Terra Das Sombras
14 De dentro do espelho
Notas iniciais
– Minha Nossa Senhora do Laquê, dai-me paciência! – roguei à minha santa quando ouvi uma voz familiar de gato engasgado – E eu que achava que as coisas não podiam ser piores... – Suspirei fundo, tinha sido chamada para ajudar minha melhor amiga a se livrar de um fantasma, eu não deixaria que, mais uma vez, aquele ser me tirasse do sério. – Sakura, este é o meu “fantasminha camarada” – ironizei apontando para o pesadelo ruivo que aparecera de repente na casa da rosada.
Eu já estava uma pilha de nervos por tudo o que havia acontecido nesse fatídico dia, e como se não bastasse ter por perto a alma penada chata e mal humorada a qual minha amiga estava encarregada, outro ectoplasma havia chegado para fazer a impaciência dentro de mim transbordar.
– Ótimo, mais um desta laia. – Sasuke mostrava certa rejeição para com Gaara. Sorri discretamente, finalmente nós concordávamos com alguma coisa, mas logo que veio à mente que ele se referia a mim também e pior que isso: havia me comparado ao recém chegado. Senti o sangue correr borbulhante em minhas veias e bruscamente me levantei da cadeira em que estivera sentada; podia ver as caixas vazias de chiclete pularem de minhas pernas.
– Que laia? Por acaso está me comparando com este traste? – apontei para o ruivo que se pronunciou em seguida.
– Senhorita – dirigiu-se à Sakura –, poderia me auxiliar? Estou alheio a todas estas palavras. – Ele piscou algumas vezes antes de continuar – O que seria uma laia? E ”traste”? , receio que seja um termo designado a animais.
Agora era minha vez de piscar: fui ignorada completamente e reduzida a pó; todas as atenções estavam voltadas para Gaara. Estúpido.
– “O que é laia?” A gente come com farinha? – zombei tentando imitar sua voz. E a rosada continuava ali, parada, com as bochechas vermelhinhas – O que foi, Sakura?
– Eu... Eu... – a cada tentativa falha de falar alguma coisa, ela ficava mais vermelha e gaguejava mais – Qual foi mesmo a pergunta, ér... Senhor? – olhei bem surpresa para ela, a ponto de ter a boca levemente aberta. A rosada tinha o chamado de SENHOR?! Será que os ET’s finalmente haviam chegado e a abduziram, colocando outra pessoa em seu lugar para espionar a vida terrestre?! Procurei desesperadamente por respostas plausíveis quando olhei para Gaara e vi que ele lançava um olhar luxurioso pra Sakura. Ele deu um largo sorriso (e para ressaltar, foi a primeira vez que vi o fazendo sem que estivesse caçoando de mim) e falou de uma maneira que me deixou deveras intrigada: sem nenhum resquício de sarcasmo ou arrogância.
– Sabaku no Gaara, antigo imperador de Suna, ao seu dispor – E inclinou a cabeça para frente e para baixo ao mesmo tempo, de forma graciosa e suave.
– O QUE É ISSO, GAARA?! – perguntei, ou melhor, exclamei estridente.
Dizer que eu estava intrigada era um grande eufemismo, porque meu cérebro coçava de forma desesperadora e não eram piolhos, meus cabelos nunca souberam o que é isso. Por que ela o tratou de tal forma mesmo depois de tudo o que havia ouvido de mim sobre ele? E por que a reação dele foi tão receptiva e (ainda não acredito como posso dizer algo do gênero ao me referir ao imperador) gentil? Como ele havia sorrido daquela forma?! Só por que Sakura lhe chamou de “senhor”? Grande coisa, eu já o chamara de tantas coisas que tive de começar a procurar novos xingamentos!
– Uma reverência à bela dama, logicamente. – respondeu.
E o sangue fervilhava mais uma vez.
– Bela dam... – interrompi a mim mesma – Reverência?! Reverência é o que a minha mão quer fazer com a tua cara de foínha! – e Gaara me encarava com a mesma placidez de sempre. Aquilo me dava ódio. Fechei as mãos em punhos tentando me acalmar e só assim pude ver que a dona da casa continuava quieta em seu canto, porém com um sorriso bobo e um perceptível rubor em suas maçãs. Respirei algumas vezes, mas não tinha certeza de que a raiva já havia se esvaído por completo. – O que foi, Sakura? – porém, por mais que eu quisesse falar de uma forma calma, a fúria continuava ali e extravasou um tiquinho, afetando minha voz, subindo uns cinco tons, semelhante a um grito em momentos de histeria.
Acabei a assustando. Ela simplesmente, depois de alguns segundos (lê-se séculos), desfez a cara de bocó e passou a olhar-me com os olhos arregalados. Quando parecia finalmente desembuchar, foi impedida pelo fantasma/chat/almofadinha que se posicionou entre nós com uma expressão bem protetora.
– Não percebes que ela está lisonjeada por ter recebido tal galanteio visto que eu sou tão belo e importante? – Levantando uma de suas mãos (que eram horrorosas, diga-se de passagem), ele se virou para ela, pegou uma de suas mãos para lhe soltar um leve beijo, sem quebrar o contato visual em nenhum momento, e abriu outro grande e caloroso sorriso – A senhorita é deslumbrantemente encantadora. Uma pena eu não a ter conhecido enquanto estava vivo, ia ter o prazer de tê-la como minha companheira – e ainda sim, em nenhum momento ele desviou o olhar dela. E se olhavam tão intensamente que começava a embrulhar o estômago e, creio que fora a gota d’agua para Sasuke que, até o momento, observava tudo em um silêncio quase que absoluto e resoluto. Ele, que ostentava uma ostentação dura e levemente desdenhosa para com a cena, soltou um bufo impaciente, caminhou até onde casalzinho ternura estava e os fitou o com olhar mais ameaçador que eu já tinha visto na vida. Foi impossível conter um arrepio.
– Já acabaram com a cena de filmes impróprios? Porque é isso o que está parecendo – seus dentes estavam cerrados e a sua voz saiu firme e dura. Seu olhar fixou em Gaara. – Não sei como era na sua época, Imperador – o jeito que ele falou “imperador” mostrava toda a repudia que parecia ter para com o título -, mas aqui você não conquista uma mulher com gestos antiquados e olhares cheios de promiscuidade – concluiu se virando para Sakura que estava branca – Vamos para o seu quarto, quero falar com você.
E partiram em direção ao corredor para desaparecer da mina vista depois de entrarem na segunda porta.
Ficamos sozinhos pela primeira vez desde o exorcismo falho, mas eu realmente queria acabar de vez com aquela discursão, então apenas lhe mandei tomar seu rumo.
– Você já pode ir embora, sua princesa encantadora acabou de ser capturada pelo dragão negro!
– Há uma certa disparidade entre príncipe e imperador. São títulos nobres, mas divergentes, minha cara. – respondeu-me com descaso.
– Tanto faz, pois o destino da Sakura é morrer encalhada, cuidando dos meus filhos enquanto eu viajo pelo mundo com o meu futuro marido rico. – comentei comigo mesma enquanto Gaara revirava os olhos – De qualquer forma, não quero mais te ver, pelo menos por hoje, o dicionário está na minha bolsa, mas estou realmente muito esgotada para folheá-lo agora. Por isso, peço desculpas e que aguente um pouquinho mais a sua fantasmagoridade por mais um dia, ok? Depois disso, prometo te ajudar.
– Entretanto, se lembro-me bem do nosso último encontro dentro desta residência, você tinha dito que não me auxiliaria mais, lembra-se?
Demorei um certo tempo para entender o que ele dizia e lembrar do que estava falando. Apesar de ter negado, lembrava-me com exatidão, mas isso não me faria deixar com que ele saísse como vencedor.
“– Pare de me julgar, quem decide se eu me debulho ou não sou eu! E que diabos é debulhar? Você que tem problemas, não eu. Aliás, VOCÊ É O MEU PROBLEMA! De agora em diante não te ajudarei em mais nada, absolutamente nada. Pode esquecer-se de mim porque, por mais que eu fique presa na espera do purgatório tendo você como assunto pendente, eu não vou lhe ajudar, não vou lhe mediar. Eu juro! E como já disse antes, pretendo viver por muitos e muitos anos.”
Um breve momento de silêncio se fez presente entre nós até ele se pronunciar mais uma vez:
– Para se franco, só compareci por curiosidade. Há tempos não a vejo. – Uma pontada de frio passou por baixo da minha pele. Gaara pensava em mim!, para ele eu não era um completo nada como cismava em acreditar. Mas era um tanto lógico, se seu destino estava em minhas mãos. Passou-me um imenso sentimento de remorço, não deveria ter sido tão chata, relutante e cabeça dura, coisa que instantaneamente era ativada em mim ao vê-lo. Ridícula você, Ino, porque o repelia se ele lhe queria perto? E a promessa que havia feito para mim mesma de que ajudaria incessantemente todas as almas que me escolhessem, não podia quebrá-la. Além do mais, era burrice afastar aquele deuso grego de perto de mim – Gostaria de saber se você já estava morta. Mal posso esperar para começar minha saga à procura so vigésimo oitavo mediador, desta vez considerarei bem mais o quociente intelectual em minha pesquisa – completou a fala que eu achava não ter mais acréscimos.
O frio subcutâneo que sentia há segundos atrás fora rapidamente substituído por um enorme calor de fúria. Raiva de mim e da minha mania de ser irritantemente inocente (como minha mãe costumava me dizer, faço jus ao nome que tenho). Não deveria ter sequer pensado em ser gentil com AQUILO! Lembrei-me o motivo de sempre ser tão mal educada com ele: já estava farta destas suas palavras estranhas, das suas ameaças de morte e de ver seus finos lábios a cada vez que pronunciava seu título antigo. E o que diabos ele tinha acabado de me dizer? Imperador de merda!
– O que foi? Quociente intelectual não é a gente quem escolhe ter, não temos como nascer do jeito que queremos. Eu não tenho culpa de ser baixinha! – E mais um rápido momento de silêncio se passou, tempo suficiente para ele revirar os olhos. Sinal de que tinha dito besteira. – De qualquer forma, estou vivinha da Silva, porém não posso continuar nossa conversa, estou cansada demais, muito mesmo.
Virei-me de costas a ele e me joguei em um cômodo sofá que havia na sala da anfitriã.
Gaara também desviou o olhar, andou alguns passos na sala, sempre muito pensativo, e fez com que a distância entre nós aumentasse gradativamente. Vi, mesmo que por alucinação, um sorriso grandioso, que tentou esconder, desfeito antes de se virar novamente e me encarar.
– E o que anda fazendo para estar deveras exausta? O tal de Sai tem ido lhe encontrar eventual e noturnamente?
Estiquei meus braços o máximo que pude a fim de pegar a bolsa que estava em cima de uma mesa próxima para não ter de levantar do sofá. Boba, desajeitada e loira do jeito que só eu sei ser, acabei dando de cara no chão. Mais envergonhada do que nunca, levantei como se nada tivesse acontecido, peguei o que queria e voltei ao sofá. Abri a bolsa, disfarçadamente vi meu reflexo no smartphone temendo alguma vermelhidão no nariz que havia sido praticamente esmagado na queda, tirei o dicionário lá de dentro e procurei por “eventual”. Finalmente entendi o porquê do sorriso que agora tinha certeza de ter visto.
– Malicioso demais para o meu gosto, senhor imperador. Pesquisarei sobre você no Google, saber qual o teu tipo de governo e saber se era igual àqueles sultões que dormiam com uma mulher diferente a cada noite. Aposto que vou encontrar coisas bem interessantes.
– Seja um tanto increpa ao se exprimir para com minha pessoa, se quiser manter um diálogo sadio – era evidente uma pequenina ruga entre suas sobrancelhas, sinal de sua completa irritação.
– Mas você que começou com as insinuações, tem nem porque reclamar!
– Ahm... Você... Como? – atrapalhou-se todo como um gago a falar em público. Estranhei – Compreendeu mesmo o que eu lhe falei?! – a raiva sumira completamente de seu rosto para dar lugar ao espanto.
Nunca tinha o visto tão expressivo. Na verdade, creio que antes disso eu não havia sequer presenciado alguma demonstração completa de sentimento vinda dele. Senti extrema vontade de rir.
– Eu apenas sabia todas as palavras. Estamos falando a mesma língua, não é? – fingi ter um orgulho que não tinha. Por sorte, depois do gasto extremo e desnecessário com minha última façanha influenciada por fantasmas, com o mísero dinheiro que me sobrara, comprei um dicionário de bolso para ampliar meu vocabulário (e preencher meu tempo aos finais de semana, já que não haviam as menores chances de bancar passeios). Mas não admitiria isso.
– Ah... De toda forma, ainda não foi revelado o real motivo de sua exaustão – mudou de assunto e voltou ao semblante costumeiro.
– Só mais um dia cheio. Cheio e difícil. Só mais um dia cheio e difícil – repetia a mim mesma algumas vezes ao fitar o teto e, em seguida, fechar os olhos. – Tem gente que fala demais sem saber da vida alheia.
– Difamaram-na?
Procurei por difamar e rezei para que fosse mesmo verbo.
– De certa forma. Fico uma fera quando falam da minha mãe – um fio de arrependimento se apossou de mim, tentei cancelar o assunto logo em seguida – Mas isso não é da sua conta.
– É cômico eu ter acreditado por um mísero momento que poderíamos ter uma conversa civilizada – levantei a cabeça para lhe olhar novamente. Realmente, parecíamos, por um instante, amigos íntimos, com direito a provocações e pequenos desabafos. O que era isso, um milagre?! – Então me diga, seja mais precisa que um móvel diversamente aplainado alisado por uma garlopa: como quer morrer?
Não me contive e bruscamente mexi a cabeça em sua direção, arregalando os olhos como se fossem saltar. Ele ainda queria me matar?!
– Você ainda quer me matar?! – e o pensamento se materializou. – Mesmo eu estando aqui, disposta a ajudar você, ainda quer me ver morta?!
– Sim – curto, grosso e indecifrável.
Esperei algum tempo para ouvir complementos e/ou explicações, por menores que fossem, mas nada, além de olhos que demonstravam completo tédio, vinha dele. Uma vez que vi que não teria minhas respostas dadas por livre e espontânea vontade, resolvi que as teria por livre e espontânea pressão.
– POR QUÊ? Eu já não disse que irei te livrar?!
– Sim, mas me arrependi de ter lhe escolhido. Seus métodos me parecem ineficientes e ineficazes.
– Que métodos se não fiz nada ainda?
– Justamente.
– Mas você nem me dá a chance de saber alguma coisa, em todas as conversas que tivemos você zombou de mim e ficou esfregando na minha cara um título de nobreza que de nada vale mais. E, por mais que induza a minha morte, não acha cruel demais deixar uma pessoa a qual não tem culpa de ter sido escolhida para lhe mediar prender sua alma no purgatório? Aposto que sentiria remorso depois.
– Está equivocada, minha cara.
– Como sabe se ainda não o fez?
– Já o fiz, minha alma é antiquada, mas não tanto ao ponto de deixar com que vinte e seis mediadores morram de forma natural – Parei e pensei um pouco, fiz as contas e realmente, se estávamos em 2014 e se ele fosse mesmo da época que foi me dito, quinze sensitivos já era um número razoável (considerando que a média de cada um seria de 30 anos) – Ops! Vinte e sete. E então, como gostaria de falecer?
– Como se fosse realmente me matar... Já disse que não tenho medo de você! – ri um pouco, para mim ele estava apenas se divertindo às minhas custas. Tinha plena certeza disso.
– Como não me respondeu, será por acidente de trânsito. O que acha?
– E como poderia ser tão preciso assim? – ri mais um pouco, fazendo questão de encará-lo nos olhos.
– Uma espécie de transmutação. Imagine um caminhão colidindo com seu veículo minúsculo por imprudência do motorista alcoolizado.
– Você quer dizer... Uma incorporação?
– Sim, breve, mas precisa.
– Impossível! Nenhum fantasma consegue o fazer, além do mais, esta lenda da incorporação de uma alma dentro da outra só seria possível com corpos vazios, em cadáveres.
– E como acha que existem tantos casos de... Como é que vocês os chamam mesmo? – falou com sigo tentando recordar de algo, levando a mão esquerda ao queixo – Ah! Experiências de Quase Morte. Por que acha que a vida percorre diante os olhos destes? Não é nada condizente ao cérebro, mas a nova alma que entra no corpo e procura saber como era a vida daquela pessoa.
O que ele dizia fazia o maior sentido do mundo e não precisei procurar o significado de “condizente” para entender que Gaara tinha este poder. Mas ainda quis mostrar que não o temia, mesmo agora, sendo mentira.
– Mas como entrará em um corpo com uma alma firme e forte dentro dele? Nem cadáveres, nem quem estão prestes a morrer com certa previsão dirige caminhões, e sim dormem em camas de hospital em estado de coma, ou em gavetas de necrotérios.
– Assim como existem corpos sem donos, há aqueles que possuem almas muito fracas: sem motivações ou coisa semelhante. De caminhoneiros embriagados e de alma fraca o mundo está sobrecarregado. Por que acha que existem tantos acidentes?
Engoli seco. Não temia a morte, mas as muitas coisas que ela traz consigo e por isso deixei uma lágrima escapar. Não o deixaria me ver chorar, nunca! Virei o rosto e me dirigi ao banheiro ignorando o ruivo por completo, como se a conversa que acabávamos de ter não tivesse sido sequer imaginada. Segui para o corredor e ouvi alguns gritos vindos do quarto da rosada. Aqueles dois brigavam feito casal que faz barraco no meio da rua pra toda a vizinhança ver, com direito a ameaças, revelações de traição e puxões de cabelo. Se estivesse no clima, espreitaria a porta.
Entrei no lavabo, fechei a porta a fim de ter mais privacidade (mesmo sabendo que Gaara poderia aparecer ali com ou sem porta), abri a torneira e, com as mãos em concha, molhei o rosto. Segurei as extremidades da pia, arqueei o tronco para trás e estiquei os braços enquanto o fazia, fitando o chão e parte de minha franja que balançava no ar com as pontas molhadas, ao som da água correndo incessantemente entre torneira e ralo, descendo cano abaixo. Respirei uma, duas, três vezes. Ainda sentia as pernas abertas, paralelas aos braços, bambas de nervosismo. Parecia que estava prestes a parir.
Tais pensamentos me fizeram tranquila e me endireitei. Limparia a maquiagem, arrumaria o ninho que um dia chamei de cabelo e iria atrás de Sasuke e Sakura, retomar nossa conversa. Olhei para o espelho e encarei minha imagem. Algo parecia estranho. Meus lábios estavam pálidos e meus olhos pareciam fundos e ter bolsas escuras ao redor. Pisquei algumas vezes, esfreguei os olhos, mas como em um filme de terror, minha imagem ia se distorcendo e dois círculos negros tomaram conta da região de meus olhos, que partia das sobrancelhas a altura do nariz.
BUUUUH!
– AAAHHHH! – afastei-me da pia tão bruscamente que cheguei a cair sentada ao lado do sanitário deveras assustada. – Gaara, é você? Não brinque comigo, hein?!
BUUUUH!
E novamente o som vinha do espelho. Mesmo lutando com todas as minhas forças para não ir ver meu reflexo no espelho novamente, fui mais curiosa que a mocinha dos filmes, que sempre teima em entrar na floresta na noite escura, mesmo quando os telespectadores gritam para fazer o contrário, e procurei novamente minha imagem.
BUUUUH!
Contive um grito ao ver que os círculos ainda estavam lá, apesar nem ao menos conseguir mer minha testa.
BUUUUH!
E que som era aquele que teimava a se repetir? Levantei de vez e, com o indicador, toquei o espelho. Para minha surpresa, os círculos negros que antes me serviam de olheiras mais que profundas se transformaram em uma armação familiar. A cabeça do dono daqueles óculos saía de dentro dali.
– Shino?! Tá perdendo a cabeça? E não estou querendo ser engraçada não, quero saber apenas se você ficou louco. Quer morrer de novo? Porque EU VOU TE MATAR MAIS UMA VEZ! Onde já se viu querer meter susto na sua mediadora?!
– Bu-Bu-Bus-Busquei por você o dia inteiro. – dizia com o pescoço esticado.
– Por que está gaguejando?! – perguntei tentando acalmar meu coração que ainda batia freneticamente.
– Está muito frio aqui dentro. – batia o queixo – Não tem como não ga-gag-gag-gagueijar.
Sorri com dó.
– E então, o que queria comigo?
– Queria te mostrar minha nova habilidade.
– Pois me mostre!
– É o que estou fazendo – Pedi para que me explicasse melhor – Aprendi a me esconder dentro de espelhos, o problema é sair.
Incrédula. Era esta a palavra que me descrevia, assim como irritada e odiosa. Aquele estrupício tinha me dado o pior susto da minha vida por nada, ou melhor, para menos que nada! Saí do lavabo batendo a porta com toda a força possível, queria quebra-la já que não podia fazer o mesmo com certos pescoços. Fui de volta da minha chave na sala e Gaara ainda estava lá.
– Atacaram-na no banheiro? – referia-se a minha aparência: cabelo mais que desgrenhado, batom no queixo e rosto totalmente encoberto de rímel borrado.
– Não te interessa! – peguei a bolsa de cima do sofá e saí recolhendo todas as coisas que eram minhas e deveriam estar dentro dela.
– Rapariga estranha. Por que tens tanta pressa? Queres tanto assim que eu te mate? – ironizava.
– Quero, quero muito. Muito mesmo! – revidei enquanto procurava o lado esquerdo do meu par de sapatos por debaixo da mesa.
– Está ali – ele apontou para um canto da sala, onde o salto alto que eu procurava estava. Calcei-o e fui para a porta da frente. – Não vai se despedir da sua amiga?
– Ela está ocupada. – disse dando passos apressados até o portão enquanto o ruivo me seguia.
– Ainda sim, vai sair assim na rua? – dizia provocativo. Bufei. Estava chovendo forte e minha casa, mesmo de moto, era há quinze minutos dali, no mínimo. Pus a bolsa dentro da moto, no compartimento embaixo do banco, coloquei o capacete e liguei minha querida Elisabeth turquesa. – Tem certeza?
– Sim, terei menos risco de ser estuprada. Com você não fico mais segundo algum!
E parti. Mal sabia eu que teria de retornar porque havia esquecido as chaves de casa na cozinha da rosada.
Fale com o autor