Terra de Gigantes
1 Erick, o Miúdo
Notas iniciais
Meu nome é Erick, o miúdo. Não é um nome bom, eu sei... Mas ainda não tive nenhum grande feito para merecer outro melhor. Rhagar, o conquistador, Drogon, o valente e Fleur, a sábia, também começaram assim! Dizem que quanto mais baixas forem as expectativas do clã para com o indivíduo, mais fácil é para ele arrumar um nome bom. Se, por exemplo, Ghar, o filho da noite, afugentar algum exército de Urus, estará fazendo seu papel como descendente dos primeiros grandes generais de nosso povo. Continuará sendo Ghar, o filho da noite... Mesmo depois de tanto trabalho.
Já se, por exemplo, alguém como eu trouxer um pouco de pele e carne num inverno mais severo, provavelmente seria de grande surpresa. Poderia passar a ser então Erick, o salvador invernal. Bom, talvez não exatamente salvador invernal, mas com certeza um nome melhor do que miúdo. Minha vantagem, aparentemente, é ser tão menosprezado. Acredite, as expectativas para alguém como eu são bem baixas por aqui. Quer dizer... Seriam, se não houvessem iguais a mim uma enorme população de um indivíduo.
Ser pequeno em Montfort não é bem uma qualidade comum. Talvez nem seja bem uma qualidade. Só espero que esse escrito ajude em alguma coisa. Mestre Kul, o protetor dos escritos, disse que todo bom herói precisa escrever sua história. Se não o fizer, ninguém lembrará de seu nome e, por consequência, não será mais tão heroico assim por muito tempo. Um dia serei herói e, com meus escritos, lembrarão de meu nome. Talvez quando Monoke me levar, me façam uma constelação.
O ponto foi colocado com pressa, a grossa ponta do carvão manchando o pergaminho amarelado em uma proporção muito maior do que o jovem pretendia. Em seus 40 anos ainda era inexperiente nas artes mais antigas como a escrita ou leitura... Mas Mestre Kul já o havia avisado da dificuldade. 'Se cunhar, logo de início, um pote com muita força e rapidez, provavelmente ficará irregular e será pouco efetivo para dar forma aos mantimentos. Todo o trabalho será perdido pela pressa.', dissera logo que Erick conseguiu montar as estruturas dos próprios textos.
O Mestre era sempre muito sábio. O mais velho entre os Johtos, com 187, mostrava-se um exemplo a ser seguido. Fora para guerra e sobrevivera a ela, tornando-se conselheiro de armas, protetor dos escritos e ajudante de Gorh Coração de Urso, o maior líder que o clã já concebeu. Erick, por outro lado, não passava de seu pupilo no grande hall dos escritos. Nao por vontade própria, claro.
No inverno passado tinha tentado ser, ao menos, guardador de armas ou ajudante de guerra. Freud Sanguinário, o mestre de armas, nunca permitiria que alguém tão pequeno fosse se aventurar tão longe. Exigiu que encaminhassem o miúdo para outra tarefa. Quem não batalha, lê e escreve. Essa era a regra para os homens Johtos.
— Erick! Erick, ande! Karl volta hoje das montanhas vermelhas e Gorh deseja um banquete em seu nome. Precisamos buscar as ovelhas, pedir à Dorn que recolha o trigo... Não temos tempo para dormir! — Esbravejou o velho que com seus passos fazia o chão tremer.
O grande brilhoso ainda nem tinha saído da morada, o céu estava praticamente escuro com apenas Pálido, o noturno, espalhando os raios brancos por aí. Era muito cedo. Talvez, dependendo do ponto de vista, até ainda muito tarde! Uma pena, porém, que os mestres não tinham tempo para dormir. Em Montfort as coisas começavam sempre antes de qualquer outro lugar. Diziam que era por isso que as construções de pedra se erguiam alto o bastante para aquelas criaturas gigantescas. E também era por isso que a plantação germinava tão bem e os moinhos trabalhavam tanto. Os animais eram gordos e fortes, quase tão potentes quanto os próprios habitantes.
Um bom ligar para se viver, um péssimo lugar para se atacar. O único clã de todo o estreito a forjar armas inteiramente de ferro, diferente dos outros que possuíam apenas a ponta de tal material. Guerreiros natos com o maior número de escritos conhecidos por toda Hon, exploradores de sua terra que viviam de tudo o que podiam encontrar. Eram curiosos, forjavam a própria concepção de ordenação do mundo e se adaptavam a quase tudo.
— Estou descendo, Protetor dos Escritos! Não estava dormindo, por Gahran, não estava! — Rebateu, bagunçando os cabelos platinados com a mão grosseira e batendo os pés até a porta, tentando fazer tanto barulho quando fazia o andar de Kul. Obviamente foi um fracasso! Nao chegava nem na metade do peso de sua inspiração.
— Diga à Peterson que irá levar as ovelhas até a terra plana de Coração de Urso. Se reclamar, mande que ele se acerte com o líder, hoje não temos tempo para nada. — Instruiu o maior no início da sala, perto da porta de saída. Era bons metros maior do que o aprendiz, dois, talvez três metros mais alto. Muito mais robusto e com músculos bem mais evidentes também. Kul era, praticamente, o único Johtos que não só lia e escrevia, mas também guerreava e aconselhava o grande chefe.
Não era o maior dos gigantes, na verdade. Ser maior que Erick nunca fora tarefa complicada. — Vou ter com o Belo para pegar o trigo. Trocaria contigo fácil, sei que não gosta dos animais... Mas há tempos que Dorn anda um homem difícil de lidar. — Justificou ao ver que o outro começava a balbuciar um protesto... Que com a explicação morreu ainda em seus lábios carnudos.
Saíram, então, mestre e aprendiz quase simultaneamente. O de cento e oitenta e sete trajava pesadas túnicas brancas sobrepostas por partes de armadura, mostrando a todos sua posição tanto de guerra quanto de intelecto. Posição era sempre uma honra em carregar. O mais novo, de apenas quarenta, já tinha vestes muito menos esplendorosas. Com os panos em tom cinza mostrava a vergonha em ser apenas um seguidor de alguém. Não era especialista em nada... Mas sobre ele todos sabiam.
Erick, o miúdo. O menor de todo o clã, filho do Marceneiro e da Olhos de Mel, ambos desertores pela vergonha em ter como cria alguém tão singular e pequeno. Deixaram-no ainda cheio de sangue e placenta aos cuidados do líder para que ele fizesse o que bem entendesse... Só não esperavam que ao invés de sacrifica-lo o grande Gorh o botaria para mamar nas ovelhas até ter corpo para andar. Um aprendiz era de maior serventia que um morto, obviamente! Mesmo que um aprendiz pequenino como aqueles.
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