Terra Incognita
1 Capítulo Único
Notas iniciais
TERRA INCOGNITA
Quando ela chegara, seus familiares estavam reunidos à mesa – atrasara-se de propósito. Vestia-se belamente, e se sentia muitíssimo bem para a ocasião. Não quis chamar atenção de pronto, ficou observando por meio segundo, aquelas feições corriqueiras de emoções corriqueiras, conversas corriqueiras. Sons de mastigação, repressão silenciosa, risadas. Ela então chamou a atenção para si, e observou. Lilian viu todos aqueles rostos chocarem-se, segundo a segundo. Como um filme, quando se separa quadro por quadro. Aquele momento era glorioso e medonho — todos aqueles rostos a olhando como se fosse uma existência superiormente horrível, suja, densa demais, inesperada, desconhecida... Ela os encarou com os olhos muito abertos.
Sorriu.
Sob o peso de todos aqueles olhares, o único sentimento triste que lhe transpassou fora a sensação quase física de que havia muita gente por aí usando blusa três quartos e sapatos fechados. Que havia muita gente se cobrindo, se escondendo. Mas essa sensação era como uma gota de água gelada que caía sob um oceano de lava fervente.
Lilian, por inteiro, era calor.
Estava no trocador do shopping. Havia ido com umas amigas escolher a roupa de final de ano que usaria dali a uns dias. Sozinha, frente àquele espelho, olhando aquela terrível coisa que crescia em seu seio direito dia-a-dia, segundo a segundo. Seus sutiãs meia-taça mal conseguiam conter aquela mancha enegrecida, de textura estranhamente brilhosa que se espalhava como uma doença fatal por todo o seu corpo.
O vestido que acabara de experimentar deixava de fora um vão logo abaixo do braço que mostrava um pedaço de sua mancha. Era mais um que fora dispensado por revelar uma parte de si que ela não aceitava e não queria que fosse exibida. Era um temor imenso, inabalável, maior do que ela. Sua amiga bateu na porta, empolgadíssima:
–Li! O meu ficou maravilhoso, vem cá fora ver! E o seu? Já terminou de vestir? Se quiser eu posso... –A interrompeu de um solavanco, tendo se assustado com a vinda repentina.
–Não! –Gritou com a voz esganiçada. A outra ameaçava entrar. –Eu não gostei dele, ficou horrível.
–Tem certeza? Você é sempre tão dramática! –Ria. –Deixa eu entrar e ver se ficou horrível de verdade...
–Não, não, sério mesmo. Não quero que ninguém me veja usando isso. –Era quase bruta, de tanto medo.
–Está bem, está bem. Faz do jeito que você quiser. A Anna e a Priscila já estão lá fora esperando. Acho que só eu que vou comprar alguma coisa nessa loja. –Reclamava. –Vocês são muito complicadas pra escolher as coisas, santo deus! –Sabrina falava tanto. Pensou Lilan, Sabrina falava demais. E sua cabeça estava tão cheia... Tão cheia.
Afinal, porque diabos tinha saído de casa no dia de sua folga para ir àquele shopping lotado e sem nada de interessante? Porque não simplesmente ficou e deu uma geral na casa. Ou dormiu a manhã inteira para lavar a roupa só na parte da tarde. Podia ter visto um filme. De repente parou, com as calças subindo os joelhos: Quando foi que eu fiquei tão caseira?
Aquela mancha havia aparecido em uma segunda-feira pela manhã. Tinha acordado às 6, para ir trabalhar. Fora tomar um banho rápido, e quando saiu do chuveiro com todo aquele vapor ao seu redor, e se olhara no espelho vira algo estranho no seio. Parecia que sua pele estava mudando de tom, ou sei lá. Mas era estranho demais, muito, muito estranho! A pele ao redor daquela mancha escura parecia feita de cera, ou de um material plástico gasto. A pele parecia uma parede velha que descascava em seus dedos. E por baixo de sua pele, ainda úmida e porosa da água quente, havia aquela, aquela... Substância escura que não conseguia nomear de outra forma.
E desde então seu medo começara.
Em ambos os calcanhares, perto do umbigo, na virilha, cotovelos... Sua pele estava se desfazendo. E ela escondia isso com tanto afinco, tanto. Era fatal que o fizesse, mesmo que ainda não soubesse exatamente o porquê. Dentro de si havia uma voz que falava aos seus ouvidos... Ninguém vai entender. É uma verdadeira aberração. É inaceitável. Inaceitável. Usava sempre tênis com meias, agora. Sempre blusas três quartos. Sempre compridas, sem que aparecesse a barriga. E não fazia sexo há uns cinco meses. Pouco depois de que tudo começara. A ideia de ficar nua na frente de alguém era assustadora. Fosse esse alguém um médico ou um namorado. De alguma forma achava que aquela transformação não deveria ser exibida. Não seria compreendida. Na verdade não deveria nem mesmo existir. Por que existia?
Os problemas todos eram externos. A pele esquisita não trouxera nenhuma tosse estranha, nenhuma debilidade dos movimentos. Nenhuma sensação esquisita. Não era sensível demais, ou sem sensibilidade. Não doía em nenhum momento. Mas internamente... Internamente Lilian era um escarcéu. Estava sempre ansiosa, nervosa. De movimentos falhos e sem vontade de interação social. Tinha tanto medo de tudo. Sempre que riam ao seu redor, sentia-se desconfortável. Deixou de fazer metade das coisas que gostava: ir a bares com as amigas, ir ao cinema, dormir fora de casa, viajar, almoçar/jantar fora... Seus últimos meses estavam sendo um verdadeiro inferno.
O pior era antes de dormir. Revirava-se na cama, sem saber o que fazer consigo mesma. Chorava muito, às vezes. Às vezes perguntava a si mesma o que havia de errado. Tinha tanto medo de si mesma, e do que estava se tornando que nem pesquisara o problema. Nem tentara descobrir o que tinha, ou nada do gênero. Se havia outras pessoas passando por aquilo também. Não, isso era inimaginável. Isso seria admitir que algo estava realmente acontecendo. Para conseguir dormir sempre colocava Stravinsky muito alto no rádio do quarto. Colocava aquela música intempestuosa e violentamente liquida para envolver o seu coração enquanto tentava se lembrar de momentos melhores. De quando nada daquilo estava acontecendo. De quando não tinha dúvidas tão profundas e medos tão avassaladores.
Dormia, por fim. A ideia da vinda das festas de fim de ano a deixavam duplamente nervosa. Estava pensando em desistir. Dar uma desculpa para a família. Sei lá, posso chegar e dizer que estou doente. Muito doente, e que é contagioso. Posso fugir e me matar, posso, posso... Quase ria de si mesma. Parecia que era uma adolescente, e que seus pais seriam notificados pela escola por mau comportamento.
Por fim, terminou de vestir aquelas calças. Colocou a blusa que estava usando anteriormente e calçou os tênis. Saiu do provador com o vestido nas mãos.
–Eu o achei tão lindo, Li. Não acredito que você não gostou! –Ainda tentava convencê-la. De repente deu uma vontade tão forte de chorar, que Lilian ignorou a amiga e saiu direto a entregar a peça a uma funcionária.
Encontraram-se com as outras, e depois de almoçar no shopping, cada uma foi para um canto. Lilian voltava para casa... Quando, olhando o espelho retrovisor do carro, viu algo estranho em seus olhos. No olho direito, parecia ter caído um pingo de tinta azul aquarela. Era uma mancha vibrante que se espalhava em um degradé até encontrar-se com o branco, normal dos olhos. Era tão pequeno que nenhuma das amigas reparara. Mas, quando coçou os olhos viu que o efeito era o mesmo das manchas pelo corpo: ela estava se desfazendo.
Entrou em um estado de agonia, de tristeza e ira tão grande que parecia prestes a um colapso nervoso. Sua respiração se descompassara. Seu coração batia forte vibrando por todo o corpo, muitíssimo desesperado. A raiz de seus cabelos minava de suor. Suas mãos tremiam quase dormentes. Estacionou o carro de qualquer jeito e entrou correndo em casa. Tirou a roupa toda e atirou pelos ares. Berrava palavras incompreensíveis e exasperadas. Sombrias, maldizia a deus, aos pais, à sociedade, a si mesma. Maldizia a vida, como se tivesse sido amaldiçoada por um feitiço que não merecia.
Em fúria, berrando e correndo nua pela casa, Lilian arranhava-se, com as mãos. Com muita força ela esfregava os dedos nas partes escurecidas de seu corpo. Queria tanto se livrar daquilo, e, no entanto, estava abrindo ainda mais as manchas. Estava virando, ela mesma, a mancha. Como se ela fosse tomada por uma epidemia que ia vencendo seu corpo pouco a pouco.
Não sentia dor. Sentia tanta euforia, um sentimento dentro de si que precisava sair. Que ficava socando e chutando as paredes de sua alma para libertar-se. Era um sentimento que nunca tivera na vida. Parecia que se elevava aos céus, ao mesmo tempo em que se entregava a escuridão profunda da morte. Era como se estivesse morrendo, ao mesmo tempo em que nascia.
Lá fora irrompeu uma chuva que parecia a própria ira de Zeus. Os raios e os trovões, a água batendo violenta na janela como um assassino que almeja entrar. E, Lilian, dentro de seu estado, se sentia em chamas.
Ao final, seus dedos estavam cobertos de sangue, e havia pedaços de sua pele desfalecidos ao chão. Havia tentado com tanta força livrar-se que acabara se machucando. Sentia também o gosto férreo do sangue na boca. Sua cabeça estava a mil, mas aquele louco sentimento a abandonava em ondas. Estava deitada no tapete da sala. Era um tapete cinza e branco, felpudo. As luzes da casa estavam apagadas, e a noite já caía. Lilian sentia o cheiro do próprio suor, mas não tinha forças para levantar dali. Nem sequer se lembrava de ter deitado.
Ali, caída, não sentia fome nem sede. Mas uma curiosidade nasceu como um bebê; Chorava muito, pedia atenção, queria ser alimentada por suas ações. Era uma vontade inegável. Começou a passear com as mãos pelo próprio corpo. Por aquela pele tão distinta. Por aquele tecido escurecido, muito brilhoso e belo como o próprio universo. As mãos que antes queriam ferir, agora buscavam conhecer. A textura era morna e suave como uma brisa. Parecia uma espécie de veludo molhado que deleitava. Talvez esse prazer estranho de conhecer-se a si mesma fosse o tempero que desse tanto sabor àquilo.
Seus cabelos também tinham uma textura outra. E nem sequer se lembrava de ter arrancado os próprios cabelos – mas os tinha. E eles, negros e oleosos estavam caídos ao chão, sem vida e abandonados. Ela mesma, já não precisava deles. Tinha outros novos, tão longos que podiam servir de roupa. Tão cheios que pareciam poder escondê-la em seus fios lustrosos e belos. De um vermelho incendiário, como se sua alma pra sempre pegasse fogo e aqueles cabelos fossem as labaredas da chama viva.
Seus olhos ela ainda não vira. Mas não buscou espelho logo: ficou entregue ali; entregue àquela fabulosa descoberta: ou seria transformação? – de si mesma. Passou a sentir um acréscimo de vaidade, de amor próprio, como se soubesse que tudo aquilo tinha valor e compreendesse a profundidade de seu existir. Não de uma maneira lúdica, distante, inutilizável no dia-a-dia. Antes como uma sensação de segurança em andar sobre fundações bem feitas. Como se, numa floresta desconhecida não achasse lugar de temer, pois tinha os melhores equipamentos no cérebro. Era como se sentia.
Suas respirações eram longas e tranquilas. Quando se levantou, sentia-se como se o ato de andar fosse diferente. Experimentou uma palavra: sua voz também mudara. Lilian era completamente outra. Olhava-se no espelho. O corpo feminino mantinha os traços originais, mas todo o resto mudara. Os olhos eram profundos lagos azuis, infinitos. Sua pele agarrava-se aos músculos e aos ossos como um tecido ajustado pelo melhor dos modistas, como se a pele fosse uma roupa de gala que agora vestia.
Em meio àqueles sentimentos, Lilian tentava se recordar de quando fora que aquela transformação se iniciara. Tentara se lembrar se algo anterior fosse a causa. Mas o que encontrou dentro de si foram pequenos indícios escondidos em eventos da infância, pensamentos aleatórios e imprecisos. Ruas sem-saída na adolescência. A insegurança no fundo do mar da vida adulta. Encontrou a razão perdida em pequenas partículas espalhadas pelo ar: todas juntas eram o motivo daquilo. Nem uma mais do que a outra, ou menos. Todas, ali, suspensas tinham sua utilidade para tamanha transgressão de espírito. Ao cabo de tais pensamentos, Lilian chorava exaustivamente.
Depois de muito chorar, adormeceu. Levantou-se pela manhã de domingo. Levantara automaticamente, e fora ao banheiro tomar um banho. Quando abriu os olhos, já com as águas caindo sobre si, viu que o dia anterior era mesmo verdade, e que os últimos meses eram mesmo verdade. Um frio assombrado lhe correu toda a espinha e ela estremeceu. Agora precisava saber o que faria consigo mesma. Não sabia exatamente por onde começar. Ou o que esperar do mundo. Como apresentar-se a ele. Como mostrar a sua verdadeira pele. Mas tinha uma idéia de que as festas de final de ano eram um bom começo para isso.
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