Era uma vez, uma donzela muito inteligente chamada Hermione Granger. Havia completado recentemente quinze anos e tinha cabelos e olhos castanhos. Além de naturalmente ter um raciocínio veloz, possuía a força de vontade para transformá-lo em um intelecto invejável, sendo uma amante de livros integralmente dedicada aos seus estudos. Essas características fizeram-na ganhar a excelente reputação de exímia estudante perante seus colegas e a maior parte dos professores. Por esse motivo, havia decidido ser uma maga pesquisadora, isto é, passar o resto de seus dias estudando sobre diferentes tipos de magia dentro de uma biblioteca, estúdio, estufa ou hospital. Os trabalhos intelectuais são os que têm o maior custo- benefício visto que envolvem pouco risco de vida e não é necessário viajar, lutar ou aventurar-se por aí. Devido ao talento nato para tais atividades, nenhum de seus amigos e conhecidos ficaram surpresos com a carreira escolhida por ela. O que eles não sabiam, porém, que dentro da gaveta de seu criado mudo havia uma edição da popular revista Explorers, Who and Where! que continha as últimas aventuras e fofocas de famosos exploradores de seu país e do mundo, a maioria pertencente à ilustríssima guilda Ordem da Fênix, comandada pelo lendário Alvo Dumbledore. No entanto, esse desejo assim como a revista, permanecia guardado porque não o mostrara a ninguém, mais do que isso, negava-o até para si mesma, deixando-o adormecido nas profundezas de seu ser.

Assim como seu desejo mais secreto, nossa heroína começa a história adormecida no mais profundo dos sonhos. Por ser ligeiramente ansiosa, havia passado a noite inteira revisando a matéria já que o exame que determinaria o resto de sua vida iria acontecer no dia seguinte. Acabou exagerando, estudou até tarde da noite o que a deixou ainda mais estressada e tirou seu sono, só conseguindo dormir bem depois de ter deitado. Não havia necessidade para esse desespero todo, afinal prestaria somente a parte teórica do exame final e, como já foi dito antes, possuía total domínio sobre esses assuntos. Ninguém tinha dúvidas de que se sairia bem. A prova realmente preocupante seria a segunda que testaria suas habilidades em campo e, apesar de a natureza ter sido generosa com seu cérebro, não fizera o mesmo com seu corpo em que não havia o menor resquício de coordenação motora. Dessa forma, sua performance nas matérias de magia combativa, combate corpo a corpo, uso de armas, quadripólo e etc ..., era um verdadeiro fiasco. O que explica sua decisão racional de nem tentar ser uma maga exploradora.

Talvez porque no fundo não queria ser realmente uma maga pesquisadora, seu inconsciente a fizera esquecer de botar o despertador no horário correto, ou talvez apenas tenha se distraído, o fato é, o malandrinho não tocou e Hermione perdeu a hora. Por sorte, a manhã era o horário em que seus vizinhos eram mais barulhentos e não deixaram-na dormir a ponto de perder o exame. Porém, por ter certa tendência à ingratidão, isso não a impediu de acordar no pior dos humores e xingar tanto os vizinhos quanto os passarinhos que cantavam na janela. Como ainda estava parcialmente adormecida, se assustou ao ouvir batidas na porta.

- Hermione, aconteceu alguma coisa? – Disse a voz de seu amigo Ronald Weasley, vinda do lado de fora. Hermione era extremamente organizada e pontual, portanto, o pobre rapaz chegou a lógica conclusão de que sua amiga devia estar morrendo para estar atrasada no dia da primeira parte do exame final.

- O maldito despertador resolveu não tocar. Não vou conseguir dar uma última olhada na matéria. Harry já está contigo? – Falou enquanto fechava a porta com a chave.

- Para que você quer dar uma última olhada nos livros? Só vai ficar mais estressada! E o Harry está nos esperando lá embaixo. – Aconselhou-a tardiamente, Rony.

Harry, Rony e Hermione formavam a típica panelinha estudantil, tirando o fato de não ser composta por membros do mesmo gênero o que a fez escapar das terríveis denominações de clube do Bolinha ou da Luluzinha.

-Olá! – Falaram Harry Potter e Gina Weasley, as promessas do ginásio.

- Oi, Gina, você está aqui também? – Perguntou Hermione.

- Vim para dar apoio moral. – Respondeu alegremente. Gina era a irmã caçula de Rony o que torna compreensível a surpresa de Hermione, pois só poderia prestar o exame no ano seguinte. Não pôde deixar de se sentir incomodada com a presença dela, aquele era um dia especial para seu grupo (último exame que os três prestariam juntos antes de se separarem) do qual, por mais que tentasse, Gina não era membro. Nada contra a garota, mas ela tinha que parar de forçar a barra. Além disso, havia outro motivo, embora nunca fosse admitir. A Weasley era uma das melhores alunas de seu ano, sendo a mais completa, tirava excelentes notas nas matérias teóricas e práticas e não mantinha em segredo seu desejo de ser exploradora que muito provavelmente seria realizado. Com louvor.

- Então, se todo mundo está aqui, é melhor irmos andando. – Falou o prodigioso Harry Potter, primeiro nas lutas corpo a corpo, duelo de feitiços e duas vezes campeão de quadripólo. Teve dúvidas entre ser explorador ou auror, pois embora treinasse de maneira extremamente disciplinada, era um pouco preguiçoso com os estudos, tornando suas notas teóricas medianas. Por isso, as guildas especializadas em combate, que davam atenção exclusiva às habilidades físicas, lhe tinham grande apelo, mas as aventuras prometidas pelas exploradoras acabaram por ter mais. Logo após ter tomado sua decisão, surpreendeu Hermione ao pedir que lhe ajudasse a estudar e assim conseguiu notas teóricas mais do que suficientemente altas para entrar na Ordem da Fênix. Todo esse talento deveria tê-lo tornado um grande sucesso entre as meninas, mas possuía constituição raquítica e usava óculos fundo de garrafa e, em vez disso, conseguiu o status de nerd esportista. Também tinha grandes chances de realizar seu desejo de tornar-se mago explorador.

Mas hoje, Hermione reparou que seu sangue frio e suas incríveis habilidades não foram capazes de impedi-lo de ceder ao nervosismo que afetava a todos os outros candidatos. Contudo, comparado com o restante dos alunos, Harry parecia ser o ser humano mais sereno da terra. Eles mal entraram em sua sala e perceberam o grande clima que lá havia se estabelecido. Passaram por aquele momento constrangedor comum em dias de prova, quando se abre a porta e todo mundo para o que está fazendo (seja ilícito ou não) para ver se o professor finalmente chegara. E logo depois, com um suspiro aliviado, voltam às atividades nas quais estavam absortos. Sem receber um desejo de bom dia, a panelinha separou-se para que seus membros fossem sentar em seus lugares marcados. Para o azar deles, o mestre que iria passar a prova chegou assim que sentaram e revelou-se ser o que nutria um ódio especial por eles, Severo Snape.

- Se acham eu que vou ficar em cima de vocês para não colarem, estão terrivelmente enganados. — Disse, surpreendendo a todos.

- Como provavelmente só uns dois de vocês devem ter um pouco mais de chance de passarem nesse exame, as colas não os ajudarão. Por isso, não me darei ao trabalho de passar duas horas e meia vigiando-os já que isso é absolutamente desnecessário. — Isso fez mais o estilo dele.

. . .

- Como foi? – Perguntou uma Ginny tão ansiosa que parecia que era ela quem havia terminado de prestar o exame.

- Ótimo. Já passei. Melzinho no pudim. — Respondeu Rony – Nem parecia que estávamos sendo examinados.

- Sério?

- Claro que não. Parvarti vomitou, Neville parecia que ia furar o chão de tanto que tremia. E ainda vou ter que encarar as aranhas no exame de campo. Malditas. – Rony é do tipo de pessoa bem irônica, o que o tornou o elemento humorístico de sua panelinha, É também o que mais fácil cede ao desespero, por isso a preocupação com as aranhas. Como também queria ser explorador, precisaria de altas notas de inteligência emocional.

- Caiu alguma coisa sobre a guerra herbobotânica?

- Só uma múltipla-escolha.

- E caiu a poção poli...

- Olha Ginny, não estou afim de falar sobre o exame, ok? Você sabe que odeio comentar prova.

Rony seguiu andando na frente, às vezes ele era desnecessariamente grosso com sua irmã. Hermione, por sua vez, não poderia estar mais tranquila. Como as provas teóricas eram seu quintal e as de campo não fariam a menor diferença para as guildas pesquisadoras, não havia motivo para se preocupar já que o segundo exame tinha mínimo poder de decisão sobre sua vida. Daí, ofereceu-se para descrever a prova para Ginny que a impressionou com seu enorme interesse e entendeu porque ela era chamada de prodígio.

. . .

-Você pode passar o suco de laranja? –Ginny tentava ser ouvida. A mesa de jantar estava especialmente animada hoje. Sete membros da família estavam presentes, a senhora Weasley sorria com satisfação enquanto servia-se de mais guisado, seu pai discutia as últimas ações do rei com Percy (não pareciam estar concordando), Fred e Jorge contavam a Rony sobre como, no ano de seus exames, Igor Smith foi trancando em um caixão cheio de cobras por 45 minutos durante o teste de inteligência emocional. Ele quase havia sufocado porque as serpentes começaram a entrar pela sua garganta e ele não pôde gritar por socorro e ...

- PODE PASSAR O SUCO? – Ginny disse, sendo bem sucedida em chamar a atenção de sua família. Por um momento, todos pararam e riram da cara de surpresa dos gêmeos Weasley. Fred colocou suco no copo da irmã e o devolveu, fazendo uma mesura exagerada.

– Muito obrigada. – Ginny respondeu no mesmo estilo pomposo, levando todos a rirem de novo.

- Obrigada, querida, talvez agora os idiotas dos seus irmãos lembrem que devem ter modos na mesa. – falou gentilmente a senhora Weasley. — E quanto a vocês dois, querem parar de apavorar seu irmão? Não foi ele que teve que me pedir um certo remedinho para conseguir voltar a fazer aquilo, não vou falar o quê porque estamos na mesa, no mês do exame.

- Não lembramos desse contratempo fisiológico. – Fred e Jorge disseram juntos.

- Sei. E você querida, já decidiu qual carreira irá seguir? – Molly perguntou, voltando a ser gentil.

- Mãe, você sabe que eu quero ser exploradora- Respondeu Ginny calma.

- E você sabe que pode mudar de ideia, não é?

- Não vou mudar de ideia.

- Filha, sua mãe fala isso para o seu próprio bem, vale a pena dedicar-se tanto para ter uma carreira que poderá durar somente dez anos e arriscar sua vida para não ser paga bem o suficiente? – Interrompeu o senhor Weasley.

- É verdade Ginny, é muito perigoso ser explorador. Acho que Hermione vai tentar ser curandeira, você também não tem boas notas em herbologia? E se você for realmente boa eles podem até te recrutar como médica da missão, daí consegue ir nas viagens sem precisar ficar na linha de frente. – Rony disse ao mesmo tempo que comia e olhava a irmã preocupado.

- Por que não tenta você ser curandeiro? – Ginny disse, fazendo com que o silêncio imperasse na sala de jantar dos Weasleys. – Porque ninguém está questionando a decisão dele e só a minha?

- Porque é diferente. – Sua mãe respondeu pacientemente.

– Como é diferente? Porque minhas notas são maiores que a dele? Porque minhas notas são maiores do que o resto da minha turma? Porque sou particularmente boa em combate e história da magia que são apenas os principais critérios de avaliação das guildas exploradoras? – As orelhas de Rony estavam tão vermelhas que pareciam prestes a explodir. O silêncio se abateu na antes alegre mesa de jantar. Como a caçula raramente exaltava-se, todos foram pegos desprevenidos e ninguém conseguiu responder à questão. Sem saída, os Weasley apenas passaram a comer encarando seus pratos, morrendo assim o alegre clima antes instaurado na mesa de jantar. A mão de Ginny tremia ao segurar o garfo devido a liberação de adrenalina causada pelo discurso inflamado. Fred e Jorge soltaram algumas piadas, porém falharam em trazer o clima de confraternização de volta. A noite parecia perdida até que o sino da porta tocou, anunciando a chegada de mais alguém.

Olá, pessoal! – Disse Carlinhos, fazendo com que todos suspirassem de alívio. O segundo filho mais velho dos Weasley entrou como uma brisa relaxante e todos na sala de jantar foram afetados pela calma que emanava. Esse efeito era particularmente forte nos dois irmãos mais novos porque ele era tudo o que eles queriam ser, um famoso mago explorador. Já havia viajado para os lugares mais remotos, recolhendo dados sobres as mais diversas e perigosas criaturas mágicas. Desde pequeno, sempre mostrara habilidade ao lidar com animais, tendo sobre eles o mesmo efeito calmante que tinha com as pessoas, o que o ajudou a ser um dos maiores jogadores de quadripólo da academia. Por isso, quando entrou para a Ordem da Fênix foi rapidamente designado para missões que lidassem com a procura de criaturas raras, algumas reais e outras lendárias que ninguém ainda havia sido capaz de comprovar a existência. Contudo, a pesquisa que recentemente publicara avançou muitos passos na comprovação da existência de dragões. A família não tinha certeza da extensão de seu poder, todavia era óbvio que não poderia ser pequeno. Quando partia nunca se sabia quando iria voltar e quando voltava nunca se sabia quando iria partir. Naquele dia, fazia mais ou menos seis meses que não via a Toca. E como sempre, retornava em farrapos o que causava arrepios na senhora Weasley. Pelo menos dessa vez, não estava com os braços cheios de feridas de aparência dolorosa, embora afirmasse que aquilo era como uma picada de mosquito para caras como ele. Declaração que sempre impressionava os homens e fazia com que as duas mulheres trocassem olhares de desconfiança.

- Mas você não sa-bê o que aconteceu! – Disse Jorge, trazendo o assunto tabu de volta. Todos (menos Fred que escondia o riso com a mão) lançaram olhares mortais. E assim, o senhor Weasley viu-se obrigado a repetir toda a tensa discussão de minutos antes. Carlinhos escutou, todavia parecia prestar atenção parcial, depois de seis meses fora de casa o guisado de sua mãe certamente era mais interessante que os chiliques de adolescente da irmã. Ainda assim, teria que dar alguma resposta para encerrar de vez o assunto.

- Bem, não há dúvidas de que as guildas exploradoras têm as missões mais difíceis e perigosas. Se Ginny tomou sua decisão com consciência disso – Ginny acenou a cabeça empolgada – e tem capacidade de entrar não vejo o menor problema. – Por não ter prestado atenção, Carlinhos deu a resposta mais universal, daquelas que podem ser aplicadas a qualquer um o que tornou fácil a retórica iniciada por Rony e Molly. Mas se não havia escutado antes não era agora que iria escutar, portanto, os dois foram devidamente ignorados. E então, a discussão logo acabou, tornando o evento mais uma vez agradável. Principalmente para a caçula que entendeu a importância de ouvir só o que se quer.

O resto do evento passou-se de maneira tranquila. Rony e Molly continuaram amuados por algum tempo, mas não demorou para que voltassem a serem simpáticos, a boa comida foi o suficiente para fazê-los esquecerem as mágoas. Assim que acabaram, os Weasley voltaram à rotina do dia a dia. Ginny ficou na sala jantar por mais um pouco e agradeceu Carlinhos pelo apoio que lhe dera mais cedo.

- Tá tranquilo, eles vão entender com o tempo. – Carlinhos respondeu enquanto ajudava à mãe, guardando a louça. No segundo em que acabou, anunciou:

- Estou saindo.

- Agora? Você acabou de chegar! – Disse a senhora Weasley.

- É, mas eu já combinei de encontrar a rapaziada no três baios.

- Pode ser explorador e o escambau, se você vomitar no meu chão vai ver o que é bom para tosse. – Ameaçou a senhora Weasley.

Carlinhos riu, deu o beijo na mãe e acenou para Ginny ao sair. Pensou consigo mesma se um dia desfrutaria a mesma liberdade que tinha o irmão. Só sabia de uma coisa, não seriam as guildas pesquisadoras que a forneceriam.

. . .

- Bosta! – Hermione disse ao perceber que sua blusa estava manchada de ketchup. Comer e andar ao mesmo tempo não fora uma boa decisão. Ela havia saído para comemorar o sucesso da prova teórica, devia ter tirado a nota máxima até na prova de runas antigas. Daí, chegou à conclusão que merecia o bom e velho cachorro quente do tio da outra rua. Como aquele fora um típico dia de verão a noite estava bem agradável. Quente, mas fresca, o que fez a fila mais comprida que o normal. Por isso, demorara um pouco, mas não precisava se preocupar porque ninguém a esperava em casa. Ainda estava perto da rua da barraquinha e então, decidiu voltar para pedir mais guardanapo.

Quando estava quase dobrando a esquina que a levaria à praça das barraquinhas de comida, percebeu um estranho fluxo de pessoas na direção oposta à do cachorro quente. Mesmo sendo uma futura pesquisadora, lembrou-se que não é próprio da classe dos magos fugir diante do perigo e que não havia sentido ter magia se não pudesse ajudar a quem não tinha. Dessa forma, correu para averiguar se poderia ser útil de alguma forma. Foi só quando estava a um segundo de avistar a barraquinha que ouviu um bizarro rugido. Só poderia ser a porcaria de um trasgo.

Sabendo que nessas situações é melhor manter a calma, escondeu-se atrás da parede de uma casa de esquina. Olhou de soslaio e viu um trasgo, parecia ser de tamanho regular, segurava uma massa que usava para destruir árvores e bancos da praça. Passava a impressão de que não tinha objetivo algum além de matar o tédio. Aquela cidade era o lar de mais de cem guildas de magos, então seus moradores já sabiam o que fazer quando um trasgo se soltava e começava a destruir tudo o que estivesse em seu alcance. Correr, é claro. Assim, a situação não era tão crítica porque já não havia ninguém na praça e provavelmente nem nas casas ao redor. Hermione sabia que se enfrentasse a besta diretamente era provável que o resultado seria desastroso e poderia só piorar as coisas, felizmente era excelente em criar barreiras mágicas o que deu origem ao seu plano bem simples: Levantar barreira nas saídas da praça. É claro que não daria tempo para fazê-lo em todas, por isso decidiu que o mais lógico seria priorizar as duas saídas mais largas. Os trasgos são criaturas de intelecto pouco desenvolvido o que automaticamente os faz seguir pelo caminho que melhor acomoda seu enorme corpanzil.

Naquela hora, ele estava bastante distraído com uma carrocinha de algodão doce, parece que até trasgos têm uma fraqueza por açúcar. O momento era oportuno, mesmo se acabasse o doce, a carrocinha de cachorro quente e o homem que se escondia debaixo dela logo o ocupariam. Foi aí que Hermione tomou consciência do que vira, o tio não conseguira escapar. Como ela só vira parado na barraquinha, não sabia que ele era manco e não podia correr. Apesar de ter sido esperto a ponto de não gritar, já estava assumindo uma postura de desespero, tapava a boca com as duas mãos com a maior força possível enquanto tentava manter os olhos fechados. Não dava para saber quanto tempo ele iria aguentar e não dava para encurralar o monstro junto com o homem. Se ficasse parada observando, o tio morreria com certeza e se, em vez disso, interferisse ele teria uma mínima (muito mínima) chance de sobreviver. Em sua cabeça, passavam todas as maneiras trágicas que sua certamente resultaria sua ajuda. O mais ajuizado seria pedir socorro a alguém com treinamento para solucionar aquele tipo de situação. Ninguém iria poder dizer que não tentara ajudar. Era o recomendado a fazer pelas autoridades. Só que não queria que o gentil senhor que sempre botava mais molho no seu pão morresse. E foi assim que tomou a decisão menos lógica e agiu ignorando a razão toda poderosa pela primeira vez em sua vida.

Correu o mais veloz que podia, que não era muito, para tentar chegar ao homem antes que o trasgo acabasse com o algodão doce. Mirava as costas da criatura, a pele era cinzenta e vestia uma espécie de tanga que obviamente nunca fora lavada, chegando mais perto, viu que o tamanho regular era assustador o suficiente. Sentiu os pensamentos trágicos que tentavam voltar e com muito esforço conseguiu afastá-los. Já estava chegando perto da barraquinha, diminui o ritmo e agachou-se para evitar barulhos.

- Oi, vou distraí-lo para que você possa sair logo daqui. – Hermione falou ofegante, não deu tempo de falar muita coisa porque havia percebido que o trasgo já estava quase acabando. Ela virou em direção a ele. Quando estava quase saindo, sentiu sua mão ser agarrada.

- n-não posso correr. – O tio falou.

- Então só ache um esconderijo melhor, ok? Eu vou te dar tempo para isso. – Hermione falou tão confiante que o tio instantaneamente se acalmou e quase acreditou nas próprias palavras. Levantou e viu a panela de óleo em que o moço fritava as linguiças. Executando um rápido feitiço de aquecimento, pegou a panela pelo cabo e encaminhou-se silenciosamente para bem perto do trasgo. Ele estava numa posição ridícula, com a cabeça enfiada na barraquinha e o traseiro levantado pro alto, dando-a chance de facilmente mirar o pé esquerdo da besta. Jogou o óleo e foi certeira. A criatura soltou um urro de raiva ainda mais assustador do que aquele que tinha ouvido. Virou para atacar de volta. Impressionada, Hermione, andou para trás para começar correr, mas mal havia se afastado por uns cinco passos, tropeçou e caiu no chão. Ela havia prestado atenção na aula de defesa contra as artes das trevas e decidiu que o conselho de nunca dar as costas para o inimigo era aplicável naquela situação. Olhou por cima dos ombros antes mesmo de levantar e pôde ver o monstro erguer a massa e dar o primeiro passo, porém assim que botou o pé esquerdo no chão, mais uma vez urrou de dor. Levantou e começou a correr em seu ritmo de tartaruga, agora suficiente porque havia dado a si mesma uma vantagem.

Assim iniciou-se a perseguição que ainda era emocionante pois o trasgo cobria dois metros a cada passo mesmo que mancasse de um pé. Hermione seguia para a ruela onde antes estava escondida, de lá poderia levantar uma barreira e ficar provocando-o para mantê-lo ocupado até que um especialista chegasse, se ninguém houvesse chamados as autoridades até aquela hora admitiria que o jornaleiro em frente de casa estava certo porque a cidade tava perdida mesmo.

Voltou ao ponto de partida. Sua estratégia dera tão certo, que estava adiantada cinco segundos em relação ao trasgo. A maior parte dos estudantes levava dez segundos para criar uma barreira decente, cinco segundos eram o suficiente para Hermione atingir a perfeição. Dessa forma, parecia a ela que seu plano estava dando certo. Só que ela não levara em consideração, meus caros leitores, que uma coisa é executar uma barreira em um simulado, sabendo que nada de ruim irá acontecer, outra é fazer o mesmo com um trasgo tentando te matar e adrenalina no cérebro para atrapalhar a concentração. Portanto, naquele caso, cinco segundos era bem menos do que o suficiente. Mas se ela houvesse percebido isso, qual seria a graça da história?

Obviamente, no meio do processo já havia notado que não daria tempo de terminar antes que o trasgo a alcançasse. Isso a levou a perder o pouco de concentração que restava e começou a entrar em desespero. O monstro estava a um segundo de alcançá-la. Tentou lembrar os poucos feitiços de combate que conhecia. O trasgo levantou a massa. Sua mente estava em branco. A massa começou a descer. Fechou os olhos, esperando o ataque. Quando já estava dizendo adeus à sua vida, foi jogada para trás por uma explosão. Até o momento, mantivera os olhos fechados, mas agora sua curiosidade despertara e teve que abri-los. Deu de cara com o trasgo deitado de costas no chão, a barriga generosa impedia que visse totalmente a cabeça, porém viu que havia sangue espalhado e uma enorme queimadura no lado direito da testa.

Oi, você está bem!? – Gritou alguém acima e à direita. Ainda estava atordoada e não conseguia processar informação visual.

- Você está me ouvindo!? – Hermione finalmente entendeu que havia um cara em cima do telhado à direita falando com ela. Abanou a cabeça positivamente e o homem desceu. Finalmente o reconheceu como o irmão mais velho de Rony, Carlinhos Weasley. Nunca tivera muito contato com ele, mas sabia que era um mago explorador. Com certeza, fora quem lançou a explosão na cabeça do trasgo. Carlinhos, a olhou por um instante, como se checasse que estava realmente tudo bem. Depois, foi direto checar o dano que fizera na cabeça da criatura.

- Caramba essa foi feia. Ele ainda está vivo, mas acho que não vai sobreviver – Carlinhos disse, cruzando os braços – É uma pena, era um belo exemplar.

A afirmação chocou Hermione que não tinha a menor simpatia pelo trasgo agonizante. Carlinhos finalmente a reconheceu e perguntou o que acontecera, eles sentaram na calçada e ela contou o que havia se passado. Foi interrompida poucas vezes com perguntas do tipo “Por qual direção ele viera?” e “Tem alguma ideia de quem foi que o soltara?”, todavia não tinha respostas para essas perguntas. Quando acabou, o explorador ficou pensativo por alguns segundos, mas logo chocalhou a cabeça, negando a relevância de suas primeiras teorias. Mudou de postura e falou.

- Caramba, Rony nunca falou que você tinha habilidades de combate – Hermione ergueu as sobrancelhas desconfiada, não sabia se ele estava de deboche. O Ataque pelas costas e a corrida maluca não soavam como combate para ela – É sério, foi uma estratégia muito boa, simples, eficaz e aplicável. Mandou bem. Você também quer entrar para a Ordem? – Explicou que planejava entrar para as guildas pesquisadoras e acrescentou seu péssimo desempenho nos esportes.

- Ok, mas eu perguntei o que você queria, não o que planejava. Você quer ser exploradora? – Geralmente Hermione negaria, no entanto a experiência de quase morte havia afetado sua retórica, então levantou os ombros e respondeu:

- Querer eu quero, mas acho que não sobreviveria uma semana e seria só um estorvo nas missões.

- Sei. – Foi a primeira resposta de Carlinhos. – Se você está com medo, realmente não deveria ser exploradora. Eu não irei lhe dar um sermão sobre ter que lutar pelos seus sonhos e etc... No entanto, deveria saber que seu desempenho foi realmente bom. Ajudou o senhor do cachorro quente da maneira correta, sem fazê-lo entrar em desespero e ainda foi capaz de bolar um plano sob toda aquela tensão. E a parte de lutar não é nada impossível, é só correr atrás.

Hermione teve que segurar o riso, demorou a entender que ele não estava brincando. Mirar, correr, pular sempre pareceram coisas impossíveis para ela. Será que haveria alguma chance de ser possível? Ela nunca acreditara em ficar sentada sem fazer nada, mesmo sendo intelectualmente brilhante não passou em sua cabeça nenhuma vez que não precisava estudar. Por que acreditou que era impossível ser uma maga exploradora? Bem, agora era já que estava a uma semana da prova de campo. Ela poderia refazer o exame, mas valeria a pena aumentar suas esperanças para um sonho vazio? A única coisa certa era que ela teria que fazer o exame, e o teórico já tinha garantido a entrada em uma guilda pesquisadora, então, por que não? Virou para ele e falou:

- É bem provável que meu desempenho seja vergonhoso. Mas como foi você quem ficou colocando ideias malucas na minha cabeça não seria justo se não me ajudasse. É melhor ser tão quanto Rony e Ginny falam. – Hermione disse, levantando o queixo. Carlinhos riu em resposta e ofereceu a mão a qual sua nova pupila apertou o mais forte que podia, tentando impressionar. Levantaram e esfregando as mãos umas nas outras o mestre disse:

- Tá bom é justo eu ter que te ajudar. Mas não espere moleza. Vejo você amanhã às cinco, ao leste do lago Negro vai ver um riacho. O siga por cinquenta metros dentro da Floresta Proibida e espere por mim. Leve seu almoço. Hermione pegou o bloco que sempre a acompanhava e anotou as instruções. O primeiro dia de treinamento já seria emocionante porque a floresta proibida era realmente proibida. Estava quase dando pulinhos de excitação. Terminava as anotações quando uma luz branca atrapalhou sua visão.

- Em nome do rei, quem são vocês?! – Os dois levantaram as mãos e logo foram percebidos como civis e não ameaças. Eram os homens do rei.

- Foi aquela moça quem me ajudou! – Disse o tio do cachorro quente envolto em um cobertor. Estava do lado de uma senhora que trajava o uniforme dos para-curandeiros. Ela tentava convencê-lo a voltar para a ambulância, porém o homem continuava falando para deus e o mundo quem era sua heroína. Carlinhos cochichou para Hermione.

- Nossa, a guarda chegou só agora, essa cidade tá perdida mesmo. – Dessa vez, ela não conseguiu evitar a risada.

A Hermione fizeram poucas perguntas, o especialista ali era Carlinhos que parecia revoltado com aquela situação. Como as autoridades não perceberam um trasgo sendo contrabandeado? De qualquer jeito logo foram liberados para irem para casa. Os dois despediram-se e seguiram seus caminhos. Fora um dos dias mais loucos da vida dela. Começara acordando atrasada e terminara admitindo seu sonho, sentia-se leve. Todavia não tinha tempo para ficar pensando na vida, havia um almoço a ser preparado e amanhã teria que acordar cedo. Isso se conseguisse dormir é claro. Ela conseguiu e dormiu muitíssimo bem pois, afinal, a bela finalmente despertara.

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