Terra-2
1 A muralha de Santa Helena
Notas iniciais
12:40. O alarme tocou pela quarta vez, ecoando pelas paredes do pequeno apartamento. Com muito esforço, Neil pegou o alarme e o jogou longe. Incapaz de continuar dormindo, levantou da cama e se jogou no sofá, a fim de assistir as notícias. O âncora dizia que a parte externa da muralha tinha sido danificada durante a noite, mas as equipes de reparo já estavam no local. “Menos mal”, pensou. “O presidente de Santa Hele...”, trocou de canal, “Cresce a demanda de…”, trocou novamente, “Depois dos ataques, a cidade vêm melhoran...”, desligou a televisão. “Nada bom a essa hora”. Faminto, Neil foi se arrastando até a cozinha e preparou uma tigela de cereal, e viu a bagunça que tinha feito ao chegar em casa bêbado. “Vou limpar quando chegar em casa”, murmurou para si. Olhou para o relógio e quase teve um ataque cardíaco: sua aula tinha começado a 1 hora. Desesperado, se vestiu com pressa, colocou cadernos e outros objetos importantes na mochila, calçou o tênis rapidamente e pegou o capacete. Estava descendo a escada com pressa, e acabou esbarrando na vizinha de porta, levando ambos ao chão. Quando recuperou o equilíbrio, notou pela primeira vez como a vizinha era bonita. Seus longos cabelos ruivos emolduravam o rosto pálido, no momento vermelho. Os dois se olharam, e Neil sentiu a enorme força gravitacional vinda daqueles olhos verdes profundos. Sem jeito, ajudou a moça a se levantar e falou:
-Me desculpe, tenho que ir...- E disparou escada a baixo.
—Tudo bem, qual é o seu... Ok, estou falando sozinha. Muito bem Rey. –Falou para si mesma.
Neil subiu na moto e decolou em direção a faculdade. Estava matriculado, mas raramente comparecia a todas as aulas. Entrou na sala e sentou na fileira da frente, e percebeu que era o único em sala. O velho professor estava cochilando, e acordou com o repentino barulho da sala. Esfregou os olhos, tirou os óculos e disse, de mal humor:
—Olha só quem resolveu aparecer. — Neil, deu uma risada, pois sabia que o professor gostava dele. Brincou de volta:
—Tive que vir acordar o senhor. Sua sala tá pior que minha conta bancária. – E riram juntos. O professor parou de rir e ficou sério por um tempo, fazendo com que Neil parasse de rir também. Levado pela curiosidade, um fator muito comum em sua pessoa, perguntou:
—O que foi sr. Newman?
—Nada meu rapaz, só estou preocupado com a notícia que passou hoje de manhã.
—Sobre o muro?
—É.
—Não se preocupe, falaram que as equipes de reparo estão no local.
—Eu sei, mas não consigo parar de pensar no que aconteceu 14 anos atrás. Acredito que você conheça a história.
—Não a sua versão, e estou disposto a ouvi-la, professor. – Neil respondeu. O velho se ajeitou na cadeira e colocou os óculos novamente. Tomou fôlego e começou a narrativa:
—Não sei se contaram pra você, mas a cidade de Santa Helena era muito maior. Pelo que eu me lembro, devia ser o triplo da atual. Acontece, meu rapaz, que um pequeno erro de cálculo nos condenou. Por isso que eu sempre digo que não é apenas “um sinal errado”. O menor dos problemas pode levar todos nós a morte. E foi mais ou menos isso que aconteceu. A muralha cedeu, e milhares daqueles monstros começaram a entrar e matar todos nós. A batalha foi dura, mas nós perdemos. Perdemos um pedaço enorme da cidade, Madre Rosa. — Falou esse último nome com lágrimas nos olhos, mas conseguiu terminar:
—Perdi tudo naquele dia. Nós perdemos. A cidade, a vida de muitos. Meu filho...
—Desculpe professor, não quis lembra-lo de tudo isso. Por enquanto, me ensine a não cometer esses erros. – Falou confiante, e então voltaram ao assunto da aula, engenharia.
Mal sabiam eles. E como poderiam? Nos limites da cidade, uma comoção estava acontecendo. Milhares de vultos corriam pelos destroços de Madre Rosa, à espera do momento certo.
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