se sentiria assim. Assim como Ayumi, também não teve muitas experiências na vida. Ayumi estava radiando felicidade, pois aquilo que fazia era aproveitar novas coisas da vida, como queria fazer quando saiu aos prantos de casa. Gostava muito de George e sabia que as coisas não estariam sendo tão boas sem ele. Sentia-se bem por ter seu novo amigo por perto.
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